segunda-feira, 26 de julho de 2010

Spinosa: A verdade é índice de si mesma e, do falso.

São Paulo, 25 de junho de 2008.

DISSERTAÇÃO SOBRE A TESE: A VERDADE é índice de si mesma e, do falso.

(A PARTIR DA “ÉTICA” DE ESPINOSA)

Elaborado pela aluna: CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA, matriculada pela chamada
de número: 50.043 no 1º termo do curso de Filosofia vespertino da Universidade Federal de
São Paulo.


Índice:

O Tratado como instrumento:

1. Da necessidade de um intelecto reformado...............................................  3
A). Das diferenças com Descartes
B). Dos preconceitos como obstáculo
2. Da verdade fixa e eterna como conseqüência da reforma..........................  4
3. Método espinosano de corrigir a inteligência.............................................  5
4. A possibilidade do falso na filosofia de Espinosa.......................................  7
5. Importância de uma Ordem.....................................................................  10
6. Como corrigir um intelecto sem defini-lo?.................................................  11

Transição:

7. Deus como conseqüência da descoberta do intelecto ou vice-versa?........  12
8. Ética: decorrência demonstrativa da existência da inteligência...................  13

Ética:
9. A verdade é índice de si mesma e do falso somente a partir da Ética,
mas não a partir do Tratado..................................... ..................................  14

10. Bibliografia...........................................................................................  18


1. Da necessidade de um intelecto reformado

a. Dos preconceitos:

A imoralidade de Espinosa, para além do bem e do mau1 cristão e para além de qualquer outra religião, fez com que o filósofo carecesse, antes de mostrar sua filosofia, de colocar alguns apêndices com relação aos preconceitos do conhecimento. Ele coloca a importância do conhecimento real da natureza, sem maiores interferências imaginárias ou úteis ao agrado dos homens. A relatividade das verdades pessoais e dos estados cerebrais que a conduzem o fizeram não se importar tanto com essa respectiva revelação verdadeira e sim com o intelecto humano. O qual é responsável por tudo, inclusive pela verdade ou pela falsidade que constatadas pelas idéias. No apêndice no final da primeira parte da Ética, Espinosa expõe o quanto a busca das causas por meio das causas pode ser regressiva e contaminada de percepções inadequadas. Por isso surge a sua imanência com relação às causas inseparáveis dos efeitos. Para que a força dessa união não permita que nenhum outro fator do mundo sensível atrapalhe a visão verdadeira das coisas que somente o nosso intelecto pode trazer. Sendo ele um meio para atingir a interação máxima com a natureza.

Enfim, ele não distingue os prazeres, a cobiça pelo fato de concebê-las também como necessárias, pelo fato da substância infinita abrager a tudo justamente por ser infinita. Logo esses males são indigestões, reações do modo da extensão de cada corpo afectado por substâncias diferentes ou discordantes de si. O que não impede uma possível relação de comunhão entre esses corpos, pois “as leis da natureza, sendo tão amplas, bastaram para produzir todas as coisas que possam ser concebidas por um intelecto infinito.” 2

Por essa falta de autoridade moral é que Espinosa desmonta as idéias que os poderes políticos trouxeram às interpretações religiosas e essa ordem imaginária com relação às funções da natureza em prol do homem.
---------------------------------------------
1 Deleuze faz uma comparação dessa imoralidade espinosana com a posterior do filósofo influenciado por ele, F. Nietzsche, em seu livro “Espinosa: Filosofia Prática”: DELEUZE, GILLES. Espinosa: Filosofia Prática, p. 38.

2 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. p. 75.
---------------------------------------------
A alegação do autor é que a natureza e potência das coisas é que as validam por si mesmas; pois as leis da natureza produziram tantas coisas quanto o nosso intelecto infinito pode compreender.

“Como consequência, os deuses governam todas as coisas em função do uso humano, para que os homens lhes fiquem subjugados e lhes prestem a máxima reverência... Esse preconceito transformou-se, assim, em superstição e criou profundas raízes em suas mentes, fazendo com que cada um dedicasse o máximo de esforço para compreender e explicar as causas finais de todas as coisas... Foi-lhes mais fácil, com efeito, colocar essas ocorrências na conta das coisas que desconheciam e cuja utilidade ignoravam, continuando, assim, em seu estado presente e inato de ignorância, do que destruir toda essa sua fabricação e pensar em algo novo... Essa razão teria sido, sozinha, realmente suficiente para que a verdade ficasse para sempre oculta ao gênero humano, se a matemática, que se ocupa não de fins, mas apenas das essências das figuras e de suas propriedades, não tivesse mostrado aos homens outra norma de verdade.” 

Quando denuncia essa atitude dos homens para refugiar suas ignorâncias é que Espinosa passa a ser nomeado como herege em seu tempo5. Pois destrói não só as moralidades teológicas como também a ordem cristã ou mesmo judaica de enxergar o mundo. Não aceitando, assim, qualquer autoridade que provenha de uma política por meio do aproveitamento dessas interpretações equívocas.
-------------------------------------------------------------------------------------------
3 “A natureza não tem nenhum fim que lhe tenha sido prefixado e todas as causas finais não passam de ficções humanas.”

4 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. p. 67. 4 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. p. 67.

5 Com relação à tal classificação, pode ser encontrada também no livro de Pierre François onde o comentador questiona o significado do espinosismo tanto para a sua época quanto para a atual desse livro, além de estudar o papel de Deus para Espinosa e o concluir como ateu: MOREAU, P. FRANÇOIS. Espinosa e o Espinosismo, p.108.
-------------------------------------------------------------
 “Quem quer que busque as verdadeiras causas dos milagres e se esforce por compreender as coisas naturais como um sábio, em vez de se deslumbrar como um tolo, é tido, aqui e ali, por herege e ímpio, sendo como tal proclamado por aqueles que o vulgo adora como intérpretes da natureza e dos deuses. Pois eles sabem que, uma vez suprimida a ignorância, desaparece também essa estupefação, ou seja, o único meio que eles têm para argumentar e para manter sua autoridade.”6

A partir desse entendimento maior com relação a anulação desses valores, a filosofia de Espinosa fica mais fácil de ser explicada, por isso a necessidade de introduzir essa definição do intelecto como absoluto e imanente, e não os valores que ele[o intelecto] define. É primordial colocar as definições como conseqüências dessa infinidade que a substância eterna e presente traz. Claro que ele utilizará e muito tais definições particulares para dar forma ao seu pensamento filosófico, mas será a importância da substância pura (ou da substância em si) que prevalecerá até mesmo como oportunidade para a consciência de uma necessidade ruma à busca do conhecimento.


b. Das diferenças c/ Descartes:


A verdade para Espinosa é concebida como uma criação da inteligência e não como algo supremo ou iluminado divinamente como era para Descartes. Por isso a importância de conhecer a inteligência é enfatizada na filosofia espinosana. Sobre o significado de um método para Espinosa e para Descartes7, o primeiro não repensa idéias para verificar a sua validade como o faz o segundo. Nem o que vem
----------------------------------------------------
6 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. p. 71.

7 SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XXV.
---------------------------------------------------
primeiramente seja o método, pelo contrário, até o método é, de certa maneira, imanente. A respeito disso, uma frase de Lívio Teixeira distingue muito bem as duas filosofias: “Pensar não é contemplar, mas é construir, descobrir definições.” 8 A qual o comentador a contextualiza na diferenciação entre a estaticidade de um lado[Descartes] e o dinamismo de relacionar as idéias para uma definição útil para alcançar o conhecimento cada vez mais progressivo das coisas, de outro [Espinosa]. Quanto à experiência, o erro de Descartes é que mesmo dentro da atividade de cientista ele julgava estar sendo guiado somente pelo método dedutivo. Ou seja, aquele que se deduz as causas pelos efeitos evidentes. Já Espinosa reconheceu que a experiência sensível possui uma grande influência nesta dedução quanto à física das coisas singulares, sujeitas à mudança, por exemplo. O que adequaria melhor a sua obra como uma Ética e não como uma ciência. Mesmo dependendo muito pouco da experiência pelo fato do conhecimento das coisas surgirem a partir da idéia do Ser Perfeito, mas que é fixo e eterno. Ainda assim carece, então, de pelo menos essa demonstração para elaborar tal conhecimento. O qual será evidenciado, mas por sua própria filosofia racionalista e dedutiva a partir da prova de Deus feita na Ética, mas não pela dependência de uma experiência demonstrativa e empirista.

2. Da verdade fixa e eterna como conseqüência da reforma.

O conhecimento do ser perfeito é também a mais alta verdade. O alcance a Deus é conseguido quando se possui a consciência dessa idéia. Espinosa afirma que amamos o que conhecemos 9. Ou seja, o próprio conhecimento afecta o ser e este último passa a depender do julgamento às coisas que conhece, assim como formula suas opiniões e sentimentos a partir disso. Por isso a causa primeira, do Todo é a mais buscada porque diz respeito à própria causa humana e afecta em sua existência assim como em suas verdades. Os prazeres ou a cobiça não são maus enquanto não se conhece o sumo bem, que é bem em sua totalidade. Somente o bem verdadeiro, que é percebido e definido pelo homem, da maneira que lhe for mais confortável, que seria parcial, mas não deixa de ser um caminho para se chegar ao sumo bem.

A consciência da idéia do conhecimento desse sumo bem é o que aproxima a idéia à ele. O conhecimento da ordem universal das idéias, o ultrapasse da universalidade das noções comuns para conhecer a essência verdadeira das coisas já carrega consigo a verdade
---------------------------------------------------------------
8 SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XXIV. 9 SPINOZA, BENEDICTUS. Tratado da Reforma da Inteligência.
-----------------------------------------------------------------
como conseqüência dessa idéia verdadeira. Por isso a verdade aparece como fixa e eterna, a partir desse conhecimento. Pois a essência verdadeira é infinita, eterna e imutável.

Assim, possuir a idéia verdadeira é a única necessidade para a certeza da verdade, ou da essência objetiva das coisas. “O verdadeiro método é o caminho pelo qual a própria verdade é procurada na devida ordem.”10 Assim também nos especifica essa importância primordial de uma idéia verdadeira do conhecimento do sumo bem o trecho que Marilena discorre:

“O método não é outra coisa senão o conhecimento reflexivo ou a idéia da idéia; e como não há idéia da idéia a não ser que primeiro haja a idéia, segue-se que não há método a não ser que haja primeiramente uma idéia *verdadeira+.” 11

 3. Método espinosano de corrigir a inteligência.

Espinosa parte do cuidado com as maneiras de percepção que podemos ter antes de qualquer julgamento, pois mesmo sendo todas consideradas como reais (pois são modos finitos de Deus), podem despertar idéias confusas ou não adequadas, dependendo da ordem como são utilizadas. Descreve quatro modos de percepção no Tratado e três gêneros de conhecimento na Ética.

Os quatro modos de percepção são os seguintes: O primeiro diz respeito à imaginação sobre o sensível, referente ao uso da vida e inferior ao uso da inteligência mas que necessitamos para sobreviver: é o ouvir dizer, está no plano do senso comum da experiência coletiva. O segundo, da experiência vaga, a qual só é válida por não ter sido refutada por nenhuma outra, também contém o conhecimento por meio dos sentidos. O terceiro modo é distinguido não só pela dedução ou raciocínio, como também por partir do efeito das propriedades das coisas, do universal por proporções matemáticas e racionais, mas ainda não chega a ser o modo da idéia adequada. O quarto modo, enfim, é o da intuição, considerado a contemplação direta da verdade, por atingir a essência objetiva, a causa
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
10 E ainda: “A certeza encontra-se na essência objetiva, isto é, no ato de pensar e não no objeto do pensamento.” SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XXIV.

11 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “O método reflexivo: a idéia verdadeira, índice de si mesma, como ponto de partida do método.” In: Espinosa: Uma filosofia da liberdad, p. 87.
-------------------------------------------------------------------------------------
próxima, resultantes da atividade da inteligência, daí a importantíssima dependência para com ela que esse modo possui, por ser caracterizado como a “causa racional das idéias” 12. As verdades eternas e as matemáticas são inclusas no terceiro modo de percepção, definidas como abstratas, pois não propiciam o conhecimento de outras coisas, singulares ou afectivas da extensão. Ou seja, não são coisas reais, mas apenas definem modos da razão.

Mas há algumas peripércias levantadas quanto ao desenvolvimento epistemológico no Tratado da correção do Intelecto em comparação com os gêneros de conhecimento na Ética. Lívio Teixeira, por exemplo, ao comentar sobre os modos de percepção reconhece a falta de diferenciação das propriedades da imaginação e da sensibilidade inclusas no terceiro modo de percepção referido no Tratado. Diferente da ética, onde as noções comuns aparecem somente no segundo gênero de conhecimento e a possibilidade de dedução aumenta por separar as noções comuns indutivas daquilo que pode ser deduzido racionalmente. O que fica mais claro e possível de entendimento e concepção coerente13. Dessa correção na teoria dessas maneiras de conhecimento feitas com a Ética, já surge uma questão à respeito da não finalização do Tratado: da sua impossibilidade de definir a inteligência com os modos de percepção ali expostos [no Tratado]. Assim como Deleuze argumenta também argumenta a respeito de algumas diferenças entre as duas obras, com relação às noções comum já consentidas como adequadas na ética e as confusões das dificuldades da dedução geométrica pelos modos de percepção explicados no Tratado:
---------------------------------------------------------------------------------------------
12 Consulta dos modos a partir de SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. XV

13 Para esclarecer mais este ponto, o detalhamento maior sobre o que Lívio Teixeira coloca em suas notas seria: Apesar do comentador dizer que não é a dedução que diferencia o terceiro e o quarto modo de percepção, no Tratado já se tinha a idéia adequada como sendo o conhecimento das essências (“a conclusão a partir das propriedades não é conhecimento adequado”_ SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XVII). O ponto em comum da Ética e do Tratado seria que o 3º modo de percepção e 2º gênero de conhecimento alcançam somente as propriedades das coisas. Já o 4º modo de percepção e 3º gênero de conhecimento atingem a essência. Mas na Ética a dedução é adequada, ainda que não dê a essência das coisas. “Ora, a Ética é uma dedução.” _ SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. XVI) Não só a fundamentação das proposições, escólios e corolários como também os axiomas e definições. A ordem universal das idéias está na Ética pois seus gêneros de conhecimento têm mais possibilidade de dedução (maior ou menor realidade dos objetos), ou seja, idéias aplicadas à mente. SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. p.XIX
-----------------------------------------------
O objetivo da explicação sobre os modos de percepção feita por Espinosa é uma união entre a mente e a natureza. Pois Deus compreende não só a natureza naturante, mas também a natureza naturada, que é sua maior expressão. Quanto mais se conhece e estabelece uma relação adequada com ela, mais se alcança o fim naturante. Esses modos de percepção citados no Tratado serão os meios para “conhecer exatamente nossa natureza, conhecer a natureza das coisas tanto quanto for necessário e confrontar isso [os dois resultados+” para essa comunhão entre a ordem das idéias e das coisas.

Mas para que as idéias não se fechem em si mesmas é que existe esse outro caminho, o da relação com a natureza. Logo, a razão serve apenas como meio útil para ultrapassar as noções comuns e conhecer as essências, a ordem universal das idéias e o Todo. Assim esse conhecimento absoluto de Deus se torna mais importante que a própria razão, a qual formamos conceitos afim de intuir uma totalidade devido ao fato da ordem verdadeira das coisas infinitas não caber em nosso destino, sendo a razão e a reflexão a única via que conduz a uma necessidade de entender e conhecer tais infinidades do ser perfeitíssimo. E dessa intuição provocada pela necessidade de conhecimento que a reflexão sobre a razão provoca é que se parte para a compreensão da natureza, da essência, dos conhecimentos inferiores, da opinião, da imaginação etc. Deixa-se assim a razão como fonte para o conhecimento15.

A determinação de um melhor modo de percepção precede o método. O melhor modo, como já dito, é aquele que nos dá a essência das coisas e não só as propriedades. O método mostrará como ter as idéias verdadeiras que nos dizem o que são as coisas. Daí a dependência de sua filosofia presa às idéias. E a desnecessidade de critério de verdade para validar o seu método. Parte do que já possui, e vai se aperfeiçoando. Para ilustrar melhor esta explicação, podemos citar uma passagem de Marilena Chauí que comenta a respeito desta potencialização do intelecto:
-----------------------------------------------------------------------------
14 Deleuze, p.121 Ainda em outra passagem de Deleuze:

DELEUZE, GILLES. Espinosa: Filosofia Prática, p. 125.

15 “A Ética inclui na dedução de tudo a partir do Todo a dedução dos diversos modos de conhecimento.” SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. XXII.
----------------------------------------------------------------------------
-“O verdadeiro método não é procurar um critério de verdade após a aquisição das idéias, mas é o caminho pelo qual a própria verdade é procurada na devida ordem” 16 Pois Espinosa diz que já temos uma idéia verdadeira, assim como a pedra já tem a função de martelo mas adquire melhor funcionamento com o aperfeiçoamento de seus moldes. As idéias são representações da atividade de nosso pensamento e não percepções ou imaginações. O método é isso, a atividade do nosso pensamento. A idéia como própria representação do ideado, e não como correspondente a ele.

As maneiras de se verificar o melhor modo de percepção pode ser divida em duas partes, ou em dois caminhos desse método que “mostra como se pode integrar uma idéia na ordem universal das idéias”17 como faz o filósofo em seu Tratado da Inteligência: a primeira seria por meio de um denominado “bom método” o qual demonstra como a mente é dirigida pela verdade e a segunda do “método perfeitíssimo” que seria proceder com as determinações certas. Os dois caminhos são válidos pois deles já se possui a idéia verdadeira, o que muda é o caminho para ordená-las.

Espinosa expõe uma outra parte do método a qual denomina pela maneira que se descobre as idéias verdadeiras e cujo estudo é sobre como definir as coisas. O filósofo distingue duas maneiras de fazê-lo: uma é aquela que busca a essência de algo que é posto ao exame justamente para isso, para uma maior pesquisa de seu significado. E a outra é a definição de um nome ou de uma coisa por si mesma, como própria atividade, dessa forma sua verdade não precisa vir de qualquer outro ponto a não ser da mente como ponto de partida para a dedução. Elas são a própria essência do ser perfeito, são as “essências particulares afirmativas”18. Sobre a primeira maneira, Lívio responde que é respectiva à Ética: “As definições da Ética são assim, criações da mente posta ao exame pela explicação que delas se deduzem.”19 O Tratado já não teria como possuir tal exame pois mal possui uma definição sobre a inteligência, por exemplo. O que é essencial para validar o quarto modo de percepção e até mesmo o terceiro.

Mas “Não basta que se tenha uma idéia verdadeira para que com isso compreendamos de modo completo o que seja o método...É necessário distinguir as idéias verdadeiras das que não o são”(XXIX). Mas para isso é preciso também comentar a respeito do lugar que o falso possui em Espinosa.
--------------------------------------------------------------------------------------------
16 “O método reflexivo: a idéia verdadeira, índice de si mesma, como ponto de partida do método.” In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p. 87.

17 SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XXVIII.

18 Segundo Lívio Teixeira que as denomina assim. SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. XL.

19 SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XLII.
-----------------------------------------------------------------
4. A possibilidade do falso na filosofia de Espinosa

 A ficção ou fingimento, a idéia falsa e a idéia dúbia são explicadas no Tratado da Reforma do Intelecto como as possibilidades de erro do nosso modo de percepção por terem suas origens na imaginação, que é algo vago e externo à inteligência. A partir dessas ilusões é que Espinosa mostra sua proposta de reforma ao intelecto. Pois o plano imaginativo traz a possibilidade de um acúmulo nas causas e logo a superficialidade do conhecimento somente no âmbito das propriedades e não da essência de quaisquer objeto ou idéia. Ao esmiuçar o significado de ficção, Lívio Teixeira conclui que a percepção com a falta de entendimento tem mais poder de fingir, ou seja, de ser mais fictícia. Assim como o próprio Espinosa relata em seu apêndice referente à primeira parte da Ética, quando esclarece o quanto a compreensão varia de acordo com o estado cerebral de cada um, do que agrada ou venha a ser útil para o corpo que é afectado. Já dando continuidade ao que tanto se dedicou em fazer no Tratado: romper os preconceitos contidos na mente. “Os homens julgam as coisas de acordo com o estado de seu cérebro e que, mais do que as compreender, eles a imaginam...A perfeição das coisas deve ser avaliada exclusivamente por sua própria natureza e potência: elas não são mais ou menos perfeitas porque agradem ou desagradem os sentidos dos homens, ou porque convenham à natureza humana ou a contrariem.” (apêndice, p. 75)

Quanto à disseminação das ficções, a dificuldade não seria tão grande enquanto a idéia fictícia ou fingida aparece como consciente de que é uma criação da mente. Daí elas podem ser verdadeiras, somente por coincidência, ou falsas20. Ao passo que surgem de outras idéias e não de si mesmas ou de uma idéia verdadeira. Neste sentido a idéia verdadeira seria índice de si mesma e do falso ao passo que detecta a ficção falsa e a detém. E o método para distinguir tal idéia verdadeira está na própria inteligência. Por isso a necessidade de analisá-la e conferi-la por meio de uma definição a ela ou a uma sua causa próxima que alcance a sua validade para que seu melhor modo de percepção também seja confirmado. Causa próxima cuja apresentação pode ser feita, também, como a explicação máxima para o entendimento das idéias e das coisas, ou seja, a causa mais real capaz de comprovar que essa mesma idéia verdadeira de maneira nenhuma possa aparecer como idéia fictícia, falsa ou enganadora. Porque as idéias falsas, diferente das fictícias, não trazem
----------------------------------------------------------------------------------------------
20 Uma passagem que explicita este raciocínio está no comentário de Lívio Teixeira: “As idéias, quaisquer que sejam, mesmo sendo ficções, se provam verdadeiras ou falsas justamente pelas conclusões a que dão lugar.” SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p.XXXII.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
essa consciência da criação de si por fatores externos, é que essa possibilidade de nos enganarmos até com a idéia da idéia verdadeira ainda abre espaço para dúvidas. Mas é a partir daí que a importância da ordem aparece como crucial para Espinosa. Pois implica tais erros sem o engano com as causas da existência das coisas ou a existência das coisas sem o conhecimento das causas. Esta eliminação de erros é feita por meio de uma ordem universal das idéias. Universal para que a idéia do Todo, ou seja, o conhecimento da causa mais próxima do entendimento comum da realidade das coisas entre os seres pensantes e porque ultrapassa a universalidade das noções comuns. A falta de clareza e distinção quanto ao nexo que une duas idéias não terá mais lugar quando forem causas de si mesmas ao invés de provirem de outras misturadas com a imaginação ou com a percepção. Assim como a substância infinita é causa de si mesma. Por este lado é que surge a busca ao modo perfeitíssimo de percepção. Logo, é necessário e parte do método espinosano, distinguir as percepções verdadeiras, mas fazer isso de acordo com a própria reflexão sobre o intelecto e as suas maneiras de perceber. Porém a idéia da idéia, ou a reflexão do entendimento, pode nos conduzir à idéia relativa e conforme a nossa própria maneira de perceber. O que afastaria novamente a definição de uma essência do intelecto. Então, para que a idéia seja verdadeira, bem ordenada é necessário definir a própria inteligência. Buscar o que a defina e, como a sua essência e causa é si mesma, não há como validá-la por meio do próprio intelecto a não ser conhecendo suas propriedades primeiramente, e não somente detectar sua existência ou essência.

O Tratado inacabado pode levantar questões a respeito da conquista de tal definição do intelecto ou não. Mas ao pensar que esta definição seria crucial em toda a sua filosofia, pois é a partir da ordem de realidade que ela se monta, então, ao lermos a Ética, não há como não verificar o quanto ela é a própria demonstração da atividade da inteligência por já ter sido deduzida. Tanto é que, uma das primeiras coisas que o filósofo faz na parte I é definir Deus, ou seja, uma idéia absoluta do Todo. Daí então, é que se pode pensar na verdade construída pela idéia verdade exposta na Ética como índice de tudo o que se define [como real] ou se detecta [como falso]. É a partir da idéia de Deus que se prova o intelecto, inversamente ao caminho do Tratado: do intelecto é que se define as propriedades da do ser perfeitíssimo.

A verdade do pensamento se justifica pelo próprio pensamento, sem necessidade ou possibilidade de confrontá-la com qualquer outra coisa fora do pensamento, a não ser outras idéias a respeito das coisas da natureza mas que, por serem idéias, estarão inclusas no pensamento e não fora dele21. Mas isso não é um círculo dentro do próprio pensamento, a prova de que podemos recorrer ao pensamento para saber o que existe fora dele ou diferente dele, do que existe por si mesmo, é “a essência da inteligência como idéia do Todo ou de Deus”. 22
-------------------------------------------------------------------------------------------------
21 “A verdade ou falsidade de uma idéia se verificará pelo que dela se deduz” Lívio XLIV.

22 Lívio, p. XLIV
-----------------------------------------------------------------------------

5. Importância de uma Ordem:

A importância de uma ordem em Espinosa reflete no seu caminho e na maneira de conceber idéias adequadas. Pois uma verdade solta, sem relações com outras, não alcançaria nenhum conhecimento verdadeiro. É a dedução ordenada resultante da atividade da inteligência, da intuição que contempla diretamente a essência objetiva e que a torna verdade. O ato de relacionar as idéias entre si é uma norma da verdade. Para que se atenha não a um critério de verdade em comum ao exterior, mas a idéia verdadeira, que é essa própria norma verdadeira, em si. É a organização das idéias, a maneira da inteligência construir, não somente nos modos de percepção. E essa maneira de construir o raciocínio possui dois caminhos: o da ficção que pode tanto deduzir uma falsidade como falsa por ser absurda ou uma idéia verdadeira por ser evidente. Ou então o caminho regressivo, de buscar as causas que serviram para formular as idéias, afim de ampliar os conhecimento e aumentar o acesso à natureza naturada. Quanto às idéias e as coisas, sua ordem é comprovada por meio da intuição, que comprova o ser absoluto e elas próprias por meio da Ética, a qual é a demonstração dedutora das criações do pensamento, já com as idéias verdadeiras. Ela parte do ser absoluto e comprova-o à todo momento, gradativamente em seu decorrer, potencializando não só a realidade universal como também a existência das coisas. As idéias se associam às experiências das quais o próprio pensamento é autor, e não por meio da indução como é feito no Tratado por não possuir uma ordem dedutiva bem esclarecida.

6. Como corrigir um intelecto sem defini-lo?

Somente o exame ou o conhecimento da natureza da inteligência soluciona a questão da existência efetiva do Ser Perfeitíssimo. Mas há algumas dificuldades em definir tal inteligência. Pois como definir a inteligência com a própria inteligência?23

E as idéias só podem ser conhecidas se a inteligência também for. O estudo da definição pressupõe o conhecimento da essência da inteligência. As propriedades da inteligência

-----------------------------------------------------------------------------------
23 Lívio Teixeira diz que “esta definição está para a inteligência assim como as propriedades estão para a essência.” Ou seja, a essência define as propriedades, a inteligência define a definição. Mas pelas propriedades não se define a essência nem pela definição, a inteligência. “Na verdade, temos visto que o Tratado não é senão um esforço da inteligência para compreender a natureza dela mesma”. SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. XLV.
------------------------------------------------------------------------------------------------
(conhecer seus modos de percepção, por exemplo) podem ajudar a descobrir uma essência que pelo menos explique essas propriedades já descobertas, mas ainda assim não definirá a essência pelas propriedades.

E como a existência de Deus ficou dependendo do conhecimento dessa essência do intelecto, então essa busca da essência da inteligência a partir de suas propriedades deverá nos levar também à certeza à respeito da essência e existência de Deus. Mas a definição da inteligência não é feita por Espinosa pois ele pára o Tratado logo depois de definir somente as propriedades da inteligência. Mas como cita no escólio da proposição 31 da primeira parte da Ética: “Não há nada, com efeito, que possamos compreender que não leve a um conhecimento mais perfeito da intelecção.” 24 Ou seja, quanto mais desenvolvermos o conhecimento, mas a fundo conheceremos as coisas. É a partir desta potêncialização do intelecto que Marilena Chauí discorre neste aspecto em seu livro “Espinosa: uma Filosofia da Liberdade:

“A inteligência pela sua força natural fabrica para si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças para outras obras intelectuais e com estas outros instrumentos ou capacidades de continuar investigando; e assim, progressivamente, avança até atingir o cume da sabedoria”25 O filósofo não termina a definição do intelecto mas a deixa praticamente dedutível depois de detalhar sobre muitas de suas propriedades. Inclusive com relação à última que distingue a maior realidade como a idéia mais perfeita [a ordem e conexão das idéias] juntamente com o objeto mais perfeito [a ordem e conexão das coisas] como sendo o Ser Perfeito, ou seja, o ser mais real, sem possibilidade de falsidade. É somente a partir daí que não mais haverá dúvidas quanto a detecção de falsidades muito evidentes de absurdo nas idéias verdadeiras.

Assim o Tratado é uma preparação para a Ética, pois se define a existência de Deus, mas só será analisado e comprovado na Ética. Ela é a afirmação dessas propriedades [da inteligência+ e a prática viva delas. A conseqüência de tal definição seria “a mais alta e perfeita essência da mente é pensar o Todo.” 26 Daí pode-se concluir a definição do intelecto como uma conseqüência da definição de Deus.
---------------------------------------------------------------------------------------------------
24 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. p.55. 25 Trecho do Tratado da reforma da inteligência citado em “O método reflexivo: a idéia verdadeira, índice de si mesma, como ponto de partida do método.” In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p.86. 26 SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. LIX.
------------------------------------------------------------------------------------
7. Deus como conseqüência da descoberta do intelecto ou vice-versa?

O conhecimento da natureza deve ser procurado nas coisas fixas e eternas. Pois a experiência sensível das existências não pode dar nenhuma validade quanto a isso a não ser que se baseie na idéia do ser perfeito. Por isso a dependência maior das coisas singulares com relação a tal infinitude. A confusão do mundo sensível se dá somente quando nossa mente é determinada de fora pelo encontro fortuito das coisas. Mas quando a mente as considera de dentro, quando a considera ao mesmo tempo para entender suas propriedades, a atividade da mente a resulta tal realidade conhecida.27 A atividade da inteligência sabe o que é a idéia verdadeira independente de seu acordo com o objeto. Mas mantém um paralelismo com o externo do pensamento pela unicidade da substância. O uso correto da inteligência que conduz à ordem universal das idéias (formação das definições corretas, ou de idéias verdadeiras ou essências objetivas). Ou seja, a certeza também é dependente da ordem pela causalidade racional. A ordem universal das idéias exige que todas elas venhas de uma só formação: todas pela formação absoluta da idéia. Tal formação de modo absoluto pela mente exprime o infinito. Até a negação é uma conseqüência dessa estrutura, mas só podemos formar idéias negativas depois de formadas tais idéias verdadeiras e positivas.

O tratado nos dá a base para essa formação, mas não a pratica. Pois toda essa definição só é descrita no fim dele, pelas propriedades do intelecto. O caminho que ele faz é indutivo no sentido de alcançar tal definição somente no fim do Tratado, por uma maneira regressiva de buscar uma causa, não pelo método perfeitíssimo que já parte da definção para depois somente deduzir e comprová-las. O que se pode concluir é que o objetivo da definição do Todo até foi conquistado no Tratado, mas não comprovado como o fará na Ética. Desde a primeira parte, como mostra a proposição 15: “Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido.” 28 Até todas as deduções consecutivas desta. Por este lado é que podemos concluir que quanto mais se prova a idéia verdadeira na Ética, mais a sua verdade vai ter capacidade de ser índice de si e depois disso, também índice do falso. Essa afirmação a respeito da conquista da concepção da idéia do ser perfeitíssimo entranhada mais na Ética do que no Tratado é verificada também em Marilena Chauí ao descrevê-la da seguinte maneira em seu livro A Nervura do Real:
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
27 Segundo Lívio Teixeira e ainda sobre o assunto: “A observação ou a experiência dirigida pela inteligência pode levar-nos ao conhecimento” (SPINOZA, BENEDICTUS. “Notas” In: Tratado da Reforma da Inteligência, p. LIII.

28 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética, p.31.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Analogamente, o atrevimento de cair na curiosidade em relação ao que essas duas direções nos desperta [do intelecto à definição noTratado e da definição ao intelecto na Ética] ganha espaço para questionar quanto ao uso de Deus para Espinosa como ponte e prova de sua filosofia. Deus seria apenas uma conseqüência daquilo que prova na Ética, ou seria a maneira de solucionar os problemas de definições do Tratado? O que deixa muito evidente se não provasse pela sua própria lógica geométrica que “Todas as idéias, enquanto estão referidas a Deus, são verdadeiras.”30

8. Ética: decorrência demonstrativa da existência da inteligência.

Um dos exemplos que se pode incluir para constatar essa exposição do que seria Deus e, logo, a validade do intelecto, pode ser citado no parágrafo 109 do Tratado da Correção do Intelecto. Onde Espinosa reflete sobre as coisas referentes às idéias dos sentimentos de amor e alegria e diz que ainda não é possível analisá-los, pelo fato de ainda não haver o discernimento do que seja a inteligência. “Efetivamente, eliminada a percepção, desaparecem todas elas.” 31 Isso leva a melhor compreensão de como a Ética é a prova da existência do intelecto, pois desenvolve nela as definições quanto o amor, a alegria etc., a partir da sua terceira parte. O que não deixa de colocar a inteligência, então, como perceptível na obra, diferente do Tratado.
-----------------------------------------------------------------------------
29 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. p. 662.

30 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética, p.125. prop.32.

31 SPINOZA, BENEDICTUS. Tratado da Reforma da Inteligência, p. 65.
----------------------------------------------------------------------------------
O poder que a Ética possui de nos introduzir provas existenciais é tão ofuscante que reflete da própria idéia viva da obra de Espinosa. Do seu conatus como potência imanente. Não é à toa que na segunda parte exercita a força dos corpos e da natureza, depois de já ter feito o mesmo com a idéia de Deus na primeira. É na segunda que evidenciará a nossa existência potencialmente necessária enquanto sua duração for eterna e de acordo com as relações das idéias adequadas. O que significa também, a necessidade da inteligência enquanto realidade comprovada cada vez mais fortemente e conseqüente dessas mesmas demonstrações anteriores. É a prática da própria idéia de conservação da existência que o conatus nos traz32. O qual o seu carácter [do conatus] segundo Marilena Chauí, é de vida, positiva e afirmativa, indestrutível, ilimitado enquanto não é destruído. Ou seja, aquilo que a sua obra “Ética” faz questão de executar e, com isso provar-se a si mesma progressivamente:

“A chave da Ética encontra-se nessa posição do conatus como fundamento primeiro e único da virtude, palavra que, como vemos, é empregada por Espinosa não no sentido moral e modelo a ser seguido, mas em seu etimológico de força interna.”33

Com isso, a nomeação da obra fica mais clara até no âmbito da virtude, que para Espinosa está fundamentada na felicidade e, ao propagar sua filosofia ética, não deixa também de se realizar e refletir o potencial de sua filosofia e afectar o leitor, da maneira mais adequada possível, ou seja, sem réplicas ou refutações quanto a sua realidade ou melhor, sua perfeição. Ainda em concordância com essa vida trazida pela Ética, também podemos citar Deleuze onde ele parte da pequena importância que uma ordem geométrica teria frente à tamanha demonstração de existência e imanência nesta obra espinosana:
----------------------------------------------------------------------------------------------------
32 “Os seres são indivíduos quando possuem conatus, isto é, quando possuem uma força interna para permanecer na existência conservando seu estado... Na verdade os humanos não possuem conatus, são conatus.” Ainda em uma comparação da virtude como força para Espinosa ser o fundamento da felicidade, Chauí complementa: “O esforço para se conservar é o primeiro e único fundamento da virtude” (Cf. CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “Liberdade e Felicidade”. In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p.69). E com relação à seguinte proposição da Ética: “A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude” (Cf. CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “Liberdade e Felicidade”. In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p. 63.

33 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “Liberdade e Felicidade”. In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p. 69.

34 DELEUZE, GILLES. Espinosa: Filosofia Prática, p. 19.
-----------------------------------------------------------------------------------

9. Ética:

A verdade é índice de si mesma e do falso somente a partir da Ética, mas não a partir do Tratado.

A existência é uma prova35.

Podemos confirmar essa afirmação pela própria ordem que as proposições da parte dois da Ética aparecem. Como já foi citado antes quanto à sua ordem dedutiva dos efeitos que somente comprovam as definições feitas antes [no Tratado] e durante a obra. Pode-se, por exemplo, partir das últimas proposições para investigar a validade das provas que suas definições trazem, como sendo a conseqüência demonstrativas dela. De como, inclusive, a verdade é índice de si mesma e do falso.

Conforme a última proposição de núm. 49 de sua segunda parte: “Na mente não é dada nenhuma volição, ou seja, afirmação e negação afora aquela envolvida pela idéia enquanto idéia.” Na demonstração: “Não há, na mente nenhuma faculdade absoluta ou livre de querer e de não querer, mas apenas volições singulares, ou seja, esta e aquela afirmação, esta e aquela negação.” 36 Dessa mesma proposição podemos resumir o que foi constatado durante essa parte inteira a respeito de cada conceito e definições expostas aí. Primeiro porque as faculdades absolutas são como potências da mente e não constitui nenhum tipo de vontade para escolher a negação ou afirmação, as faculdades, em si, somente pelo fato de existirem já são obrigatórias ou necessárias. Com relação à estas definições singulares como secundárias e não tão imanentes quanto é a universalidade da substância pura e o que elas representam, Marilena Chauí no seu livro Nervura do Real explicita:
[...]

Mas não se deve considerar os corpos como transcendentais, pois a comentadora diz que o são somente com relação à unicidade do ser infinito, enquanto Todo. Não que a nossa substância não tenha em si, uma essência. O intelecto quando conduzido a partir do terceiro gênero de conhecimento, pode transitar pelos outros dois primeiros tranquilamente pois
----------------------------------------------------------------
35 DELEUZE, GILLES. Espinosa: Filosofia Prática, p. 47.

36 ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2 )p.90. prop. 49.

37 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa, p.442.
----------------------------------------------------------------------
após a idéia adequada (já explicada anteriormente no trabalho: “o conhecimento do segundo e do terceiro gênero, e não o do primeiro, nos ensina a distinguir o verdadeiro do falso.”38), tudo que se define, negue ou afirme é pré-determinado pela idéia verdadeira e seguro da atividade mais elevada do pensamento que propiciam quaisquer possibilidade manifesta em si.

Essa conclusão da presença do conhecimento do Todo na mente humana é provada na proposição 47, anterior à última citada, e assim sucessivamente se chega nas explicações verdadeiras. Ao dizer que “a mente humana tem um conhecimento adequado da essência eterna e infinita de Deus” 39 não faz mais do que deduzir, pelas argumentações anteriores e por esta, que já constituímos o conhecimento adequado por ser ele quem alcança a infinitude da essência eterna do Todo. São as relações das idéias adequadas que a alcançam. Pois o “conhecimento da essência eterna e infinita de Deus, que cada idéia envolve, é adequado e perfeito.”40 O conatus que ativa cada idéia que possuímos a respeito da essência de Deus é a potência que o faz existir na infinidade que ele pode ser concebido. Pois as idéias falsas, a partir da própria reflexão sobre a essência das coisas, de maneira bem conduzida, é a própria dedução absurda de que ela, por si, não pode existir com relação à ordem universal das idéias. “Quem tem uma idéia verdadeira sabe, ao mesmo tempo, que tem uma idéia verdadeira e não pode duvidar da verdade da coisa.” 41 Sobre a consciência ou se preferível, sobre a idéia da idéia verdadeira manter a clareza e distinção vivas no intelecto, sem espaço para equívocos que não queiram (a não ser que queira se equivocar, daí a idéia de poder ser índice do falso, se pensar nele como ficção e não como idéia falsa, pois a essência objetiva das coisas detecta a idéia que é falsa e não dá espaço para a dúvida.)

Logo, a idéia verdadeira enquanto idéia, está condenada a conceber qualquer outra idéia como definitivamente existente, por provir dela, da idéia verdadeira. Mesmo que seja falsa, ela o saberá e, por isso, não será mais falsa e sim, no máximo, fictícia se escolher afirmá-la ao invés de negá-la. Ou seja, possivelmente existente na realidade mas consciente de sua criação hipotética e de sua existência na idéia. Assim como mostra a proposição 8: “As idéias das coisas singulares não existentes, ou seja, dos modos não existentes, devem estar compreendidas na idéia infinita de Deus, da mesma maneira que as essências formais das coisas singulares, ou seja, dos modos, estão contidas nos atributos de Deus.”42

A partir deste raciocínio que se conclui o quanto o plano das idéias são modos do atributo da substância infinita. E o intelecto, seu próprio atributo e, portanto, também
---------------------------------------------------------------------------
38 ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2 )p.83. prop. 42.

39 ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2 )p.88. prop. 47.

40 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética, p.143. prop. 46.

41 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética, p.137. prop. 43.

42 SPINOZA, BENEDICTUS. Ética, p.89.
--------------------------------------------------------------
infinito enquanto não formar idéias. Mas a idéia verdadeira sim, pode ser concebida, neste aspecto, como abragente de todas as outras idéias, a partir dela. Daí mais uma comprovação de que ela é índice de tudo. Portanto não há como excluir a mente, ou intelecto, dessa substância infinita que é Deus. Segundo a proposição 23: “A mente não conhece a si própria senão enquanto percebe as idéias das afecções do Corpo.”43; o corpo também é um modo que afecta as idéias de afecção e propõe as idéias, a idéia verdadeira enquanto isolada, também não serviria para nenhuma definição por ser infinita e sem modos a não ser as suas próprias idéias. Daí a carência de uma ordem universal das idéias. Como relata essa dependência entre idéia verdadeira e uma ordenação consecutivas de idéias, podemos reforçar a explicação:

[...]44

Disso também podemos incluir a origem dessa ordem das idéias, ao lado das idéias do corpo, por ser dependentes de suas afecções para gerar as idéias das coisas. Assim como diz a proposição 7: “A ordem e conexão das idéias é a mesma que a ordem e conexão das coisas.”45 Mas conforme já previne Marilena Chauí, não é porque as idéias e as coisas sejam iguais, mas somente a sua ordem e relação:

[...]46

Mas explicar a Ética não é tarefa fácil porque ela é uma demonstração em si, conforme também já comentado. O que Espinosa coloca nela são provas da existência do intelecto e assim, de Deus. É o efeito da definição e sua causa, ao mesmo tempo. A atividade da própria obra não deixa que uma dissertação seja qualquer outra coisa a não ser a exposição de suas idéias pelas proposições (as quais já se comprovam por si mesmas, sem necessidade de maiores explicações) e ao mesmo tempo que a sua prova em si, uma
----------------------------------------------------------------------------
43 ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2 )p.69.

44 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa, p.566.

45 ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2 )p.49.

46 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa, p.566.
--------------------------------------------------------------------------------------
dedução por si mesma47. Não resta, pois, finalizar essas explicações que se tornam redundantes a respeito da evidência que suas proposições já contém. Mas nunca é demais utilizar as palavras da especialista Marilena de Souza, a qual explicou a filosofia espinosana até melhor que o próprio Espinosa, para concluir com as mesmas reverências feitas a esse grande autor:

“Um clássico, escreveu certa vez Merleau-Ponty, é aquele que sempre terá alguma coisa a nos dizer porque, ao pensar, nos deu o que pensar.” 48 Contudo, concordando com tal afirmação, mesmo a Ética sendo a prova viva do potencial da filosofia de Espinosa, e com a força de sua lógica contida em si mesma, ela sempre terá o que discorrer por propiciar, por meio de sua atemporalidade, uma reflexão aproximada com os dias de hoje.
--------------------------------------------------------------------------------------------------
47 Ao concluir sobre a filosofia segura e destemida de Espinosa, Marilena Chauí o faz de maneira estupenda: “que é a filosofia espinosana senão o mais belo convite a perder o medo de viver em ato?” _ CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “Conclusão”. In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade. P.82.

48 CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. “Conclusão”. In: Espinosa: Uma filosofia da liberdade, p.81.
------------------------------------------------------------------------------------------------------
Trabalho 2 da UC Teoria do Conhecimento I - UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo
Cristilene Carneiro da Silva, em 9 de maio de 2008.


BIBLIOGRAFIA:

(1)ESPINOSA, BARUCH. Ética (Partes 1 e 2). Trad. em progresso do Grupo de Estudos Espinosanos da USP sob orientação de Marilena Chauí, São Paulo, FFLCH-USP.

(2)SPINOZA, BENEDICTUS. Ética. Trad. e notas de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

(3)SPINOZA, BENEDICTUS. Tratado da Reforma da Inteligência. Trad., introd. e notas de Lívio Teixeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Coleção Clássicos.

(4)CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. Espinosa: Uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1995. Coleção Logos.

(5)DELEUZE, GILLES. Espinosa: Filosofia Prática. Trad. de Daniel Lins e Fabien P. Lins. São Paulo: escuta, 2002. (6)CHAUÍ, MARILENA DE SOUZA. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. São Paulo: Cia das Letras, 1999. Vol.I – Imanência. (7)MOREAU, PIERRE FRANÇOIS. Espinosa e o Espinosismo. Trad. de José Espadeiro Martins. Portugal: Publicações Europa-América, 2004. Coleção SABER.

Sobre o sentido da viagem na Cidade Feliz em Patrizi

Sobre o sentido da viagem na Cidade Feliz em Patrizi

São Paulo
21/12/2009


A formação da cidade feliz é construída no âmbito da abstração, mas não é especificamente literal, com todas as exigências necessárias para o sê-lo. Há uma filosofia por detrás, como também a descrição de um lugar ainda não existente, porém a obra carece de outros aspectos que, em geral, caracterizam as utopias. Ela não constitui sua cidade enquanto já situada geograficamente, nem possibilita uma narrativa de lembranças fascinantes já vividas, tão pouco permanece na estrutura de diálogo conforme a maioria do gênero. Daí a dificuldade de classificá-la enquanto próxima às outras utopias da época. Até a sua proximidade com a política aristotélica pode ser relativizada a ponto de a mesma ser somente um instrumento para subvertê-la . Porém o carácter excessivamente detalhado e descritivo traz concretude à Cidade Feliz, emblema relevante para expor a sua concepção enquanto uma ética proposta, muito próxima do presente pelas suas semelhanças com este, e por isso, uma prática nem tão transformadora, no entanto contrária às instituições conterrâneas, uma cidade possível, apesar de ideal e feliz . É também por meio da cidade, que o idealismo repercute no humanismo enquanto um potencial da razão .

O início da obra introduz a intenção da construção da cidade, enquanto um projeto para satisfazer a sede da natureza humana. Natureza esta, dotada de vontades cegas que corrompem a sua grandeza. O corpo, juntamente com a alma, constitui o ser. A alma é independente e auto-suficiente, não é molestada pelos apetites insaciáveis do corpo e se mantém intrínseca. Ao passo que o corpo depende do auxílio da convivência com outros corpos para ser mantido. Convivência a qual é caracterizada como natural e própria da afetividade da espécie humana, relacionar-se é próprio da natureza do ser para a sua sobrevivência corporal. Pode-se inferir disto que a natureza humana para Patrizi também abrange o corpo, pois o defeito é denunciado na mesma como sendo a carência de ponderações externas, diferentemente da perfectibilidade e completude da alma. O autor discorre sobre as comedidas sociais por meio da descrição de uma Cidade Feliz, assim como discorre sobre a conservação corpórea por meio da descrição de um ser saudável. Análoga ao ser, a cidade possui uma extensão que necessita de manutenção.

A quietude de tais anseios se fundamenta no bem. Pois nele se tem repouso e fim. A concepção de finitude nos objetivos humanos é dada para que estes preservem um sentido ideológico e não se esvaiam no vão da falta ou do vazio. A satisfação e realização dos desejos é o sumo bem, ou felicidade. Ideais que apóiam o ser pelo fato de serem alcançáveis e possíveis aos cidadãos, sendo essa felicidade o máximo bem e o contentamento da vida. É disto que surge também o sentido da projeção desse lugar perfeito afim de saciar os próprios desejos e, com isso, alcançar o bem necessário e suficiente. É a partir, pois, da premissa que o homem pode possuir a plenitude, que Patrizi explica uma ética para isso: por meio da virtude, da hierarquia implícita nos três graus do corpo, divididos em sete partes. A primeira e superior é a alma por si mesma composta da virtude especulativa; a segunda são as virtudes morais que abrangem a temperança e continência, dividida em quatro partes cujas denominações estão na alma sobre o corpo, na alma cuidando do que é necessário ao corpo, no próprio corpo e por fim, naquilo que é necessário ao corpo; e na terceira estão a virtude que diz respeito à liberalidade e justiça, mais aplicadas no âmbito da servidão, onde se encontram os instrumentos para o que é necessário à conservação do corpo e o tempo de duração da ligação da alma ao corpo. Virtudes as quais da terceira parte em diante serão detalhadamente explicadas na descrição das funções e ofícios distribuídos na criação da cidade: desde o cuidado alimentar, a localização territorial, a legislação e organização política, até a segurança, a economia e a religião. Vemos nisso, a importância da alma sobre o corpo, paralelamente à virtude do cidadão sobre a cidade, enquanto aquilo que os mantêm, necessariamente. Assim como no capítulo terceiro o filósofo esclarece a sua característica de possibilitar o corpo e propiciar a vida:

“É opinião de Platão, de Aristóteles e de todos os outros filósofos e médicos, o que, além disso, sensatamente se prova, que tanto tempo vive o homem quanto a alma está ao corpo ligada, e a alma, tão longamente com o corpo habita, quanto dura o vínculo que fortemente unidos os mantém.”

O instrumento priorizado, e anterior às descrições de outros na Cidade Feliz, para que a quietude dos anseios ocorra e se conserve a beatitude é o espírito. Ele vincula a alma ao corpo, e sua manutenção se dá por meio da própria cidade. Ela é construída com a finalidade de preservá-lo, pois ser justamente o responsável quem eleva os estados viciantes do corpo às virtudes especulativas da alma. Elevação não diretamente falando, porém reconhecida no tratamento adequado do corpo, ou seja, na boa organização da cidade e sua estrutura distribuída para atender as necessidades dos cidadãos. A virtude já distribuída nos ofícios da cidade, portanto, provém do espírito enquanto mantido “quanto dura o vínculo que fortemente unidos os mantém”, a alma e o corpo. Pode-se, ainda, associar tal espírito enquanto uma força ou potência que sustenta a vida da Cidade Feliz, ao passo que é dele que se iniciam as virtudes da mesma, como por exemplo: uma boa atmosfera sem corromper o ar e o sangue (que constituem o espírito) denota uma boa localização à cidade, assim como a alimentação suficiente para não corromper a digestão, etc.

É a partir do corpo saudável por meio do espírito, portanto, que as necessidades se realizam nas relações sociais. A noção de necessidade é uma moral que perpassa por toda a obra, a ética dos cidadãos está na justa medida, trazida também pela suficiência. E implicado por ela está o acréscimo do amor próprio para a defesa da cidade. Mesmo que caracterizado anteriormente como natural, o convívio com outros homens nasce da necessidade de sobrevivência da própria organização social. Disto se dá, inclusive, a resistência coercitiva nos momentos de guerrilhas . Logo, a necessidade da milícia é comparada pelo amor à pátria, em sua defesa e coesão .

Em continuidade com o tratamento dado ao corpo, está a ordem de governo e suas instruções priorizadas pela experiência da velhice. O legislador é aquele quem já alcançou a beatitude ou prudência, e agora a demonstra como exemplo para os cidadãos, pois sua virtude a afastar os “humores maléficos” os quais trazem “dor e martírio” . Ele, o legislador, assim como os outros componentes da cidade (os camponeses, os artífices, os mercadores, guerreiros, magistrados e sacerdotes), colaboram com a cidade com suas virtudes. Apesar de não serem considerados cidadãos, os camponeses, artífices e mercadores, compõem a parte do terceiro grau da virtude: o que serve à liberalidade e à justiça:

“E porque estes artífices, para prepararem tais alimentos, têm necessidade de muitos e vários instrumentos, segue-se uma outra multidão de artífices, de cortadores de pedra, de pedreiros, de lenhadores e de ferreiros, os quais vão fabricando as coisas necessárias àquelas primeiras. Todas estas coisas, umas mais e outras menos, concorrem para a criação dos espíritos, para o remédio da vida, contra aquele primeiro defeito, que ocorre quando eles não são gerados.”

A ocupação em demasia pelo trabalho, não os possibilitam de alcançar a ponderação, daí não obterem o título de cidadãos, por não viverem “sem impedimentos” para equilibrarem seus ofícios com a ociosidade e conquistarem uma justa medida. A maneira conforme descreve a classificação dessas três classes que ajudam a compor a cidade é discorrida com a leveza de quem ainda não enxergava defeitos na miséria e na servidão desses patamares pelo autor considerados como inferiores.

O sentido ético percorrido pela Cidade Feliz também pode ser encontrado na formação do cidadão, na medida em que a partir deste se forma a cidade . Patrizi enumera três meios para a aquisição da virtude ao cidadão: pela natureza onde estão as aptidões naturais, pelo hábito onde se purifica os apetites devido a leis instituídas e pela razão para além dos costumes estabelecidos, especulada tanto nas leis quanto na natureza. O cidadão é livre para conquistá-las, pois conta com a vida adequada de acordo com a boa estrutura de sua sociedade para a vida feliz “conforme a virtude perfeita” . Ele [o cidadão] a alcança com o mesmo caminho percorrido na definição dos patamares de virtude, a temperança, a prudência e a justiça; os quais devem ser, em primeiro lugar, honestos, depois necessários e úteis para a permanência da cidade , então denominados cidadãos, ou parte citadina da cidade que se encontra nem somente na paz nem somente na guerra . Seu paraíso, pois, é alcançável em vida, prazerosamente, sendo que prazer é concebido com a idéia de contentamento e suficiência na obra, articulados na virtude moral, ou seja, nos hábitos do corpo. Mesmo que servo da alma, o corpo está mais em contato com o mundo exterior do que ela, por isso o filósofo argumenta o dever de cuidar primeiramente dele:

“E tendo em vista que o homem é dois, corpo e alma, assim a alma também é duas, racional e irracional. E como o corpo é feito para a alma, sendo ela anterior no tempo, assim a parte irracional, que com o corpo se mescla, serve à racional e põe-se em ação primeiramente, o que não faz a razão, que é a última perfeição do homem. Por isso, é apropriado que o legislador, o quanto possa, tenha, primeiramente, cuidado com o corpo de seus cidadãos e depois, com a alma.”

Ao trecho acima citado pode se utilizar a argumentação sobre outra passagem em que Patrizi enfatiza a importância do estudo das interdependências depositadas nesses dois aspectos difusos do ser (a alma e o corpo). É quando o autor pronuncia a importância da primeira impressão entranhada em nossa memória. Onde relata como seria a educação dos filhos e recusa “pinturas lascivas” e “comédias e poemas semelhantes”, competindo à alma, proibir o corpo do contato com coisas “viciosas e desonestas”. A prioridade no contato com coisas condutoras ao bem e não aos vícios configura a boa utilização dos sentidos, visão e audição principalmente, para o registro imediato enquanto marco de aprendizagem. O desejo de saber a razão das coisas é despertado pela música e pintura, sensíveis ao gosto apresentado aos sentidos. Porém a curiosidade iniciada pela especulação é que apreende a virtude intelectual de desenvolver plenamente as imagens dos sentidos . O termo chave aqui é a especulação, já citada muitas vezes no texto do autor, e muito aproximada à própria filosofia. Pois quem leva o desejo pela arte à perfeição é a mesma, a filosofia. Assim como Patrizi articula também, que os dois ensinamentos devem ser instruídos pela leitura, utilizando-se da gramática para entendê-los. A virtude intelectual especulativa, portanto, encontrada no âmbito da alma, da aprendizagem filosófica do espírito, e porque não, da própria felicidade.

Pois a virtude intelectual também é associada ao estado mediano por se referir inclusive a mais uma conservação pública da cidade , além de se assemelhar à educação humanista . À justa medida, argumentado no penúltimo parágrafo da obra, Patrizi dispõe a música (aprendizado ideal) não somente como um instrumento do aprendizado dos filhos como também da causa da “delícia e júbilo”, da “alegria” aplicada nos banquetes e nos lares.


BIBLIOGRAFIA

PATRIZI, Francesco. “A Cidade Feliz”. In: In: Revista Morus Utopia e Renascimento. Nº 1, 2004.

MORAES Jr, Helvio Gomes. “Percorrendo a Cidade Feliz: uma leitura da utopia patriziana.” In: Revista Morus Utopia e Renascimento.

MORAES Jr, Helvio Gomes. “A Cidade Feliz: a utopia aristocrática de Francesco Patrizi”. In: Revista Morus Utopia e Renascimento. Nº 1, 2004.





A uma só voz


Só a voz encanta
só a voz assanha
só a voz é santa
só a voz, tamanha!

É só a voz que é linda
é só a voz, ouvida
é só a voz, querida
é só a voz senhora

Porque a voz manda
porque a voz preenche
a voz não se iguala
a voz carrega a mente




Vós, simplesmente
Vós que se cala
e a paixão levanta
voz ilude e abala

Na voz que eu vi
na voz vibrava
na voz eu cri
não precisava

Visei sua vez
vós se embalava
na voz suando
pra se sair suave

Da voz fiz teu mundo
de voz necessária
devota conspiração
de votos à notária

a voz amei
a vos suspiros
à voz delírios
à voz, falei
a voz flertei
a voz abracei
a voz conjuguei
à vos comigo

Avesso que digo
à vossa nossa
voz-umbigo

Só com a voz transei
porque a voz procurada
era a voz que não era nada
mas era a voz que foi dada

Na voz reluzente
de graves vozes graves
gravada nos dentes
a voz foi cravada

Não a mente
nem os feitos
ou doentes acertos
ou poderes eleitos

Só de voz é o sujeito
só de vos é a voz
só de voz
pobre de palavra
barulho e saliva
garganta

Mas que pobre de palavra
é só barulho que saliva
e no máximo cala

Língua da conquista
do puro sexo à larva
a mísera voz se levanta
mas não ilude o nada
na voz soam travas


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Crendices

Só ditos disse
credo ao índice
que não queixo

Um pintor

          Ele
     homem é
e borda a mulher

Doisconhecidos de conhecidos

Dois voadores discos
tocam conversas musicais
para os olhares dançarem
ao par de rostos semi-animais

Versos borboletas
e pernas borbulhantes
o que era aquele instante
com asas de estrela?

Que perdidos explodidos brilhos
errantes numa fogueira
primavera de sujeiras
delícia doce, pai e filho

Um bocado de gemido
gritante de medo e frio
de ouvido como túnel
escorrida de vento X arrepio

Lambido estribilho
loucadêmicos desmentidos
pára-fusados-soltos
avoados em forma de doutos

Outros presentes livres
muita minerva teórica
e muita energia ao agora
desfaziam-se em deslizes

Enredo pra poucos
foi o merecido
sem maiores pousos
onde foram ruídos


À primeira "houvida"

É amor assim
de primeira
vista pois

não foi outrora
d'antes
ouvido algo

Agora houve
e não mais vejo
tempo depois
lembreijos

Tempo é só depois
após o visto
busca-se a voz
ama-se um juízo

Lembrimagem
e desejo no som
da voz-miragem
casal explosion

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Na hora

Hoje estou com gazes. Deve ter sido as bolhas de sono engolidas com adoçante... Agora tudo me soa pesado e as palavras voam: efeitos desse domingo invernoso!?

Em cantos

Um trocado
agora mendigo
que pede a hora
                          da troca
                          e corta
ares
da toca pelos bocados
de cada boca
boca boca boca
oca
acudida com toques
teclados

Parâmetro

Quem disse que eu podia
eu podia te escrever
e desenhar pessoas frias
reclamando ingratidões

Não, eu não poderia
repetir no prazer
de te fazer poesias
fazer poesia de você

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Temporada

Num dia antes
a ida ao antes
noutro a hora
a chegada durante

Depois agora
a volta pela demora
constituída
de coincidências

E o instante não trouxe
nada momentâneo
ou de errôneo
e partiu você

De onde não esteve
fechou-se no abril
espaço muito breve
pra quem nem fugiu

Infarto

Coração aritmado
bate bate no tempo
travado
na porta, pára
para fechado

Coração lento
dança no som
vai sem rebento
até algum tom

Coração estreito
pontual ao vento
atrasa o trajeto
teimando ir reto

Coração ninguém
de tanto que não tem
quer-se um ser só
que só é do peito

Coração atento
pelo ar obcecado
delira até o nó
continuar apertado

Cora sons
emudecido desmaia
deita no caos
espasma no gozo
e esvai

sábado, 10 de abril de 2010

Infer Herói

É preciso poder para ser super
É preciso poder para poder
Só isso já serve para o ser vir apoder
isso é o bastante para se possuir

Deplorável sufoco
desuficiência sofrer
desuperação se fazer

ter de ser senhor para ser
conjugar os verbos sem vida
e julgar com versos o ter



















(foto da pintura de Rick Rivet)

Justiça

                       Justo você

                 Meras  medidas  me
                 balançam
                 os pesos
                 são

                 Meras medidas
                 que     me balançam
                          tenho
                 mas              equilíbrio
                           em
                          você

             um tem           outro restaura
         hormônio            neurônio
que envergonha           como patrimônio

                          Mas
                          aqui
                        é justo
                         você, balança
                                              
                                                     Viva
 à justiça!                 

Esquecimento

É o nada
o vão, a ida
a coisa
passada

É invento
silêncio
momento
ação vazia

É abstrato
o branco, pó
a pausa
vôo

É o ar, o Deus
o nó
rebento
impulso

É breu, clarão
canção
tempo, é fim
e fluxo

É tudo, resto
pouco oco
iludido
destemido

É nada e muito
vento fortuito
que surge
assim



















(pintura de Mário Rita)

sábado, 20 de março de 2010

Silêncio

Digo você
silêncio
digo sim e lê-se o
Digo
em silêncio

Assim lento
brando sem falácia
encontrei o cinzento
a cintilante águia

Vento sem máxima
o repouso do ar
no transe do olho
a pausa clásica

De classe inocente
movimento do sempre
só mostra a voz
mas não a sente

Cala-me a defesa
fazendo-me gritar
pela sua natureza
mantém a presença

Só é silêncio
sono frio sem tato
eu falando sozinha
ao amor sem ato

Rio de murmurinhos
sem nenhum olfato
não encontro meios
de provar seu tédio

Sua fuga ao leito
à mudez sem remédio
teu vazio no peito
me abraça sem crédito

Aceito e te beijo
mas nunca te pego
eco que se expande
fugindo por ego

Adentra o silêncio
e sinto o prazer
de garras, polêmico
e tão grave ser

Quieto, quieto
que estou muito lúcida
com você por perto
quando quero música

Dueto

E o sopro dos hormônios
estoura as cordas
dos neurônios

Completamente amarrada
pelo triz que me toca
puxando-me ao nada

Ao ar das notas
onde ventou uma troca
entre o sopro e a solta
entre o infinito e a hora

Há cordas e bocas
curvas e setas
horizontes e amores
dimensões e as flores

Mas não duas metas
ou contra-valores
são corpos harmônicos
arranjos na orquestra

Momentos sinfônicos
instrumentos dispostos
integram os compostos
de mais som na vitrola

E aumenta a frequência
da música que na viola
intensidade alta não falta
pra acompanhar uma flauta

Tente a ativa

É só tempo que a gente tem

tem  tem  tem  tem

quem não tem põe morte

no que tem



Acabou-se o têm

agora é pó também

pegue o trem quem pode

e aposte na ponte



Ou pare o bonde

se tiver alguém

que te mantém

no poste



Tente a sorte

que o tempo vêm

e te dá um norte

até o além

Vaidade adúltera

Ela viu          o amor             dos homens

porque Hera

mulher

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre um trecho de Utopia, Thomas Morus

Num trecho de Utopia, de Thomas Morus:

A Utopia se consolida porque surge de um tempo na história. E por isso é imperfeita, como o são também as cidades vigentes do período. No entanto, não deixa de conter a maior estabilidade, mesmo que idealizada, de uma cidade. Avessa aos países guerreiros em busca de reputação e, com isso, destruição, ela constrói a sua justiça com educação e qualidade de vida. Diferentemente da República de Platão no aspecto de ser fortalecida, porque é consistente somente no plano dos ideais, a Utopia não desmorona pois, inclusive, pode ser estabelecida.

Pode-se marcar já no início do livro primeiro da Utopia, de Thomas Morus, a força com que Rafael Hitiodeu é apresentado como citador de Cícero e Sêneca, assim como referenciado pois “…navegou com Ulisses e Platão. Escutai sua história…”. O que enfatiza o personagem enquanto inserido no contexto histórico, assim como historicamente também existente na viagem com Américo Vespúcio. O relato de sua procedência, antes do início da narrativa sobre a Ilha, denota uma equiparação à realidade encontrada antes de Utopia. A situação em que expressam seus valores e desejos de bem aventurança numa cidade ideal enfatiza o patamar vivido na Inglaterra com Henrique VIII, sem ignorar as estruturas do momento. A denunciada “imperfeição”, entranhada por demais na natureza humana a ser erradicada, não se refere tão somente às mínimas porém verificáveis imperfeições de Utopia, como principalmente à Inglaterra e cidades afins, possuidoras de ambições por reputações, a ponto de ocasionarem violências etc., conforme os vícios humanos. Vícios que, entretanto, pela passagem referida, estão entranhados na natureza humana mas são passíveis de transformação, segundo o desejo e admiração de Morus aos utopianos: “…me agradaria ver adotado no restante do mundo.”

Mas se a “natureza humana” discutida neste trecho por Morus é embutida de tais imperfeições, assim como relata também sobre outras sociedades que não a do discurso de Rafael, das quais as guerras, as ambições, a violência e as distorções do passado são evidentes; a natureza humana dos utopianos é aquela razoável, conforme a virtude do cidadão portador de justiça, verdade e generosidade. A circunstância em que começam a falar do povo utopiano já nos traz as atitudes de admiração aos mesmos: Morus se refere à felicidade dos lucros no cargo de ministro junto ao príncipe o qual Rafael poderia se inserir, ao passo que Rafael o recusa se utilizando de argumentos relacionados aos negócios públicos enquanto virtuosos e felizes somente quando em função da sociedade, e não aos interesses privados. A distinção entre os dois universos, privado e público, é feita justamente por meio da Utopia como argumento de algo diferente daquela organização social onde estavam inseridos. “Sistema” utopiano o qual se assemelha a uma cidade ideal, porque não existe de fato (outopia – não lugar), como também por se aproximar de valores benéficos a todos da “nação” (éticos: eutopia - bom lugar), constituindo parcerias com a República de Platão em determinados aspectos, como na “boa aventurança” e na “unidade”.

Em Platão, a República é idealiza não somente porque não existe no plano terreno como também pela impossibilidade de um alcance definitivo ao Bem supremo pela alma humana, pelo fato da Ideia de Bem conter esse carácter infinitamente reflexivo e de concórdias dialéticas, é necessário à própria cidade ser Ideal e não existir, a fim de sempre vislumbrarem-na. Já em Morus, o plano imaginário da Ilha decorre da conseqüênte imperfeição da realidade, sem nenhum outro vínculo que a impedisse de se tornar real. Isso já explicita um pouco da possibilidade de sua realização. A forma de romance em que é escrito também auxilia nessa caracterização literal e ilusória, não tanto, porém, o seu conteúdo. Há inclusive, um subtexto de esperança implícito na obra ao expôr o desejo de adotar a perpetuidade de Utopia nas outras sociedades:

“…dou-me por satisfeito que pelo menos uma nação tenha sido capaz de criar um sistema que muito me agradaria ver adotado no restante do mundo. Pelo modo de vida que adotaram, os utopianos têm a oferecer não apenas a base mais sólida para uma comunidade feliz e civilizada, mas também, tanto quanto o espírito pode prever, a perpetuidade desse estado de bem-aventurança.”

Diferentemente, então, da tese platônica sobre a impossibilidade de sua República, a incapacidade de realidade da Utopia não está em sua obra enquanto especulativa somente ideal, mas principalmente na inclusão histórica em que se encontrava. Em plena crise do regime feudal , da conversão religiosa inglesa do catolicismo ao anglicanismo para fins individuais e pessoais de Henrique VIII etc.

Contra as forças militares da época, que guerrilhavam banalmente e a quaisquer motivos, a “base mais sólida” da população utopiana não se funda na base militar, primordialmente. Os principais fomentos de estabilidade social dos cidadãos de Utopia são o amor e a sabedoria. Sabedoria esta que, mais similar ao socratismo que ao sofismo, não era concebida por vaidade ou espontaneidades da ambição e/ou reputação, porém de carácter construtivo em função coletiva, social. A razão muitas vezes é utilizada como instrumento de cidadania, onde por meio dela se alcança a virtude . Esta última, por sua vez, fundamenta-se na própria vida conforme a natureza humana, ou seja, na conduta pela razão. Contrários às penas de morte, utilizam-se da instrução e do potencial de renovação social, a ponto de obterem tal “perpetuidade” e manutenção da ordem bem distribuída, sem preceitos que fomentem ao crime, tais como a miséria e a privação territorial dos feudos, criticadas na primeira parte do livro. Assim, “o espírito humano pode prever a perpetuidade desse estado de bem-aventurança”, ao manter sua organização bem distribuída econômica, educacional, jurídica e politicamente. Princípios como igualdade, generosidade e liberdade são cultivados para atender esta demanda. Na distribuição territorial, por meio da arquitetura padronizada das casas e sorteio frequente na habitação das mesmas, na econômica o trabalho é realizado por todos , inclusive nobres, no âmbito educacional há cursos disponíveis a quem queira cursar, no jurídico e político, são os mais letrados escolhidos para magistrar determinado número de famílias, são treinados soldados a fim de excepcionalmente defender a cidade, não por expansão de territórios. O luxo , a demasia, a ambição, a inveja e a própria guerra civil são considerados destrutivos ao coletivo e, por isso, também aos cidadãos. Eis a “unidade” garantida pelo “bem geral” , prioritariamente.

No último período do texto, chega-se à duas concepções chaves: uma enquanto a fortaleza íntegra e indestrutível da Utopia, outra como sendo o tempo de duração de Utopia, enquanto constituída de uma história, por mais ideal que seja. A imperfeição, citada no início do trecho como se referindo aos vícios da natureza humana da sociedade real da época, pode ser vista, aqui em Utopia, enquanto um reconhecimento de que há imprefeições até na organização criada pela Ilha, o que além de noticiar o sintoma esperançoso conforme já descrito aqui, também propicia a abertura da cidade aos novos contextos inseridos, ilustrando um nacionalismo flexível, e não totalitário como vêmos em algumas Distopias, por exemplo em “1984” ou em “Admirável Mundo Novo”. Assim como o comentador Cosimo Quarta defende em seus escritos sobre Morus, três possíveis sentidos de leitura da Utopia: o alegórico (ideal), o semântico (de “valências críticas” e éticas) e o dinâmico (de possibilidades de liberdade, mudança e dimensão do futuro) , há na obra uma vontade de superar os males sociais por meio de tal “consciência crítico-projetual” . Um argumento para isso é a apresentação antes da Utopia ser introduzida na obra, Rafael articula muito sobre a libertação da cidade atual, especulando como seria uma cidade ideal afim de transformá-la, caso não houvesse tal preocupação, a necessidade de referências históricas mal seria desenvolvida na obra, como acontece com a República, por exemplo. Arriscar-se-ia até rever em Utopia um otimismo frente a conquistas e mudanças ainda realizáveis . Outro pesquisador, Arrigo Colombo, escreveu que a Utopia compromete o homem a agir, não sendo algo que estagna . Ele classifica a Utopia enquanto histórica, e não filosófico-literária, porém discorre que a obra traz somente idéias de uma prática e não ela em si, pois isto não compete à um único autor, mas à sociedade como um todo, afirma também que ela, a Utopia, é um projeto e processo histórico . Logo, a sua força não está na violência guerreira, mas na compreensão reflexiva. As intenções no modo como o autor relata o passado e a história social não negam isso, a ponto de simular além da cidade utópica, a história desta mesma, também como indestrutível. Quer-se-ia, além da transformação social, a propria transformação histórica? História que, para ser reconhecida, abrangeria, também, um suposto futuro.


BIBLIOGRAFIA:

MORE, Thomas. A utopia. Trad. Luís de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça. In Revista Morus Utopia e Renascimento. Dossiê: O impacto da descoberta do Novo Mundo na cultura européia. V3. Campinas: Unicamp: 2006.

QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. In. Revista Morus, Utopia e Renascimento. Dossiê: O impacto da descoberta do Novo Mundo na cultura européia. V3. Campinas: Unicamp, 2006.

FIRPO, Luigi. Para uma definição de “utopia”, tradução de Carlos Eduardo O. Berriel, in. Morus Utopia e Renascimento. Dossiê: utopia como Gênero Literário. V.2. Campinas: Unicamp, 2005.



Notas:
Críticas a respeito do regime vigente na recusa de Rafael a trabalhar para o Príncipe: “Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e entre estas duas palavras latinas ‘servire’ e ‘inservire’, vêem apenas uma sílaba a mais, ou a menos.”( MORE, Thomas. A utopia)


Segundo biografia de Morus, o Príncipe haveria preferido o anglicanismo ao catolicismo da época para se casar novamente. (MORE, Thomas. A utopia. p.23)

“Traduzo aqui com ‘sabedoria’ o que Morus chama ‘sapientia’ ou ‘prudentia’ e que, no fundo, se identifica com a ‘ratio’ e, portanto, com ‘natura’, visto que na Utopia (162/18-22) é dito claramente que a virtude consiste no viver ‘conforme a natureza’ e vive conforme a natureza somente quem,’desejando ou fugindo das coisas, obedece à razão’.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave.p.38.)

O oposto se dá na sociedade critica no primeiro livro, quanto à razão humana: “ Eles quebram a cabeça até encontrar um argumento contraditório, e, se a memória lógica lhes minguam, entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim fizeram: ah! Queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois se assentam, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-se-ia, ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que os seus antepassados.” (MORE, Thomas. A utopia.)

“Porque neste século de dinheiro, onde o dinheiro é o deus e a medida universal, grande é o número das artes frívolas e vãs que se exercem unicamente a serviço do luxo e do desregramento.” (MORE, Thomas. A utopia. Livro II)

“Desta maneira ninguém fica exposto a desembuchar levianamente as primeiras coisas que lhe passem pela cabeça, e a defender, em seguida, a sua opinião antes do que o bem geral…”

“A linguagem de Utopia, de fato, além do sentido literal, possui outros dois: um alegórico e outro dinâmico.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. p. 50)

“Em Morus, não somente a consciência crítico-projetual, mas também a tensão realizadora é de tal modo forte que nos apresenta o ‘ótimo estado’ como já realizado.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. p. 51)

A respeito de tal perseverança, no início do primeiro livro, Morus conta: “Para dizer a verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituições tão ruins quanto as nossas, mas observou também um grande número de leis capazes de esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.” (MORE, Thomas. A utopia.)

“É, por conseguinte, o projeto de uma sociedade ordenadaem termos de justiça, não um projeto qualquer, mas eticamente qualificado, que envolve o homem com um vínculo ético, um porvir. Não um fato imaginário, um sonho, uma veleidade impotente, como muitos pensam errando, mas um vínculo, um porvir onde o homem é compelido a atuar. O homem está insuperavelmente inclinado ao comportamento justo, a construir uma sociedade de justiça.” (COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça, p.56.)

“Eis a intuição fundamental: de que a sociedade não pode ser transformada pelo projeto excogitado de um autor, mas somente por um movimento em vigor na própria sociedade, movimento portador de um projeto que se elabora no seu interno, que o movimento, e com ela asociedade, põem em vigor. Não um projeto mental, pensado, ‘descoberto’.” (COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça, p.61.)

wittgenstein: O USO DITO NO SENTIDO EXPRESSO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Campus Guarulhos
Aluna: Cristilene Carneiro da Silva
Disciplina: Filosofia da Lógica I
Curso: Filosofia
Professor: Marcelo de Carvalho
Período: noturno
Dissertação Final sobre o Tractatus Logicus Philosophicus de Wittgenstein:
O USO DITO NO SENTIDO EXPRESSO

São Paulo
26/11/2009





INTRODUÇÃO
No Tractatus, o significado dos símbolos, aparecem também, como delimitadores da descrição, mas ainda não como o objeto da fixação dos valores. Mas sim a variável proposicional dotada de sentido (“Sinn”), que os agrupa enquanto este objeto. A expressão (“Ausdruck”), mesmo exposta como constante para Wittgenstein, aproxima-se ou pode ser o próprio símbolo significador, porém ainda comporta o sinal (“Zeichen”), que é arbitrário e por isso causador de confusões filosóficas ou mesmo, de deliberações. Ela, a expressão, se aproxima do “uso” nas Investigações: “Um das Symbol am Zeichen zu erkennen, muS man auf den sinnvollen Gebrauch achten.” Ou seja: “Para reconhecer o símbolo no sinal, deve-se atentar para o uso significativo” , mas ainda aparece limitada pela forma geral da proposição. A expressão é o que valoriza o sentido impresso (sinal), é o uso significativo que o denota. Há, portanto, diferenças visíveis entre este uso articulado do sinal no Tractatus, que postula a filosofia à linguagem.

I

O “Sinal” é o objeto do pensamento, projetor da proposição possível. Já o “sinal proposicional” articula o sentido correspondente à realidade, V ou F da proposição, enquanto validade: “a proposição é o sinal proposicional em sua relação projetiva com o mundo” Aqui se investiga uma conseqüente distinção do valor ao “sinal”, mas somente à “proposição”. E o valor da proposição sinaliza o “sentido” dado pelo sinal proposicional projetado no mundo. A proposição possibilita o sinal, o projetado, mas estes não são fixos. Mas somente a proposição se estabelece no patamar da “significação”. O sentido está como que em potência na proposição, mas não necessariamente manifesto sempre e constantemente. Ele pode variar, mas quando interage com a realidade, é um fato . O sentido é empregado no sinal proposicional e compreendido, articulado, acontecido. O uso significativo do sentido é a sua expressão. Pois se a proposição possuir sentido (relacionar-se com o mundo), ela expressa algo no mundo de valor (afirmação ou negação), para além do seu significado (ordenado e registrado pelas palavras). Portanto, os sinais não necessariamente são palavras, apesar de se confundirem na escrita. O “nome”, porém, só possui significado na proposição, mas depende do sinal (dos sinais simples e dos primitivos) para possuir sentido próprio, e o sinal pode vir a ser um nome, o nome pode ser o próprio sinal, mas somente quando utilizado na proposição. Proposição aqui se refere às circunstâncias dos significados, em geral, às quais o nome se encontra contextualizado. Wittgenstein concebe o sinal como uma conseqüência da relação, ou ela própria, e não o que a causa . Por isso é variável, e também por isso não estabelece nada, não intitula, somente expressa algo. O Sinal proposicional ou sentido da proposição, por exemplo, podem ser vistos como “estado de coisas”, daí ele ser um fato, por ser independente das palavras mesmo quando figurado por elas. Os sinais proposicionais são símbolos (expressões) do pensamento, assim como o pensamento é símbolo da proposição e o sinal simples (ou signo), do nome.

Assim, a essência não mais se encontra no sinal, mas nas palavras (nomes) ou na definição (conceitos). O sinal é a situação, o estado de coisas, por isso é caracterizado como variável, pois “situações podem ser descritas, não nomeadas.” Pois o nome não alcança o sentido do significado articulado, expresso. Os nomes significam os objetos por meio dos sinais, mas os sinais também são simples, já a proposição é a análise completa (significada) deles. Os sinais para Wittgenstein estão próximos do que vem a ser os objetos. Pois os sinais também são figurados pelos nomes, assim como os objetos: “À configuração dos sinais simples no sinal proposicional corresponde à configuração dos objetos na situação.” O significado do objeto (nome) substitui o sinal e o objeto na proposição. O sinal simples configurado no sinal proposicional é o seu uso significativo, a proposição que contém significado, não o sinal. O sinal é um instrumento para a significação. Ele, expresso pela proposição, é a significação. A correlação dos nomes (os quais são os sinais simples aplicados no sinal proposicional) é a proposição, é a relação entre os sinais proposicionais, assim como o fato é a relação entre as coisas. No entanto, não há como mostrar/representar os objetos, exatamente, daí porque não há mais a essência enquanto Aristotélica, a essência está agora na linguagem que os nomeia, figurativamente. A essência está no significado, o qual se aproxima da estabilidade do objeto, não porque o valida verdadeiramente no mundo , mas porque descreve articuladamente as suas propriedades: “uma proposição só pode dizer como uma coisa é, não o que ela é.” A essência da proposição passa à descrição, não mais à ontologia nem à epistemologia. A descrição é significação não porque é associada à sua validade no mundo (V ou F), mas porque abrange as possibilidades figurativas de um fato por meio da linguagem, ou da forma geral da proposição, mas não necessariamente sua definição (e esta última é considerada somente como uma descrição que sintetiza um complexo ). E essa descrição articulada ou proposição (sinal proposicional, símbolo ou expressão) é que é constante, não mais suas propriedades (ou sinais primitivos).

II

Logo, o sentido omitido em potência no sinal é esmiuçado pelo uso significativo que o símbolo faz do sinal, a fim de expressá-lo. Com base na proposição enquanto a própria significação , pode se enxergar a definição ou os conceitos como o indivisível da proposição, a síntese descritiva e a análise completa da proposição, em outras palavras, o próprio significado afixado em um valor. Com a diferença de que a proposição é divisível, e a definição ou conceitos não. A distância, pois, entre o signo e a significação, é estreitada pela existência de “uma e apenas uma análise completa da proposição.” Porém, na passagem 3.261, Wittgenstein expõe outra distinção que melhor detalha a dissociação dos termos referidos, onde conclui a importância do “sinal definido” enquanto condutor dos outros sinais pela definição, mas sempre devido aos próprios sinais primitivos. Para facilitar a leitura, um suposto exemplo do que viriam a ser tal sinal definido pode ser especulado enquanto o nome, substantivo comum, por exemplo, “papel” e, seus sinais primitivos enquanto “branco”, “novo” etc. Estes últimos constituem inúmeros símbolos dependendo do sentido em que forem expressados para dizer algo sobre um nome definido. Entra aqui, o emprego significativo desses sinais, podendo inúmeros símbolos conterem mesmas características “brancas” ou “novas”, o que ainda não articula seus sentidos enquanto referidos a um significado. A análise completa da combinação entre tais sinais é que proporciona o sentido dos mesmos, mesmo que não validados enquanto fatos no mundo, são fatos possíveis de significação. Num esquema mais visual:

(uso de sentido no que é dito): Objetos -> sinais simples -> nomes definidos

(sentido expresso em significação): Nomes -> sinais proposicionais -> proposição

Nota-se que o que é dito não é o sentido e o sinal, mas o emprego dos mesmos na definição dos nomes, por ex. É a significação dos mesmos. A aplicação deles na linguagem. Os sinais não possuem papel de significar algo, mas são instrumentos utilizados para isso, ele se aproximam do fato e do objeto assim como de sua valoração no real (seu sentido no significado): “o que não vem expresso nos sinais, seu emprego mostra. O que os sinais escamoteiam, seu emprego denuncia.” A expressão (Ausdruck) liga, pois, o sinal (que nem sempre é externo e revelado como ela, numa oposição ao sinal) ao significado. Sendo ela aquilo que pode ser mostrado/representado, elucidado. A expressão se aproxima do sinal proposicional; “a cada parte da proposição que caracteriza o sentido dela, chamo uma expressão (um símbolo – ein symbol)” assim como também se aproxima da própria proposição: “a própria proposição é uma expressão)” . Expressão no Tractatus aparece enquanto sendo o projetado, o comunicado. Assim, a proposição, manifesta o sentido por meio do nome articulado: “é só no contexto da proposição que um nome tem significado”, e o nome ganha significado. “Na proposição, portanto, ainda não está contido seu sentido, mas sim a possibilidade de exprimi-lo. (o ‘conteúdo da proposição’ significa o conteúdo da proposição dotada de sentido). Na proposição está contida a forma de seu sentido, mas não o conteúdo.” Dando a entender esta expressão como próxima da figuração entre o objeto e a proposição, ou o conteúdo do sinal com seu sentido exposto na forma da proposição, simbolizado. “A expressão assinala uma forma e um conteúdo. ” Veja que, expressão e linguagem aqui se mesclam, porém não é a palavra “Sprechweise” ou “Sprache” a utilizada por Wittgenstein, mas sim “Ausdruck”. A expressão está associada com o limite da linguagem, sua essência: ela caracteriza a forma geral das proposições que a representa.

Em 3.312, Wittgenstein diz que a expressão é constante e é o que há em comum nas proposições. E conforme 3.314, se a expressão só tem significado na proposição, o sinal só tem significado quando expresso, ligando assim ao plano da significação proposicional e enlaçando-os aos limites da linguagem por meio da limitação dada pela proposição, mesmo que dando uma maior expansão às possibilidades da proposição. E logo em seguida, na 3.316 a explicação é sobre a proposição que, ainda subsiste em “valores fixados”, ou descritos, porém em 3.316 será dito que não é a “variável proposicional” o essencial que limita a proposição, mas sim a “forma comum da expressão”. Wittgenstein define a proposição em 3.318 como a função dessas expressões, nela contidas. Já o sinal é aquilo que é sensivelmente perceptível no símbolo (sinal proposicional ou expressão). Porém os modos de designação são diferentes dos sinais e dos símbolos, por isso podem ter sinais em comum, mas não mesmo desígnio, ou significado. O “uso significativo” do sinal confere o caráter singular dele transcrito, designado, expresso em símbolo. O sinal é desvendado pelo seu “uso significativo” [sinnvollen Gebrauch]. O sinal é utilizado para significar algo, mas não propriamente o que significa ou define os símbolos. O sinal pode possuir, no máximo, uma impressão, mas não um valor significativo (enquanto V ou F) como responde o filósofo às argumentações de Russel: sua tautologia paradoxal levaria a dizer que o sinal descreve a expressão e o significado, e não o contrário; a função da função não diz nada que não ela mesma. Wittgenstein trata a impressão contida do sinal não enquanto a representação de algo, mas somente dotada de um conteúdo propagador de sentido. Quem a expressará será o uso significativo feito sobre ela, por meio da proposição .

A distinção entre a validade e o sentido do nome estão feitas. O nome não pode ter significado porque não tem validade sozinho. O nome tem sentido, mas nem sempre significa: sem significado ele não tem validade na figuração, permaneceria como impressão na relação entre sujeito e mundo. “O nome é o que todos os símbolos que designam o objeto têm em comum... resultaria que nenhuma espécie de composição é essencial para o nome.” O valor não mais corresponde ao nome, ou ao conceito, para contra argumentar os socratismos. A essência não está mais no nome, mas sim no símbolo, na figuração e no significado. Mais abrangente: na forma geral da proposição. E no entanto, a significação do nome é arbitrária, mas “possível”, no sentido de entendível. A significação pode ser singular, porém já faz parte da essência (e do valor) do mundo.

Wittgenstein ainda não desmorona a lógica e a filosofia de todo neste movimento do livro, somente argumenta a respeito da confusão trazida a elas por meio da língua e principalmente, da mesma utilização significativa dos sinais para corresponder a mais de um símbolo, ou uma representação, equivocadamente . E inverterem também o conceito de expressão como denotativa e significação como comunicativa. Pois o filósofo alemão considera, já no Tractatus, que não existem definições gerais, mas sim sinais correspondentes, pois o que muda nas representações particulares não são o sentido, mas somente o uso da linguagem substituída ou traduzida em outras palavras de mesma significação, apesar de diferentes, ou o inverso. Mas o sentido permanece o mesmo, conforme argumenta em 3.344, o que significa no símbolo é o seu sentido em comum, a sua validade no mundo de acordo com os fatos ou não, não somente sua simples tradução ou reprodução. É o significado, pois, que se apresenta com validade sensível: “Na proposição o pensamento exprime-se sensível e perceptivelmente.” Porém não é somente a expressão e o símbolo que o significam, mas, principalmente o emprego do sinal que propicia seu conteúdo, seu sentido.

BIBLIOGRAFIA

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Introdução de Bertrand Russell. Trad. de Luiz Henrique Lopes. São Paulo: EDUSP, 2008.

_ SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”.

_ RUSSELL, Bertrand. “Introdução”.

Notas:

Tractatus, 3.326.


Tractatus, 3.12.

Afirmação de Wittgenstein em 3.14 do Tractatus: “O sinal proposicional é um fato.”

“ ‘O sinal complexo ‘aRb’ diz que ‘a’ mantém a relação ‘R’ com ‘b’, mas: que ‘a’ mantenha uma certa relação com ‘b’ diz que aRb.” ( Tractatus, 3.1432)

Tractatus,3.144.

Tractatus, 3.21.

O sentido da proposição não é mais condicionado à sua validade, a validade, porém, ainda provém do sentido. A respeito da tese da independência do sentido de uma proposição com respeito a sua verdade ou falsidade: “Dizer que uma proposição pode, em princípio, ser verdadeira ou falsa é dizer que ela, por exprimir um sentido, pode ser, em princípio, verdadeira ou falsa. Que ela exprima um sentido não pode, pois, depender de ser efetivamente verdadeira ou falsa. É porque uma combinação de sinais diz que as coisas são ou não são assim ou assado que ela vem a ser verdadeira ou vem a ser falsa, e não vice-versa.” (SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus p.20,)

Tractatus, 3.221

Tractatus, 3.24.

Ou como Wittgenstein a caracteriza enquanto “maneira determinada”, “claramente especificável”, “articulada” em 3.251 do Tractatus.

Tractatus, 3.25.

Tractatus, 3.262.

Tractatus, 3.31.

Tractatus, 3.31.

Tractatus, 3.13.

Tractatus, 3.31.

Afim de não confundir aqui, uso com utilitarismo, Luiz Henrique Lopes observa bem no seu ensaio introdutório a respeito do Tractatus que distancia Wittgenstein de quaisquer cientificismo ou epistemologismo: “O que Wittgenstein pretende invalidar não é um ou outro modo particular de foormulação de um ou outro problema filosófico particular, mas toda e qualquer formulação de todo e qualquer problema filosófico que o revele como algo análogo a um problema científico, que o faça consistir no problema de saber como representar corretamente algum domínio de objetos ou fatos.” (SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus, p.15.)

Assim como Bertrand Russell observa na introdução do Tractatus: “O objeto da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos.” Desprovida de significados, a filosofia torna-se quase o objeto da linguagem pela argumentação de Bertand Russell sobre a impossibilidade de dizer algo sobre a filosofia, mas somente de mostrá-la, expõe a filosofia como o que há entre um fato e a figuração dele. (RUSSELL, Bertrand. “Introdução”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus, p.117.)

Fichamento do cap. V e VII Do Contrato Social - J.J.Rosseau

São Paulo, 13 de novembro de 2008.
Seminário sobre o livro IV - Do Contrato Social, de J. Jacques Rousseau.
Unidade Curricular – Leitura e interpretação de textos clássicos
Professor – Ivo da Silva Júnior
Universidade Federal de Guarulhos
Curso de Filosofia - Vespertino
Parte da aluna Cristilene Carneiro da Silva (r.a: 50043)
entregue por escrito das seguintes partes do texto:

Leitura estrutural dos capítulos V a VII e comentário sobre o livro


Capítulo V: Do Tribunato

Constituição: Formação estabelecida das três partes do Estado, a saber: povo, príncipe e soberano.

Tribunato: Magistratura particular, não participante da constituição, mediadora dos poderes.

Desenvolvimento lógico:

Movimento lógico: De como o tribunato previne os abusos entre as partes do Estado.

_ Sub-movimento i: por meio de sua função enquanto magistratura particular de estabelecer uma proporção média na relação entre as partes constitutivas do estado, seja entre o príncipe e o povo ou entre o príncipe e o soberano.

_ Sub-movimento ii: condições de seu funcionamento =

a) conservar as leis e o poder legislativo: não participando de nenhum poder (nem executivo nem legislativo), não executa nem dá as leis, somente defende-as. “ ...e nisso exatamente está o seu maior poder, pois, não podendo fazer nada, tudo pode impedir. (§3, cap.V)”;

b) ser um apoio da constituição: não pode ser fraca pois sua existência já a força ser uma reação de peso significante para o equilíbrio do Estado.

c) conter a corrupção pois não executa nem muda as leis: não sobrando espaço para ser usurpadora.

d) ser submetido à lei para que não seja temível e sim conveniente e eficaz, suprido por intervalos de tempo, não ter permanência.

e) ser independente da constituição para que funcione e não a impeça de funcionar.

Tese: O Tribunato é necessário em momentos de desequilíbrio do Estado.

Tema: Definição e importância do Tribunato.



Capítulo VI: Da ditadura

Ordem Pública: Estabilidade das leis.

Ditadura: Ato particular para fins de segurança coletiva.


Desenvolvimento lógico:

1º Movimento Lógico: Da possibilidade de um ato particular ser viável:

_ Sub-movimento i - Em casos raros de fragilidade nas leis, seja por mudança ou circunstâncias imprevistas da mesma que anunciem perigo à pátria, pode-se permitir um ditador para a manutenção da segurança pública;

2º Movimento Lógico: Os tipos dessa comissão de segurança são de acordo com os tipos de ameaça:

_ Sub-movimento i - Se for necessário alterar somente as formas administrativas = maior concentração do Governo resolve.

_ Sub-movimento ii - Se for necessário evitar a autoridade do soberano e das leis = calar as leis por meio de um chefe.

3º Movimento Lógico: Condições para o procedimento da ditadura:

_ Sub-movimento i - Sobre a sua origem e função = a vontade geral é quem indica e permite que seja dominada por tal chefe, o qual não cria novas leis, somente as abafa.

_ Sub-movimento ii - O momento em que acontece = não deve ser banalizado e sim ocasiões de extrema gravidade como o declínio do Estado, por exemplo. Para que seja respeitável (a sua banalidade pode se tornar uma outra forma de governo como aconteceu em Roma no fim da república).

_ Sub-movimento iii - O seu tempo de permanência = deve ser suficiente somente para resolver o problema, e não para fazer projetos futuros, a fim de que não se prolongue o mandato. “Uma vez passada a necessidade urgente, a ditadura torna-se tirânica ou vã” (§ 7, cap. VI)


Tese: A ditadura pode ser uma solução das necessidades urgentes para o restabelecimento da ordem pública.

Tema: A ditadura e seu modo de realização.

Capítulo VII: Da censura

Opinião: julgamento

Costumes: comportamento

Censura: declaração do julgamento público

Desenvolvimento lógico:

1º Movimento Lógico: Explicação da definição de censura ser somente a declaradora das opiniões do povo.

_ Sub-movimento i - A lei fundamenta os costumes e restabelece-os, mas quem os conserva é a censura.

_ Sub-movimento ii - os costumes são julgados por opiniões.

_ Sub-movimento iii - os julgamentos são escolhas por meio de prazeres: as opiniões são feitas por meio do que é prazeroso à vontade geral.

2º Movimento Lógico: Funções da censura como zeladora dos costumes:

_ Sub-movimento i - a censura não modifica as leis nem os costumes: não é coerciva porque não tem poder de representar um julgamento público, mas somente de cuidar do que a vontade geral julga.

_ Sub-movimento ii – a censura mantém as opiniões sem corrompê-las e aplica o que já se fixou para acentuá-las. Ou seja, não julga mas aplica punição no que já foi julgado.

Tese: A censura não tem poder de julgar.

Tema: Sobre a definição de censura.


COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO IV:

No primeiro capítulo do livro IV “De como a vontade geral é indestrutível” de sua obra Do Contrato Social, Rousseau investiga possibilidades de situações em que a vontade geral fosse extinta. Mas conclui o quanto ela permanece em cada indivíduo mesmo quando mantém seu egoísmo acima de um estado quando enfraquecido.

O texto tem seu início com a tese sobre o quanto algumas sutilezas políticas (subornos, leis fraudadas, tirania etc.) aparecem claramente quando o Estado possui um bem comum, detectada pelo próprio bom senso deste bem, os cidadãos opinarão pelo que é melhor para si, inclusive se for o bem geral do Estado. Esta última afirmação faz parte da inerência da vontade geral no indivíduo, condenando a pensar e ter uma vontade coletiva acima da sua particular quando o Estado é forte, inclusive por benefício de si mesmo, em função de sua liberdade. Acrescenta que mesmo quando o bem exclusivo se opõe ao mal público na falta de um liame social ou uma ordem maior, esta manifestação do interesse particular importa por ser votado em assembléia a fim de que se torne geral (por meio da comum subtração do todo) e não seja transferido para partes num todo ou até omitido.

No capítulo seguinte o autor dará início a uma exposição de como a vontade geral se mantém, completando a tese do primeiro capítulo em que a considerou como indestrutível. Com isso forma-se também uma espécie de instrução metódica da manutenção da liberdade do estado político, ou seja, da vontade geral. Assim como nos dois próximos capítulos se referem à prevenção para que tal liberdade se mantenha.

O capítulo III argumenta como a desigualdade entre as pessoas pode prejudicar suas respectivas representatividades nas eleições se estas forem somente feitas por sorteio, por exemplo. Levando em consideração uma igualdade unânime haveria tal possibilidade, porém os diferenciais tanto por classes quanto por talentos dão vazão ao voto por escolha de cada cidadão.

No quarto capítulo é sobre como é possível fazer uma república funcionar e os exemplos que podemos ter de Roma para isso, descrevendo toda a sua organização e funcionamento políticos. Como conseqüência do capítulo anterior, quando coloca o problema do declínio da república romana, Rousseau entra neste capítulo V com possíveis precauções para que isso não aconteça (coisas como o suborno de votos etc.). A solução apresentada é um Tribunato para manter os dois poderes no mesmo nível e não permitir que nenhum poder supra o outro com corrupções ou abusos de poder, por exemplo.

Porém no capítulo VI ele continua sua lógica citando quaisquer possibilidades de declínio político e coloca uma outra hipótese para caso nem o Tribunato assegure definitivamente a organização. Aqui o filósofo até propicia os imprevistos como naturais de uma ordem, pois seus surgimentos são inusitados e geralmente exceções. Por isso as leis muito firmes as quais não propiciam flexibilidade para tais exceções ou fragilidades circunstanciais acabam, muitas vezes, por deixar o Estado num estado de calamidade onde a vontade geral, insegura, necessita de outro olhar, com decisões urgentes e ligadas à salvação da pátria. Daí os casos em que uma ditadura seria coerente para saber controlar as leis e guiá-las. Porém somente por um tempo provisório, um momento extremamente imprescindível e necessário que algo como o emudecimento da vontade geral ocorra e, mesmo assim, consentido pelo próprio povo que aceite ser dominado por alguém indicado e de sua confiança. Também comenta do perigo da ditadura, se tratada de maneira banal e freqüente, não provisória, poder se tornar um império e não solucionar o problema na forma de governo, mas acabar por modificá-lo. Tanto o sexto quanto o sétimo capítulo são inclusões de como precaver o Estado caso ele entre em crise ou decline.

Por fim, nos três últimos, haverá uma conclusão de como o Estado pode ser considerado moralmente por meio de uma religião civil adequada. No capítulo VII ele ainda não introduz a religião como algo a ser fundamentado politicamente também, porém vai definir o significado de censura diretamente relacionado à conservação dos costumes, função a qual uma religião civil certamente poderia se incluir. Com a sua permanente fidelidade à opinião pública, Rousseau vai detectar o papel da censura para que ela não o ultrapasse nem suma. A importância de uma declaração do julgamento público por meio de tal órgão, independente de definir leis ou regulamentá-las, a censura não tem o poder de julgar os costumes que a civilização constrói por meio de seus prazeres, somente de cultivá-los por meio da permanente aplicação dos mesmos a fim de conservá-los. Esses três últimos capítulos citados referem-se ao desenvolvimento lógico que demonstra o quanto a vontade geral sempre está implícita nas situações de poder, seja no tribunato, na ditadura (como permitindo a mesma) ou na censura as quais nenhuma desses corpos políticos contém poder de representatividade sobre a mesma.

O oitavo capítulo, conforme já antecipado o seu assunto, traz a reafirmação da vontade geral por meio do amor de si, o qual liga o homem enquanto indivíduo à sociedade. Este conceito está de implícito na maneira como Rousseau analisa a religião enquanto meio para relações pessoais e políticas, enquanto conclusão positiva para o direito da humanidade fundamentado numa religião civil. Assim, o filósofo finaliza o livro também com uma prosperidade para um próximo tratado sobre s maiores minuciosidades de tais expectativas colocadas no Contrato Social, adiando na sua conclusão no capítulo IX o desenvolvimento das instituições políticas ainda neste mesmo livro.

BIBLIOGRAFIA:

ROUSSEAU, J.-J. Contrato social. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Coleção "Os Pensadores".

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO– UNIFESP

CURSO DE FILOSOFIA
DISSERTAÇÃO PARA A UNIDADE CURRICULAR
DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA
MINISTRADA PELO PROFESSOR MAURÍCIO MARSOLA

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA
3º TERMO DE FILOSOFIA – VESPERTINO
SÃO PAULO
26/O6/2009


INTRODUÇÃO:


Ascensão da dialética: a alegoria da caverna:

A ascensão da dialética é demonstrada de maneira mais enfática a partir do livro VII de República, o que não quer dizer que ela tenha se ocultado no decorrer dos livros anteriores. Pois é por meio do próprio método dialético de investigar a definição dos conceitos de justiça, cidade, educação, alma, governante, guardião, filósofo entre outros aspectos tratados em torno destes, que Platão chega a uma necessidade máxima de se utilizar uma idéia maior [ou Idea mathema] que permita a “demonstração” desse ideal dialético fundado na Idéia do bem. Ou que, pelo fato de não ser possível a comprovação empírica desta idéia (por ser apenas uma idealização), pelo menos contribua com a sua propedêutica. Em outras palavras, uma idéia ainda não realizada não poderia ser demonstrada cientificamente pela experiência, mas sim pela imaginação ou observação mental da imagem desta própria Idéia. É a metáfora que uma Alegoria da Caverna aplica diretamente à inteligência como próprio exemplo de Paidéia: enquanto um objeto utilizado tanto para alcançar o próprio conhecimento contínuo e ascendente do bem na subida, quanto para regressar ao plano das opiniões e discuti-lo na descida.

A formação do dialético no livro VII:

Assim, o caminho percorrido pelo filósofo é que o eleva até a essência da dialética, e por meio da qual descobre a essência das coisas e a informa. E com este fim, o dialético (aquele que possui maior disposição da alma propícia ao bem) mantém a causa pela qual é o mais adequado a ser o guardião da cidade ideal.

Essa disposição da alma se manifesta nos que têm mais facilidades com as ciências do cálculo [matemática aritmética, hoje álgebra] e com isso, são bem dotados de raciocínio lógico. Esta ciência sobre planos imutáveis que busca a essência das coisas, a realidade verdadeira, a benção do olhar dada pela luz de fora do plano das opiniões e que atinge a alma no momento que ofusca seu cognato, no auge da subida e já distante da caverna. Parte-se para outras [ciências] que atingem o movimento dos sólidos, como a astronomia, por exemplo. Já com a essência das coisas e o bem como causas de sua iluminação, mesmo nunca dissociando-os [a essência e o Bem] também de um fim sempre a ser alcançado, e podendo dialogar de maneira justa e apoiada no bem [ou seja, a prática da ciência dialética] quando retorna à realidade existente, o dialético se dispõe ao plano das opiniões a fim de retornar à caverna e transformar ou formar o olhar dos cidadãos presos no escuro.

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

“Então, disse eu, só o método dialético, eliminando as hipóteses, caminha por aí, na direção do próprio princípio, a fim de dar firmeza aos resultados e realmente, pouco a pouco, vai arrastando e levando para o alto o olho da alma que está enterrado num pântano bárbaro...”

Na tradução aqui estudada, República apresenta-se de imediato no início de seu primeiro livro com a primeira palavra deste sendo o verbo “descer” conjugado no pretérito perfeito do indicativo, com a primeira pessoa, no singular. Além de se referir a Gláucon, seu irmão, nesta mesma frase. Em nível de signo conforme já o é a Alegoria da Caverna que também nos será discorrida, esta descida de Platão à República pode possuir correspondências relevantes para o que ele teria pensado sobre o papel do filósofo ideal enquanto dotado de dialética e encurvado humildemente sobre a cidade, tendo também ai uma metáfora para o motivo de sua elevação.

Discípulo não somente de Sócrates mas inclusive de Parmênides e fiel a este último em muitos aspectos, Platão se diferencia tanto dos sofistas quanto das imitações artísticas por estarem fora da realidade verdadeira e sim no âmbito do devir [no caso da flexibilidade dos argumentos sofísticos] e da cópia [no caso da imitação artística e não matemática ]. Porém, quando o autor de República distingue aparência da essência e se utiliza do princípio de identificação e ontologia próximos à Alethéia [via verdadeira e não doxal]de Parmênides, mesmo assim não descarta o mundo sensível de todo, usufruindo-se dele para descobrir a ordem lógica implícita na natureza das coisas:

“Libertar-se dos grilhões, disse eu, voltar-se das sombras para as imagens e para a luz, ascender do subterrâneo ao sol e, sendo ainda impossível olhar na direção dos animais, das plantas e da luz do sol, olhar para as imagens divinas na água e para as sombras dos seres, mas não para as sombras das figuras projetadas por essa outra luz que, comparada à do sol, é uma imagem dele. Todo esse empenho com os estudos de que falamos tem a capacidade de elevar a melhor parte da alma até a contemplação do que há de excelente nos seres, do mesmo modo que, naquele momento, elevou o mais preciso órgão do corpo na direção da contemplação do que há de mais luminoso no âmbito corpóreo e visível.”

Portanto a visão voltada para as imagens advindas da luz da qual se refere o filósofo no acesso à dialética, não se confunde com a imagem enquanto referência e objeto da opinião, seja da crença ou da imaginação agrupadas no mundo sensível e expostas pelo símile da linha de percepção no livro VI. Não se confunde devido a tal segregação dos planos [sensível e inteligível] e ao mesmo tempo ser o que os interliga e relaciona, daí a menção dela [a imagem] enquanto objeto também da dialética, porém enquanto “objeto de compreensão e da visão da inteligência” , e agora aproximado da contemplação.

Neste contexto de imagem e contemplação, após o esforço contínuo de discernir a alma e o corpo, o inteligível e o sensível, ou a essência e a aparência na trajetória da República, adentramos na Alegoria da Caverna e a Idéia do Bem é assim contemplada no sentido desse Mito descrito por Platão iluminar a visão para o Bem, já que o mesmo [o Bem] é eternamente um fim e uma meta a qual se pode apontar por exemplos como a Alegoria da Caverna, mas não se definir .

O progresso feito pelo entendimento da complexidade entranhada nessa história é parecido com o que se percorre no caminho do conhecimento das essências: parte-se de um mundo de trevas, onde há opiniões bárbaras sobre a verdadeira essência das coisas exatamente porque não as enxerga como são. E não se utiliza de ciência para alcançá-las por serem prisioneiros do senso comum, não se levanta a cabeça para uma maior investigação das coisas, vai-se pela sombra daquilo que, como pela correnteza de um rio, aparente ser algo, mas que ainda não passa de marionetes.

Mas ainda que haja a grande abertura para a luz do Sol fora da caverna, os prisioneiros não a enxergam por estarem acorrentados e ainda de costas não só para a saída da caverna como também para obstáculos existentes antes do seu topo: um muro, depois um caminho onde passam tais objetos artesanais, pessoas carregando-os e vozes imitando vida nestes bonecos ou conversando e fazendo barulho entre si. Todo este espetáculo é refletido em sombras na parede que os prisioneiros têm acesso, porém sombras também deformadas pelo movimento do fogo que as projeta, portanto não iluminados com a luz natural do Sol, e sim da que é forçada pela mão do homem [o fogo].

Nesta primeira passagem podemos enxergar claramente o mundo sensível das imagens, das imaginações destas, dos objetos reais que propiciam a crença daqueles que o carregam e os produziram etc.

Este âmbito da opinião é interrompido quando Platão dá a hipótese de suposto esclarecimento provindo de alguém que obrigasse e “arrastasse dali à força pela ladeira áspera e abrupta e não o largasse antes de conseguir arrastá-lo [o prisioneiro] para fora e expor à luz do sol” . Esclarecimento tal, que estagnaria a projeção do objeto enquanto considerada como a sua essência, ou mesmo o relativismo proporcional ao conhecimento enquanto um ponto de vista quantitativo e dependente somente do hábito. E sim traria uma ordem, a qual também depende de se habituar com esforço para melhor enxergar [referência à ginástica e ao exército que preparam o guardião], porém um hábito fundado em algo que o levou a fazê-lo, forçou-o a tal preparação por tê-lo libertado da prisão e o feito enxergar o Sol além da caverna. Assim como o Bem que a alma bem disposta carrega já levaria o ser a questionar para distinguir melhor a essência das coisas. O Sol, por não possuir sombras [quem as faz são os objetos no espaço], propicia uma metáfora de ápice do novo conhecimento em contraste ao que se acreditava baseado em trevas.

Os obstáculos da caverna, os bonecos feitos, o fogo criado, as suposições de produtos humanos fundados nas hipóteses em que acreditam, possuem riscos de enganos assim como também as ciências, mesmo a matemática, possuem. Quando não dispostas pela virtude da alma a qual capacita a “visão de conjunto” e habilita o ser para uma dialética com princípio de concórdias e convivência comum a inteligência de todos, e não de discórdias erísticas e injustas por abranger somente opiniões sensíveis a mudanças e não possuírem deduções lógicas e certas, não convindo a todos de uma mesma cidade.

Daí a necessidade do guardião percorrer o caminho das ciências que o Bem lhe mostra . Para que atinja tal preceito dialético em função deste mesmo Bem que o faz livrar-se das crenças e elevar-se até a essência, somente inteligível, das coisas. Assim, o filósofo se atém a esta Idea [do Bem] como a causa que o fez subir a ladeira áspera estudando a matemática, a geometria, a estereometria, a astronomia e a harmonia dos sons para saber discuti-las quando necessário, curvar-se às perguntas e respostas e aceitar mudanças pois é o logos que se leva em conta ao conceber uma hipótese , não mais “o prazer da brincadeira de refutar” para se promover:

“No mundo cognoscível, vem por último a idéia do bem que se deixa ver com dificuldade, mas, se é vista, impõe-se a conclusão de que para todos é a causa de tudo quanto é reto e belo e que, no mundo visível, é ela quem gera a luz e o senhor da luz e, no mundo inteligível, é ela mesma que, como senhora, propicia verdade e inteligência, devendo tê-la diante dos olhos quem quiser agir com sabedoria na vida privada e pública.”

Também na descida, a contemplação das definições dos objetos, ou a teria das formas das essências, é forçada a permanecer presente, enquanto eternamente plausível de discussão de acordo com as opiniões conjuntas que formam as leis de uma cidade. O cidadão que foi solto não estava somente condenado a sumir como também a descer. O reconhecimento de hipóteses inválidas aparece como o ato de concórdia e bondade, refutando uma resposta e buscando outras por meio da eironéia [ironia] a fim de parir outras idéias [maiêutica] também pode se chegar a uma aporia [uma necessidade de maior investigação da definição]. E esses movimentos no diálogo também fazer parte da dialética, portanto constituindo também esta última, o que seria a descida. Em “A religião de Platão”, Victor Goldschmidt apresenta um pensamento parecido a esta referida descida enquanto trajeto da dialética que ao mesmo tempo já a diferencia das outras cinco ciências:

“Ora, se a dialética não se confunde com as outras ciências, é porque estas não consideram senão partes do Ser, e elas são ‘obscuras’, porque, ignorando o Ser, nem mesmo poderão conhecer claramente suas partes. Como elas, a dialética parte, primeiramente, em busca de uma Forma particular, mas ela não pode jamais terminar o estudo desta se não atinge, antes, a Forma do Bem, a fim de compreender como se liga ao Ser universal esta Forma de ser da qual ela empreendeu a definição. Pois tudo procede do Bem, e nada pode ser conhecido, se não for pela dialética que, elevando-se até o ‘princípio de tudo’, depois descendo de novo às Formas particulares, refaz, na ordem do conhecimento, o movimento intemporal da processão.


... A dialética, que é essencialmente diálogo, eleva-se através das Formas até ao Bem, depois, a partir dele, desce novamente.”

Nesta parte do estudo sobre o conhecimento das Formas em Platão, o autor deste comentário citado acima investiga o papel da religião na dialética que a diferencia das outras ciências, enquanto portadora de algo para além do abstrato que Platão qualifica a matemática e seu objeto [a unidade], ou dos sólidos [geometria] e seus movimentos [as outras]. Algo quase espiritual e num âmbito para além das essências (assim como a Idéia do Bem está para além das outras Idéias, a dialética está para além das outras ciências). Mesmo que a essência das outras ciências, principalmente a matemática e a astronomia, jamais se encontrem num âmbito além do da alma e da inteligência. Aliás, por isso é que o filósofo define a unidade enquanto abstrata, pois nenhuma essência pode ser definida fora da alma [em sua parte racional e mansa, própria do filósofo ].

Deste modo, é assim que o dialético possui seu lugar divino dentro da cidade e de si mesmo [na alma], para além das essências das outras ciências, apesar de também ser uma ciência porém a máxima entre elas, assim como a Idéia do Bem. Podemos concluir, logo, que tanto a cidade, como o seu guardião e sua Idéia de Bem são ideais por se encontrarem no logos e não serem realizáveis. Pois ao passo que existissem, tornar-se-iam um devir por adentrar na opinião empírica e extinguiriam o próprio paradigma, retornariam a uma vida nas cavernas.

Referências Bibliográficas:

PLATÃO. República. Trad. Ana Lia A. A. Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

PLATÃO. A República: Livro VII. Comentário: Bernard Piettre. Trad. Elsa Moreira Marcelina. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, p. 22-45, 1985.

LEBRUN, Gerard. Sombra e luz em Platão. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 21-30, 1988.

GOLDSCHMIDT, Victor. O conhecimento das Formas. In: A religião de Platão. São Paulo: Difel, 2ª ed., p. 45-52, 1970.

GOLDSCHMIDT, Victor. _ As etapas do movimento dialético.

_ Nascimento do diálogo. In: Os Diálogos de Platão. Trad. Dion Davi Macedo. Edições Loyola, p. 1- 30, 1984.



notas:

Assim reconhecido por Platão ao colocar a imagem como sendo um objeto da dialética quando este [o autor de República] expõe pela segunda vez o símile da linha de conhecimento. PLATÃO. A República. Livro VII, parte XIII, 534 a.


Platão, República, livro VII parte XIV, 533d.

A respeito da imitação matemática, ela seria uma das duas causas de bem que toda imagem depende e possui segundo o comentário de Victor Goldschmidt: o modelo de imitação ainda possível ao artista, o qual também é uma ciência ainda não obtida a não ser quando descrita em Timeu, e o modo de imitação o qual é exato [quando é matemático] ou reprodutor de beleza [quando artístico e agradável]. GOLDSCHMIDT, Victor. Nascimento do diálogo. In: Os Diálogos de Platão, p.15.

Platão, República, livro VII parte XIII, 532 c.

Assim denomina também Bernard Piettre ao expor o símile da linha desenhado num esquema de analogia para o mundo sensível o qual está para os objetos da opinião [crença e imaginação] assim como o inteligível para os objetos da ciência [objetos da inteligência pensante _ matemáticos e os objetos de compreensão ou da visão da inteligência _ idéias]. PLATÃO. A República: Livro VII. Comentário: Bernard Piettre, p.35.

Mais uma alusão à Parmênides quando este associa o ser e o pensar como unos e idênticos, daí a explicação para a influência de Platão por ele, citada anteriormente. O ser é, independente de suas transformações pois só se pensa aquilo que é. Daí a incapacidade de definição do Bem para Platão, pois ele é por ser pensável e pura e totalmente inteligível, não participando do plano empírico para poder ser apontado, a não ser apontando exemplos nos quais ele estaria inserido.

Platão. República, livro VII, parte II, 516 a.

Ibdem, parte VI, 537 c.

Sobre o Bem como causa do conhecimento e também finalidade. Assim como a sua analogia feita ao Sol enquanto aquilo que traz luz para o homem, diferenciando Platão do humanismo de Descartes onde tal esclarecimento advém da própria distinção e clareza das idéias do homem, não de um Bem que o força a sair da Caverna, ver LEBRUN, Gerard. Sombra e luz em Platão. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar, p.29.

Porém esta discriminação das crenças não contidas na dialética aparece com maior ênfase na República do que em outros diálogos de Platão, assim como Victor Goldschmidt argumenta sobre os primeiros quatro modos de conhecimento descrito em Cartas como associados à opinião: “Interrogar e responder é próprio tanto da erística como da dialética” em seu texto sobre as Etapas do movimento dialético. In: Os Diálogos de Platão. p.6

Platão. República. Livro VII, parte XVII, 539 d.

Platão. República. Livro VII, parte III, 517 c.

Goldschmidt, V. O conhecimento das formas. In: A religião de Platão, p. 46.

Platão. República. Livro IX.

Ciência

a ressaca voltar da viagem e a embriaguez se apaixonar 
pela consciência e viajar até a ressaca voltar da viagem 
e a embriaguez se apaixonar pela consciência e viajar até