segunda-feira, 26 de julho de 2010

A representação em Arthur C.Danto

São Paulo, 15 de novembro de 2008
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo
Unidade Curricular: Estética e História da Arte
Professores:
Francisco De Ambrosis P. machado
Jens Michael Baumgarten

MONOGRAFIA SOBRE A REPRESENTAÇÃO NO PENSAMENTO DE DANTO
Nome: Cristilene Carneiro da Silva [50.043]


“Meu livro Connections to the World [Conexões com o mundo], de 1989, é uma filosofia da filosofia. Nele exponho idéias que surgiram desde cedo em meu pensamento, a saber: que a filosofia em sua totalidade tem de algum modo uma relação com o conceito de representação - que os seres humanos são ens representantes, seres que representam o mundo, que nossas histórias individuais são as histórias de nossas representações e de como essas representações se modificam no decorrer de nossas vidas; que as representações formam sistemas que constituem nossa imagem do mundo; que a história humana é a história de como esse sistema de representações se altera com o tempo; que o mundo e nosso sistema de representações são interdependentes, isto é, algumas vezes mudamos o mundo para que ele se encaixe em nossas representações, e outras vezes mudamos nossas representações pra que elas se encaixem no mundo.” 1

A respeito de um sistema filosófico para explicar a arte, o qual abranja uma resolução em todos os níveis da filosofia inclusive na estética, não mais a especializando em outro significado que não filosófico, Danto inicia o prefácio de seu livro A Transfiguração do Lugar Comum desconfiado da crença num fim da arte e sua adesão imediata à realidade, a qual Wittigenstein aceitou contornando os espaços deixados para uma maior reflexão a respeito, e é tal reflexão que Danto se propõe fazer neste ensaio.

O fundamento do homem enquanto representação do mundo é uma das bases argumentativas da filosofia de Danto. Onde depositou pesquisas referentes a uma filosofia das representações em alguns de seus livros anteriores à publicação de A Transfiguração do Lugar Comum. Sua filosofia neste, conforme esclarece, tenta se desviar um pouco da filosofia analítica produzida na época. A reação frente obras de arte da década de sessenta como Andy Warhol ou Roy Lichtenstein foi o que despertou seu interesse pela tentativa de uma investigação filosófica da expressiva revolta artística por um critério avaliador das obras maior do que as meras institucionalidades:

“Os filósofos nos dizem que coisas que parecem completamente diferentes umas das outras são iguais, enquanto coisas que são completamente idênticas são diferentes. Era exatamente isso que se passava entre a Brillo Box [ Caixa Brilho ] de Warhol, exposta na galeria, e as mesmas embalagens de sabão em pó Brillo armazenadas em depósitos. Dizer que a diferença, em última análise, se deve à diferença entre as instituições da galeria e do depósito é escamotear o problema.”2

Numa primeira busca de diferenciar a arte da vida a fim de caracterizá-la, o autor apresenta um primeiro capítulo deste livro, intitulado “A obra de arte e meras coisas reais”, para trabalhar as contradições conceituais sobre a arte, as quais derivaram a crise na sua finalidade. A estrutura da obra, inclusive, também é facilitada para tal debate de opiniões: apresentada em forma de diálogo com seu aluno “J”, possibilita essa compreensão das forças antagônicas entre arte e realidade. Da necessidade de questionar sobre os direitos que os objetos com o status de arte possuíam sobre outros idênticos a estes porém sem tal nomeação, surge a possibilidade de uma consideração preconceituosa advinda de uma declaração da classe artística: por que não abolir a arte se ela é o retrato da realidade ou vice-versa? É sobre esse problema que Danto depositará as primeiras páginas, mas talvez não encontre respostas até o fim do capítulo. Ainda outras perguntas, tais como: a utilidade da arte depois que democratizada em suas inúmeras obras não a incluiria numa nova posição social? Ou numa nova ordem de significados até no âmbito do conhecimento?

“O motivo disso era estabelecer uma primeira condição necessária, qual seja, a de que toda obra de arte deve dizer respeito a algo - ter um significado. Ainda que não fosse suficiente, essa condição deveria bastar para justificar a afirmação de que toda arte é representacional, e por isso mesmo possível de uma espécie de análise semântica, e de que o formalismo é inadequado como filosofia da arte. Como veículos de representação, as obras de arte se encaixavam na filosofia da representação que eu estava tentando estabelecer. Mas é evidente que nem todos os veículos de representação são obras de arte, de modo que era necessário encontrar outra condição diferenciadora. Assim, sugeri que a obra de arte é um veículo de representação que corporifica seu significado.”3

Com esta passagem sobre a sua sugestão de uma definição da obra de arte, Danto expõe suas intenções neste ensaio: partir da arte enquanto representação e materializar os seus significados. Ou seja, uma suposta passagem da filosofia da arte para uma prática da filosofia por meio do objeto artístico.

Das analogias entre obra de arte e objeto, imitação e realidade ou significado e signo, o filósofo situa a obra de arte como um predicado ao objeto por meio de sua interpretação, e não simples identificação de um fenômeno qualquer. Nisso implica uma busca na intenção ontológica na obra de arte com sua diferença aos objetos da realidade.

Não somente da questão ontológica da arte como também da classificação entre níveis de sua categoria de acordo com a qualificação da obra. No que diz respeito, por exemplo, ao trabalho de confecção e manuseio ou à fabricação ou disposição de simples objetos retirados da realidade sem nenhuma alteração a não ser esta ficção. Ficção a qual é facilmente descartada por alguns pensadores da arte devido a sua falta de definição, mas que frente aos trabalhos da pop art merecem um maior detalhamento.

Essa falta de definição que faz a arte enquanto ficção flutuar sobre a realidade sem um porquê é fundada na causa referente ao fim da história da arte e suas conseqüências de revolta transposta nas intenções do artista. A inutilidade das técnicas é representada por essa suscetível revolução e já abafa quaisquer indícios de sustentabilidade imune a este eterno epílogo. Muito próximo do historiador Hans Beltting4, esse raciocínio vem à tona também na filosofia de Danto para incrementar o otimismo numa nova era da arte, somente diferenciada e não finalizada, explícito por esses dois autores.

“A história da arte não foi interrompida, mas acabada, no sentido de que passou a ter uma espécie de autoconsciência, convertendo-se, de certo modo, em sua própria filosofia: um estado de coisas que Hegel previu em sua filosofia da história. O que estou querendo dizer é que, em certa medida, era preciso que o desenvolvimento interno do mundo da arte adquirisse solidez suficiente para que a própria filosofia da arte se tornasse uma possibilidade séria. De repente, na arte avançada das décadas de 60 e 70, arte e filosofia estavam prontas uma para a outra. De fato, repentinamente elas precisavam uma da outra para se diferenciarem.”5

A filosofia está distante da arte por estarem uma em cada tempo, e por isso mais próximas de completude. A conspiração histórica dentro de uma época é talvez o empecilho para uma maior visualização dos acontecimentos. Como a arte tem se apropriado deste significado filosófico de polemizar sobre o seu epílogo, a filosofia enquanto separada da arte ou a história estética não encontra lugar se não na própria representação artística, a única filosofia ou história possível hoje para se auto-argumentar, por se ater ao presente, única coisa mais significante no momento dessas destruições na universalidade do tempo enquanto narrado linearmente.

Danto inicia o capítulo com um exemplo para delimitar a sutileza da fronteira que separa o mundo da obra de arte. Seu aluno, J, argumenta sobre o fim da mimese em uma de suas obras intitulada como Sem Título e corresponde ao vazio da imitação, a qual trata de uma superfície vermelha pintada sobre tela, sem nenhuma diferença daquelas três anteriores citadas por Danto para demonstrar o quanto o vermelho num quadro pode ser muito semelhante porém conter significados diferentes para cada autor. Aqui o filósofo argumenta que a imitação não está somente na reprodução da coisa enquanto obra, mas que o que permanece sobre o próprio quadro pintado daria origem ao quadro pintado. Mesmo que este “sobre-o-quê” seja a intenção de vazio sobre a obra.

Por trás deste exemplo Danto introduz a problemática da obra de arte enquanto declaração do autor, mais associada ao artista do que ao objeto trabalhado. O poder que o artista possui em nomear as coisas como obra de arte estaria numa intenção de diferenciar o contexto habitual, ou mesmo o critério mimético. A cognição que diferencia uma ação por meio da intenção no gesto está afirmada quando ele diferencia as intenções artísticas das ações humanas involuntárias (por exemplo os tiques e os espasmos). Confirma que a arte tem sempre uma intenção na ação, mesmo que seja a a falta dela. Mas esta regra não é suficiente para condicionar a arte enquanto conceituada por isso. A repetição de tal regra talvez desvalorizasse o seu próprio significado, como a exposição do urinol de Duchamp, praticamente impossível de ser considerada nos mesmos valores artísticos:

“A teoria institucional da arte não explica, embora permita justificar, porque a Fonte de Duchamp passou de mera coisa a obra de arte, porque aquele urinol específico mereceu tão impressionante promoção, enquanto outros urinóis obviamente idênticos a ele continuaram relegados a uma categoria ontologicamente degradada. ” 6

Dessa dificuldade de distanciamento entre intenções na expressão artística e na vida cotidiana, surge mais uma questão para realmente se reconhecer a preferência de ir a favor dos institucionalistas e não mais tentar discernir o sentido da arte não só filosófica, mas também materialmente. Os sentimentos de alegria, sorrisos ou choros, por exemplo, como expressões corriqueiras na vida, ainda que não consideradas artísticas.

Depois desta primeira possibilidade de caracterizar a arte enquanto expressão da intenção do autor, não muito satisfatória para finalizar as antíteses entre os dois fatores estudados, Danto agora parte para a análise da mimese enquanto imitação da realidade. Explora o fato de como um espelho exposto já contradiz essa teoria da arte enquanto imitação. Por já ser um espelho enquanto próprio objeto, e não uma imitação dele, ainda o transformaria em arte? Talvez quando o objeto exposto ironicamente inverte tal teoria. Mas independente de tal intenção do artista, a qual já foi argumentada anteriormente, o que distingue o espelho enquanto obra do espelho enquanto objeto?

Nesta última pergunta Danto já parte para o critério de mimese enquanto ontológica. Faz uma apologia à Sócrates quanto ao perigo prenunciado pela arte ser confundida com a realidade. O que possibilita a idéia de uma falta de critério sobre a definição do que seria arte desde Platão. Porém o espelho reflete a própria pessoa, sendo um significado e um signo ao mesmo tempo ou, se preferir, uma obra e uma coisa. Dessa imagem refletida pode-se tirar também a maneira do auto-conhecimento, a partir do exemplo de Narciso apaixonado por seu reflexo, o autor denota a mimese como suposta paixão pelo auto-conhecimento. Onde o homem seria um objeto de representação para si mesmo. Daí a imitação da realidade como propiciadora do que somos e do que aparentamos ser para os outros ou para si mesmo. Para explicar tal raciocínio, Danto se utiliza das idéias Sartreanas em que:

“Assim, é com inusitada surpresa metafísica que vemos a possibilidade de que o pour-soi compreenda que tem um outro modo de ser, que ele é um objeto para outros, tem uma existência para-o-outro (pour-autrui) e dessa forma participa do modo degradado de ser das coisas de que sempre se distinguiu: ele reconhece possuir, por assim dizer, um lado exterior e um lado interior, enquanto a experiência de si como pour-soi não o teria levado a nenhuma das duas conclusões - seria metafisicamente sem lados.” 7

Onde podemos tirar duas conclusões dessa posição ontológica na arte, uma como o ser visto como um objeto frente a obra, o espelho. Ou a obra ser um objeto e sujeito ao mesmo tempo. Desse vão entre sujeito e objeto enquanto obra e realidade é que Danto propõe ser o meio de se conhecer ambas, tanto a vida quanto a arte.

Após ter separado o conceito de mimese somente como imitação, o movimento do texto parte para a argumentação como maneira de propor prazer. A partir do distanciamento Aristotélico de se conscientizar a respeito do que é imitado, também como forma de conhecimento. Disso o autor dispões o quanto o gosto tem poder de diferenciação, pois vem da crença provocada por esse distanciamento catártico do que é real ou não. Logo, é esta mesma capacidade de distinção que origina o prazer, ou seja, a dialética persiste como necessidade artística: sem a realidade, a mimese também não seria possível.

“O prazer que sentimos com a imitação pertence, portanto, à mesma ordem da satisfação que as fantasias nos proporcionam quando sabemos que se trata de uma fantasia e que não estamos sendo induzidos a crer que seja uma coisa real.” (D. 51) 8

Portanto o prazer está no reconhecimento de fantasia, oposto ao de realidade. Tal lógica pode ser percebida pela propriedade de assimetria por exemplo, que só é percebida, muitas vezes, quando experimentada, o caso de Narciso a ponto de morrer porque se apaixonou pode estar no motivo de não poder comparar ou sentir o gosto dessa diferenciação entre a verossimilhança. Esse mesmo distanciamento possível entre a arte e a coisa real, também propicia uma fresta para a mimese enquanto representação do que é real, mas não necessariamente idêntica.

Depois de ter examinado o conceito de Mimese e defini-lo como representação das coisas reais, Danto recorre às concepções de Nietzsche para iniciar uma diferenciação entre os dois significados possíveis da palavra representação.

A explicação sobre os dois significados de representação seria que um é fundado no mistério, originário dos rituais de culto a Dionísio o qual era a sua apresentação constantemente presente nos momentos de inconsciência que designava este primeiro sentido da palavra como decorrência da re-apresentação. A segunda definição é a de substituição, em vez de Dionísio aparecer, ele era representado pelos sujeitos entorpecidos que eram destinados a representá-lo no momento mais desprovido de pudores ou sobriedades humanas por meio dos instintos mais primitivos e demolidores de quaisquer raciocínios ou moralidades (esses sujeitos eram nomeados como aner e hipócrites, os quais foram substituídos pelo herói quando tal acontecimento também se modificou para a tragédia).

Dessa distinção entre reapresentação e representação, surge a aparição e aparência respectivamente associados aos dois conceitos. O primeiro ao que de fato se manifesta com a própria presença, por aparição e o segundo como o que substitui algo já apresentado, por imitação. Daí o autor introduz a ambigüidade do conceito de representação resultar em outras confusões a respeito das palavras que se derivaram com significados muito próximos, porém também distintos, tais como: aparição e aparência. Quando aparecer seria o fenômeno e aparência a imitação. Uma distinção maior entre os termos é feita no decorrer da história helênica com o surgimento das artes aproximadas da imitação separada da religião como magia ou aparição.

Porém o pequeno descuido com tais conceitos fez com que tal ambigüidade se evidenciasse mais quando o poder da imitação se misturou com a crença na aparição ou realidade. Danto observa o perigo de tal confusão e exemplifica a magia depositada num objeto imitado devido à crença em sua realidade na falta de um distanciamento maior devido à similaridade de uma obra com o real. De como uma pedra acaba por transformar-se num Deus ou mesmo um Deus em várias pedras, conforme cita. Nesta parte do texto assim como em outras a seguir, o filósofo se aproximará do pensamento de Platão fazendo referência sobre a sua tentativa de desfazer tal semelhança entre a aparência e a realidade.

O argumento com que Danto conclui o problema da aproximação com a realidade que uma representação pode trazer por meio da crença em determinada imitação de um objeto, é que um objeto, quando substituído, já está distanciado do público o qual passam de testemunhas de uma aparição para agora admiradores, longe daquele ser divinal que não está mais presente. Por isso o sentido de imitação na mimese é mais forte do que o de aparição. Nisso está desenvolvida a explicação do autor sobre a arte no âmbito da representação e não da re-apresentação.

A substituição das características de um objeto pode ter as mesmas formas, mas não a possuirá de fato. Danto faz mais uma designação gramatical aqui, quando coloca as características como possíveis predicados e a posse como algo intrínseco no objeto. Mas com exemplos da preposição “of” [de], concebe a dificuldade de diferenciação entre a aparência de uma coisa e a coisa. A linguagem é quem diferenciará, unicamente por concepção, o significado do signo, ou seja, o predicado enquanto característica conceitual e o sujeito.

Depois de ter esmiuçado a questão da representação e designado o seu exercício enquanto similaridade, Danto leva esses resultados agora para o plano que tratava anteriormente e retorna à mimese para ressaltar o quanto ela está diretamente ligada à representação e por isso também pode ser confundida com a realidade assim como a realidade com ela. Assim a próxima exposição é sobre a mimese também levar em conta somente este critério de verossimilhança ou representação. Expõe uma observação de como o teatro, principalmente, necessita dessa concepção convencional de mimese para diferenciar-se do real, como citado acima.

A partir da proposta Kantiana é que Danto inicia articulando sobre como a falta de aparição da coisa em si e sim somente das suas representações, mantém um invólucro delas sobre todos os objetos segundo essa filosofia crítica e descarta a idéia de representação como um diferencial da mimese. Ainda remetendo-se à Kant, nota que este expande a mimese para outra coisa que a diferencie: uma atitude em relação ao objeto, ou a falta dela. Pois Kant não concebe a arte como uma atitude prática de um objeto ou como uma utilidade e sim sobre um distanciamento dado pela contemplação.

Mas como tal distanciamento passivo pode valer para qualquer coisa (a partir da consideração dos fenômenos como representações), então pode-se lançar um olhar estético para toda e qualquer coisa, não só para uma obra de arte. Por isso Danto invalida esse olhar crítico como um critério de diferenciação entre a obra e a realidade. Assim como ainda complementa que essa passividade em tal atitude estética faz com que se aprecie tudo à moda contemplativa, seja a violência nas ruas ou a imitação de tais violências pela arte, pois afirma que o distanciamento crítico faz com que contemple-se um problema real e não anime o espectador a uma atitude maior, além desta.

“Tom Stoppard disse certa vez que se você vê uma injustiça acontecendo do lado de fora de sua janela, a coisa mais inútil que poderia fazer seria escrever uma peça de teatro sobre uma injustiça ante a qual temos a obrigação de intervir, já que elas põem a platéia exatamente naquela espécie de afastamento que o conceito de distanciamento psicológico pretende descrever”9

Com isso mais um critério é descartado de sua pesquisa: o da arte ser fundamentada na inutilidade e desinteresse pacífico. Mas reconhece haver momentos históricos com tais características de desligamento social frente à arte, assim como outros com um comprometimento didático, expiatórios etc.

Dessa consciência do distanciamento de uma obra quando se sabe de sua condição enquanto irreal, é que Danto prossegue o assunto sobre tal convenção. Ele associa a citação feita num palco como uma espécie de aspas neutralizadora. Diferente de uma afirmação dada na realidade a qual nos faz reagir. Essa abdicação às responsabilidade sobre a expressão em forma de arte delimita a mimese somente como uma convenção ou até uma oportunidade à parte de pronunciar a realidade fora dela. E do quanto esse convencionalismo propicia uma liberdade artística, até mesmo para romper a divisão entre a vida e arte, propositalmente. Novamente o filósofo cita Platão quando faz referência do quanto este previu tal liberdade usurpadora da realidade, devido ao intrometimento que a arte poderia fazer na realidade.

Isso que Danto nomeia de convenção é metaforicamente explorado de diversas maneiras no texto, ora a chama de “parênteses”, ora “aspas”, enfim, infere-se que pode ser concebido como aquilo que fica fora de algo, invalidado10. Agora o filósofo expõe as questões negativas de tal aspas como, por exemplo, a capacidade de inibir a crença no que está sendo imitado, por mais semelhante que for a mimese a consciência de que aquilo não é real impede uma confiança. Se, como expõe um exemplo, um ator é realmente esfaqueado em cena mas ninguém o acredita por não haver este espaço para a realidade naquilo que é uma imitação.

Depois retorna a enfatizar numa necessidade de rotulação do que é arte para que haja um entendimento e não um estranhamento. Utiliza aqui de situações inusitadas tais como um médico que pratica corrida pelas manhãs mas já com seu traje de trabalho, o estranhamento seria pensar algo diferente do que acontece, que está atrasado, por exemplo. Ou mesmo um homem que late no meio da rua, considerado louco porque não está em cima de um palco. Danto expõe tais circunstâncias a fim de questionar se a convenção seria realmente um critério da mimese.

Mais uma vez há uma pausa no capítulo para uma análise mais aprofundada sobre a última questão: até quanto esclarecer que algo é uma arte ou não, por meio da ilusão ou do distanciamento? Para isso Danto retorna ao texto Da Origem da Tragédia de Nietzsche a fim de localizar o socratismo de Eurípedes para responder a tal pergunta.

Primeiro ele confirma a crítica a Eurípedes feita por Nietzsche pelo fato de o tragediógrafo deixar muito evidente sua convenção, sua moldura, racionalizando-a e deixando muito bem explicada. Danto descarta tanto a semelhança quanto a convenção em demasia como bases da arte, pois diz não haver uma finalidade para tamanha retratação da realidade, e cita Nelson Goodman: “Uma só dessas drogas de coisas já é o bastante”. Afirma que a realidade pode sim ser uma referência para arte, mas não que a arte precise necessariamente segui-la da maneira mais exata possível. Além de considerar ocioso e parasita uma imitação idêntica à realidade. Conclui que a arte precisa de ter caráter de arte, por meio de algo que reconheça a sua identidade com veemência. Mas ainda não descarta a realidade ou a própria imitação como participantes influentes em seu significado. Pois argumenta que o prazer de reconhecer a mimese é já saber sobre a realidade que se imita. Conforme Aristóteles, primeiro conhecer a realidade para depois reconhecer a arte.

Mesmo com essa relevância sobre a arte e a realidade, Danto não perde o foco de seu pensamento sobre a necessidade de diferenciação entre a arte e a realidade. Finaliza sua reflexão sobre ilusão e distanciamento depois de reforçar essa necessidade. Pois conclui que a ilusão não necessariamente precisa estar na ação da mimese, mas no ponto de vista sob uma outra ótica, misteriosa quando comparada àquela a qual se vive.

Após a referência nietzschiana, o filósofo reconhece que nem a verossimilhança nem a descontinuidade são de acordo com o fundamento da arte. Pois as duas se anulam, uma por não ter nenhuma outra finalidade além de ser uma cópia da realidade, que já existe. E a outra por ser tão diferente como qualquer outro objeto que não seja considerado artístico. Associa esta última opção às invenções diversas, e não somente no âmbito da arte. Algo que não é similar à realidade pode ser algo novo mas não por isso, arte. Tais finalidades entram em contradição direta com a arte, pois um abridor de latas pode ser uma invenção de utilidade doméstica ou uma arte, conforme o autor cita como exemplo. Logo, o critério de inovação também é descartado como significador da arte.

A sua saída para tal dialética introduzida neste primeiro capítulo será deixar o problema em cima da arte enquanto convenção declarada. Uma hipótese para aproximar a arte do argumento da arte institucionalista. Mesmo criticando-a por não se aprofundar ou nem levar em conta essas questões que abrangeriam ou não determinados feitos para caracterizá-los enquanto venham ou não a ser uma obra de arte.

“Seja como for, minha teoria sustenta que somos sistemas de representações, pouco importando se são sistemas de palavras ou de imagens ou ainda de ambas, o que é mais provável. Em síntese, minha tese é uma extensão da tese de Pierce de que ‘o homem é a soma de sua língua, porque o homem é um signo.” 11

No capítulo estudado Danto não expõe uma solução para o problema do institucionalismo na arte, porém, com suas conclusões a respeito da própria teoria podemos inferir onde sua argumentação encontrou fundos: no homem e na ação enquanto autor e obra, sujeito e objeto ou signo e significado.

Ele faz diversas dessas mesmas analogias citadas quando associa na conclusão do livro a história, subjetiva por não ser mais universal e sim particular, passivel de ser associado à vida humana.

Da arte também ser aproximada da crença no que o artista já conhece ou acredita e, por isso, tal crença torna-se objeto de sua ação. Aqui também prenuncia sua definição de estilo na obra: o homem como representação para o outro e não para si, torna-se autor das representações para o apreciador. O estilo como sendo o próprio homem e a aura (ou mimese), o que ele acredita.

“A grandeza da obra está na grandeza d representação que a obra materializa. Se o estilo é o homem, a grandeza do estilo é a grandeza da pessoa.” 12

Essa humanização artística com que Danto conclui por meio da influência da ação ontológica na arte, propicia uma compreensão da arte enquanto uma atitude filosófica que se utiliza do homem (artista) como objeto da representação (mimese).

“Mas falo como um filósofo construindo o gesto do artista como um ato filosófico. Como obra de arte, a caixa de Brillo faz mais do que afirmar que é uma caixa de sabão dotada de surpreendentes atributos metafóricos. Ela faz o que toda obra de arte sempre fez: exteriorizar uma maneira de ver o mundo, expressar o interior de um período cultural, oferecendo-se como espelho para flagrar a consciência dos nossos reis.” 13


BIBLIOGRAFIA:

DANTO, Arthur C. A transfiguração do lugar-comum. Trad. de Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 1989.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte. Trad. de Rodnei Nascimento. São Paulo: Cosacnaify, 2006.

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NOTAS:

1 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.12

2 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p. 16

3 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.18

4 Uma passagem sobre a persistência de Bellting nessa questão do epílogo da arte: “A história, por fim, como lugar da identidade ou da contradição, perdeu sua autoridade na mesma medida em que se tornou onipresente e disponível. Cessa também assim a história da arte como modelo de nossa cultura histórica, com o que chegamos ao nosso tema... O fim da história da arte não significa que a arte e a ciência da arte tenham alcançado o seu fim, mas registra o fato de que na arte, assim como no pensamento da história da arte, delineia-se o fim de uma tradição, que desde a modernidade se tornara o cânone na forma que nos foi confiada.” (Hans Bellting – O Fim da História da Arte – pag. 23)

5 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.26

6 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.39

7 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.45

8 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p. 51

9 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p. 60

10 Conceito semelhante é também empregado no texto de Bellting: “O epílogo, contudo, também é hoje uma máscara em que se deixa rapidamente anunciar uma reserva contra as próprias teses para não desgastar a tolerância do leitor ou do ouvinte. Quer se fale de “arte” ou de “cultura”, quer de “história” ou de “utopia”, todo conceito é colocado entre aspas para poder levá-lo ainda mais longe na dúvida indicada.” (Hans Bellting – O Fim da História da Arte – pags. 17-18)

11 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p. 293

12 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p.296

13 DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum, p. 297

Danto em: "A obra de arte e meras coisas reais"

SEMINÁRIO SOBRE O CAPÍTULO 1:

“OBRAS DE ARTE E MERAS COISAS REAIS”
DO LIVRO “A TRANSFIGURAÇÃO DO LUGAR COMUM”,
DE ARTHUR C. DANTO

Nome: Cristilene Carneiro da Silva
Professores:
Francisco De Ambrosis P. machado
Jens Michael Baumgarten
Unidade Curricular:
Estética e História da Arte
São Paulo, 15 de novembro de 2008


“OBRAS DE ARTE E MERAS COISAS REAIS”

Depois de ter examinado o conceito de Mimesis como representação das coisas reais, Danto recorre às concepções de Nietzsche para iniciar uma diferenciação entre os dois significados possíveis da palavra representação.

A explicação sobre os dois significados de representação seria que um é fundado no mistério, originário dos rituais de culto a Dionísio o qual era a sua apresentação constantemente presente nos momentos de inconsciência que designava este primeiro sentido da palavra como decorrência da re-apresentação. A segunda definição é a de substituição, em vez de Dionísio aparecer, ele era representado pelos sujeitos entorpecidos que eram destinados a representá-lo no momento mais desprovido de pudores ou sobriedades humanas por meio dos instintos mais primitivos e demolidores de quaisquer raciocínios ou moralidades (esses sujeitos eram nomeados como aner e hipócrites, os quais foram substituídos pelo herói quando tal acontecimento também se modificou para a tragédia).

Dessa distinção entre reapresentação e representação, surge a aparição e aparência respectivamente associados aos dois conceitos. O primeiro ao que de fato se manifesta com a própria presença, por aparição e o segundo como o que substitui algo já apresentado, por imitação. Daí o autor introduz a ambigüidade do conceito de representação resultar em outras confusões a respeito das palavras que se derivaram com significados muito próximos, porém também distintos, tais como: aparição e aparência. Quando aparecer seria o fenômeno e aparência a imitação. Uma distinção maior entre os termos é feita no decorrer da história helênica com o surgimento das artes aproximadas da imitação separada da religião como magia ou aparição.

Porém o pequeno descuido com tais conceitos fez com que tal ambigüidade se evidenciasse mais quando o poder da imitação se misturou com a crença na aparição ou realidade. Danto observa o perigo de tal confusão e exemplifica a magia depositada num objeto imitado devido à crença em sua realidade na falta de um distanciamento maior devido à similaridade de uma obra com o real. De como uma pedra acaba por transformar-se num Deus ou mesmo um Deus em várias pedras, conforme cita. Nesta parte do texto assim como em outras a seguir, o filósofo se aproximará do pensamento de Platão fazendo referência sobre a sua tentativa de desfazer tal semelhança entre a aparência e a realidade.

O argumento com que Danto conclui o problema da aproximação com a realidade que uma representação pode trazer por meio da crença em determinada imitação de um objeto é que um objeto, quando substituído, já está distanciado do público o qual passam de testemunhas de uma aparição para agora admiradores, longe daquele ser divinal que não está mais presente. Por isso o sentido de imitação na mimesis é mais forte do que o de aparição. Nisso está desenvolvida a explicação do autor sobre a arte no âmbito da representação e não da re-apresentação.

A substituição das características de um objeto pode ter as mesmas formas, mas não a possuirá de fato. Danto faz mais uma designação gramatical aqui, quando coloca as características como possíveis predicados e a posse como algo intrínseco no objeto. Mas com exemplos da preposição “of” [de], concebe a dificuldade de diferenciação entre a aparência de uma coisa e a coisa. A linguagem é quem diferenciará, unicamente por concepção, o significado do signo, ou seja, o predicado enquanto característica conceitual e o sujeito.

Depois de ter esmiuçado a questão da representação e designado o seu exercício enquanto similaridade, Danto leva esses resultados agora para o plano que tratava anteriormente e retorna à mimese para ressaltar o quanto ela está diretamente ligada à representação e por isso também pode ser confundida com a realidade assim como a realidade com ela. Assim a próxima exposição é sobre a mimese também levar em conta somente este critério de verossimilhança ou representação. Expõe uma observação de como o teatro, principalmente, necessita dessa concepção convencional de mimese para diferenciar-se do real, como citado acima.

A partir da proposta Kantiana é que Danto inicia articulando sobre como a falta de aparição da coisa em si e sim somente das suas representações, mantém um invólucro delas sobre todos os objetos segundo essa filosofia crítica e descarta a idéia de representação como um diferencial da mimese. Ainda remetendo-se à Kant, nota que este expande a mimese para outra coisa que a diferencie: uma atitude em relação ao objeto, ou a falta dela. Pois Kant não concebe a arte como uma atitude prática de um objeto ou como uma utilidade e sim sobre um distanciamento dado pela contemplação. Mas como tal distanciamento passivo pode valer para qualquer coisa (a partir da consideração dos fenômenos como representações), então pode-se lançar um olhar estético para toda e qualquer coisa, não só para uma obra de arte. Por isso Danto invalida esse olhar crítico como um critério de diferenciação entre a obra e a realidade. Assim como ainda complementa que essa passividade em tal atitude estética faz com que se aprecie tudo à moda contemplativa, seja a violência nas ruas ou a imitação de tais violências pela arte, pois afirma que o distanciamento crítico faz com que contemple-se um problema real e não anime o espectador a uma atitude maior, além desta.

“Tom Stoppard disse certa vez que se você vê uma injustiça acontecendo do lado de fora de sua janela, a coisa mais inútil que poderia fazer seria escrever uma peça de teatro sobre uma injustiça ante a qual temos a obrigação de intervir, já que elas põem a platéia exatamente naquela espécie de afastamento que o conceito de distanciamento psicológico pretende descrever”¹

Com isso mais um critério é descartado de sua pesquisa: o da arte ser fundamentada na inutilidade e desinteresse pacífico. Mas reconhece haver momentos históricos com tais características de desligamento social frente à arte, assim como outros com um comprometimento didático, expiatórios etc.

Dessa consciência do distanciamento de uma obra quando se sabe de sua condição enquanto irreal, é que Danto prossegue o assunto sobre tal convenção. Ele associa a citação feita num palco como uma espécie de aspas neutralizadora. Diferente de uma afirmação dada na realidade a qual nos faz reagir. Essa abdicação as responsabilidade sobre a expressão em forma de arte delimita a mimese somente como uma convenção ou até uma oportunidade à parte de pronunciar a realidade fora dela. E do quanto esse convencionalismo propicia uma liberdade artística, até mesmo para romper a divisão entre a vida e arte, propositalmente. Novamente o filósofo cita Platão quando faz referência do quanto este previu tal liberdade usurpadora da realidade, devido ao intrometimento que a arte poderia fazer na realidade.

Isso que Danto nomeia de convenção é metaforicamente explorado de diversas maneiras no texto, ora chama-a de “parênteses”, ora “aspas”, enfim, infere-se que pode ser concebido como aquilo que fica fora de algo, invalidado. Agora o filósofo expõe as questões negativas de tal aspas como, por exemplo, a capacidade de inibir a crença no que está sendo imitado, por mais semelhante que for a mimese a consciência de que aquilo não é real impede uma confiança. Se, como expõe um exemplo, um ator é realmente esfaqueado em cena mas ninguém o acredita por não haver este espaço para a realidade naquilo que é uma imitação.

Depois retorna a enfatizar numa necessidade de rotulação do que é arte para que haja um entendimento e não um estranhamento. Utiliza aqui de situações inusitadas tais como um médico que pratica corrida pelas manhãs mas já com seu traje de trabalho, o estranhamento seria pensar algo diferente do que acontece, que está atrasado, por exemplo. Ou mesmo um homem que late no meio da rua, considerado louco porque não está em cima de um palco. Danto expõe tais circunstâncias a fim de questionar se a convenção seria realmente um critério da mimese.

Mais uma vez há uma pausa no capítulo para uma análise mais aprofundada sobre a última questão: até quanto esclarecer que algo é uma arte ou não, por meio da ilusão ou do distanciamento? Para isso Danto retorna ao texto Da Origem da Tragédia de Nietzsche a fim de localizar o socratismo de Eurípedes para responder a tal pergunta.

Primeiro ele confirma a crítica a Eurípedes feita por Nietzsche pelo fato de o tragediógrafo deixar muito evidente sua convenção, sua moldura, racionalizando-a e deixando muito bem explicada. Danto descarta tanto a semelhança quanto a convenção em demasia como bases da arte, pois diz não haver uma finalidade para tamanha retratação da realidade, e cita Nelson Goodman: “Uma só dessas drogas de coisas já é o bastante”. Afirma que a realidade pode sim ser uma referência para arte, mas não que a arte precise necessariamente segui-la da maneira mais exata possível. Além de considerar ocioso e parasita uma imitação idêntica à realidade. Conclui que a arte precisa de ter caráter de arte, por meio de algo que reconheça a sua identidade com veemência. Mas ainda não descarta a realidade ou a própria imitação como participantes influentes em seu significado. Pois argumenta que o prazer de reconhecer a mimese é já saber sobre a realidade que se imita. Conforme Aristóteles, primeiro conhecer a realidade para depois reconhecer a arte.

Mesmo com essa relevância sobre a arte e a realidade, Danto não perde o foco de seu pensamento sobre a necessidade de diferenciação entre a arte e a realidade. Finaliza sua reflexão sobre ilusão e distanciamento depois de reforçar essa necessidade. Pois conclui que a ilusão não necessariamente precisa estar na ação da mimese, mas no ponto de vista sob uma outra ótica, misteriosa quando comparada àquela a qual se vive.

Após a referência nietzschiana, o filósofo reconhece que nem a verossimilhança nem a descontinuidade são de acordo com o fundamento da arte. Pois as duas se anulam, uma por não ter nenhuma outra finalidade além de ser uma cópia da realidade, que já existe. E a outra por ser tão diferente como qualquer outro objeto que não seja considerado artístico. Associa esta última opção às invenções diversas, e não somente no âmbito da arte. Algo que não é similar à realidade pode ser algo novo mas não por isso, arte. Tais finalidades entram em contradição direta com a arte, pois um abridor de latas pode ser uma invenção de utilidade doméstica ou uma arte, conforme o autor cita como exemplo. Logo, o critério de inovação também é descartado como significador da arte.

A sua saída para tal dialética introduzida neste primeiro capítulo será deixar o problema em cima da arte enquanto convenção declarada. Uma hipótese para aproximar a arte do argumento da arte institucionalista. Mesmo criticando-a por não se aprofundar ou nem levar em conta essas questões que abrangeriam ou não determinados feitos para caracterizá-los enquanto venham ou não a ser uma obra de arte.

BIBLIOGRAFIA:

DANTO, Arthur C.A transfiguração do lugar-comum. Trad. de Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 1989.

Kant e sua idéia cosmopolita

São Paulo, 13 de novembro de 2008.
Unidade Curricular – Leitura e interpretação de textos clássicos.
Professor – Ivo da Silva Júnior
Dissertação sobre o livro: Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita,
de Immanuel Kant.
Universidade Federal de Guarulhos
Cristilene Carneiro da Silva (r.a: 50043)
Curso de Filosofia - Vespertino


O cidadão do mundo é aquele cuja vontade é universal

“... assim como as árvores num bosque, procurando roubar umas às outras o ar e o sol, impelem-se a buscá-los acima de si, e desse modo obtêm um crescimento belo e aprumado, as que, ao contrário, isoladas e em liberdade, lançam os galhos a seu bel-prazer, crescem mutiladas, sinuosas e encurvadas. (KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. p. 11 ) ”

“Em geral o particular é muito insignificante em relação ao universal, os indivíduos são sacrificados e abandonados. A idéia paga o tributo da existência e da transitoriedade, não de se mesmo, mas das paixões dos indivíduos” ¹. Hegel neste trecho de seus escritos encontra questões em algumas resoluções Kantianas a respeito do particular como um problema ambíguo ou até contraditório porque o universal se dá por meio do particular mas acaba por extingui-lo. Porém o antagonismo e universalismo em Kant podem ser vistos como lógicas morais, e não como qualquer tipo de problema a ser resolvido. A solução não está em procurar problemas no pensamento Kantiano, mas na maneira de compreendê-lo somente por meio de um ponto de vista particular e julgar a ambigüidade humana como problema, pois a partir daí é que se extingue uma de suas partes (a particular ou a universal) e não quando se coloca ambas como necessárias à sobrevivência da espécie humana como fez Kant.

A impossibilidade de um conhecimento independente dos sentidos humanos, convicto de como a natureza é em si mesma, já particulariza tal conhecimento unicamente para as vistas do homem, não havendo outra possibilidade de vislumbrar um outro conhecimento que não o dele. Por isso não há como não considerar a experiência particular apenas como testemunha da própria razão. Nem a idealização ou o entendimento, nem a experiência fazem, sozinhos, a concordância de um conceito. Logo, a transcendência está exatamente na união entre os dois, ou mais claramente, na ambigüidade. Qualquer visão referente à tal raciocínio que também não se utilize de tal dialética, será uma forma invalida por não abranger uma crítica (conceito do pioneiramente Kantiano) sobre o assunto, mas somente uma metafísica.

Mas a transcendência atua para além dos indivíduos: é o espírito esclarecedor que não julga um só ponto de vista nem uma maioria numa multidão, mas simplesmente coordena por meio de possibilidades uma totalidade máxima de concórdia entre os indivíduos, sociabilizando-os. Onde espírito signifique o que está entre a matéria e a idéia, a força de transporte entre os dois: seja entre um fato e um relato (ou uma história), entre a empiria e o a priori, entre a subjetividade e o esclarecimento ou entre o particular e o universal.

Tal raciocínio atuará universalmente não só no direito, na moral e na política como também e principalmente na maneira de considerar o universal por meio do particular e vice-versa. Usufruindo-se dos dois sem descartar quaisquer possibilidades e por isso reger uma vontade natural e universal quando estabelecido o seu curso regular de acontecimentos. Curso o qual também baseado numa crítica das possibilidades práticas, transcende o indivíduo à civilização e dela ao Estado e por diante, cosmopolitamente. Em outras palavras, quando se achar leis também transcendentes na história humana.

___________________________________

¹ A respeito dessa crítica feita por Hegel, encontra-se a seguinte citação: “Numa perspectiva fisiológica e pragmática de como o conhecimento humano pode se dar por meio de uma lei, Kant sugere que o homem é um objeto da e na natureza, livre e cidadão do mundo... Na Ciência da Lógica (1812), Hegel destaca as ambigüidades da explicação Kantiana do conceito, mostrando que a sua tentativa de reconciliar lógica e epistemologia é inspirada por uma ontologia, e que sua relação equívoca entre conceito e intuição pode ser analisada em termos das relações entre universalidade, particularidade e individualidade. (Caygill, Haward. Dicionário Kant. Trad. de Álvaro Cabral. p.64 )”

“... através de um progressivo iluminar-se (Aufklãrung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o discernimento moral em princípios práticos determinados e assim finalmente transformar um acordo extorquido patologicamente para uma sociedade em um todo moral.” (KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. p.9)

Desta última afirmação podemos concluir o quanto “O cidadão do mundo é aquele cuja vontade é universal”, e não excluirmos daí a necessidade moral (ou prática) de seguirmos num percurso moldado por determinações que podemos escolher entre traçarmos ou não, porém não por isso abandonarmos tal lei abrangente de todas as possibilidades e, também nisso, universal.

BIBLIOGRAFIA:

_ KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. Org. Ricardo Terra. Trad. de Rodrigo Naves. São Paulo: Martins fontes, 2004.

A transcendência da Prosa - Sartre

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO– UNIFESP
CURSO DE FILOSOFIA
DISSERTAÇÃO PARA A UNIDADE CURRICULAR
DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA II
MINISTRADA PELO PROFESSOR ALEXANDRE CARRASCO


A TRANSCENDÊNCIA DA PROSA


CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA
3º TERMO DE FILOSOFIA – VESPERTINO

SÃO PAULO
03/O7/2009


“Basta que o ‘Mim’ seja contemporâneo do mundo e que a dualidade sujeito-objeto, que é puramente lógica, desapareça definitivamente das preocupações filosóficas. O mundo não criou o ‘Mim’ e o ‘Mim’ não criou o mundo, eles são dois objetos para a consciência absoluta, impessoal, e é por isso que eles se encontram ligados. Esta consciência absoluta, quando purificada do Eu, nada tem de um sujeito, igualmente não é uma coleção de representações: ela é simplesmente uma condição primeira é uma fonte absoluta de existência.”

A formação desta unidade absolutamente transcendente e por isso também engajada, pode se estender para além da composição desse universal e do particular e entranhar as fronteiras da própria obra do filósofo a ser dissertado. Jean Paul Sartre trata do ego e da literatura enquanto duas fontes transcendentes, as quais possuem uma interdependência com o mundo onde a correspondência de liberdades é materializada seja pela linguagem, seja pela consciência. Tal proximidade nas possibilidades inseridas tanto na Transcendência do Ego enquanto reflexiva, filosófica e particularmente sobre o ser quanto em O que é literatura? enquanto espontânea, política e universalizando uma historia já não seria, ela mesma, a prática da transcendência existente na moral da filosofia sartreana?

Com uma devota oposição à crítica literária da época e também com relações estreitas à filosofia crítica, Sartre depositou um estudo detalhado sobre os dois assuntos: o realismo na escrita e a representação na fenomenologia. Não somente com a pretensão de trazer a arte da escrita para mais próximo da vida dos homens, como também de desfazer possíveis enganos por eles sofridos quando submetidos ao determinismo alçado no realismo e muitas vezes influenciável na filosofia, por exemplo. O cientificismo de descrições muito precisamente detalhadas na prosa quanto a formação coerente seja dos personagens ou dos cenários etc., dispunha uma linha moral para a maneira de se fazer romances onde a liberdade aparecia somente como maquiagem conseqüente do trajeto das ações já entrelaçadas. Assim como a autonomia do autor quem assinava tais descrições com um caráter quase totalitário e indiferente a interação com o leitor, por meio da demonstração de uma experiência quase que dedutível de tão verdadeira sobre a realidade do autor enquanto relatador e único objeto da obra num tom até confessor e comandante da situação . Sartre não acredita na crítica enquanto ditadora dos recursos e sentidos a serem utilizados, pois vê a estética como uma crença vazia. “É próprio da consciência estética ser crença por engajamento, por juramento, crença contínua pela fidelidade a si mesmo e ao autor, opção de acreditar, perpetuamente renovada.” O intuito de ultrapassar esses modelos de escrita abrangia também o de criar uma interdependência entre a obra e a realidade no sentido de não mais haver somente uma única direção na informação: a obra não mais surgiria somente da autonomia do autor a influenciar a realidade como também o leitor e as suas experiências na vida também a descreveriam, numa relação de correspondência. É onde também que se encaixa a filosofia enquanto um pensamento objetivo ou de consciências comuns, não mais subjetivos e egocêntricos. Uma filosofia que é transcendente pela existência de consciências objetivas em comunhão, não mais pela verdade essencial do sujeito.

Em A transcendência do ego, o autor investiga a impessoalidade de uma das partes da consciência a fim de relacioná-la com algo exterior ao sujeito enquanto pregado no suposto “Eu”. Ele inicia isso questionando sobre a representação sintética kantiana, onde afirma haver uma subjetividade em sua transcendência, devido ao fato de ser a intuição quem realiza a síntese, mas formalmente e apriori sem maiores descrições de como isso se dá de fato, mas somente de direito, para ser fiel ao termo utilizado pelo filósofo e não utilizar o termo “moral” para dar foco à explicação de diferenciação entre a transcendência formal e subjetiva, não detalhada na maneira de ascender o fenômeno em kant distinta da maneira a qual quer objetivar a transcendência da consciência definida por meio de sua relação com os objetos e com o ego transcendente.

Portanto a transcendência para Sartre não parte do eu como em Descartes ou mesmo nesta crítica feita a kant, por exemplo. A independência e auto-suficiência da consciência irrefletida enquanto sendo o primeiro grau de consciência, objetiviza a relação tanto com o eu quanto com os objetos, daí a transcendência dela enquanto engajada no mundo. “Pela intencionalidade ela se transcende, ela se unifica à medida que escapa de si própria.” Sartre diz que tanto Kant, quanto Descartes ou alguns psicólogos e filósofos do amor de si, pularam esta etapa objetiva da transcendência e logo a associaram a uma subjetividade. Não que ela seja completamente desvinculada às outras consciências, a de segundo grau por exemplo, pois é ela [a irrefletida ou de 1º grau] quem aciona o eu na reflexiva e nisso se dá a atividade da consciência “mas ela é pura e simplesmente consciência de ser consciência deste objeto, esta é a lei de sua existência” , essa passagem da consciência que reflexionou sua atividade [o eu posto após a consciência primeira] à refletida [ou a de segundo grau] é a própria transcendência da consciência do objeto no mundo para o objeto em si, quase que indissolúveis . Portanto o “Eu” não está interiorizado antes desta consciência se dar, ele está fora do ser, por isso ele é transcendente. Mas ele é somente um objeto transcendente da consciência transcendental. Por isso que pode estar em comunhão com outros objetos. “O objeto é transcendente em relação às consciências que o apreende, e é nele, no objeto, que se encontra a unidade das consciências.” Ele [o Eu] propicia a atividade da consciência, mas ela [a consciência] enquanto passiva [ou “não posicional”] não necessita dele, pelo contrário, é o “Eu” quem necessita dela para ser construído pela mesma. Por isso ele não participa do primeiro grau de consciência, pois a consciência irrefletida não é ativa, mas são os objetos do mundo que ela “põe e apreende” ao mesmo tempo quem ocasiona a reflexão [da reflexiva] e não necessariamente o “Ego”, podendo este último, por ventura, participar das inter relações dos estados, das qualidades e das ações quando constitui a parte objetiva e espontânea “Mim” do ego, mas não a abstrata e dissimulada do “Eu”. Este último seria a unidade, representativa das consciências:

“O resultado não é duvidoso: enquanto eu lia, havia consciência do livro, do herói do romance, mas o Eu não habitava esta consciência, ela era apenas consciência não posicional dela mesma.”

Disso podemos concluir juntamente com o pensamento de Sartre na obra, que no primeiro grau da consciência não há um Eu, logo não é o Eu quem pensa ou percebe algo, mas sim a consciência que apreende e põe algo ao mesmo tempo por que “toda consciência é consciência de algo”. Seguramente ele se manifesta como a fonte da consciência, mas isto nos deveria levar a refletir: com efeito, ele aparece velado, mal distinto por meio da consciência, como uma pedra no fundo d’água, _ deste fato segue-se que ele é enganador, pois nós sabemos que nada, exceto a consciência, pode ser a fonte da consciência. Logo, o eu não estaria no mesmo plano de nenhuma das consciências, apesar de ser objeto delas, e também por isso, objeto de reflexão transcendente delas. E mesmo que ele apareça na consciência de primeiro grau, seria enquanto objeto, uma consciência da consciência do eu, por exemplo. Mesmo assim, ele ainda seria apenas a parte “Mim” do ego transcendente .

Ou seja, ela [a consciência, em específico a de primeiro grau] percebe e é algo ao mesmo tempo, daí que “ser e parecer não são senão um” , daí também a sua totalidade de pureza ou transcendência neste primeiro passo de compreensão ou, até, significação_ para formar este elo com o termo utilizado em “O que é literatura”, a significação na prosa também é um objeto por se mostrar direto à consciência irrefletida sem necessidade da ultrapassagem que a reflexão imediata faria sobre os signos, por exemplo. Sem maiores espontaneidades da primeira consciência, e sim reflexões mediadas pelo signo a fim de desvendar seja uma poesia, um quadro etc. Diferentemente na literatura que Sartre descreve, não há eu onde ocorre a leitura prosaica, há consciências, eis o engajamento da prosa no sujeito, eis sua transcendência. Pode-se investigar com maiores cuidados a relação que se dá entre como a prosa está para a consciência assim como o historicismo está para o Eu. Há passagens nos dois textos que nos auxiliam a ter tal impressão, principalmente por ambos serem de um mesmo autor, logo, fazerem parte de uma mesma filosofia:

“Quanto às significações, às verdades eternas, elas afirmam sua transcendência pelo fato que elas se dão desde que são independentes do tempo, enquanto a consciência que as apreende é, ao contrário, rigorosamente individualizada na duração.”

Dentro destas condições onde somos nós, seres humanos conscientes, quem “temporalizamos” ou permitimos a existência dos objetos por meio do tempo (e do espaço), onde se encontra o plano da reflexão, da individualidade após detectar a consciência já existente nas coisas, mas também enquanto nossa. Neste caso, a significação nesta passagem citada acima extraída de A Transcendência do Ego também é investigada em Que é a literatura? onde é aproximada à percepção, dá-se à linguagem um sentido sensível, inclusive muito parecido também com o fisiológico dado à consciência, no âmbito de serem os dois materializados: “Assim a linguagem: ela é nossa carapaça e nossas antenas, protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles, é um prolongamento dos nossos sentidos. Estamos na linguagem como em nosso corpo: nós a sentimos espontaneamente ultrapassando-a em direção a outros fins, tal como sentimos as nossas mãos e os nossos pés; percebemos a linguagem quando é o outro que a emprega, assim como percebemos os membros alheios.” Ou seja, a consciência reflexiva faz uma leitura de um objeto transcendental já existente: a consciência de algo. A correspondência que se dá no primeiro grau de consciência quando este apreende um objeto externo que não mais ele próprio, não mais a consciência de si, e reflexiona um segundo patamar refletido, pode ser equivalente à correspondência da prosa, escrita por alguém (externo), quando lida num encontro comum das letras escritas e da espontaneidade da leitura, encontro o qual é a própria prosa, e alcança a reflexão do leitor. Assim como a refletida age na irrefletida e também o objeto externo é apreendido por esta, o leitor age na prosa e também o autor é apreendido por ela.

“Quando dois homens, segundo esta concepção, falam de uma mesma cadeira, falam de uma mesma coisa, esta cadeira que se torna e levanta é a mesma que o outro vê, não há simples correspondência de imagens, há um único objeto.”

A prosa assim se dá como sendo um encontro e uma consumação materializada das reflexões. Consumação de uma consciência absoluta por meio da interação humana enquanto criadora de objetos, atos etc., num panorama aumentado e estendido projetor sobre o que se deu no indivíduo, ou no Ego. “Meu Eu, com efeito, não é mais certo para a consciência que o Eu de outros homens.” Mas no âmbito materializado dessa universalidade, por meio da linguagem enquanto código para a interação dessas consciências. O engajamento está também nisso: não somente na transcendência do eu nas coisas (em A Transcendência do Ego) ou no historicismo do leitor na obra (em O que é literatura?), mas inclusive na relação cingida pelas duas obras. Mesmo que as duas abranjam tanto o universal quanto o particular a fim de engajá-los, o sujeito e o objeto, elas não deixam de conter uma propriedade da existência (do ser) e da história (da temporalidade da escrita), respectivamente. Analogia que, atrevidamente, ainda se faz também ao paralelo de egoísmo e altruísmo como atuantes na consciência descrito por Sartre:

“É pois, contrariamente ao que se sustentou, sobre este plano que se coloca a vida egoísta e sobre o plano irrefletido que se coloca a vida impessoal (o que não quer naturalmente dizer que toda vida reflexiva é necessariamente egoísta nem toda vida irrefletida necessariamente altruísta).”

E conforme utilizado de todo o trecho para a citação, também se faz do relativismo exposto pelo filósofo, também o daqui citado. E é da liberdade de trânsito do ego pela consciência por meio da sua reflexão ou atividade, que se dá também essa relatividade, pois o Eu não necessariamente é somente um espelho do que se encontra fora da consciência como também pode ser posto nos objetos de acordo com a representação que possuir sobre a consciência , pode-se suprir a espontaneidade do primeiro grau de consciência de acordo com a liberdade destinada ao ideal de tal Ego, e é essa possibilidade que não faz do ser somente um objeto da consciência ou o contrário, a consciência um objeto do ser. Daí o seu universalizmo na liberdade. É desta briga, intitulada “angústia” por Sartre, que o filósofo condena o homem à liberdade, ou à possibilidade de mudanças, ou ainda, para além do que permanece como essência quando não por escolha, à existência. “A consciência assusta-se com sua própria espontaneidade porque ela a sente para além da liberdade.”

A liberdade é esta apropriação e também o estado próprio do homem. Ela se satisfaz da própria consciência espontânea ou mesmo se desfaz nela. E “quanto mais experimentamos a nossa liberdade, mais reconhecemos a do outro; quanto mais ele exige de nós, mais exigimos dele. ” Tal espontaneidade também é concretizada pela leitura de um livro, enquanto uma ultrapassagem da escolha individual para o engajamento com o mundo:

“O livro não serve à minha liberdade: ele a requisita. Com egfeito, não seria possível dirigir-se a uma liberdade enquanto tal pela coerção, pela fascinação ou pelas súplicas. Para atingi-la, há apenas um método: primeiro reconhecê-la, depois confiar nela; por fim, exigir dela um ato, em nome dela própria, isto é, em nome dessa confiança que depositamos nela. Assim, o livro não é, como a ferramenta, um meio que vise a algum fim: ele se propõe como fim para a liberdade do leitor.”

Como se percebe, o universalismo da liberdade no âmbito da literatura não deixa de ser um tanto quanto ideal, pois os valores, sejam psicológicos, históricos ou políticos, nem sempre permanecem ou seeternizam. Assim essa eternidade pode permanecer abstrata e acabar sem direção a quaisquer fim, a nada, daí o livro ser somente um meio. O argumento contra tal eternidade tradicionalizante nas obras é o fato de nunca haver como dizer tudo, mas somente como identificar-se com algo. Por meio de “palavras-chaves” na linguagem da prosa é que se dá a comunicação entre as duas consciências nela inserida, delas [palavras-chaves] o autor ativa a sabedoria reflexiva do leitor, mas a partir e por “meio” do que este último já posssui. “O meio é uma vis a tergo; o público, ao contrário, é uma expectativa , um vazio a preencher, uma aspiração, no sentido figurado e no próprio. Numa palavra, é o outro.” Porém não mais do autor enquanto sujeito e leitor, objeto. A transcendência realizada na prosa está exatamente onde ela propicia o encontro de consciências engajadas, para além de submissões ou superações, é a identidade, inclusive de liberdades. E é por este “meio” que revelam uma historicidade. Mas diferente do “eternismo” feito pela clássica tradição de “classificar”, ela é o presente da temporalidade, está “em situação”, assim como o primeiro grau de consciência:

“Escritura e leitura são as duas faces de um mesmo fato histórico, e a liberdade à qual o escritor nos incita não é uma pura consciência abstrata de ser livre. A liberdade não é, propriamente falando; ela se conquista numa situação histórica; cada livro propõe uma libertação concreta a partir de uma alienação particular.”

Sartre ainda argumenta mais sobre a liberdade do ser também enquanto causa, as coisas se dão devido a ela, e não o contrário, a natureza enquanto nos propiciando a liberdade. E esta mantém um diálogo direto com a realidade dos romances portadores de finalidades. É por meio da dialética entre autor e leitor formando um “pacto de generosidade” que tais confianças mútuas de liberdades se realizam . Para além da condição humana, o engajamento nem sempre se dá somente pela sua intenção de instituí-lo, literalmente, para o plano da reflexão do outro ou somente dissimular uma representação historicista. Sartre explica como se dá epistemologicamente o fato, na consciência irrefletida do outro: “Eu diria que um escritor é engajado quando trata de tomar a mais lúcida e integral consciência de ter embarcado, isto é, quando faz o engajamento passar, para si e para os outros, da espontaneidade imediata ao plano refletido.”

Portanto, mesmo com o intuito de universalização, o escrito sempre está encarcerado a sua história, e a sua própria presença quando lida já é a historicidade. Pois ao escrever para o público, ele parte de uma representação particular que possui sobre este ou sobre si, logo tal objetividade não se realiza abstratamente mas pela comunhão de unidades particulares. A prosa é condenada a esta comunhão que consome as liberdades, seja na repulsa ou na admiração que se tem do autor, de acordo com a utilidade dele perante o público, utilidade que abrange também a necessidade de mudanças na representação social criada não somente pelo autor como também pela sociedade. Pois tal comunhão é a reação, a mudança, benéfica ou não, que a literatura incontestavelmente provoca, pelo fato de ser um objeto transcendente, não há como assumir essa relação de forças a qual é nomeada como negatividade, no sentido de pôr-se frente a uma realidade, seja contrariamente seja “gratuitamente”, a escrita sempre propicia movimento de mudanças. “Pois a passagem ao mediato, que só pode ocorrer pela negação do imediato, é uma revolução permanente.”

O existencialismo implícito nesta afirmação de exigência inerente ao sentido literário de presente modificação, traz uma explicação para a representação do escritor também enquanto existencialista. “Nomear é mostrar e mostrar é mudar.” Pois este [o escritor] encontra-se num patamar de oposição mesmo quando não contraria a sociedade, agindo como próprio espelho dela e permitindo que a mesma encare-se de frente, Sartre argumenta que tal representação de si, no caso da sociedade, já a tomaria enquanto uma dissimulação, assim como quando o Ego age sobre a consciência. E esta representação, boa ou ruim no ponto de vista do leitor, quando “em situação”, presentemente registrada, eis o historicismo. Aí está mais uma semelhança entre as filosofias nos dois textos. E o historicismo, assim como o ego, não se apóia nesta representação do senso comum tradicional e eternizado do ser, ou da sociedade, respectivamente. Ambos possuem uma universalidade (do ser ou do social) que não é sinônimo nem da História (enquanto registro crítico etc.), nem do sujeito (enquanto autônomo e somente subjetivo). Mas são, ambos, tanto o ser quanto a sociedade, constituídos de identidades objetivas com o mundo real.

“ Assim, a história se faz explicativa: busca produzir, a partir de um exemplo, uma lei psicológica. Uma lei, ou como diz Hegel, a imagem calma da mudança. E a própria mudança, isto é, o aspecto individual do caso, não é também uma aparência? Na medida em que se explica, o efeito inteiro fica reduzido à causa inteira, o inopinado ao esperado e o novo ao antigo. O narrador realiza sobre o fato humano aquele trabalho que, segundo Meyerson, o pesquisador do século XIX realizou sobre o fato científico: reduz a diversidade à identidade.”

Ao instituir tais finalidades à estética, a fim de lhe atribuir um valor transcendente naturalmente exigido por essa associação da liberdade do autor com a do leitor, o filósofo se insere no patamar universal de sua prática proposta, para não dizer método ou moral. Mas não enquanto algo alienado de compromissos, muito pelo contrário, o autor chega em tais conclusões depois de sua pesquisa sobre a intencionalidade na obra, e não partindo de alguma tese a qual queira somente comprová-la. Esse comprometimento moral o qual exerce já o é, inclusive, próprio das intenções as quais desvenda sobre a escrita. Não seria coerente permanecer imparcial frente a determinado assunto tão estreitamente distanciado de sua pessoa enquanto filósofo. Pois “escrever é uma certa maneira de desejar a liberdade; tendo começado, de bom grado ou à força você estará engajado.” Sartre afirma a impossibilidade de se manter neutro num romance, ou não apelar a uma escolha para o leitor, não haveria como não possuir uma intenção em tal escolha de utilizar-se do efeito das letras enquanto objeto transcendente para alcançar a liberdade do outro. Independente de como tais efeitos sobre este pedido de votação ou confiança se manifeste, seja por repulsa ou por correspondência: “… o amor generoso é promessa de manter, e a indignação generosa é promessa de mudar, e a indignação é promessa de imitar; é certo que a literatura é uma coisa e a moral é outra bem diferente, mas no fundo do imperativo estético discernimos o imperativo moral. Pois como também aquele que escreve reconhece, pelo próprio fato de se dar ao trabalho de escrever, a liberdade de seus leitores, e como aquele que lê, pelo simples fato de abrir o livro, reconhece a liberdade do escritor, a obra de arte, vista de qualquer ângulo, é um ato de confiança na liberdade dos homens.” Com essa demonstração de proposta para a efetivação das relações entre a liberdade dos seres por meio da linguagem, pode se constatar a sua intenção política de aplicar a sua filosofia nesta obra, de solidarizar harmonicamente a dialética entre as consciências, propagando a transcendência do ego para além do indivíduo, a uma organização social.

“Se nos lembrarmos de que a festa, como bem mostrou Caillois, é um desses momentos negativos em que a coletividade consome os bens que acumulou, viola as leis da sua moral, gasta pelo prazer de gastar, destrói pelo prazer de destruir, veremos que a literatura do séuclo XIX foi, à margem de uma sociedade laboriosa que tinha a mística da poupança, uma grande festa suntuosa e fúnebre, um convite à arder numa imoralidade esplêndida, no fogo das paixões, até a morte.”


Bibliografia:

SARTRE, J. Paul. A Transcendência do Ego. Trad. do Prof. Alexandre Carrasco.

SARTRE, J. Paul. Que é literatura? São Paulo: Ática, 1989.

Fantasiados de Brasil

Fantasiados de Brasil

Nesse miscigenado conjunto de diversidades oferecidas pela amplitude de nossa cultura, surge a forte estampa pintada de “Imagem e semelhança” que a publicidade colore reluzente nos olhos do utópico perfil brasileiro.

A cada clichê comprado, como “A primeira impressão é a que fica”; “Os feios que me perdoem, mas beleza é fundamental”; “Modelo Gisele Büchen” etc., o valor essencial dos conteúdos fica cada vez mais barato e vendido ao estereótipo do ser quantitativo apenas.

Porém não seria a falta de qualidade em tais tendências, mas o excessivo oferecimento e propagação destas. Isto abrange não só o consumo como também a mídia, que gradativamente ofuscam o supérfluo enquanto deixam as informações de importância no escanteio. Achamos exemplos disto em qualquer reflexo de minorias informadas comparada à maiorias disfarçadas em aparência. O que acontece na maioria dos programas públicos de televisão, computador, revistas etc. Dificilmente uma clínica para anoréxicos é tão anunciada quanto um “SPA”.

O vício em adotar tantas idealizações de beleza e de atualidades, corresponder à cada moda vestuária, à cada carro em lançamento, pode não ser tão generoso e inofensivo quanto parece e gerar muita carência do que não se é, de fato. O interlúdio entre a roupa e a saúde, pois o que cabe naquela é o formato do corpo. Despreocupa-se com a saúde, com a essência do ser. Por ser bem menor e, mais justa, aproveita-se mais da roupa do que da vida.

Adequamo-nos ao mostrado, continuamos correspondentes à generosidade brasileira, desde o seu nascimento. Talvez este seja mesmo o essencial do Brasil, vender-se por muito barato, ser praticamente prostituído e não tirar a cor de suas fantasias carnavalescas para jamais prestar atenção no seu próprio avesso.

Narrativa sobre Yerma, de Garcia Lorca

Primeiro, é preciso contar das montanhas e dos gados rodeando aquele campo de homens que cuidavam da colheita nas terras. Alimentados de tudo o que traziam suas mulheres: comida e alegria. Elas deviam sustentá-los, incansavelmente. E a casada Yerma também, não cansava.

Yerma fazia de tudo para satisfazer seu marido, Juan. Procurava consumar o seu casamento o mais integralmente possível, conforme aprendeu na sua educação com seus pais. Queria passar esse exemplo também para seus filhos...

Mas Juan não respondia dessa forma. Ele esperava o fruto da terra. Ela, esperava o fruto do casamento. Yerma precisava de um filho, era a meta de sua felicidade. E até enxergava tudo contra si mesma, pressupondo sua falta. Enquanto via a maioria das mulheres tendo seus bebês, ela dedicava o resto de tempo que tinha, também para aguardar o seu.

Começava a pulsar nela um certo apavoramento, mesmo silencioso, ao sentir a força da vida que Vitor, o pastor amigo da família, tanto possuía em relação àquela morbidez de seu marido. Afobada, sai atrás de alguém mais velho que a fizesse entender esses motivos, dos quais ela mesma se indignava. Mas as mulheres mais velhas não davam-lhe respostas, davam ainda mais perguntas, mais perturbações. E essas inquietações continuaram refletindo sua casa e seu marido.

Seu comportamento passou a transparecer tanto a ponto das pessoas perceberem, principalmente aquelas que faziam questão de perceber, e que faziam questão de observar, e que faziam questão de reparar ao máximo possível da vida dos outros para noticiar ao máximo possível de pessoas nas ocasiões não tão máximas propícias assim, à tais comentários... Um lugar como a beira do rio, por exemplo! Onde os cochichos dessas lavadeiras se confundem com a água escorrendo. Aproveitavam-se disso para jogarem suas palavras ao barulho.

Mas nem todas que freqüentam esse riacho gostam muito de falar sobre a casada. Há quem goste de cuidar da vida de Yerma de uma outra maneira, quem pareça até ter certa surdez diante todo aquele barulho, especificamente as duas cunhadas. Preocupam-se em cumprir suas próprias leis de castidade pecando ainda mais. Degustam a própria honra e devoram seus gritos abafados por dentro onde apenas seus corpos os ouvem e as bocas, emudecem. São o melhor exemplo do que seria uma plena mulher, para Juan.

E a não chegada do filho se habita no ser de Yerma. Quanto mais ela convive com a alegria dos filhos de amigas tão próximo à ela, mais distancia-se dessa alegria. Quanto mais ela quer, menos tem o que fazer, como própria desgraça. Seu filho vai crescendo no coração, e não no útero.

Ela tem alucinações pelo filho por meio da luz que vê em Vitor. Mas Juan a escurece por tratá-la como uma lua em ação: distante, em vigia e minguando sempre após crescer, condenada pelo passar de seu próprio tempo. Aumenta e diminui-se enquanto bomba aquela explosão jamais sucedida. Asssim como uma bomba, de contagem infinitamente ‘progressiva’.

Então, desteme sua desgraça. Instala-se como sendo a sua própria desgraça. Por querer apenas, e mais nada. Vai em busca de sua cura. A Romaria, lugar onde reza e faz-se de tudo para ter filhos, será seu antídoto e sua última fé. Deposita-se nas rezas de Dolores, a milagreira. E no meio desse lugar, onde o prazer não é dor, nem a orgia, difamação, o importante é acreditar na vinda do filho; seja pelo sexo, seja pelas orações. Mas Yerma recusa envolver-se com outrem além de Juan. Mesmo ele sendo muitas vezes duvidoso da sua honestidade. Jamais trairia seu ofício de mulher: casada e, mãe...

E nessa perseguição doentia por cada passo de sua mulher, escondido por trás da Romaria, Juan é convencido pela fidelidade de Yerma ao ouvir seu repudio a outro homem, filho que a velha Pagã lhe oferece. Ele então descobre-se, desvendando suas vontades e desejos enrustidos à ela. A ponto de deixar revelada a sua esterilidade e, com efeito, ela certifica-se de tal fato e rejeita Juan. Engole o sabor seco. Mas acaba por vomitar esse veneno. E isto sai de dentro dela em forma de ódio refletido no impacto de suas mãos avançadas bruscamente ao pescoço do marido, sufocando-o violentamente.

Conta outra

CONTA OUTRA


Prólogo

Onde o que parece não é,
onde leiloam-se máquinas de exibições à mídia.
Onde a amizade tem preço porque é barata de mais.
Onde ninguém conta o que é, mas o que precisa ser.
Onde fala-se muito e esconde-se muito.
Porque o falado não é o fato. Não é o vivido.
É simplesmente o mostrado. O querido.
O bem acabado. O distinto. Ilustre ilustrado...
Aparências: o pousado. Que aterrissou em nós.
O (somente) falado. O exterminador de atitudes. Hipnotizador das reações.
O telefone?: caro, pq o amigo custa dinheiro.
O ônibus?: cronometrado, pq a pessoa custa o tempo da integração.
O pc?: contaminado, e gripe é que nunca foi doença!
As oportunidades são de todas as pessoas
mas são virtualmente ilusórias.
Presenteamos o futuro com os nossos ganhos.
Mas os presentes não existem ou jamais o receberemos.


Notas:

Mas, de algum jeito conta... (a peça será escrita com letra de carta, de preferência expostas nas cenas.)



Conta:

Sobre as relações humanas e as circunstâncias em mantê-las:
1º: o $ como influencia da distância. Logo, influencia da proximidade do amor.
2º: Sobre a revolução virtual: a falta de atitude, alta dependência tecnológica.

O universo de ligação entre esses escritos terá de ser no âmbito capitalista. Mostrar a maneira como nos está entranhado hoje. Escrever de forma experimental e/ou absurda.



CONTA OUTRA

1º Ato:

Desta peça pode-se fazer tanto na íntegra e na presente ordem de cenas, com as rubricas também como parte da fala do texto, ou fragmentado pelas cenas em outra ordem, sem o uso das rubricas ditas em cena.

Todos os atores têm função de narradores, exceto a árvore. É recomendado um grande número de atores-narradores, com a idéia de não haver repetição destes.

Uma cena: (A cortina abre e a primeira cena é muda e parada. Composta apenas pela árvore vestida no centro do palco.)

Outra cena: (nesta cena, o primeiro narrador é uma gravação, ele não aparece em cena.)

Voz em off _ Eis uma árvore, com seu tronco num glamouroso formato. Está cheia de luzes sobre ela e bem no centro das atenções. É uma iluminação que a define bem por deixá-la com esta cor toda artificial. Ela usa colares e pulseiras da última moda em seus galhos. Bem vestida de brincos enormes pendurados nas suas folhas e uma roupa que lhe caia bem, um vestido, por exemplo. Ah!E, se precisar, sapatos (altos, é claro...). E mesmo prestes a acabar tal cena, ela continua fazendo sua pose ali, toda paralisada como uma boneca, sem dizer nada. O foco da cena é apenas dela. Ela gosta muito de aparecer.

Outra cena: (aparece um ator, que ri ao ver a árvore)

Ator_ (caçoando) Ei, já é Natal? (sai da cena)

Outra cena: (voz ainda em off)

Narrador_ Na próxima cena, a árvore inocentemente me pergunta se já é Natal. Por causa daquele Papai Noel que lhe fez tal pergunta. Eu respondo-lhe: “_ Senhorita, mas eu não posso saber quando é e nem quando será o Natal, me desculpe...(e como quem a ouvisse) _Ah, festa?Não, não é necessário o Natal pra haver festas, senhorita!A senhorita deseja uma festa?Então eu toco uma música, e pronto! A senhorita faz a sua festa...(narrador põe marchinha de carnaval pra tocar) Agora já tem-se o seu Natal.”

(Continuam em cena a árvore e a música.)

Outra cena: (Minutos depois entra uma atriz sambando disparada.)

(O narrador agora entra aparecendo no palco)

Narrador (à árvore)_ É melhor a senhorita árvore parar de dançar ou se cansará muito, e até pode cair seus cabelos e ficar careca!

Atriz_ Eu concordo!Você quer aparecer demais dançando assim, desse jeito rebolado... Sai do meio, por favor?(a atriz empurra a árvore até o canto do palco)E pare de me empurrar!Olha que eu chamo a polícia... (a atriz pega a bolsa que está pendurada na árvore e sofre um susto como se tivesse sendo roubada)Mas o que é isso?Devolve agora a minha bolsa, agora!( a atriz tira um celular da bolsa q está em sua mão)Meu celular!Ela pegou o meu celular!Quer fazer o favor de dar o meu celular?(a própria atriz é quem repõe o celular na bolsa e devolve-a pra árvore, de quem a atriz mesma havia pego) Hum, bom mesmo...

Narrador_ Mas a atriz não chama a polícia...

Atriz_ Pronto, já chamei a polícia pra vim aqui te prender, sua espertinha!(mas ela realmente não chama)

Narrador_ E assim, a polícia não chega...

Atriz_ Ah!Mas que eficiência, a polícia já chegou, estão vendo!(narrando) E assim a polícia leva a árvore embora... (mas é a atriz quem sai, enquanto fala esta última frase)

Outra cena: (Entra um ator trajado especialmente de padre, ou de outro caráter religioso)

Ator trajado_ (para o narrador) O senhor ouviu as suas preces!Ouvimos o seu clamor pela polícia e trouxemos a sua salvação!Viemos buscar-te... Rumo aos céus!Rumo à polícia!Rumo aos céus’s centers !

Outro narrador ou rubrica_ (Mas quem o padre leva p/ fora de cena é o narrador e a árvore permanece.)

Narrador ou rubrica: (Esta última rubrica já está sendo narrada, em off, por outro narrador.)

Outra cena:

Narrador: A árvore está sozinha.

(Entra mais um ator/atriz)

Ator/atriz_ (entra rápido e pára a mão na árvore dirigindo-se também à ela) _ Calma, calma!P/ que a pressa?Não precisa chegar, vc já abandonou muita gente com toda essa rapidez. Aposto que no próximo lugar irá, não haverá velhos amigos...Possivelmente, esta pobre criatura não tenha amigos, por não ligar p/ eles, não é?

(pega o celular da bolsa da árvore e dá p/ própria árvore)Toma, pode ligar do meu. (como se ouvisse uma resposta) Não eu sei, eu sei... Mas mesmo assim, nem a conta do telefone de paga o preço dos velhos e bons amigos! Pra eles sim, volte o mais rápido possível! Antes mesmo de acabar as duas horas toleráveis para a integração gratuita nos transportes coletivos... Economize o seu...tempo!( ator/atriz vai saindo e falando) Pode ir, eu ficarei por aqui mesmo abandonado/a, mas sem problemas, não se preocupe!Eu não tenho pressa, sou um vírus, parasita, dependente de um corpo celular pra se desenvolver! (sai e volta) Mesmo assim, espera vai... Não me leve para junto de seus tranqueiros, a contaminação virumana é tão mais perigosa quanto um computador ordenado como nós, não leve isso adiante, (contraditório à fala, vai saindo do palco) fiquemos por aqui...

(ator/atriz sai. Somente árvore em cena)

Narrador_ Senhorita, o Natal!Venha comigo, vamos buscá-lo!

Pano

Até que a morte nos separe

exercício de dramaturgia proposto:

prot: Mulher que trai o marido pega em flagra com outro, cujo é o caso do marido, tenta explicar e fazer as pazes c/ o marido.
escudeiro: Marido q a segue, não a perdoa não pelo fato d o ter traído, mas sim por ter tido um caso c/ o seu amante!
Antagonista: É o amante que logo quando vê o marido dela, corre p/ os braços dele ao invés de amparar a mulher.
Cena:

(O marido vai até o motel e dá de cara com a esposa e seu amante.)

Amante: Você? Mas, o que faz aqui?

Marido: Eu quem devia estar fazendo esta pergunta! Não é possível ver isso, não tenho mais nada pra fazer aqui, já vi o que queria ver. Eu não consigo mais olhar para a cara de nenhum de vocês dois.

Esposa: Calma! Espera, você precisa me ouvir, eu...

Marido: Não, não é você quem me deve satisfações.

Esposa: Claro que sou eu, sempre tentei te dizer o quanto eu não gostava dessa história de casal, foi uma falha minha ter me casado com você só porque eu te amava, e não porque eu seria fiel a você, mas você nunca me deixava falar, nem sequer agora que viu com seus próprios olhos, mesmo assim não quer me ouvir.

Amante: Você nunca me contou que era casado!

Marido: Então estamos empatados, você também não me disse que saía com outra.

Esposa: Vocês se conhecem?

Amante: Pergunte ao seu marido. Ele precisa te dizer algo, não eu.

Marido: Estou sem palavras agora, vamos pra casa, e lá, sozinhos, conversamos. Não tenho mais o que fazer aqui.

Amante: Não?

Esposa: Não vou a lugar algum sem antes saber o que está acontecendo aqui. Agora quem quer explicações sou eu.

Marido: Não quero te contar na frente dele.

Amante: Pra ela você até pode continuar a se esconder por trás dessa novelinha barata. Mas eu já cansei de ser enganado por seus capítulos. Qual é o próximo?Além de casado, você tem filhos também?

Esposa: (ao marido) Mas como assim? Eu não posso compreender isso, querido. (ao amante) Do que você sabe, e por que nem me disse?

Amante: Porque se eu soubesse quem era o seu marido, eu não teria tido um caso com ele!

Marido: Então você me traiu duas vezes, por traí-la também.

Amante: Você também foi desonesto. Aqui, ninguém sabia de nada. Mas a sua mulher pode explicar melhor pra você o que ela e eu tivemos juntos.

Esposa: Explicar?Como assim, eu explicar?Explicar, só se for pelo dinheiro que eu colocava na cueca desse rapaz, que por sinal nem era meu, era o seu, pra poder explicar qual era a desse garotinho de programa enquanto estava comigo! Eu não sei mais o que pensar de vocês dois... Muito menos de mim, pois já poderia ter te traído há muito tempo, ou melhor, nem era pra eu ter me casado com você! Bem que eu desconfiava dessa tal honestidade... Mas não vou vitimar a minha própria ignorância, com hipocrisia, como você fez comigo. Você traiu a si mesmo. Não vou julgá-los, não tenho mais o que fazer aqui.

Marido: Mas eu ainda quero ficar do seu lado. E isso é verdade!

Amante: Verdade pra quem? Só pra ela, ou serve pra mim também?

Esposa: Pra mim não serve mais. Nenhum dos dois. E se precisar continuar mantendo a farsa de ser casado comigo, tudo bem. Assim, ninguém precisa ficar sabendo quem traiu quem. Mas fique claro que pra mim já acabou, vocês podem servirem de si mesmos à vontade, desde que assumam a conta do motel.

O PRESENTE PARA A CRIANÇA

A idealização de um mundo melhor tão almejado pelos adultos que depositam suas próprias cobranças não realizadas no futuro das crianças, compromete-as de algo que não lhes é de direito ou tão pouco de dever. Suas infâncias expiram neste compromisso imposto cada vez mais precocemente conforme o evoluir das gerações.

Avanços no desenvolvimento de aspectos variados deturpa cada vez mais a ingenuidade de meninos cujos pensamentos realmente acabam sendo obrigados a amadurecer mais depressa. O acesso ao mundo virtual trouxe a "internet" como um exemplo da liberdade imposta a um jovem com qualquer idade poder assumi-la nos dias de hoje. Assim como a relação vivenciada dentro de um lar também pode influenciar suas responsabilidades, como a de decidir entre o pai ou a mãe quando se separam, como frequentemente acontece.

Não só estes fatos mas outros ainda mais graves como a agressão feita por um aluno a uma professora, cuja intenção desta última seria dar o respectivo "mundo melhor". O caso deve ter chocado inúmeras famílias e escolas, inclusive aquelas que pouco se preocupam com a melhoria da educação, do carinho e dos direitos que uma criança deve ter.

Não cabem às crianças serem o nosso futuro e sim a nós, adultos e que já possuímos responsabilidades e atitudes consideráveis para modificar uma situação, sermos o presente delas. Para que assumamos uma posição presente, de propiciar educação, conforto e estabilidade que merecem. Elas não necessariamente precisam participar de tamanhas decisões para que suas brincadeiras de roda não se percam no meio do caos que as deixamos depararem quando chegam ao mundo.

Contadores do tempo

Num dia imparcial aos outros, continuávamos os três no meu aconchego: o amigo de infância Breno, o tédio e eu parados por ali mesmo até a tal síndrome fenecer. Uma hora depois de jogados muitos passa-tempo desses como filmes, jogos-da-velha e pontinhos alinhados, aquelas linhas de caderno talvez embaralharam meu fiel amigo que reagia e me informava ou formava a respectiva história, na qual relatada por aqui, não deixará de ser uma história falsa ou não, mas que foi testemunhada pelos meus ouvidos.

_ Monotonia percebida por mim apenas hoje_ dizia ele_ tal que me fez lembrar de um grande sono sentido por mim há anos quando fui visitar um parente meu, um velho desalinhado e doente, já falecido. Sono sim, pois o velho Abelardo havia desembestado a palavrear regras mais velhas que a própria regra. Todo poderoso parece que tinha feitiço nos olhos e braços na boca. Porque me contou a sua grande história de vida em dez intermináveis minutos dos quais, entretanto, jamais poderei esquecer. Contava sobre ele mesmo: o velho do jogo se projetou em tudo o que já se viu e se falou.

Bonito era o jeito que Breno, o da infância, contava-me. Diante dos ditos únicos dez minutos presenciados por ele, eu ainda teria mais ou menos uma tarde inteira pela frente pra distrair a agitação e me encostar naquela mesma história. O desafio indagado a ele e a mim mesmo foi se eu também teria a mesma recordação e ainda por cima a crueldade de contá-la a alguém. Pois aqui também estou a me sentir no modo bonito, e vou conforme o meu amigo, referir ao defunto:

_ Mas minha cara _ já começo narrando a primeira interrupção feita pelo meu amigo _ só entenderás porque o homem me foi tão apaixonado nas palavras nostalgicamente narradas, depois de também contá-las à alguém.

“Porque a visão obtida numa maquete chegou a ser minúscula quando comparada com a panorâmica do local onde ocorreu a história escolhida. Largo era o olhar porque a cidade era pequena. Entre duas cidades, quase inseparáveis de tão justas, conseguíamos distinguir apenas porque Gruta era menos povoada que Santos Dummont. Mas ainda existia a imperceptível divisa pertencente a um grupo máximo de nove casas, de tamanho no mesmo padrão, onde apenas uma se destacava neste aspecto por ser bem maior do que as outras e abandonada. Nela nos escondemos durante todo tempo que brincamos por aquelas redondezas. Redondezas se reduz ao único meado de espaço duma estrada de terra onde podíamos correr à vontade e depois entrar na casa vazia. Ou até ao andarmos sozinhos a mirabolar contos de desafios heróicos inventados para incrementar o nosso temor por um súbito matagal ainda não explorado que ficava entre a estrada, na transição das cidades.

Tínhamos uma média de sete a nove anos, sendo três os mais jovens: a pequenina grudada no seu irmão Ivodênis, e mais dois espoletas também irmãos. Havia o primogênito destes últimos, já com oito anos, não tomava conta deles. Então era Corina, de seis anos, quem mais os distraía e os protegia dos maiores, e claro, aproveitava-se para ganhar força com tal desculpa de zeladora para também se defender, principalmente de mim, o mais levado de todos. Pudera, pois eu era o único que tinha dez anos na turma, e isto mais do que bastava para ter o direito de cobrar respeito, adulação e até explorar dos meninos.

As crianças respeitavam, acreditavam nos números da idade por não terem muitos. E no começo, cada ano era tão diferente e descobridor que estar mais avançado neles era, de fato, uma vantagem. Mas eu os enxergava mais como objeto de conseguir cada vez mais benefícios por cima da idade. Passei a usar tanto este argumento que meus olhos realmente envelheciam mais rápido, avancei na frente dos meus dez anos a ganhá-los a fora de quem também já os tinha. Assim crescia, colhia mais depressa, crescia quando repetia isso para meus amigos e quando o poder de minha precocidade aumentava. Conseguia ter até vinte anos dentro dos meus próprios dez e isso já bastava para me resultarem como se fossem contados como trinta. Não corria mais junto com os colegas. Só queria me enfurnar naquela velha casa da rua e meditar sobre as próximas aventuras. Pois tinha de continuar sendo bem ouvido pelos garotos. Mas Corina se fazia de ouvinte para não ser amolada tanto pelos repetidos convencimentos, quanto pelos elogios de colegas feitos a mim. Ela sabia que como conseqüência de sua possível repugnância, viria contrariedades a ela, causaria assim tumulto pra si mesma. Então ouvia.”

_ Mas imagino, Breno _ agora foi a vez da minha interrupção _ que Corina não o desdizia não por ser covarde, mas sim incapaz de o fazer seja por amor à ele, ou por outro sentimento de compaixão. Culpa, não medo.

Mas Breno não deu importância ao meu comentário e continuou a narrar a história do sujeito:

_ Ele podia dizer e desdizer as coisas, era o líder nas brincadeiras e ninguém ria se por ventura tombasse aqui ou acolá. Praticamente uma miniatura de Sócrates, dava as regras de todo o comportamento, briga ou malícia em jogos de esperteza. Uma vez foi apelidado por ela que, no fundo até admirava o poder de persuasão dele, de ‘garoto nota dez’. E, sem perceber o cinismo contido naquele apelido, foi o que ele adotou para as próximas linhas de sua vida.

Passado alguns anos, continuava com a auto-estima miraculosa e intacta. Não deteriorava sua impecável determinação nem nas horas de difíceis adaptações, como quando tinha de ir à Gruta e conversar com pessoas desconhecidas, desconhecidas de sua fama radiante e ter de lhe dar com elas de acordo como elas reagiam, e não como ele queria que reagissem. Mas isto até o inspirava ao modo de agir nas provas escolares de Santos Dummont, onde nunca teve dificuldades. Assim como nas atitudes diante dos pais, das festinhas quando para agradar garotas, Abelardo conseguia lhe dar com qualquer tipo de situação. Fazia o possível para isso, dobrava-se em dois ou em dez.

Gostava disso, sentia-se menos entediado com tamanha reversão de identidades. Num lugar pacato como aquele, com a mesma cara, fazer-se de diversos, filho obediente, de garanhão ou de estudioso, já era uma diversão. Cada vez mais mutável e mais diversificável ele a desenvolvia. Tanto que passou a se interessar por mágica, provavelmente por ter esse leque de cartas escondido na manga. Mudou até o próprio jeito de enfatizar a sua pessoa, antes atraída pelas qualidades, agora pelo talento de mágico e seus shows surpreendentes pela vizinhança.

Logo sua fama espalhou nas cidades vizinhas e se dopava com aquilo, a cura, para o seu próprio espanto, como um remédio para o tédio popular. Conduzido pelas facetas de onde adorava se enganar, ele mesmo foi tomando consciência do quão era vazio continuar no disfarce de sua própria vida. Pois percebido isso, era não mais esconder-se de si. Chegado ao ponto onde o efeito não o adulava mais, conseguiu ainda partir para mais uma saída pra nova rotina: a crise.

Logo, não deixava que a continuidade das coisas o pegasse de jeito inusitado a atolar-se em vãos de enjôos. Fez-se até de melancolias e plumas existenciais para sua própria felicidade. A paranóica vontade em se metamorfosear o levou a um desejo mágico de imortalidade o qual estudava minuciosamente sobre, caso que também o levou a ser um intelectual sobre medicina e biologia. Livros diversos levavam o eterno jovem a falar cada vez mais sobre a vida.

Acontecido o já esperado, quando já cansara do tema onde extremava-se tanto na teoria quanto na prática do viver, esgotou-se dos conhecimentos. Não se apegava a nenhum vício que o levasse a uma estabilidade. Encheu-se de querer conhecer todas as coisas, o ser e até a morte que já questionara dentro das suas medicinais palestras sempre na tentativa de diversificar. Procurou por vícios concretos para que houvesse algo mais em que pudesse se apoiar. Comprovou a existência deles, mesmo assim nenhuma das químicas consumidas tinha o mesmo efeito de dependência progressiva para ele, talvez porque desde o começo também já as levava mais como um fator provisoriamente distrativo.

Estava tão bem de vida financeiramente que aceitou facilmente a solidão natural de seu interesse por nada e pôde construir uma jornada tão satisfatória e feliz a ponto de novamente não ter mais como escapar da fantasia que aquilo tudo lhe parecia. Tanto ceticismo o levou até a querer amar, uma forma de anulação. Como nem os bichos da casa não o cobriam mais como antes, trocou de empregada. Pois com um tempo, a anterior tornara-se bonita demais e ele não via mais ousadia naquela beleza imposta pelos dias contínuos a vendo.

A nova não era feia, mas ele teimava consigo mesmo o contrário para que conseguisse se desculpar por detrás do diferencial que vira naquele rosto tão comum, vazio e mesmo. Deu-se um grande amor entre eles. Até porque nem sempre era grande, às vezes sutilezas de amigos, brigas fraternas ou intesidades carnais variavam nas trocas dos respectivos substantivos e adjetivos formando uma grande atmosfera do amor dos dois. Algo que não era amor o havia fisgado. Várias vezes repetia essa frase pra si mesmo e perdurara o relacionamento com tal esperança de mais novas descobertas.

Anos mais tarde os dois aposentaram num lugar mais deserto, mais reservado e sem novidades. Ele não era mais jovem. Desconfio que esta fora a única mudança que de fato teve durante a estória. Não queria mais caçar surpresas e experimentar gostos. Parou de parar com as coisas, como numa suspensão. Estavam no meio do mato agora e ainda se desejavam. Mas por uma conseqüência do amor vivido, ele teve de trair a mulher numa determinada ocasião onde a traição lhe fora necessário para a preservação do seu casamento.

Daí reconheceu a magia da plena vivacidade do rejuvenescimento. Inspirou-lhe a lembrança de suas vontades originais e tornou-se definidamente triste por isso. Ainda era escravo de tudo aquilo que perseguira a sua vida inteira. Quis se matar, para romper tal barreira, mas concluiu que isso também seria uma forma de vontade e transformação, e, por isso, da ininterrupta covardia em não exterminar sua falha trágica, e apenas adiantá-la. Não queria satisfazer seu conformismo para que não tornasse a acabá-lo novamente. Sabia que podia aceitar a situação e continuar daquele jeito raso, nem bom nem ruim.

Na cama por muitos dias, quieto, a mulher compreensivamente cuidava dele. A falta de doença ou dores o consumia tanto a ponto de cansá-lo por isso. Somente a presença dela conseguia remediar por lembrar o marido culpado, a traição o acalmava um pouco. Mas de qualquer jeito ele havia de adoecer: ou de remorso, ou de fartura. Não demorou muito pra o dia acontecer.

Foi ali mesmo na cama onde me contou toda essa labuta a qual eu mal dava ouvidos, que me peguei como se tivesse interagindo com uma tábua. Nem terminado tal impressão, Abelardo continuava a atropelar meus pensamentos sem ouvir minhas expressões:

_ “E foi quando enfim meu corpo desejou primeiro do que os meus olhos. Tive de estar aqui parado durante meses a avaliar o novo estado. Aqui cerrei o movimento das flechas lançadas pelos olhos delimitados a não ultrapassar as paredes e a mobília do quarto. Aqui consigo mover para o mesmo lugar e passar por mesmos acontecimentos sem problema algum. Condicionado à cama, ela tornou minha aba e não reclamo. Provoco-me em cima da cama, sem poder levantar, é o desejado justamente por nunca ter conseguido querer isto.”

Diante das palavras prosseguidas por Breno, eu me correspondia não com a história, mas pelo mesmo estado descrito por ele quando ouvinte do velho, o de aturar toda a chatice de uma simples e vã experiência contada. Mesmo quando me desinteressei e quis parar de ouvi-lo, Breno não atendia meu clamor:

_ Como esse intervalo sedento já te envelhece, Breno!

Pareciam passadas infinitas horas de besteiras camufladas em besteiras e aquele moço de frente com o meu sono tornara-se um velho tal qual o da sua história, parado. Mais lento que o relógio contado agora com tão notável rapidez. Depois de não depender mais do esperado preenchimento para aquele vazio espaçoso de antes a ponto de eu nem reconhecer mais o meu próprio quarto. Explicava isso por estar além do que os segundos pudessem fazer naqueles instantes destinados ao patamar de onde meu amigo encontrava se estendendo na longa história. Diria que propositalmente, para despertar qualquer vestígio de uma suposta curiosidade ainda almejada por ele na ânsia de condicioná-la à minha irritação. Então continuava:

_ O doente então não abusava mais dos olhos, via só o que queria, repunha o olhar por palavras inexistentes ou ouvia mais do que sons concretos. Quanto a imaginação, agora também a traduzia ao próprio ouvido e passou, inclusive, a ouvir e falar com mais clareza, pois falava o que quisesse e ouvia quando quisesse.

Gostou de estar louco para os outros, parentes, esposa e amigos, como eu, que o visitavam. O mais falado por ele era o matagal inexplorável reconhecido na infância, mas já não dizia sobre suas heróicas aventuras vividas inventavelmente ali dentro, falava apenas sobre a sua distância, e delirava no prazer que há anos não sentia. O prazer de contemplar o próprio prazer e não mais ser dependente dele. Agora estava, mais velho, especificamente mais velho, agora estava brincando de contemplar e tudo o entusiasmava. Não tinha mais dez anos e qualquer coisa era única e última. Continuava a ter mais nada a não ser anos de idade.

Depois de terminada a história, ainda jogamos mais algumas fora e, findado o das conversas, continuamos ali a memorar um próximo jogo possível para passar o tempo.

ANÁLISE ESTÉTICA DO ESPETÁCULO: “ QUARTO 77 ”

ANÁLISE ESTÉTICA DO ESPETÁCULO: “ QUARTO 77 ”, de Leonardo Alkmim

Para não construir um receio de não acertar o entendimento da proposta do espetáculo, coloquei minha intuição como objetivo da análise. Onde até poderei desencontrar as minhas percepções das intenções esteticamente criadas por eles. Mas darei importância em defender a maneira como a peça foi absorvida pelas minhas sensações.

Isto vai ficar mais claro durante o desenvolvimento quando eu explicar com mais detalhes as partes que me chamaram mais atenção. O meu foco foi maior sobre o texto, por exemplo. Suas metáforas abriram janelas para um mundo atraente e pouco observado; as reações, dependências e contrastes de algumas partes do nosso interior trabalhadas pelo nosso equilíbrio entre a mente e o coração. Conseqüentemente aparecem dificuldades no controle entre a razão e a emoção.

Os valores do espetáculo são além do que enxergamos concretamente, estão escancarados em qualquer parte do espetáculo: desde a enérgica interpretação dos atores, o despido texto e a atmosfera cúmplice de nosso interior, até a grande sacada do comportamento do público ao se acostumarem em desleixar a reflexão do que vêem e cederem à monstruosidade do sono.

Mesmo com este tema super abstrato, a encenação não trai a nossa realidade. A intimidade entre as cenas e o público nos provoca. Efeitos exagerados e surpreendentes vistos com freqüência em muitos espetáculos como recurso de garantir um impacto no espectador, tornam-se, para “Quarto 77”, apenas enfeites desnecessários frente ao conteúdo carregado pela apresentação.

A direção do espetáculo lembrou de tudo. Caprichou mais nos movimentos dos atores e na marcação do que na própria interpretação destes. Houve harmonia e comunhão entre todos os elementos (cenário, luz, som, figurino etc). Com influências brechtnianas e alguns símbolos, originou uma encenação prática e bem composta.

O figurino e a maquiagem não “pesam” muito, ao meu ver, na hora de avaliar a encenação. Por ter um cenário muito apto, facilita a relatividade com que poderia se trabalhar o figurino: desde pijamas até roupas formais (e eles desfrutam da oportunidade: principalmente ela, conforme a apropriação da vestimenta na personagem, utilizou várias ocasiões distintas).

Pela minha visão, os personagens seriam uma grande metáfora (com menor importância nos nomes e /ou nas gêneses) representando a razão (ela) e a emoção (ele). Encontram-se presos num mesmo corpo (mesmo quarto), um precisa fatalmente do outro. Ela joga o tempo todo com ele. E ele, por sua vez, não consegue mandá-la embora. Ela persuade, engana e confunde-o. Quando ele tenta eliminá-la, atacando-a com violência, torna-se um monstro. Existe um desejo e uma atração de complemento insolúvel entre os dois. Ela precisa dominá-lo, entendê-lo. Ele, satisfazer-se. O texto dá mais abertura nesta intenção quando evidencia as frases: “É não falando que a mulher magoa” (ou seja, ao ser calculista e não mostrar seus sentimentos) e “O sono da razão gera monstros” (este com maior foco, sem a mulher, o coração se perde).

O aparecimento da mesma mulher com 7 personalidades variadas, ilustra quantas interpretações distintas pode-se obter deste texto. São inúmeras as revelações que vão mostrar para cada indivíduo. E contemporaniza tão bem com a nossa pluralidade de pensamentos, esta árvore emancipada criada por cada costume individual/ social.

A minha interpretação neste ato, é por ela ter sempre a mesma intenção, (seja ela a mesma mulher, ou não) a de dominá-lo, de persuasão para ganhar um lugar no quarto e provar (pela exatidão da matemática do 7, por uma existência real de uma gravata ou mesmo pela coincidência de uma música) o acontecimento; que a razão existe e não é imaginação dele. Existe e persiste. O costume é deixá-la existir. Tanto que a penúltima parte onde ela aparece, o quarto torna-se silencioso, sem atritos pela aceitação da razão por ele... É como se o coração dormisse. Finalmente, na última cena, é a razão que prevalece e toma o lugar dos instintos. Ela é acostumada a falar, porém não precisa mais dizer, só demonstra que a voz é dela, ao se maquiar com um chamativo batom vermelho.

Ele: A cara barbada, suja e suada de um animal porco, irracional, natural pelos instintos. O branco de seu figurino mostra a ingenuidade pura das emoções e das intuições. A face transformada gradativamente em monstro. O gesto de agressão aos cabelos, quer agredir sua própria mente, não gosta de entender. Descabela-se. A forma física inadequada lembra despreocupação, apego aos prazeres e vícios dos sentidos.

Ela: perfeição + habilidade + clareza + exatidão + lógica = razão.

Possui corpo e formas padronizados.

Diferentes maneiras da 1ª) Roupa de folgada, de brusca.

mulher aparecer sempre 2ª) Jaqueta jeans e tênis de imposição.

com a intenção e o mesmo 3ª) :

destino em comuns: o de 4ª) :

provar sua existência de 5ª) :

uma forma ou de outra 6ª) Formalidade ( passiva quando ele a aceita ) e o batom

(ou de 7...) vermelho para enfatizar que a última palavra é a sua.

7ª) Novamente uma roupa imperativa.

Os recursos cênicos não foram redundantes com os seus signos. E quando apareciam mais de uma vez, era para relatar de mais perto, confirmações no seu significado. Como quando a mulher envolve o rapaz com uma gravata, por exemplo. Não pelo enforcamento em si, mas ao querer insistir em comprovar sua permanente ocorrência no quarto. Sempre dá um jeito para ele perceber a presença dela no seu quarto, e o jeito mais convincente que acha é a gravata que ela mesma o presenteou, dando “a corda” para ele se enforcar.

Os números 7, talvez também podem ser símbolos para lembrar o azar da emoção, a mentira ou a matemática. Lembra provas e logo, existência/ raciocínio. São dois os números 7: “equilíbrio” de azares/mentiras entre a mente e o coração. Há um momento em que o homem da peça começa a vomitar contas sem lógicas. Tenta em sete mulheres a expulsão de um quarto onde é fracassado e azarado também 7 vezes...

A mala trouxe-me tanto os sentimentos carregados por ele, quanto o passado cogitado sempre por ela.

A garrafa de bebida embriaga-os equilibrando o controle na gangorra. Pois ficam mais sensíveis a quaisquer reações; ou se explodem, ou se esquecem.

O lençol escondia o corpo dela e mostrava a cara dele. O branco no pano apagava os pensamentos que ele não queria ouvir.

A cenografia

Sabe-se que os objetos são para a peça, sem nenhum enfeite, e com total utilidade. Não precisaram se preocupar em deixar exposto (como na peça “Arena conta Danton”, por exemplo) a cara do cenário para distinguir a encenação. Apenas se apoiaram nos elementos da proposta de Brecht, como uma base para ajudar no espetáculo e não como efeito para demonstração explicativa. Não foi necessário nenhum recurso mais evocativo para sustentá-lo como realista. Já o é por si só, ao estarem ali, mostrando o seu significado natural do cenário.

O quarto pode ser uma prisão (dos instintos com o pensamento), um corpo, ou até mesmo uma mente! Dentro dos parâmetros da imaginação que o texto permite.

Poderia ser apenas uma cama, ao invés de duas: para evidenciar a concorrência entre os dois (um dormiria no chão, por exemplo, havendo espaço só para um lugar...).

A janela (e o seu truque de “porta-trecos”) precisava aparecer na cena, propositalmente. Estético: mostra a vontade / ou não, de estar no quarto / na parte de fora. Intenção de prisão. Porem, às vezes não me passava a imagem de uma janela, e sim, de um baú onde você joga coisas fora, sabendo que permanecerão ali.

Uma cadeira super comum, o que aproximou a real intimidade com a platéia.

A luz do quarto: uma lâmpada e o cuidado que os atores tinham ao acender e apagá-la sem balançar o fio representante da função.

A mudança do lugar da cama: na 2ª vez que aparece a atriz, ficou em aberto porque motivo a cama muda. Seria para esclarecer a mudança de ocasião, simular uma nova e / ou diferente cena?

A porta: tão cobiçada pelos dois. Quem é o dono da chave? Certos momentos, os personagens mantinham grande distância dela, em outros afrontavam-na querendo abrir caminho e ainda outro, impedir a passagem. Às vezes amavam aquele quarto, outras o repudiavam.

Na iluminação, o que mais me apavorou foi a luz da janela. Uma angústia de saber em qual mundo eles estavam, de onde vinham. O colorido deixou muitas hipóteses sem respostas. Até mesmo para atrair esta dúvida a quem assiste.

Há um momento de uma enorme sombra da mulher sobre o homem. Como se ela fosse o monstro da cabeça dele. Enuncia também assombração.

Quando uma abstração aparece logo sobre o sono da razão dele, é o primeiro contato revelador de monstruosidade que o público enxerga, e muito claro e funcional.

Somente os black outs em algumas mudanças de cena, que não me satisfizeram. Por que não assumir a exposição da troca de cenário, já que não temos a quarta parede e já foi mostrado que fazem teatro?

Pensei num bom argumento para isso, o fato de ter a luz permanente no número da porta (77). E para destacarem bem, produziram a escuridão no restante do palco...Pensei também na luz do quarto estar apagada. Contentei-me com as duas respostas.

Os focos de luz jogados no rosto dele a cada repetição da frase dita por ele: “o sono da razão gera monstros” são diferenciados. Ora de cima para baixo, criando sombra no nariz e pescoço e clareando a testa, ora de baixo para cima, quando assusta mesmo pelo queixo e olhos iluminados de fogo e o resto escuros, ora também mais avermelhados na luz do que antes. Sua monstruosidade é crescente.

Gostei da mínima luminosidade do quarto, na hora em que mostram a sombra de alguém entrando, mesmo no escuro, enxerga-se perfeitamente a sombra de um camareiro, talvez.

As cores sempre alaranjadas, amarelas e vermelhas me passaram muita tragédia. Adorei a combinação com a morbidez do marrom no cenário. O que fez lembrar cores da suspensão do juízo.

A sonoplastia aperfeiçoou o que já parecia perfeito. Ela não encobriu nenhuma falha ou vazio do espetáculo, pelo contrário: o preencheu muito com o seu silencio muito estético. E quando soava, era extremamente harmônica com a atmosfera; desde o som daquela água escorrendo, como se fosse uma urina, um mictório ou uma torneira aberta, até as barulhentas sirenes como um socorro dos batimentos cardíacos e não da chegada militar.

As batidas fortes na porta quando um dos dois personagens ganha a discussão, como se quisesse invadir todo o quarto. O silencio, novamente, era uma canção de ninar, que só intimidava e angustiava as mentes confundidas. Os passos fora do quarto parecia ser um deles querendo fugir, ou entrar de vez.

O canto da atriz fecha com chave de ouro. Sua aparição nas horas mais exatas que o autor gloriosamente marca com muita vitória no resultado. Traz consigo a provocação fatal e emocionante do espetáculo. Se não fosse o incidente de rouquidão na voz da atriz quando assisti que a prejudicou, sairia ainda melhor.

Tive que concordar com a mecânica automática de alguns momentos na interpretação dos atores. Mas foi super imperceptível junto a tantas circunstâncias boas. E também ruins: o pequeno público na lotação do espetáculo, implicou certamente numa comunhão maior entre a energia de veracidade deles. Mesmo assim, a capacidade natural dos atores supriu o mantra. Decepcionei-me ao ver a quantidade de pessoas assistindo uma peça merecedora de divulgação de sua ótima mensagem.

“Tanta intimidade, intimida”...

A nossa reação é intimidada. E eles praticam esta frase integralmente. Tudo se funde tão fluente num texto poético e filosófico, que nos intimamos a nos acostumar em não ver certas razões para enxergar o nosso próprio interior, e muitas vezes preferimos dormir...

Mas será que a razão precisa mesmo morar no quarto sozinha, como acostumou o quarto 77 em seu fim e em nossa vida? E se nossos instintos forem o melhor caminho para atingir a natureza dos pensamentos?

Uma coisa, a experiência já mostra: a razão pode dar tudo para a vida, mas quem sustenta a vida, é o coração...