sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Recanto dos pássaros

Tinha uma radiola ali
Olhando a linda gaiola
cantadora de bem-te-vis
coloridores dessa hora

Era a leveza da lama
limpando a mestiçez dura
levada a virar fama
de arte e cerâmica pura

Até lustres a essa altura
baixo calão popular
altos calos no povo
média ilustrada a fotografar

A criar de novo o já novo
novidade não lida com hábitos
não labuta nem cansa
abafa a aldeia, tem mal hálito

E loucos, pulam das telhas
atrás da fogueira de palha
caindo em fógos das besteiras
comemomrativas que os valham

foto de Herbert Lago Castelo Branco, em Chapadinha no bairro emergente “Recanto dos Pássaros” (acesse:http://herbertlago.blogspot.com/2010/04/chapadinha-princesa-do-baixo-parnaiba.html)

O Trator

Trtrtrtrtrtrtrtrrrrrrrrr
Mar de trabalhos
barulho trtrtrtriturado?

Neo concretismo


Plástica gritada
letra artista
desenhada
10 zen, desdentada


Aaaaaaaaaaaaaaaaa
dá aaaaaaaaaaaaaa
Ada ada adada
anti dada


Antídata
contra tempos
ritmo com gênero
no agudo acento

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vista

Quem pode prever o que vem antes?
Antes do agora e de nós dois?
Quem consegue ver o que é durante?
Entre o incansável e o depois?

Alguém me dê a mão
porque palavras soltam vozes
mas não prende uma ilusão
como é querer um coração

Vem lá nem que seja de Deus
traz essa paz de amor
e me lança pros olhos teus
e alcança o que já é teu

Aparece por favor
até o socorro se encantou
por você, lago de amor
por você, emoção que chegou

Hora esta que não me passa
mas nos basta e a todos
com esse jeito todo todo
de ajeitar todos os todos

Pronomes pra ti são poucos
tempo, grau, quantia e outros
naõ sei mais o que fazer
pois só sei um pré nome de você

Verde perto

Era um bichinho flor cor de uva
nenhuma formiga bastava
suspirar verde de saudade
que não crescia e nem murchava

Bichinho espinhoso só a ver
esperar a espera finura da selva
beijando a folha pra se envolver
durante terras e mil trevas

Ah, como era mesmo florescer?
De tanta flor, brejo e madeira
orvalho gostoso, suor a escorrer
rio de ninhos, goso e cantoria

Feito chuva que tudo sascia
o ar que vinha de longe
era sol, mar, vulcão de alegrias
pedra rude e forte, amor

A corrida

Estou velha, creio
minto cada vez mais
porque esqueço
o que faço dos meus dias
atráz

A natureza manda
eu só obedeço
quem dorme em meu leito
sonho pedindo um cais
e já dou o endereço

Dois segundos de idas
e eu apodreço
não lembro se intervenho
mas me acelero aos vitais
e mais eu me esqueço

Em barcação

O amor aqui anda
e tem cabelos ondulados
ele me comanda
e faz sentido, e é bem tratado!

É a música que se balança
envolve a dor e a aplaude
sua força é gesto de carinho
gesto de olhar e de amizade

Como é lindo esse ninho
criação de braços grudados
nasceu Dali um mundo luz
de romances embarcados

Barca de Paketá
traga-me a quietude
nem o Luiz Melodia,
nem os Novos Baianos

pois é outro só que me ilude
pois é só outro que me ilude

Ou que do nada eu me mude
e o tempo me distraia
a brincar de pular na fé
fé na vida, ré na vaia

Mas seja o que ele quiser
entrego àqueles olhos
a boca e tudo o que vier
mas que venha até a louca

Mar de meditações roucas
nada me ditava calma
tudo gritava pra alma
os céus de mares entre nós

Vai de vez, embarca
viajante lúdico, levado
deixe-se levar por algo
não me deixe nesse fado

Porque teve de ser este embargo
piegas fui tão e tanto em ir
que você me veio, todo largo
mas longe de querer me partir

Não Riam















Abraço de mármore
filho de celebridade
cérebro das árvores
auréola de irmandade

Síndrome turística
de viajar pelo espírito
de amar pela mística
fé doada ao lúdico

Fé na nossa fé depositada
ilusão cristã que é paga
com os braços do nada
vendido ao Brasil feito praga

E a compra é ainda mais
mais cintilante e alienada
deslumbra os feios curvos
com a corcovisão almada

Rio revire o janeiro, então
amor que fique pra fevereiro
e o povo cai do avião
mas não sai dos estaleiros

Chamados de televisão
lindezas sempre em primeiro
chuva e novenas de acusação
jorra a mídia até os paradeiros

Não quero, não à benção disso
abençoado é só o meu vício
de desacreditar primeiro
depois aceitar seus Vinicius

Sem cristianismo no que sinto
mas foda-se o corcovado
quero o morro e seu labirinto
quero abraço de gente

Ir ao socorro, não ao mito
ao faminto de voz
e estufado de ditos
mas munido e feroz

Quero você como Cristo
salvador dessa pátria
profeta só do inevitável
redentor do real durável

Recrie o amor e o astral
infernal é a carga de novelas
e celestino navio comercial
que afunda o Rio na favela

E enfurna de vez a miséria
onde há espaço pra enfiar
ali estão suas quimeras
e a força para as negar

O detido

Desde que deste
desdei o des e te dei
dentre dentes, o tédio
destemido de te ter

De mora

Antes não ir
onde se tem vontade
a ir onde
não se tem

Antes não apostar
do que adiar o dito
o atraso mantém prazos
a espera não pára

Longos são apenas anos
a contagem é curta
é morna e tem planos
é veneno aos birutas

Ai, mas se o tempo labuta
na luta de não se contar
o desespero me assusta
e anseia conseguir esperar

Eternidade momentânea

Vem nadar na minha praia?
ser a brisa do meu mar?
Põe seu sol na minha saia
colore esse amarelar

A minha blusa é teu lençol
minhas ondas travesseiro
olhares nus soltos no ar
pescados na areia primeiro

O mar chamou o sol pra si
e o sol mergulhou por inteiro

Toda natureza deitava
naquele quarto trancado
tesouro de homem guardava
arco-íris ali hospedado

Momento

Eu não
acredito
neste
eu não acredito
neste momento
eu não acredito neste momento
neste momento

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tapete Vermelho (ao/s reitor/es)

Bem vindo ao campus seguro
não o ilustre desastre
de desmoronar futuros
Tapete à quem faz parte

Construção é bem vinda no prédio
portas abertas à moradia
à qualidade no ensino, não ao tédio
à quem se forma todo dia

Não são bem vindas regalias
abelhas em flores corrompidas
mel no dinheiro sulgado
nem repressão às escondidas

Salve salve a chegada da comida!
É devorada a insatisfação
assim que engolirem a reinvidicação
sem degustarem nosso tempo

Não mais jogados ao vento
se não entupiremos a faculdade
bem vindo é o nosso sustento
e gente mobilizada de vontade

Vermelho para o fim do fracasso
Vermelho para não derramar sangue
Vermelho para educar o abraço
Vermelho para o fim do antes

Mutantitude

O avesso da mudança
não é a estabilidade
mas a espera
de esperar oportunidade

Oposto é quem repete
reproduz terceirizado
acusando o já acusado
ilegitima o discriminado

É o estudo do estudo
a crítica da crítica
a negação da negação
a paralização do parado

A repetição indiferente
atira pedras descontente
discursa que respeita
mas na hora de sentir
é o primeiro ser ausente

E o primeiro a se ferir
pois não há quem o contente
assim não vai transgredir
enquanto prostitui a mente

Posição é ação consciente
de como homem refletir
de como não aceitar tudo
nem se doer feito doente

Via busca de condução

Não espera, escreve
que o ônibus anda
e a chance você perde
de pará-lo com o dedo
as mãos dão sinal
pra entrar na viagem
e partir do medo

Gemido

E o mundo precisava de fadas
estava com muita dor em mim mesmo
e com pouco de mim na dor
eis a dor do mim em segredo

Ego de brinquedo
faz eu me doer
de tanto mim dolorido
dorme em mim de arder

Criações que me dão medo
fadadas à miséria de mimos
emocionantes extermínios
das fantasias incríveis

Insubstituíveis emanações
das múltiplas macabras dores
doa a mim doer, enfim!
Sem demais amostra de amores

Moa-me então, malvada ação
manda no mim que me mede
mendigando-me rumores
mesmo que doloridos
a esse meu eu que não sede

Uma mulher













Mulher me nina
mulher que liga
mulher tão fina
mulher amiga

Mulher mulher
sabe onde pisa
sabe o que quer
e quem enfeitiça

Mulher, me avisa
se alguém te mima
que eu dou mais brisa
que a Monalisa

Júpiter

Extração de risos soltos
saltados do nada na bochecha
alimento afro envolto
de um pouco mais de contento

Astral enluarado e louco
alienado e destemido
a inocência acaba
quando se inicia no outro

Quando se contempla
ao completar uma volta
em si mesma
feito a Terra, feito a bosta

Na qual se sustenta
envolvendo o Sol, estrela
365 dias de profundezas
para abraçar o coletivo
e revertê-la

Êxodo

Fiapo de manga preso no dente
Farpa de madeira na mão
Galho seco em chá quente
Grito de gente com tradução
Moinhos de boatos
sem explicação

Relógios correndo em quatro rodas

Caminhões de medos
com pitadas suspirantes
tristezas virando segredos
músicas destoantes
detalhes sensíveis
em remessas de brinquedo

Relógios morrendo atrás das portas

Gotas contadas escorrendo
esgoto entupido de conta-gotas
Gato nos fios que apreendo
ligado por inconsciências remotas
curto circuito de paciências idotas

Relógios abertos feito boca

Tempo de comunicação oca
louca e com uma única ação:
a rouquidão convulsiva
da inércia na paralização
que pode ser repetitiva
mas não circula como relógio

Participação

É só uma parte ser todo
Estar de todo
é maior que qualquer ser
que todo ser já faz parte
mas nem toda parte
está toda num só ser

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

À música

A melodia escuta oca
para aprender a falar
o que ela cala
por só saber escutar

E no máximo canta
preenchendo um canto a mais
com volume absoluto, luta
sem violência, dança com a paz

Mas melodia, me escuta:
grite pela palavra cantada
sejas delicadamente bruta
assuste nossa língua dura

Expanda-se pelo ouvido
e invada de vez este espaço
e o vazio de vida é dissolvido
nessa música cheia de abraço

Que o barulho é feito de tempo
em pedaços esparsos ao vento
e jogado voando em teus braços
e enlaçado por ti em silêncio

Mel dos dias, tua música
faz a vida sobreviver
toca o instrumento amor
escuta menos e vem pra dizer

Caminho de Farfalla

Único lugar único
é o estar nele
voando para outro
pelo balão do onírico

Voltar até o pouso
no sobre real da natureza
tempo-espiritual
que transpira belezas

E absorve o ser animal
com delicadeza humorada
de quem vai assim pelo nada
passado o intuitivo homem

Estipolaricação

Nada deve ser perfeito
desfeito os desfeitos
e os direitos de direito
tudo tem que ter um jeito

Uma visão, uma luz,
um padrão, uma cruz
é ser único no um
é um único no ser

Cada coisa em seu lugar
mas a todo tempo o tempo todo
faz das coisas o sentido
de sentir o fazer das coisas

Utilidade é já estar parido
e desprovido de lógicas
pois a vida é sem sentido
é só tido os códigos

E eles permanecem escondidos
a fim de dar razão à razão
nossa amada inimiga
contradita nessa infinita paixão

Moral dos que desmoronam
à procura de uma morada
que abriguem esse mundo
mundo mundano do nada

Fragilarquia

Ignorância é tê-la
e dar-lhe importância
é querer refazê-la
por meio da arrogância

Arrogância é negar
e afirmar como não
para se afirmar
dar desculpas à razão

Razão não é nada
é miséria explorada
coisa apática e bufona
que o tempo faz de piada

Breu

A lua minguou
seu olhar dormiu, fechou
breu do sumiço vão
pela obscura escuridão

Que me leva à claridades
aos anjos protetores
das saudades
entregas aos amores de poetas

Deixo meus olhos quietarem
vazio negro a preenchê-los
em busca dos segredos
obscuros de estrelas sombrias

Olho do céu

A lua teve de nascer laranja
A lua teve de nascer
laranja a lua
a lua lá esteve

Era um piscar de você
Era um minguar
de você era um

Era um eu
um meio olhar de tigre
um meio de me olhar
era a lua a me ver
céu você negro a piscar

Preposição

Venha logo aqui pra dentro agora
venha, venha correndo, depois encoste
encoste, cole, aperte, envolva, suave
leve, cheire, beije, beije, beije
e entre aqui pra fora quando sair

Um quê

O QUE EU QUERO COM VOCÊ
É COM VOCÊ
VOCÊ

Astro infernal

Enluarado de luzes florecidas
ele soou melodicamente batucado
em minha vida, alegre
implorando-me ilusões já entregues

Então ginguei-lhe lamentos
lacrimejando liberdades
enlouquecidas
d'outro relacionamento

E o atento burlou meus dias

Noites aromáticas com lindezas
era tanta beleza no prazer
difícil lembrar de me esquecer
que ali era o inferno

A me envolver de lamas
gostosas e escorregadias
lambuzadas de fogo
de água e terra em jogo

Do mundo todo
no triz da lenha
a queimar logo
fósforos de medos calmos
legando o consumo de algo

Enfim cai!
E o vento nos secou em pedra
nada firme, barro solto
feito assinatura de contratos
sem a lida dos outros

Feito datar estrelas em contos
torcer um pé e não se aguentar
no outro
de tanta dúvida
arrastar-se pelo lodo

Não encontrar submundos possíveis
a não ser cair nesse barro natural
esfarelando nosso laço conjugal
depois de sair, enfim
do meu maior inferno astral

Experimento frágil

Deixa eu cair de novo
me deixa por aqui
que eu vou bem
eu vou pro novo

De novo porém
me deixa no não
que eu me movo
e saio pela culatra

Mas não se deixa mais nada!
Além de alguéns

infantis histórias
contadas
sem querer
e pra ninguém

Aceitação

Não fique com Deus
fique com a Deusa
deusa dos minúsculos
ateus em crepúsculos

O olhar de mulher
não é como mulher
mulher que olha
desejos de glória

O sim é mantido
mas sim é proibido
porque é um escudo
que há de ser partido

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vontade lógica

Venenos empretecidos.
Óculos escuros nas árvores.
Moitas de cigarros.
Acidentes mofados.
Brincos de pena de galinhas.
Sexos pendurados.
Sexo pendurado na cortina da venda.
Roupas despidas pela música.
Músicas despidas pela roupa.
Amores engarrafados no álcool.
Engarrafamento de pessoas no trânsito.
Transes de drogas atônitas, atônito.
Preocupações com a privacidade.
Privacidade invadida por si mesmo.
Aparente falta de parecer às aparências.
Wolksvagem.
Bienal de academias em liquidação.
Mangues, santo daimes, trovão de alquimistas.
Graças à Raul Seixas.
Queixas de putas por tantas deitas.
Política de futebol politizado pelo futebol.
Gramas de tráfico em baixo do lençol.
Casamentos impressos pela imprensa.
Candidatura punheteira à palhaçadas.
Amostra grátis em demo de democracias.
Oferecida por tiriricas da cia.
Feira de livros.
Feira de livros, carros, imóveis e crianças.
Cachorrinhos poodles enlatados no colo.
Partidos repartidos e distribuídos nos mercados.
Populismo fabricado com garantia e validade por operários.
Nostalgia publicitária desde a menor idade.
Vontades prontas, vendidas à la carte.
Delivery de estagnações e fugas virtual ou à grande distância.
Ou onde quiser.
Em contraste com a história
está a 'paz' do agora

O novo que desacredita
e cria juras desditas

Malditas traições invertidas
soam feito leões

Em jaulas sob medidas
com fianças remendadas

Revolvo

Umas mulheres não parem
elas reparam
O homem não guerrilha
dis puta
e meu cérebro está grávido
a gerar não sei o quê

Inglória

O troféu da luta
não é melzinho de puta
nem disputa de pares
dos amantes vulgares

Vem da força das pazes
para além da competição
é a liberdade da ação
viva a revolu-mudança

Libertação não é vitória
já foi glória agora é não
romper tiranias toscas
em adesão à memória

Açougue de carnaval

Tem de tudo nessa joça
vem que tem até rainha
Tem lambada, tem maloca
vem cair na fogueirinha

Pra quem vem na nossa
ganha brinde de primeira
faça o que o povo gosta
e saia bem na mamadeira

Olha o pedaço de mulher
leva na hora, carne fresca
temperada do que quiser
meia dúzia se faz de besta

Faz que vem plantar fruta
e cuidar do jardim com amor
é vegetário em açougue de puta
mas falta terra e sobra valor

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Antropoesia

O homem correu
o homem passou
deixou cair palavras
que o pensamento pegou

O homem encantou
ao rimar filosofia
com povo na música
sabedoria popular

O homem aprendeu rimar
com o povo que se repete
na roda da andança do novo
e o batuque que repete a teimar

O que que repete ao passar
sobre a história dessa dança
o rancor venceu a guerra
na corrida social pela terra

O homem se empoetizou
na arte de criar glórias
eternizou seu fôlego
no vencer das próprias vitórias

Cena

Vai ser gauche na vida
que eu vou é ser gaucho!
Cheio de gagues cheias
mas sem luxo

Cheio de cucas
comidas e pó
bocas malucas
a descrever bocas

Brother de quarto
de terra e de bar
até em Minas
com a Júlia a contar:

"Mande aí a óca",
mandiocas, aí Pim!
E me cá cheira
Titchong na beira

Mexericas mexendo
na cabeça e nas brisas
gosto de fome em segredo
e de massagem nos dedos

TORRADOS

RATOS DA TORRE
TÃO RATOS
SÓS
QUE DE TÃO TORRADOS
SÃO PRINCESAS
NO SÓTÃO
RATOS TÃO RATOS

O homem que gozava palavras

Nas palavras, ele gozava nas palavras
por trás depois e pela frente antes com as palavras
palavras gozadas como eu te amo
ele gostava de palavrear gozos

Aquilo pra ele era um jogo
"eu gozo e você diz que me ama
você diz que me ama e eu gozo"
e só a cama sob os loucos

Era um dizer de gemidos roucos
afoitos no prazer das tremedeiras
e dos líquidos entusiasta de besteiras
asneiras orgásticas pra poucos

Como o amor, flor dos nus
azuis e cintilantes mares
incendiando os dois olhares
entre o amoroso e o meu gozo
ou
Entre o goso e o meu amorozo
num elo de instantes trocados
lambuzados de penetrantes beijos
ensopados de tantos desejos

Quase me pedindo em casamento depois
glamurosa de muita estima
levitei lambendo o amor
elevada de realização legítima

Mas não se iluda, por favor
que sexo lindo não ganha vítimas
mas sim leva os corações à dor
de uma relação lavada e límpida

Poesia do não

Também não quero poesias
não quero armas nem vadias
também não quero rimas
alegrias ou ironias
vazias

Também não quero o tédio da melodia
as repetições dos dias
não quero amor nem mais valias
não quero a náusea, o enjôo, a anemia

E nego tudo, só por poesia
por querer te esquecer
com as fontes que crio
também não quero

Também não quero o também
nem o mais, porém
nem a gramática minada
ou a filosofia cansada

Não quero a música
os jogos, as palavras e os beijos
o sexo, a vida ou os Cleitons
não quero o não nem o quero

O vão, o tédio, o tão
e mais todos os sufixos
prefixos, asteriscos
o que contenha grito

Não o não
Nem o nem
no você
você

Tapa
















as mulheres não se amam
elas se chamas
faíscam olhares pra fora
chamam ser espelhos

Bruxas fêmeas
nojentas sem medo
preferem a esmola
do belo brinquedo

Ao instante e agora
verdadeira hora
dos desejos, vacilos,
das auroras

As mulheres matam
pois vão muito cedo
desde que menstruam
misturam a inveja

Veja mais interior, pois
se ficarem nos infectos
não se afirma, mulher
somos mais que pó de arroz

Sejamos o que se quiser
vaidade é ciúmes só pra dois
não pra já louvada mulher
que gava o seu sexo
mas não o partilha depois

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Homenagem à personagem da irmã mais nova de "Bicho Homem" de Lia Vasconcellos

E a alma é diluída no rio
é a mancha do tempero
seco e ardido desejo
de lambuzar o desespero

De violentar o arrepio
que sobrevive do medo
de romper o último fio
e se minar em segredo

Ode do brinquedo
que ultrapassou o amor
pra se esconder no momento
de fluir pelo sangrento
respeitar as horas
de acordo como o sol brilha
de acordo como vem
dê a cor
do tempo

conforme ele tem
forme momentos
e decore ventos

mude a cor do tempo
e ele cora

Eternidade momentânea

Vem nadar na minha praia
ser a brisa do meu mar
põe seu sol na minha saia
colore esse amarelar

A minha blusa é teu lençol
minhas ondas travesseiro
olhares nus soltos no ar
pescados na areia primeiro

O mar chamou o sol pra si
e o sol mergulhou por inteiro

Toda natureza deitava
naquele quarto trancado
tesouro de homem guardava
o arco-íris ali hospedado

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A mulher do silêncio

A música é o banco da dor
a defesa para o não
outro consolo além do amor
o nada da matéria
é a fartura da miséria
o incalculável da paixão
a natureza da quimera
o exato orando em devoção

É luz passeando em noite de calor
em si mesma e satisfeita
é o sono do louvor que se deita
sereno encanto sonhado pelo amor

Todas as notas juntas
de braços dados pela luta
articuladas na revolu-son
disparam paz aos ouvidos
elevam peitos não pelo grito
alma da palavra,corpo do grito
é repetição ainda aceita
é novidade sem suspeita

É barulho que se deixa
É barulho que se deixa
Que se deixa em silêncio
O silêncio dessa deixa

Droga de papel

quando o nada vem e não se tem
nenhuma ânsia
de loucuras

quando sem ninguém
que busca horas
de tortura

Tiros perdidos matam
baladas perdidas
encontradas
entre corações mirados
em carreiras
enlatadas

Enfim te achei
num lixo podre retirado
Tirei a sorte grande
atrás de você
louco apaixonado

Quando tudo é cem
e o sim se tem
com uma náusea
por luxúria

quando com alguém
que perde horas
por frescura

Balas paridas
traçam palavras
partidas entortadas
entre ilusões perdidas
em pinos
e empilhadas

Enfim te deixei
num tinto papel caprichado
Tive menos azar
fugi de você
vício endividado

De vista

Quem pode prever o que vem antes?
Antes do agora e de nós dois?
Quem consegue ver o que é durante?
Entre o incansável e o depois?

Alguém me dê a mão
porque palavras soltam vozes
mas não prende uma ilusão
como é querer um coração

Vem lá nem que seja de Deus
traz essa paz de amor
e me lança pros olhos teus
e alcança o que já é teu

Aparece por favor
até o socorro se encantou
por você, lago de amor
por você, emoção que chegou

Hora esta que não me passa
mas nos basta e a todos
com esse jeito todo fofo
de ajeitar todos os todos

Pronomes pra ti são poucos
tempo, grau, quantia e outros
naõ sei mais o que fazer
sei só um pré nome de você

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Da Filosofia à expressão com H. BERGSON

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
Campus Guarulhos
Disciplina: Filosofia das Ciências Humanas
Professora Responsável: Rita Paiva
Aluna: Cristilene Carneiro da Silva
Nº matrícula: 50043
Curso de Filosofia – Noturno


Avaliação Final sobre “O Pensamento e o Movente” de Henri Bergson

(Questões II e III: ciência e filosofia - questão de método;
                                                    Da questão do método filosófico à expressão)


SÃO PAULO
02/07/2010



Questão II - Ciência e filosofia: questão de método

A metafísica bergsoniana não considera uma divisão entre a ciência e a filosofia em termos de ambas serem tratadas sob o mesmo aspecto que as fundamenta: a estruturação da matemática ou mesmo da lógica vigente enquanto direcionadas a uma única linha, a qual mensiona medidas e conceitos por meio de espacializações, unicamente, inclusive a medida e o conceito do tempo, por exemplo. É através de um prisma tridimensional que Bergson, então, questiona todas e quaisquer possibilidades, científica ou filosófica, que não se expanda para fora desse plano oblíquo de materializar universalmente os objetos e dá-los somente conforme a medida no espaço e não no tempo. A intenção do autor está envolvida na pretensão de fundamentar a capacidade humana de apreender, para além do pragmatismo cultural e historicamente já nos entranhado ao insidiarmos as coisas, e ampliá-la também numa base temporal, ou em outras palavras, dar voz à maneira como o tempo nos é disposto, e não como o espaço o coloca, conforme foi feito com todas as ciências e filosofias anteriores à Bergson.

Em contraste à metafísica comumente predominante na história do pensamento, e reduzida à linguagem compreendida e abstraída distante do real e concreto, há uma proposta de contrabalançar a consciência espacial com a intuição temporal trazida por Bergson. O pressuposto de um método filosófico está implícito nessa metafísica inovadora do filósofo francês. Com o intuito de possibilitar a participação da fluidez sobre a duração, o autor pretende ultrapassar a dificuldade de articulação dos pensamentos concebidos no plano múltiplo e apenas quantitativo e argumenta o quanto a metafísica estudada por outros filósofos se prejudica com isso, pelo fato de não se ater necessariamente a um determinado espaço, bem como a um acompanhamento da passagem do tempo durante a experiência dada. Assim ele reconhece os impecílios à adesão de uma idéia realmente nova como a proposta, por não compartilhar a mesma estrutura anteriores e baseadas em conceitos fixos, como é a própria linguagem comum ou filosófica, por exemplo, a sua metafísica torna-se abstrata ou mesmo imcompreensível. Porém a questão é exatamente se destemer dos conceitos criados, das linguagens imóveis e dos espaços vazios dados na metafísica alucinante e com desvios para outras realidades que não a do mundo vigente: “... nossa metafísica será a metafísica do mundo em que vivemos e não de todos os mundos possíveis. Ela cingirá realidades.” É da inauguração de algo que não é tão somente direcionado à percepção, como é a ciência, nem tão somente direcionado à idealização. Mas sim o “liame” entre as duas, não enquanto simplesmente uma transcendência kantiana (pois esta não tratou a questão particular do tempo na intuição à priori conforme o fluxo dele mesmo e não espacializado), mas uma metafísica do momento, por intuí-lo e acompanhá-lo de acordo com as idéias particulares até as gerais, para enfim voltar-se às particulares novamente:

“Libertemos o espírito do espaço no qual ele se distende, da materialidade que ele se confere para pousar sobre a matéria: iremos devolvê-lo a si mesmo e apreendê-lo imediatamente. Essa visão direta do espírito pelo espírito é a função principal da intuição, tal como a apreendemos.”

A ciência não consegue abranger o espírito e a matéria como a intuição o faz. Pois ela (a ciÊncia) parte da matéria para a sua intelecção e depois torna à matéria para comprová-la, como o inverso da intuição, mas na verdade a intuição não é o seu inverso e sim o seu complemento. Essa inteligência está somente na prolongação dos sentidos e não na abstração do que é físico, por isso ela não acessa o espírito como a intuição, pois a ciência retorna à matéria para se comprovar apenas fisicamente, numa parcialidade por ser somente espacial, e não intuitivamente conforme pede o espírito para não somente conceber, mas transformar o objeto. Bergson concebe a realidade não enquanto simples matéria, mas enquanto criação.

Logo, a metafísica de Bergson se aproxima da filosofia pois se expande à ela como única maneira filosófica completa e precisa. É a metafísica que conquista essa fluidez desejada do tempo, além de explorar os objetos também projetados no espaço. Ela agiria como se fosse a própria intuição da ciência, aquilo que articula os movimentos de um fato e, por isso, flexiona-os e possibilita a reflexão. Mas Bergson não modifica somente o conceito de metafísica e filosofia, como também se infere que pensa em qualquer argumentação lógica que não conte com as mudanças da duração, a ciência por exemplo:

“A ciência levou esse trabalho da inteligência bem mais longe, mas não mudou sua direção. Visa, antes de tudo, tornar-nos senhores da matéria. Mesmo quando especula, preocupa-se ainda em agir, o valor das teorias científicas sendo sempre medido pela solidez do poder que nos dão sobre a realidade.”

Porém a ciência, nos moldes proposto por seu método, seria o externo e a consequência que dialogaria com a filosofia, seria a realidade com todas as suas perspectivas obscuras e inexplicáveis as quais intuimos, mais do que verificamos. A intuição, inclusive, pode alcançar um absoluto por meio do particular que somente ela constitui em nós: a passagem temporal, o acompanhamento fluente da duração. Ela permite à inteligência uma coincidência criativa com o objeto, somente porque nós o intuimos, além de concretizá-lo. Esses dois momentos simultâneos de apreensão intuitiva e presença perceptiva faz a representação da coisa em si transbordar e haver meios de se unir à realidade, mas uma realidade criativa e humana, mesmo que próxima do objeto:

“Somos interiores à nós mesmos, e nossa personalidade é aquilo que deveríamos conhecer melhor. Nada disso; nosso espírito, aqui, está como que no estrangeiro, ao passo que a matéria lhe é familiar e que, nela, ele se sente em casa.”

Desfeito o pragmatismo nas idéias comuns, a filosofia agora trata da duração enquanto próprio objeto metafísico, e articula um método que é a simplicidade enquanto esqueleto da realidade, pois é muito mais elementar do que as especulações matemáticas já alcançaram, ou que as outras filosofias representaram. A história da filosofia se repete por estar presa à medição incompleta da realidade, um círculo linear e sem coincidências precisas que se referem ao mundo vivido, de fato, e não à qualquer outro mundo. A filosofia sustenta a realidade sobre as coisas por comportar a maleabilidade oferecida pelo tempo:

“Desçamos então para o interior de nós mesmos: quanto mais profundo for o ponto que tivermos alcançado, mais forte será o ímpeto que nos devolverá à superfície. A intuição filosófica é esse contato, a filosofia é esse ela. Reconduzidos para fora por uma impulsão vinda do fundo, alcançaremos a ciência à medida que nosso pensamento for desabrochado ao se espalhar. É portanto preciso que a filosofia possa moldar-se pela ciência, e uma idéia, de origem pretensamente intuitiva, que não conseguisse, dividindo-se e subdividindo suas divisões, recobrir os fatos observados lá fora e as leis pelas quais a ciência os liga entre si, que não fosse capaz, inclusive, de corrigir certas generalizações e endireitar certas observações, seria pura fantasia; nada teria em comum com a intuição.”

Questão III - Da questão do método filosófico à expressão

A expressividade na filosofia bergsoniana consiste na consequência de seu próprio método intuitivo. Não há como pensar em uma linguagem conceitual ou pragmática para tal filosofia. A própria filosofia no autor, possui este potencial criador que sustenta o pensamento por meio do movimento intuitivo, ou da “franja” que o desfaz e o exibe espiritualmente:

“Filosofar consiste em inverter a direção habitual do trabalho do pensamento”

É com a filosofia que as imagens ganham um sentido fortalecedor em Bergson, pois as mesmas atuam sobre a realidade, contactando o sujeito no mundo e impedindo que haja alguma confusão ontológica entre a inteligência humana e as coisas intuídas. Bem como extermina-se também a rotulação dada por alguns críticos ao autor enquanto espiritualista ou empirista, conforme Bento P. Junior também dissocia:

“Parece que este ‘espiritualismo’ é constituído, nos dois casos, no interior de um mesmo progresso de conhecimento que parte do interior da consciência para, transcendendo-a, encontrar, fora dela, suas raízes. Em ambos os casos o itinerário metodológico é governado pela passagem da psicologia à metafísica; o filósofo não somente descobre na psicologia a introdução à metafísica, mas o faz porque não hesita em projetar o “psicológico” para fora da consciência humana, acreditando redescobri-la no seio das forças anônimas da natureza.”

Sob a tentativa de instaurar algo correspondente à intuição nos conceitos, Bergson vai além do estudo da consciência humana e da metafísica e parte para a prática das mesmas, em outras palavras, propõe uma realização efetiva para o seu método, por meio dos símbolos. Mas não somente enquanto propostos, como também enquanto um fundamento crucial para a apreensão dos objetos e enquanto objeto da intuição. Pelo fato do homem não conter instintos, ele não alcança a natureza conforme a sua simples presença, e exatamente por isso que o homem é o único a ser consciente dela mas por outra via, representativa nele, desenvolvendo assim um contato intuitivo com ela, mas não unicamente descritivo.

É nesse vies que a linguagem movente aparece como esqueleto de sua filosofia. A alegria criativa de presenciar a duração do mundo conforme ele passa e mudar juntamente com aquilo que muda, a força do papel das imagens e até a coincidência criativa são possíveis por causa dessa proximidade da filosofia à arte, feita pelo autor. A saída e a iniciativa de seu método, ao mesmo tempo. O elo entre a sobreposição ou matematização das coisas e a intuição da fluidez durável das mesmas ainda se encontram aqui, pois Bergson considera o estado e a coisa como propriedade na duração e no alcance dessas transformações dadas ao intuir um objeto:

“A semelhança entre coisas ou estados, que declaramos perceber, é antes de tudo a propriedade, comum a esses estados ou a essas coisas, de obter de nosso corpo a mesma reação, de fazê-lo esboçar a mesma atitude e começar os mesmos movimentos.”

Além de comentar a respeito dessa questão imagética do objeto e seus estados, há nessa passagem do autor a importância da semelhança. Como uma filosofia que trata, em sua maior parte, do particular poderia sustentar a idéia de identidade? Bergson funda o universal na própria realidade e a dissemina, não em identidades mas em semelhanças. Pois a identidade está mais associada à multiplicidade do quantitativo e exato da matéria, já a semelhança propicia uma espécie de interpretação sobre a comparação de duas coisas:

“... se procurarmos precisar ‘semelhança’ por meio de uma comparação com ‘identidade’, descobriremos, cremos nós, que a identidade é da ordem do geométrico e a semelhança da ordem do vital. A primeira remete à medida, a outra é antes do domínio da arte: é freqüentemente um sentimento perfeitamente estético que leva o biólogo evolucionista a supor parentes entre si formas entre as quais ele é o primeiro a perceber uma semelhança: os próprios desenhos que delas fornece revelam por vezes uma mão e sobretudo um olho de artista.”

Daí que o idêntico é mais voltado ao matemático e numeral, e semelhante no âmbito artístico e vital. É assim que podemos coincidir com a imagem de um objeto por imaginá-lo, literalmente, à maneira como ele nos aparece. As imagens também se movimentam, por isso Bergson volta a sua atenção maior à elas afim de utilizá-las como apropriadas para flexionar a estabilidade da linguagem conceitual. Pois os conceitos possuem um pragmatismo natural de nomear uma coisa independentemente de seus estados no tempo. A necessidade de conceitos maleáveis que acompanhem as transformações da realidade traz à intuição bergsoniana a capacidade de visão:

“ Para isso é preciso que se violente, que se inverta o sentido da operação pela qual habitualmente pensa, que revire ou antes, refunda incessantemente suas categorias. Mas desembocará assim em conceitos fluidos, capazes de seguir a realidade em todas as suas sinuosidades e de adotar o próprio movimento da vida interior das coisas.”

Para além das imagens coisas, dadas em nossa consciência e dispostas à nossa atividade de suscitá-las memorialmente e por seleção, as imagens que intuímos sobre o objeto não são compostas apenas de ligações diretas com a matéria por sobreposição, mas principalmente de movimentos dos estados possíveis do objeto. Esse todo presente, mas não necessariamente materializado traz a mobilidade ao conceito. Logo, a percepção também é mutável e envolve o tempo por isso.

Com isso, a intuição imagética projeta no ser tanto sensações quanto movimento, finalizando assim a realização do método e respondendo à coerência da expressão como forma de libertação da filosofia para além dos moldes pragmáticos:

“... habituemo-nos, numa palavra, a ver todas as coisas sub specie durationis: imediatamente o hirto se distende, o adormecido desperta, o morto ressuscita em nossa percepção galvanizada. As satisfações que a arte nunca fornecerá senão a privilegiados da natureza e da fortuna, e apenas de longe em longe, a filosofia assim entendida ofereceria a todos, a cada instante, reinsuflando a vida dos fantasmas que nos cercam e nos revivificando a nós mesmos. Desse modo, tornar-se-ia complementar da ciência na prática tanto quanto na especulação. Com suas aplicações que visam apenas a comodidade da existência, a ciência nos promete o bem-estar, no máximo o prazer. Mas a filosofia já nos poderia dar a alegria.”


BIBLIOGRAFIA

_ BERGSON, H. “O pensamento e o movente”. Trad. Bento P. Neto. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

_ JUNIOR, Bento P. “Presença e campo transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson”. São Paulo: Editora da USP, 1988.

O espaço do desenho e a educação do educador - A.A Albano

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO CAMPUS DE GUARULHOS
DISCIPLINA: FUNDAMENTOS TEÓRICO-PRÁTICOS DO ENSINO DE ARTES
1º SEMESTRE 2010

Profª: Marina Célia Dias
Aluna: Cristilene Carneiro da silva, curso de Filosofia - noturno, nº matrícula: 70-50043

RESENHA DO LIVRO DE ANBA ANGÉLICA ALBANO:

O ESPAÇO DO DESENHO E A EDUCAÇÃO DO EDUCADOR

São Paulo
24/05/2010

O livro de Ana Angélica Albano, “O espaço do desenho e a educação do educador”, trabalha na investigação sobre o desenho e expõe as diversas conseqüências do papel dele na educação e também na vida. É por meio dele que também surge uma reflexão a respeito da arte na formação social do indivíduo, e de como a estreitamos no decorrer do avanço industrial, segregando-a de atividades em que a mesma seria essencial para o nosso crescimento não somente profissional, como também enquanto cidadãos.

Já no início do livro, a autora discorre a procedência da palavra desenho, e sua filologia que vem da palavra “desígnio”, a qual significa projeção. Assim surge o argumento de que o desenho seria a maneira na qual a criança projeta no espaço o seu jogo com os objetos que possui, para além de uma linha sobre a superfície do papel: “... a criança desenhando está afirmando a sua capacidade de designar.” Pois ela responde e se comunica com aquilo que apreendeu ao expressar suas compreensões e vontades ali. “... O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, de projetar-se” .

É a partir dessa expressão manifesta pela criança que ouviremos e conheceremos um pouco mais de suas experiências captadas e transformadas, bem como os seus desejos expostos, percebendo, por meio da história por ela construída, os seus conflitos e receios. “O desenho é a sua primeira escrita.” Ele é o gesto e a fala da criança, registrados enquanto escritos infantis. Antes de saber escrever, ela desenha. A projeção do desenho está no ver-se ali, e transformar-se ao rever. A criança interage nesta projeção como num espelho, onde enxerga o seu interior mostrado no papel, depois a sua reação ao ver o resultado exposto, que também interage com a mesma. Eis o poder de mudança da ação de desenhar, por si só. Essa reconstituição da realidade pela pintura. E até mesmo terapêutico, pois “se a criança desenha para contar sua história, encontramos também a criança que não desenha para não contar.” O contar é a ordenação da experiência vivida, as respostas perceptivas, afetivas e cognitivas. Ao mesmo tempo em que é também a libertação no momento criativo, onde se concentram sentimentos juntamente com pensamentos, conteúdos e formas, respectivamente.

Depois dessa descrição a respeito do papel do desenho, há no livro as etapas de desenvolvimento da arte de ilustrar: primeiro se fala dos traços abstratos da criança pequena como sendo exercícios de capacidade para criá-los, os quais ela mesma desenvolve, é a famosa garatuja: inicialmente com retas longitudinais, depois circulares e enfim as “bolinhas” como um esboço para representar algo, nomear: “É a conquista do controle da mão.” Em seguida, é a vez da passagem dessa fase do exercício para a representação, para o símbolo, mesmo que ainda lúdico e imaginário, o “fazer de conta” que se é. Neles a garatuja ganha mais diversidades do que somente o círculo. Tanto a garatuja se modifica quanto os nomes dados a uma mesma, porém a intenção de nomear é permanente.

Como conseqüência dessa subjetividade independente entre o significante(o desenhista) e o significado (o desenho), mas que se inter relacionam, onde o significado pode mudar quem o nomeia e vice-versa, criando um vínculo de cumplicidade, surge um particularismo entre ambos, uma identidade do desenho por meio desse vínculo entre quem o fez e o próprio desenho. Daí o relato da autora de que os alunos reconhecem suas próprias garatujas e, inclusive, as dos colegas. A cor também é relacionada aqui, nesta etapa, logo enquanto um símbolo, e não exercício do traço, daí ela [a cor] aparecer depois enquanto interesse do aprendiz. Ela está principalmente ligada à analogia, última fase do desempenho: nela se segue a forma, o pensamentoe a a exatidão, já a liberdade do gesto, o sentimento e conteúdo são colocados como secundários.

Devido a esse patamar limítrofe que a arte pode alcançar até o racional, detectado no capítulo, é que surge também a comparação entre as proximidades do desenhar para um adulto e para uma criança no momento da criação. Pois ambos podem ser treinados com técnicas parecidas: a predominância do raciocínio sobre as sensações, o contrário, ou o equilíbrio entre os dois. “Criar é o ato de juntar, de conviver com os conflitos e expressá-los”. Porém a pedagoga também diferencia a criação entre os dois dizendo que a criança cria para mudar a si mesma e elabora uma idéia para si, enquanto o adulto o faz em função dos outros, da sociedade, por exemplo. O que não a impediu de trazer a tona o questionamento a respeito dos pintores famosos que buscam retornar às garatujas infantis para se verem mais espontâneas tanto quanto o são as crianças, a ponto de impedir não somente o crescimento e desenvolvimento das mesmas como também o da própria história da arte, conforme o fez Pablo Picasso, por exemplo. “Muito depressa o desenho-fala se cala e do desenho-certeza se passa à certeza de não saber desenhar” .

É nesse meado em que se encontra a maior articulação do movimento argumentativo do livro, onde a autora chega neste ponto entre a criança e o educador a fim de relacioná-los, e estudar o que os segregou. Partindo, para responder a sua problemática, daquilo que os segregou: a ruptura da arte na vida do adulto, por exemplo. A ênfase dada ao problema da distinção entre arte e vida não é à toa, pois aqui se destrincham os motivos da crise onde a educação adentra nos dias de hoje.

Conforme explica no livro, antes das divisões do trabalho, da revolução industrial etc., adultos e crianças participavam juntos, lado a lado, de festas típicas, eventos regionais e costumes culturais. Seja nas músicas, nos jogos, nos artesanatos... A segregação veio da necessidade de impor preconceitos para tirar proveito e se alcançar poder sobre algum sacrifício. Com a modernidade, por exemplo, surge o novo conceito de “escola”, e os respectivos julgamentos e organizações autoritárias consequentemente gerados: infância e adulto, aluno e professor, menor idade etc. Assim, com o passar do tempo esta “evolução” cada vez mais efêmera trouxe também a ultrapassagem do papel da família, com a mulher ingressante no universo do trabalho, por exemplo.

“As cidades cresceram e não incluíram as crianças no seu crescimento. E a criança hoje, morando numa cidade grande, não tem espaço para a sua brincadeira. A cidade cresceu e a família diminuiu.”

Mais um problema social dessa conseqüência, não só às famílias em particular, mas à sociedade, que traz a criança em si como um problema social no qual ninguém mais possui tempo suficiente, porque passaram a ser dependentes, a não ser a escola. Além de terem perdido o seu espaço lúdico e livre, tornaram-se dependentes de autoridades as quais se impuseram e depois as abandonaram... Então, com a única alternativa, a escola passou de lugar de aprendizagem para lugar de convivência. Enfim: uma grande praça onde se sentem “seguras”, já que a sociedade não as assegura, elas carecem de cercas que possibilitem a sua criação...

E é essa relação de poder imposto à criança que esclarece o porquê ela deixa de desenhar. Pois suas formas de expressão são condicionadas ao padrão desde que sai do lúdico de sua garatuja para imitar o modelo de perfeição do traçado e a exatidão que a tecnologia industrial pede, que a ciência da inteligência e não a arte da expressão, impõem nas disciplinas escolares: “a alfabetização se apresenta como uma saída viável para ocupar as crianças e satisfazer os pais.”

O currículo escolar está minado de serventias tecnológicas que correspondem às indústrias e empresas mas não à educação. O poder das disciplinas lógicas sobre as artísticas e humanitárias vem desta segregação onde não há mais espaço para a apreensão de conteúdos lúdicos e emocionais _ os quais fazem parte de nossa cultura _ em matérias que não o são ou se quer auto caracterizam-se como tais e nem utilizam a arte para o seu ensino. “A arte reclama o homem inteiro, e o processo escolar fragmenta, dividindo em compartimentos geográficos, matemáticos, históricos, ortográficos, científicos e artísticos.” O papel do desenho é derrubar essas cercas e fazer parte da vida, da cultura, por meio da arte educação, por exemplo. Pois ele pode ser abrangido em quaisquer matérias e é referido para diversos aspectos da vida, não podendo ser simplesmente desfalcado pelo utilitarismo ou pela domesticação dos prazeres e desejos da criança dentro de um espaço reduzido e paralisado como são hoje muitas ou a maioria das salas de aula. Como são as relações mecanizadas do desenho sempre paisagístico da “casinha” com a “arvorezinha” e o “caminhozinho” padronizados para serem, além de tudo, avaliados com nota... Como são a dominação sobre o aluno e a uniformidade do ensino sobre a sua expressividade, quando se faz um desenho no mimeógrafo já pronto para somente se pintar, concordando-o, sem nenhuma instrução crítica a respeito. Como é a repressão e passividade que os mesmos implicam sobre o aluno.

A conclusão do estudo encerra uma definição crucial a respeito do que venha a ser desenvolvimento, no âmbito de formação cultural em que tratamos aqui: está relacionado à atitude pessoal e única, artística. E não enquanto pacífica e uniformizada. Porém a autora não expõe somente soluções como também constata o quanto as próprias crianças permitem esta submissão pelo fato de seguirem o adulto, o gosto pelo julgamento, pelas premiações e até avaliações do desenho já reprimem o conceito e o valor de Beleza do aluno, ensinado pelo professor:“as crianças são extremamente vulneráveis aos comentários dos adultos, especialmente quando sabemos que o desenho expressa a criança inteira” .

Mas em minha opinião isto pode mudar com o simples fato de manter a criança ciente de que pode criticar, indagar e até mesmo esta concorrência saudável de ser avaliado e ganhar competições pode ser melhor elaborada para um pensamento e costume onde todos vencem, ou pelo menos quem se afirma com atitude autêntica e justificada, consciente, não aquele que somente aprende a obedecer. “Começar a se perguntar do porquê de tão pouco tempo e tão pouco espaço para a atividade de desenhar. E se indagar ainda, onde está o seu próprio desenho: em que tempo e espaço ele se perdeu.” É livrar-se das resignações para livremente designar-se.

BIBLIOGRAFIA

MOREIRA, A. A. “O espaço do desnho e a educação do educador.” São Paulo: Ed. Loyola, 1991.