terça-feira, 24 de maio de 2011

O crânio da cova (rascunhos de experimento-hamlet)

O crânio da cova

Repolho a R$0,99 o maço no CEAG,
fresquinho e regionalizado
porque barato assim só aqui
Sós aqui
SOS para esquecer o passado:
coma repolho
somem-se os mortos
só fica a dor
de barriga

Como eu crio / O que move em mim: o que faz acionar um estado de criação? /O que faz ser cena?

Como eu crio
(um exercício no grupo de profanações da dança do ccsp)

A paixão
chegada, já partida
A intuição despida na fé
e a fé já despedida

O já, já aqui no agora
o presente desafio de estar
no futuro de outrora
dançomovimentaminhar

Mover-se de todo
e ser todo o movente
durante nenhum
entrar em jogo

Nenhum, fim ou princípio
mas corporal-mente
tudo me vem como alívio
num alívio sempre ausente


O que move em mim: o que faz acionar um estado de criação?

Depois que queimo os meus documentos, agora longe de todos e a um passo suicida, agora que não apenas escrevo sobre essa personagem que prossegue e profana mas também a sinto e vivo, enfim passo a assinar livremente quaisquer criação e sobre nomes meus. Agora que sou tudo enfim assino o meu ser, feito de nada, desse nada que enfim, era tudo o que eu buscava ao querer tantas coisas. Não há mais o fato de participar ou não fazer parte, apenas a possibilidade de estar, absolutamente em nada, no ser. Eis o contrário da integridade. Pois é quando a ontologia se confunde com a responsabilidade social e aterriza, novamente, na agonia. Meu cérebro é somente doação em busca de adubo, feito um maço de repolho em que se arrancam as folhas, come-se, com um efeito que nem sempre cheira bem. Mas presente e orgânico, o que de alguma maneira, a qual revejo o tempo todo, o torna corpo.












O que faz ser cena?

O que escrevi aqui antes quando vi os dois repentistas dentro de um ônibus criando rimas e interagindo com os passageiros, sendo levados e pedindo contribuições por seus trabalhos justo no momento em que eu escrevia sobre isso aqui. Isso foi-me um símbolo de como a criação e a cena estão juntas e em processo. Há um tempo eu já teimava com alguns pensadores da contemporaneidade o fato de ter de declarar ser cena para sê-la. As cenas não se distinguem da realidade, pra mim. O que muda entre ambas, realidade e arte, pode ser somente a condição: uma é, necessariamente. A outra necessita ser. Elas estão frente a frente, como numa coincidência invertida. O resultado é o reflexo e a imagem criando vidas para além da reprodução (e da realidade já representativa) do que já está dado, movendo, essa mesma realidade. Cena é o que muda o instante de uma realidade. E aquela cena no ônibus me influenciou a escrever tudo isso. Foi o que escrevi, logo depois daquilo:

" A vontade substituída pela necessidade sufocou o coração pulsante no cérebro. Nosso cérebro sobrevive agora à bombas de poluição respirada, o efeito foi esse pensamento sujo e sem cores. Nublado. Trovões e tempestades jorram violências ocidentais e separatistas, mas espero que, de alguma maneira, chova. E que essa inundação de dentro transborde e prove que o corpo, mesmo se afogando, continua vivo."


mas não existe resposta, existe arte...

sábado, 2 de abril de 2011

A mobília do poema

Não in porta mais a decoração
a falta de fé esgotou a forma
e o que resta agora é o luxo
que é lixo lustrado às normas

E bem calçado, piso em bichos
fecho a porta feita de pulmão
oro ao virtual, novo feitiço
no espelho, maqueio o coração

A mesa agora virou a saia
onde leio, jogo, brinco
onde minto o grito e sirvo
brinde à lágrima de absinto

Um coro de homens é a cortina
mas a janela só quer ser livre
fugir dos armários de moralistas
e ouvir qual som toca no vidro

O banheiro é lacrimogêneo
mas lubrifica a parede ferida
pele dura,áspera e enrugada
defende o esqueleto de idas

Fios, fios e circuitos curtos
é tudo o mais que mantém a casa
vida rouca e de galhos secos
grisalha, sonha no sofá de dedos

Machinha decoreba

De coração, amor
pra mim não
é construído
nem driblado no chão

Amor é gemido
sentido no impulso
voado com ardor
sem horário avulso

Não é nem jurado
ou fingido adorador
cristo mascarado
nem se ele fosse ator

É simplesmente sendo
ser amordurecido
sexo anexo e adendo
no instane comprometido

Lábia boa só o lábio
o monólogo mentirológico
pra cima do meu lado
não vai nem pro zoológico

É só um amor, amor
que amorzinho é bom
pra homem não guardar dor
e aprender o tom da mulher

É só um amor, amor
que amorzinho é bom
pro homem quardar mais dor
e ensinar à mulher outro tom

quinta-feira, 10 de março de 2011

Capitanibalismo

Qualquer suco de melancia
já me deixa tonto
porque comida é terapia
onde enfim desmonto

Cerveja, morango, amor, batatas
tudo me resta comer
valer o viver de morrer às baratas
e devorar qualquer sofrer

Desejo de demasia nas migalhas
re produção progre e agressiva
máquina autótrofa de facas
garfadas no suor dos olhos

Tempero na salada de árvores
ao molho de enchentes de lama
gado assado no forno à queimadas
na bandeja do pasto de Roraima

Pré-sal à gosto de quem devora
cana, cevada, soja, eletricidade
tem boca faminta à qualquer hora
com sede de beber nossa energia

Suco de hidrelétricas no canudinho
mas agite bem antes de usar
vem com gás natural da metrópole
retire a tampa sem o lacre quebrar

A sobremesa é servida à rolê
um rolê pelo Faustão,
cochão duro à venda na TV
pastéis e lasanhas de presuntos

Limpe a boca com papel jornal
a sujar a boca mas passar o pano
a poeira no dente do Pantanal
arrancada no madeiral do palito

Mas a delícia maior é a miséria
o doce morro de açúrar e flocos
flocos bombas de bala crocantes
cristais motores em bloco

Esbaldam-se as crianças gulosas
distraídas pelos carrinhos
assim comem tudo, mães orgulhosas!
Crescem cada vez mais fortinhos!

Cada vez mais carinhos
quantos caros miudinhos
o amor não tem distância
pra quem tem seu carrinho

O amor não tem arrogância
pra quem mata de fininho
prepara o bote com elegância
depois come com nosso jeitinho

Fio











i
!
i
!
SEQUESTREIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
O
PER
PENDI

LAR
DO GULLAR


Elo

O xamã é um elã
o cangaceiro é o elã
a francesa é o elã
o darwinismo é o elã
o bergsonismo é o elã
o nostalgismo é o elã

O mar é o elã
o surrealismo, a foice,
os Beatniks, os hippies
e os emos são elã

A inteligência, o sexo
o psicodalismo, a música
o yoga, o induísmo, a aurora
nietzsche é o elã

A cerveja e as drogas
os amigos, a vodka
os conceitos, desconsertos
o lápis, o desenho, a quimera
as nuvens, o verde, o terreno baldio
a esperança, a poesia...

Os artigos, os partidos, as artes
os batuques, os ameríndios
a cerâmica, Belém, Mato Grosso,
Xique Xique, Tom Zé

A física quântica e o budismo
Astrólogos, astros e estrelas à miúde
Zé Ramalho, o sol. O fim, o começo,
a filosofia. A nostalgia de novo.
Os Chicos, os prismas geométricos
as clarividências religiosas

Palavras, cantadas, samba
o agora, a lua, o dia
a brisa do cabelo, a cama e a mesa
O baaaanho, a cachoeira
as flores e a comida
os cheiros

Cheiro de café, o Brasil
o consumismo, o cocô,
o barril de petróleo, o futebol
o Mc Donalds, o cinemark

Os orgasmos, os fingidos
os vômitos, o ônibus,
o vômito no ônibus, o barulho
o celular e o mp3, o caminhão

A criança barulhenta, o rock,
a bicicleta, os pneus, os pássaros
os olhares, a serpentina, o rio
o churros, o tatu-bola,
a jaca podre, a melancia doce
o teatro, menos o amor.

Saudade

Muita gente passou
agora ficam
porque eu fui

Muita gente ficou
agora eu era
porque tudo passava

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sem

Sem que nada precise acontecer
Mesmo que nada aconteça
Quando se esquece o vir a ser
Sem que ninguém de nada esqueça

Sem que nada de tudo se precise
Mesmo que tudo se vá de si
Quando há lembrança do deslize
Sem que algo ou alguem se viu

Mas alguém se viu sem que algo
lembrasse do deslize quando havia
tudo que foi de si mesmo que
de tudo se precisava sem que nada

De nada acontecia sem que ninguém
Viesse a ser quando se esquece
e nada acontecesse mesmo que
Precisasse acontecer nada

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Recanto dos pássaros

Tinha uma radiola ali
Olhando a linda gaiola
cantadora de bem-te-vis
coloridores dessa hora

Era a leveza da lama
limpando a mestiçez dura
levada a virar fama
de arte e cerâmica pura

Até lustres a essa altura
baixo calão popular
altos calos no povo
média ilustrada a fotografar

A criar de novo o já novo
novidade não lida com hábitos
não labuta nem cansa
abafa a aldeia, tem mal hálito

E loucos, pulam das telhas
atrás da fogueira de palha
caindo em fógos das besteiras
comemomrativas que os valham

foto de Herbert Lago Castelo Branco, em Chapadinha no bairro emergente “Recanto dos Pássaros” (acesse:http://herbertlago.blogspot.com/2010/04/chapadinha-princesa-do-baixo-parnaiba.html)

O Trator

Trtrtrtrtrtrtrtrrrrrrrrr
Mar de trabalhos
barulho trtrtrtriturado?

Neo concretismo


Plástica gritada
letra artista
desenhada
10 zen, desdentada


Aaaaaaaaaaaaaaaaa
dá aaaaaaaaaaaaaa
Ada ada adada
anti dada


Antídata
contra tempos
ritmo com gênero
no agudo acento

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vista

Quem pode prever o que vem antes?
Antes do agora e de nós dois?
Quem consegue ver o que é durante?
Entre o incansável e o depois?

Alguém me dê a mão
porque palavras soltam vozes
mas não prende uma ilusão
como é querer um coração

Vem lá nem que seja de Deus
traz essa paz de amor
e me lança pros olhos teus
e alcança o que já é teu

Aparece por favor
até o socorro se encantou
por você, lago de amor
por você, emoção que chegou

Hora esta que não me passa
mas nos basta e a todos
com esse jeito todo todo
de ajeitar todos os todos

Pronomes pra ti são poucos
tempo, grau, quantia e outros
naõ sei mais o que fazer
pois só sei um pré nome de você

Verde perto

Era um bichinho flor cor de uva
nenhuma formiga bastava
suspirar verde de saudade
que não crescia e nem murchava

Bichinho espinhoso só a ver
esperar a espera finura da selva
beijando a folha pra se envolver
durante terras e mil trevas

Ah, como era mesmo florescer?
De tanta flor, brejo e madeira
orvalho gostoso, suor a escorrer
rio de ninhos, goso e cantoria

Feito chuva que tudo sascia
o ar que vinha de longe
era sol, mar, vulcão de alegrias
pedra rude e forte, amor

A corrida

Estou velha, creio
minto cada vez mais
porque esqueço
o que faço dos meus dias
atráz

A natureza manda
eu só obedeço
quem dorme em meu leito
sonho pedindo um cais
e já dou o endereço

Dois segundos de idas
e eu apodreço
não lembro se intervenho
mas me acelero aos vitais
e mais eu me esqueço

Em barcação

O amor aqui anda
e tem cabelos ondulados
ele me comanda
e faz sentido, e é bem tratado!

É a música que se balança
envolve a dor e a aplaude
sua força é gesto de carinho
gesto de olhar e de amizade

Como é lindo esse ninho
criação de braços grudados
nasceu Dali um mundo luz
de romances embarcados

Barca de Paketá
traga-me a quietude
nem o Luiz Melodia,
nem os Novos Baianos

pois é outro só que me ilude
pois é só outro que me ilude

Ou que do nada eu me mude
e o tempo me distraia
a brincar de pular na fé
fé na vida, ré na vaia

Mas seja o que ele quiser
entrego àqueles olhos
a boca e tudo o que vier
mas que venha até a louca

Mar de meditações roucas
nada me ditava calma
tudo gritava pra alma
os céus de mares entre nós

Vai de vez, embarca
viajante lúdico, levado
deixe-se levar por algo
não me deixe nesse fado

Porque teve de ser este embargo
piegas fui tão e tanto em ir
que você me veio, todo largo
mas longe de querer me partir

Não Riam















Abraço de mármore
filho de celebridade
cérebro das árvores
auréola de irmandade

Síndrome turística
de viajar pelo espírito
de amar pela mística
fé doada ao lúdico

Fé na nossa fé depositada
ilusão cristã que é paga
com os braços do nada
vendido ao Brasil feito praga

E a compra é ainda mais
mais cintilante e alienada
deslumbra os feios curvos
com a corcovisão almada

Rio revire o janeiro, então
amor que fique pra fevereiro
e o povo cai do avião
mas não sai dos estaleiros

Chamados de televisão
lindezas sempre em primeiro
chuva e novenas de acusação
jorra a mídia até os paradeiros

Não quero, não à benção disso
abençoado é só o meu vício
de desacreditar primeiro
depois aceitar seus Vinicius

Sem cristianismo no que sinto
mas foda-se o corcovado
quero o morro e seu labirinto
quero abraço de gente

Ir ao socorro, não ao mito
ao faminto de voz
e estufado de ditos
mas munido e feroz

Quero você como Cristo
salvador dessa pátria
profeta só do inevitável
redentor do real durável

Recrie o amor e o astral
infernal é a carga de novelas
e celestino navio comercial
que afunda o Rio na favela

E enfurna de vez a miséria
onde há espaço pra enfiar
ali estão suas quimeras
e a força para as negar

O detido

Desde que deste
desdei o des e te dei
dentre dentes, o tédio
destemido de te ter

De mora

Antes não ir
onde se tem vontade
a ir onde
não se tem

Antes não apostar
do que adiar o dito
o atraso mantém prazos
a espera não pára

Longos são apenas anos
a contagem é curta
é morna e tem planos
é veneno aos birutas

Ai, mas se o tempo labuta
na luta de não se contar
o desespero me assusta
e anseia conseguir esperar

Eternidade momentânea

Vem nadar na minha praia?
ser a brisa do meu mar?
Põe seu sol na minha saia
colore esse amarelar

A minha blusa é teu lençol
minhas ondas travesseiro
olhares nus soltos no ar
pescados na areia primeiro

O mar chamou o sol pra si
e o sol mergulhou por inteiro

Toda natureza deitava
naquele quarto trancado
tesouro de homem guardava
arco-íris ali hospedado