sábado, 10 de abril de 2010

Justiça

                       Justo você

                 Meras  medidas  me
                 balançam
                 os pesos
                 são

                 Meras medidas
                 que     me balançam
                          tenho
                 mas              equilíbrio
                           em
                          você

             um tem           outro restaura
         hormônio            neurônio
que envergonha           como patrimônio

                          Mas
                          aqui
                        é justo
                         você, balança
                                              
                                                     Viva
 à justiça!                 

Esquecimento

É o nada
o vão, a ida
a coisa
passada

É invento
silêncio
momento
ação vazia

É abstrato
o branco, pó
a pausa
vôo

É o ar, o Deus
o nó
rebento
impulso

É breu, clarão
canção
tempo, é fim
e fluxo

É tudo, resto
pouco oco
iludido
destemido

É nada e muito
vento fortuito
que surge
assim



















(pintura de Mário Rita)

sábado, 20 de março de 2010

Silêncio

Digo você
silêncio
digo sim e lê-se o
Digo
em silêncio

Assim lento
brando sem falácia
encontrei o cinzento
a cintilante águia

Vento sem máxima
o repouso do ar
no transe do olho
a pausa clásica

De classe inocente
movimento do sempre
só mostra a voz
mas não a sente

Cala-me a defesa
fazendo-me gritar
pela sua natureza
mantém a presença

Só é silêncio
sono frio sem tato
eu falando sozinha
ao amor sem ato

Rio de murmurinhos
sem nenhum olfato
não encontro meios
de provar seu tédio

Sua fuga ao leito
à mudez sem remédio
teu vazio no peito
me abraça sem crédito

Aceito e te beijo
mas nunca te pego
eco que se expande
fugindo por ego

Adentra o silêncio
e sinto o prazer
de garras, polêmico
e tão grave ser

Quieto, quieto
que estou muito lúcida
com você por perto
quando quero música

Dueto

E o sopro dos hormônios
estoura as cordas
dos neurônios

Completamente amarrada
pelo triz que me toca
puxando-me ao nada

Ao ar das notas
onde ventou uma troca
entre o sopro e a solta
entre o infinito e a hora

Há cordas e bocas
curvas e setas
horizontes e amores
dimensões e as flores

Mas não duas metas
ou contra-valores
são corpos harmônicos
arranjos na orquestra

Momentos sinfônicos
instrumentos dispostos
integram os compostos
de mais som na vitrola

E aumenta a frequência
da música que na viola
intensidade alta não falta
pra acompanhar uma flauta

Tente a ativa

É só tempo que a gente tem

tem  tem  tem  tem

quem não tem põe morte

no que tem



Acabou-se o têm

agora é pó também

pegue o trem quem pode

e aposte na ponte



Ou pare o bonde

se tiver alguém

que te mantém

no poste



Tente a sorte

que o tempo vêm

e te dá um norte

até o além

Vaidade adúltera

Ela viu          o amor             dos homens

porque Hera

mulher

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre um trecho de Utopia, Thomas Morus

Num trecho de Utopia, de Thomas Morus:

A Utopia se consolida porque surge de um tempo na história. E por isso é imperfeita, como o são também as cidades vigentes do período. No entanto, não deixa de conter a maior estabilidade, mesmo que idealizada, de uma cidade. Avessa aos países guerreiros em busca de reputação e, com isso, destruição, ela constrói a sua justiça com educação e qualidade de vida. Diferentemente da República de Platão no aspecto de ser fortalecida, porque é consistente somente no plano dos ideais, a Utopia não desmorona pois, inclusive, pode ser estabelecida.

Pode-se marcar já no início do livro primeiro da Utopia, de Thomas Morus, a força com que Rafael Hitiodeu é apresentado como citador de Cícero e Sêneca, assim como referenciado pois “…navegou com Ulisses e Platão. Escutai sua história…”. O que enfatiza o personagem enquanto inserido no contexto histórico, assim como historicamente também existente na viagem com Américo Vespúcio. O relato de sua procedência, antes do início da narrativa sobre a Ilha, denota uma equiparação à realidade encontrada antes de Utopia. A situação em que expressam seus valores e desejos de bem aventurança numa cidade ideal enfatiza o patamar vivido na Inglaterra com Henrique VIII, sem ignorar as estruturas do momento. A denunciada “imperfeição”, entranhada por demais na natureza humana a ser erradicada, não se refere tão somente às mínimas porém verificáveis imperfeições de Utopia, como principalmente à Inglaterra e cidades afins, possuidoras de ambições por reputações, a ponto de ocasionarem violências etc., conforme os vícios humanos. Vícios que, entretanto, pela passagem referida, estão entranhados na natureza humana mas são passíveis de transformação, segundo o desejo e admiração de Morus aos utopianos: “…me agradaria ver adotado no restante do mundo.”

Mas se a “natureza humana” discutida neste trecho por Morus é embutida de tais imperfeições, assim como relata também sobre outras sociedades que não a do discurso de Rafael, das quais as guerras, as ambições, a violência e as distorções do passado são evidentes; a natureza humana dos utopianos é aquela razoável, conforme a virtude do cidadão portador de justiça, verdade e generosidade. A circunstância em que começam a falar do povo utopiano já nos traz as atitudes de admiração aos mesmos: Morus se refere à felicidade dos lucros no cargo de ministro junto ao príncipe o qual Rafael poderia se inserir, ao passo que Rafael o recusa se utilizando de argumentos relacionados aos negócios públicos enquanto virtuosos e felizes somente quando em função da sociedade, e não aos interesses privados. A distinção entre os dois universos, privado e público, é feita justamente por meio da Utopia como argumento de algo diferente daquela organização social onde estavam inseridos. “Sistema” utopiano o qual se assemelha a uma cidade ideal, porque não existe de fato (outopia – não lugar), como também por se aproximar de valores benéficos a todos da “nação” (éticos: eutopia - bom lugar), constituindo parcerias com a República de Platão em determinados aspectos, como na “boa aventurança” e na “unidade”.

Em Platão, a República é idealiza não somente porque não existe no plano terreno como também pela impossibilidade de um alcance definitivo ao Bem supremo pela alma humana, pelo fato da Ideia de Bem conter esse carácter infinitamente reflexivo e de concórdias dialéticas, é necessário à própria cidade ser Ideal e não existir, a fim de sempre vislumbrarem-na. Já em Morus, o plano imaginário da Ilha decorre da conseqüênte imperfeição da realidade, sem nenhum outro vínculo que a impedisse de se tornar real. Isso já explicita um pouco da possibilidade de sua realização. A forma de romance em que é escrito também auxilia nessa caracterização literal e ilusória, não tanto, porém, o seu conteúdo. Há inclusive, um subtexto de esperança implícito na obra ao expôr o desejo de adotar a perpetuidade de Utopia nas outras sociedades:

“…dou-me por satisfeito que pelo menos uma nação tenha sido capaz de criar um sistema que muito me agradaria ver adotado no restante do mundo. Pelo modo de vida que adotaram, os utopianos têm a oferecer não apenas a base mais sólida para uma comunidade feliz e civilizada, mas também, tanto quanto o espírito pode prever, a perpetuidade desse estado de bem-aventurança.”

Diferentemente, então, da tese platônica sobre a impossibilidade de sua República, a incapacidade de realidade da Utopia não está em sua obra enquanto especulativa somente ideal, mas principalmente na inclusão histórica em que se encontrava. Em plena crise do regime feudal , da conversão religiosa inglesa do catolicismo ao anglicanismo para fins individuais e pessoais de Henrique VIII etc.

Contra as forças militares da época, que guerrilhavam banalmente e a quaisquer motivos, a “base mais sólida” da população utopiana não se funda na base militar, primordialmente. Os principais fomentos de estabilidade social dos cidadãos de Utopia são o amor e a sabedoria. Sabedoria esta que, mais similar ao socratismo que ao sofismo, não era concebida por vaidade ou espontaneidades da ambição e/ou reputação, porém de carácter construtivo em função coletiva, social. A razão muitas vezes é utilizada como instrumento de cidadania, onde por meio dela se alcança a virtude . Esta última, por sua vez, fundamenta-se na própria vida conforme a natureza humana, ou seja, na conduta pela razão. Contrários às penas de morte, utilizam-se da instrução e do potencial de renovação social, a ponto de obterem tal “perpetuidade” e manutenção da ordem bem distribuída, sem preceitos que fomentem ao crime, tais como a miséria e a privação territorial dos feudos, criticadas na primeira parte do livro. Assim, “o espírito humano pode prever a perpetuidade desse estado de bem-aventurança”, ao manter sua organização bem distribuída econômica, educacional, jurídica e politicamente. Princípios como igualdade, generosidade e liberdade são cultivados para atender esta demanda. Na distribuição territorial, por meio da arquitetura padronizada das casas e sorteio frequente na habitação das mesmas, na econômica o trabalho é realizado por todos , inclusive nobres, no âmbito educacional há cursos disponíveis a quem queira cursar, no jurídico e político, são os mais letrados escolhidos para magistrar determinado número de famílias, são treinados soldados a fim de excepcionalmente defender a cidade, não por expansão de territórios. O luxo , a demasia, a ambição, a inveja e a própria guerra civil são considerados destrutivos ao coletivo e, por isso, também aos cidadãos. Eis a “unidade” garantida pelo “bem geral” , prioritariamente.

No último período do texto, chega-se à duas concepções chaves: uma enquanto a fortaleza íntegra e indestrutível da Utopia, outra como sendo o tempo de duração de Utopia, enquanto constituída de uma história, por mais ideal que seja. A imperfeição, citada no início do trecho como se referindo aos vícios da natureza humana da sociedade real da época, pode ser vista, aqui em Utopia, enquanto um reconhecimento de que há imprefeições até na organização criada pela Ilha, o que além de noticiar o sintoma esperançoso conforme já descrito aqui, também propicia a abertura da cidade aos novos contextos inseridos, ilustrando um nacionalismo flexível, e não totalitário como vêmos em algumas Distopias, por exemplo em “1984” ou em “Admirável Mundo Novo”. Assim como o comentador Cosimo Quarta defende em seus escritos sobre Morus, três possíveis sentidos de leitura da Utopia: o alegórico (ideal), o semântico (de “valências críticas” e éticas) e o dinâmico (de possibilidades de liberdade, mudança e dimensão do futuro) , há na obra uma vontade de superar os males sociais por meio de tal “consciência crítico-projetual” . Um argumento para isso é a apresentação antes da Utopia ser introduzida na obra, Rafael articula muito sobre a libertação da cidade atual, especulando como seria uma cidade ideal afim de transformá-la, caso não houvesse tal preocupação, a necessidade de referências históricas mal seria desenvolvida na obra, como acontece com a República, por exemplo. Arriscar-se-ia até rever em Utopia um otimismo frente a conquistas e mudanças ainda realizáveis . Outro pesquisador, Arrigo Colombo, escreveu que a Utopia compromete o homem a agir, não sendo algo que estagna . Ele classifica a Utopia enquanto histórica, e não filosófico-literária, porém discorre que a obra traz somente idéias de uma prática e não ela em si, pois isto não compete à um único autor, mas à sociedade como um todo, afirma também que ela, a Utopia, é um projeto e processo histórico . Logo, a sua força não está na violência guerreira, mas na compreensão reflexiva. As intenções no modo como o autor relata o passado e a história social não negam isso, a ponto de simular além da cidade utópica, a história desta mesma, também como indestrutível. Quer-se-ia, além da transformação social, a propria transformação histórica? História que, para ser reconhecida, abrangeria, também, um suposto futuro.


BIBLIOGRAFIA:

MORE, Thomas. A utopia. Trad. Luís de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça. In Revista Morus Utopia e Renascimento. Dossiê: O impacto da descoberta do Novo Mundo na cultura européia. V3. Campinas: Unicamp: 2006.

QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. In. Revista Morus, Utopia e Renascimento. Dossiê: O impacto da descoberta do Novo Mundo na cultura européia. V3. Campinas: Unicamp, 2006.

FIRPO, Luigi. Para uma definição de “utopia”, tradução de Carlos Eduardo O. Berriel, in. Morus Utopia e Renascimento. Dossiê: utopia como Gênero Literário. V.2. Campinas: Unicamp, 2005.



Notas:
Críticas a respeito do regime vigente na recusa de Rafael a trabalhar para o Príncipe: “Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e entre estas duas palavras latinas ‘servire’ e ‘inservire’, vêem apenas uma sílaba a mais, ou a menos.”( MORE, Thomas. A utopia)


Segundo biografia de Morus, o Príncipe haveria preferido o anglicanismo ao catolicismo da época para se casar novamente. (MORE, Thomas. A utopia. p.23)

“Traduzo aqui com ‘sabedoria’ o que Morus chama ‘sapientia’ ou ‘prudentia’ e que, no fundo, se identifica com a ‘ratio’ e, portanto, com ‘natura’, visto que na Utopia (162/18-22) é dito claramente que a virtude consiste no viver ‘conforme a natureza’ e vive conforme a natureza somente quem,’desejando ou fugindo das coisas, obedece à razão’.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave.p.38.)

O oposto se dá na sociedade critica no primeiro livro, quanto à razão humana: “ Eles quebram a cabeça até encontrar um argumento contraditório, e, se a memória lógica lhes minguam, entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim fizeram: ah! Queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois se assentam, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-se-ia, ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que os seus antepassados.” (MORE, Thomas. A utopia.)

“Porque neste século de dinheiro, onde o dinheiro é o deus e a medida universal, grande é o número das artes frívolas e vãs que se exercem unicamente a serviço do luxo e do desregramento.” (MORE, Thomas. A utopia. Livro II)

“Desta maneira ninguém fica exposto a desembuchar levianamente as primeiras coisas que lhe passem pela cabeça, e a defender, em seguida, a sua opinião antes do que o bem geral…”

“A linguagem de Utopia, de fato, além do sentido literal, possui outros dois: um alegórico e outro dinâmico.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. p. 50)

“Em Morus, não somente a consciência crítico-projetual, mas também a tensão realizadora é de tal modo forte que nos apresenta o ‘ótimo estado’ como já realizado.” (QUARTA, Cosimo. Utopia: gênese de uma palavra-chave. p. 51)

A respeito de tal perseverança, no início do primeiro livro, Morus conta: “Para dizer a verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituições tão ruins quanto as nossas, mas observou também um grande número de leis capazes de esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.” (MORE, Thomas. A utopia.)

“É, por conseguinte, o projeto de uma sociedade ordenadaem termos de justiça, não um projeto qualquer, mas eticamente qualificado, que envolve o homem com um vínculo ético, um porvir. Não um fato imaginário, um sonho, uma veleidade impotente, como muitos pensam errando, mas um vínculo, um porvir onde o homem é compelido a atuar. O homem está insuperavelmente inclinado ao comportamento justo, a construir uma sociedade de justiça.” (COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça, p.56.)

“Eis a intuição fundamental: de que a sociedade não pode ser transformada pelo projeto excogitado de um autor, mas somente por um movimento em vigor na própria sociedade, movimento portador de um projeto que se elabora no seu interno, que o movimento, e com ela asociedade, põem em vigor. Não um projeto mental, pensado, ‘descoberto’.” (COLOMBO, Arrigo. Formas da utopia. As muitas formas e a tensão única em direção à sociedade de justiça, p.61.)

wittgenstein: O USO DITO NO SENTIDO EXPRESSO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Campus Guarulhos
Aluna: Cristilene Carneiro da Silva
Disciplina: Filosofia da Lógica I
Curso: Filosofia
Professor: Marcelo de Carvalho
Período: noturno
Dissertação Final sobre o Tractatus Logicus Philosophicus de Wittgenstein:
O USO DITO NO SENTIDO EXPRESSO

São Paulo
26/11/2009





INTRODUÇÃO
No Tractatus, o significado dos símbolos, aparecem também, como delimitadores da descrição, mas ainda não como o objeto da fixação dos valores. Mas sim a variável proposicional dotada de sentido (“Sinn”), que os agrupa enquanto este objeto. A expressão (“Ausdruck”), mesmo exposta como constante para Wittgenstein, aproxima-se ou pode ser o próprio símbolo significador, porém ainda comporta o sinal (“Zeichen”), que é arbitrário e por isso causador de confusões filosóficas ou mesmo, de deliberações. Ela, a expressão, se aproxima do “uso” nas Investigações: “Um das Symbol am Zeichen zu erkennen, muS man auf den sinnvollen Gebrauch achten.” Ou seja: “Para reconhecer o símbolo no sinal, deve-se atentar para o uso significativo” , mas ainda aparece limitada pela forma geral da proposição. A expressão é o que valoriza o sentido impresso (sinal), é o uso significativo que o denota. Há, portanto, diferenças visíveis entre este uso articulado do sinal no Tractatus, que postula a filosofia à linguagem.

I

O “Sinal” é o objeto do pensamento, projetor da proposição possível. Já o “sinal proposicional” articula o sentido correspondente à realidade, V ou F da proposição, enquanto validade: “a proposição é o sinal proposicional em sua relação projetiva com o mundo” Aqui se investiga uma conseqüente distinção do valor ao “sinal”, mas somente à “proposição”. E o valor da proposição sinaliza o “sentido” dado pelo sinal proposicional projetado no mundo. A proposição possibilita o sinal, o projetado, mas estes não são fixos. Mas somente a proposição se estabelece no patamar da “significação”. O sentido está como que em potência na proposição, mas não necessariamente manifesto sempre e constantemente. Ele pode variar, mas quando interage com a realidade, é um fato . O sentido é empregado no sinal proposicional e compreendido, articulado, acontecido. O uso significativo do sentido é a sua expressão. Pois se a proposição possuir sentido (relacionar-se com o mundo), ela expressa algo no mundo de valor (afirmação ou negação), para além do seu significado (ordenado e registrado pelas palavras). Portanto, os sinais não necessariamente são palavras, apesar de se confundirem na escrita. O “nome”, porém, só possui significado na proposição, mas depende do sinal (dos sinais simples e dos primitivos) para possuir sentido próprio, e o sinal pode vir a ser um nome, o nome pode ser o próprio sinal, mas somente quando utilizado na proposição. Proposição aqui se refere às circunstâncias dos significados, em geral, às quais o nome se encontra contextualizado. Wittgenstein concebe o sinal como uma conseqüência da relação, ou ela própria, e não o que a causa . Por isso é variável, e também por isso não estabelece nada, não intitula, somente expressa algo. O Sinal proposicional ou sentido da proposição, por exemplo, podem ser vistos como “estado de coisas”, daí ele ser um fato, por ser independente das palavras mesmo quando figurado por elas. Os sinais proposicionais são símbolos (expressões) do pensamento, assim como o pensamento é símbolo da proposição e o sinal simples (ou signo), do nome.

Assim, a essência não mais se encontra no sinal, mas nas palavras (nomes) ou na definição (conceitos). O sinal é a situação, o estado de coisas, por isso é caracterizado como variável, pois “situações podem ser descritas, não nomeadas.” Pois o nome não alcança o sentido do significado articulado, expresso. Os nomes significam os objetos por meio dos sinais, mas os sinais também são simples, já a proposição é a análise completa (significada) deles. Os sinais para Wittgenstein estão próximos do que vem a ser os objetos. Pois os sinais também são figurados pelos nomes, assim como os objetos: “À configuração dos sinais simples no sinal proposicional corresponde à configuração dos objetos na situação.” O significado do objeto (nome) substitui o sinal e o objeto na proposição. O sinal simples configurado no sinal proposicional é o seu uso significativo, a proposição que contém significado, não o sinal. O sinal é um instrumento para a significação. Ele, expresso pela proposição, é a significação. A correlação dos nomes (os quais são os sinais simples aplicados no sinal proposicional) é a proposição, é a relação entre os sinais proposicionais, assim como o fato é a relação entre as coisas. No entanto, não há como mostrar/representar os objetos, exatamente, daí porque não há mais a essência enquanto Aristotélica, a essência está agora na linguagem que os nomeia, figurativamente. A essência está no significado, o qual se aproxima da estabilidade do objeto, não porque o valida verdadeiramente no mundo , mas porque descreve articuladamente as suas propriedades: “uma proposição só pode dizer como uma coisa é, não o que ela é.” A essência da proposição passa à descrição, não mais à ontologia nem à epistemologia. A descrição é significação não porque é associada à sua validade no mundo (V ou F), mas porque abrange as possibilidades figurativas de um fato por meio da linguagem, ou da forma geral da proposição, mas não necessariamente sua definição (e esta última é considerada somente como uma descrição que sintetiza um complexo ). E essa descrição articulada ou proposição (sinal proposicional, símbolo ou expressão) é que é constante, não mais suas propriedades (ou sinais primitivos).

II

Logo, o sentido omitido em potência no sinal é esmiuçado pelo uso significativo que o símbolo faz do sinal, a fim de expressá-lo. Com base na proposição enquanto a própria significação , pode se enxergar a definição ou os conceitos como o indivisível da proposição, a síntese descritiva e a análise completa da proposição, em outras palavras, o próprio significado afixado em um valor. Com a diferença de que a proposição é divisível, e a definição ou conceitos não. A distância, pois, entre o signo e a significação, é estreitada pela existência de “uma e apenas uma análise completa da proposição.” Porém, na passagem 3.261, Wittgenstein expõe outra distinção que melhor detalha a dissociação dos termos referidos, onde conclui a importância do “sinal definido” enquanto condutor dos outros sinais pela definição, mas sempre devido aos próprios sinais primitivos. Para facilitar a leitura, um suposto exemplo do que viriam a ser tal sinal definido pode ser especulado enquanto o nome, substantivo comum, por exemplo, “papel” e, seus sinais primitivos enquanto “branco”, “novo” etc. Estes últimos constituem inúmeros símbolos dependendo do sentido em que forem expressados para dizer algo sobre um nome definido. Entra aqui, o emprego significativo desses sinais, podendo inúmeros símbolos conterem mesmas características “brancas” ou “novas”, o que ainda não articula seus sentidos enquanto referidos a um significado. A análise completa da combinação entre tais sinais é que proporciona o sentido dos mesmos, mesmo que não validados enquanto fatos no mundo, são fatos possíveis de significação. Num esquema mais visual:

(uso de sentido no que é dito): Objetos -> sinais simples -> nomes definidos

(sentido expresso em significação): Nomes -> sinais proposicionais -> proposição

Nota-se que o que é dito não é o sentido e o sinal, mas o emprego dos mesmos na definição dos nomes, por ex. É a significação dos mesmos. A aplicação deles na linguagem. Os sinais não possuem papel de significar algo, mas são instrumentos utilizados para isso, ele se aproximam do fato e do objeto assim como de sua valoração no real (seu sentido no significado): “o que não vem expresso nos sinais, seu emprego mostra. O que os sinais escamoteiam, seu emprego denuncia.” A expressão (Ausdruck) liga, pois, o sinal (que nem sempre é externo e revelado como ela, numa oposição ao sinal) ao significado. Sendo ela aquilo que pode ser mostrado/representado, elucidado. A expressão se aproxima do sinal proposicional; “a cada parte da proposição que caracteriza o sentido dela, chamo uma expressão (um símbolo – ein symbol)” assim como também se aproxima da própria proposição: “a própria proposição é uma expressão)” . Expressão no Tractatus aparece enquanto sendo o projetado, o comunicado. Assim, a proposição, manifesta o sentido por meio do nome articulado: “é só no contexto da proposição que um nome tem significado”, e o nome ganha significado. “Na proposição, portanto, ainda não está contido seu sentido, mas sim a possibilidade de exprimi-lo. (o ‘conteúdo da proposição’ significa o conteúdo da proposição dotada de sentido). Na proposição está contida a forma de seu sentido, mas não o conteúdo.” Dando a entender esta expressão como próxima da figuração entre o objeto e a proposição, ou o conteúdo do sinal com seu sentido exposto na forma da proposição, simbolizado. “A expressão assinala uma forma e um conteúdo. ” Veja que, expressão e linguagem aqui se mesclam, porém não é a palavra “Sprechweise” ou “Sprache” a utilizada por Wittgenstein, mas sim “Ausdruck”. A expressão está associada com o limite da linguagem, sua essência: ela caracteriza a forma geral das proposições que a representa.

Em 3.312, Wittgenstein diz que a expressão é constante e é o que há em comum nas proposições. E conforme 3.314, se a expressão só tem significado na proposição, o sinal só tem significado quando expresso, ligando assim ao plano da significação proposicional e enlaçando-os aos limites da linguagem por meio da limitação dada pela proposição, mesmo que dando uma maior expansão às possibilidades da proposição. E logo em seguida, na 3.316 a explicação é sobre a proposição que, ainda subsiste em “valores fixados”, ou descritos, porém em 3.316 será dito que não é a “variável proposicional” o essencial que limita a proposição, mas sim a “forma comum da expressão”. Wittgenstein define a proposição em 3.318 como a função dessas expressões, nela contidas. Já o sinal é aquilo que é sensivelmente perceptível no símbolo (sinal proposicional ou expressão). Porém os modos de designação são diferentes dos sinais e dos símbolos, por isso podem ter sinais em comum, mas não mesmo desígnio, ou significado. O “uso significativo” do sinal confere o caráter singular dele transcrito, designado, expresso em símbolo. O sinal é desvendado pelo seu “uso significativo” [sinnvollen Gebrauch]. O sinal é utilizado para significar algo, mas não propriamente o que significa ou define os símbolos. O sinal pode possuir, no máximo, uma impressão, mas não um valor significativo (enquanto V ou F) como responde o filósofo às argumentações de Russel: sua tautologia paradoxal levaria a dizer que o sinal descreve a expressão e o significado, e não o contrário; a função da função não diz nada que não ela mesma. Wittgenstein trata a impressão contida do sinal não enquanto a representação de algo, mas somente dotada de um conteúdo propagador de sentido. Quem a expressará será o uso significativo feito sobre ela, por meio da proposição .

A distinção entre a validade e o sentido do nome estão feitas. O nome não pode ter significado porque não tem validade sozinho. O nome tem sentido, mas nem sempre significa: sem significado ele não tem validade na figuração, permaneceria como impressão na relação entre sujeito e mundo. “O nome é o que todos os símbolos que designam o objeto têm em comum... resultaria que nenhuma espécie de composição é essencial para o nome.” O valor não mais corresponde ao nome, ou ao conceito, para contra argumentar os socratismos. A essência não está mais no nome, mas sim no símbolo, na figuração e no significado. Mais abrangente: na forma geral da proposição. E no entanto, a significação do nome é arbitrária, mas “possível”, no sentido de entendível. A significação pode ser singular, porém já faz parte da essência (e do valor) do mundo.

Wittgenstein ainda não desmorona a lógica e a filosofia de todo neste movimento do livro, somente argumenta a respeito da confusão trazida a elas por meio da língua e principalmente, da mesma utilização significativa dos sinais para corresponder a mais de um símbolo, ou uma representação, equivocadamente . E inverterem também o conceito de expressão como denotativa e significação como comunicativa. Pois o filósofo alemão considera, já no Tractatus, que não existem definições gerais, mas sim sinais correspondentes, pois o que muda nas representações particulares não são o sentido, mas somente o uso da linguagem substituída ou traduzida em outras palavras de mesma significação, apesar de diferentes, ou o inverso. Mas o sentido permanece o mesmo, conforme argumenta em 3.344, o que significa no símbolo é o seu sentido em comum, a sua validade no mundo de acordo com os fatos ou não, não somente sua simples tradução ou reprodução. É o significado, pois, que se apresenta com validade sensível: “Na proposição o pensamento exprime-se sensível e perceptivelmente.” Porém não é somente a expressão e o símbolo que o significam, mas, principalmente o emprego do sinal que propicia seu conteúdo, seu sentido.

BIBLIOGRAFIA

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Introdução de Bertrand Russell. Trad. de Luiz Henrique Lopes. São Paulo: EDUSP, 2008.

_ SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”.

_ RUSSELL, Bertrand. “Introdução”.

Notas:

Tractatus, 3.326.


Tractatus, 3.12.

Afirmação de Wittgenstein em 3.14 do Tractatus: “O sinal proposicional é um fato.”

“ ‘O sinal complexo ‘aRb’ diz que ‘a’ mantém a relação ‘R’ com ‘b’, mas: que ‘a’ mantenha uma certa relação com ‘b’ diz que aRb.” ( Tractatus, 3.1432)

Tractatus,3.144.

Tractatus, 3.21.

O sentido da proposição não é mais condicionado à sua validade, a validade, porém, ainda provém do sentido. A respeito da tese da independência do sentido de uma proposição com respeito a sua verdade ou falsidade: “Dizer que uma proposição pode, em princípio, ser verdadeira ou falsa é dizer que ela, por exprimir um sentido, pode ser, em princípio, verdadeira ou falsa. Que ela exprima um sentido não pode, pois, depender de ser efetivamente verdadeira ou falsa. É porque uma combinação de sinais diz que as coisas são ou não são assim ou assado que ela vem a ser verdadeira ou vem a ser falsa, e não vice-versa.” (SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus p.20,)

Tractatus, 3.221

Tractatus, 3.24.

Ou como Wittgenstein a caracteriza enquanto “maneira determinada”, “claramente especificável”, “articulada” em 3.251 do Tractatus.

Tractatus, 3.25.

Tractatus, 3.262.

Tractatus, 3.31.

Tractatus, 3.31.

Tractatus, 3.13.

Tractatus, 3.31.

Afim de não confundir aqui, uso com utilitarismo, Luiz Henrique Lopes observa bem no seu ensaio introdutório a respeito do Tractatus que distancia Wittgenstein de quaisquer cientificismo ou epistemologismo: “O que Wittgenstein pretende invalidar não é um ou outro modo particular de foormulação de um ou outro problema filosófico particular, mas toda e qualquer formulação de todo e qualquer problema filosófico que o revele como algo análogo a um problema científico, que o faça consistir no problema de saber como representar corretamente algum domínio de objetos ou fatos.” (SANTOS, Luiz Henrique Lopes. “Estudo introdutório”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus, p.15.)

Assim como Bertrand Russell observa na introdução do Tractatus: “O objeto da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos.” Desprovida de significados, a filosofia torna-se quase o objeto da linguagem pela argumentação de Bertand Russell sobre a impossibilidade de dizer algo sobre a filosofia, mas somente de mostrá-la, expõe a filosofia como o que há entre um fato e a figuração dele. (RUSSELL, Bertrand. “Introdução”. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus, p.117.)

Fichamento do cap. V e VII Do Contrato Social - J.J.Rosseau

São Paulo, 13 de novembro de 2008.
Seminário sobre o livro IV - Do Contrato Social, de J. Jacques Rousseau.
Unidade Curricular – Leitura e interpretação de textos clássicos
Professor – Ivo da Silva Júnior
Universidade Federal de Guarulhos
Curso de Filosofia - Vespertino
Parte da aluna Cristilene Carneiro da Silva (r.a: 50043)
entregue por escrito das seguintes partes do texto:

Leitura estrutural dos capítulos V a VII e comentário sobre o livro


Capítulo V: Do Tribunato

Constituição: Formação estabelecida das três partes do Estado, a saber: povo, príncipe e soberano.

Tribunato: Magistratura particular, não participante da constituição, mediadora dos poderes.

Desenvolvimento lógico:

Movimento lógico: De como o tribunato previne os abusos entre as partes do Estado.

_ Sub-movimento i: por meio de sua função enquanto magistratura particular de estabelecer uma proporção média na relação entre as partes constitutivas do estado, seja entre o príncipe e o povo ou entre o príncipe e o soberano.

_ Sub-movimento ii: condições de seu funcionamento =

a) conservar as leis e o poder legislativo: não participando de nenhum poder (nem executivo nem legislativo), não executa nem dá as leis, somente defende-as. “ ...e nisso exatamente está o seu maior poder, pois, não podendo fazer nada, tudo pode impedir. (§3, cap.V)”;

b) ser um apoio da constituição: não pode ser fraca pois sua existência já a força ser uma reação de peso significante para o equilíbrio do Estado.

c) conter a corrupção pois não executa nem muda as leis: não sobrando espaço para ser usurpadora.

d) ser submetido à lei para que não seja temível e sim conveniente e eficaz, suprido por intervalos de tempo, não ter permanência.

e) ser independente da constituição para que funcione e não a impeça de funcionar.

Tese: O Tribunato é necessário em momentos de desequilíbrio do Estado.

Tema: Definição e importância do Tribunato.



Capítulo VI: Da ditadura

Ordem Pública: Estabilidade das leis.

Ditadura: Ato particular para fins de segurança coletiva.


Desenvolvimento lógico:

1º Movimento Lógico: Da possibilidade de um ato particular ser viável:

_ Sub-movimento i - Em casos raros de fragilidade nas leis, seja por mudança ou circunstâncias imprevistas da mesma que anunciem perigo à pátria, pode-se permitir um ditador para a manutenção da segurança pública;

2º Movimento Lógico: Os tipos dessa comissão de segurança são de acordo com os tipos de ameaça:

_ Sub-movimento i - Se for necessário alterar somente as formas administrativas = maior concentração do Governo resolve.

_ Sub-movimento ii - Se for necessário evitar a autoridade do soberano e das leis = calar as leis por meio de um chefe.

3º Movimento Lógico: Condições para o procedimento da ditadura:

_ Sub-movimento i - Sobre a sua origem e função = a vontade geral é quem indica e permite que seja dominada por tal chefe, o qual não cria novas leis, somente as abafa.

_ Sub-movimento ii - O momento em que acontece = não deve ser banalizado e sim ocasiões de extrema gravidade como o declínio do Estado, por exemplo. Para que seja respeitável (a sua banalidade pode se tornar uma outra forma de governo como aconteceu em Roma no fim da república).

_ Sub-movimento iii - O seu tempo de permanência = deve ser suficiente somente para resolver o problema, e não para fazer projetos futuros, a fim de que não se prolongue o mandato. “Uma vez passada a necessidade urgente, a ditadura torna-se tirânica ou vã” (§ 7, cap. VI)


Tese: A ditadura pode ser uma solução das necessidades urgentes para o restabelecimento da ordem pública.

Tema: A ditadura e seu modo de realização.

Capítulo VII: Da censura

Opinião: julgamento

Costumes: comportamento

Censura: declaração do julgamento público

Desenvolvimento lógico:

1º Movimento Lógico: Explicação da definição de censura ser somente a declaradora das opiniões do povo.

_ Sub-movimento i - A lei fundamenta os costumes e restabelece-os, mas quem os conserva é a censura.

_ Sub-movimento ii - os costumes são julgados por opiniões.

_ Sub-movimento iii - os julgamentos são escolhas por meio de prazeres: as opiniões são feitas por meio do que é prazeroso à vontade geral.

2º Movimento Lógico: Funções da censura como zeladora dos costumes:

_ Sub-movimento i - a censura não modifica as leis nem os costumes: não é coerciva porque não tem poder de representar um julgamento público, mas somente de cuidar do que a vontade geral julga.

_ Sub-movimento ii – a censura mantém as opiniões sem corrompê-las e aplica o que já se fixou para acentuá-las. Ou seja, não julga mas aplica punição no que já foi julgado.

Tese: A censura não tem poder de julgar.

Tema: Sobre a definição de censura.


COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO IV:

No primeiro capítulo do livro IV “De como a vontade geral é indestrutível” de sua obra Do Contrato Social, Rousseau investiga possibilidades de situações em que a vontade geral fosse extinta. Mas conclui o quanto ela permanece em cada indivíduo mesmo quando mantém seu egoísmo acima de um estado quando enfraquecido.

O texto tem seu início com a tese sobre o quanto algumas sutilezas políticas (subornos, leis fraudadas, tirania etc.) aparecem claramente quando o Estado possui um bem comum, detectada pelo próprio bom senso deste bem, os cidadãos opinarão pelo que é melhor para si, inclusive se for o bem geral do Estado. Esta última afirmação faz parte da inerência da vontade geral no indivíduo, condenando a pensar e ter uma vontade coletiva acima da sua particular quando o Estado é forte, inclusive por benefício de si mesmo, em função de sua liberdade. Acrescenta que mesmo quando o bem exclusivo se opõe ao mal público na falta de um liame social ou uma ordem maior, esta manifestação do interesse particular importa por ser votado em assembléia a fim de que se torne geral (por meio da comum subtração do todo) e não seja transferido para partes num todo ou até omitido.

No capítulo seguinte o autor dará início a uma exposição de como a vontade geral se mantém, completando a tese do primeiro capítulo em que a considerou como indestrutível. Com isso forma-se também uma espécie de instrução metódica da manutenção da liberdade do estado político, ou seja, da vontade geral. Assim como nos dois próximos capítulos se referem à prevenção para que tal liberdade se mantenha.

O capítulo III argumenta como a desigualdade entre as pessoas pode prejudicar suas respectivas representatividades nas eleições se estas forem somente feitas por sorteio, por exemplo. Levando em consideração uma igualdade unânime haveria tal possibilidade, porém os diferenciais tanto por classes quanto por talentos dão vazão ao voto por escolha de cada cidadão.

No quarto capítulo é sobre como é possível fazer uma república funcionar e os exemplos que podemos ter de Roma para isso, descrevendo toda a sua organização e funcionamento políticos. Como conseqüência do capítulo anterior, quando coloca o problema do declínio da república romana, Rousseau entra neste capítulo V com possíveis precauções para que isso não aconteça (coisas como o suborno de votos etc.). A solução apresentada é um Tribunato para manter os dois poderes no mesmo nível e não permitir que nenhum poder supra o outro com corrupções ou abusos de poder, por exemplo.

Porém no capítulo VI ele continua sua lógica citando quaisquer possibilidades de declínio político e coloca uma outra hipótese para caso nem o Tribunato assegure definitivamente a organização. Aqui o filósofo até propicia os imprevistos como naturais de uma ordem, pois seus surgimentos são inusitados e geralmente exceções. Por isso as leis muito firmes as quais não propiciam flexibilidade para tais exceções ou fragilidades circunstanciais acabam, muitas vezes, por deixar o Estado num estado de calamidade onde a vontade geral, insegura, necessita de outro olhar, com decisões urgentes e ligadas à salvação da pátria. Daí os casos em que uma ditadura seria coerente para saber controlar as leis e guiá-las. Porém somente por um tempo provisório, um momento extremamente imprescindível e necessário que algo como o emudecimento da vontade geral ocorra e, mesmo assim, consentido pelo próprio povo que aceite ser dominado por alguém indicado e de sua confiança. Também comenta do perigo da ditadura, se tratada de maneira banal e freqüente, não provisória, poder se tornar um império e não solucionar o problema na forma de governo, mas acabar por modificá-lo. Tanto o sexto quanto o sétimo capítulo são inclusões de como precaver o Estado caso ele entre em crise ou decline.

Por fim, nos três últimos, haverá uma conclusão de como o Estado pode ser considerado moralmente por meio de uma religião civil adequada. No capítulo VII ele ainda não introduz a religião como algo a ser fundamentado politicamente também, porém vai definir o significado de censura diretamente relacionado à conservação dos costumes, função a qual uma religião civil certamente poderia se incluir. Com a sua permanente fidelidade à opinião pública, Rousseau vai detectar o papel da censura para que ela não o ultrapasse nem suma. A importância de uma declaração do julgamento público por meio de tal órgão, independente de definir leis ou regulamentá-las, a censura não tem o poder de julgar os costumes que a civilização constrói por meio de seus prazeres, somente de cultivá-los por meio da permanente aplicação dos mesmos a fim de conservá-los. Esses três últimos capítulos citados referem-se ao desenvolvimento lógico que demonstra o quanto a vontade geral sempre está implícita nas situações de poder, seja no tribunato, na ditadura (como permitindo a mesma) ou na censura as quais nenhuma desses corpos políticos contém poder de representatividade sobre a mesma.

O oitavo capítulo, conforme já antecipado o seu assunto, traz a reafirmação da vontade geral por meio do amor de si, o qual liga o homem enquanto indivíduo à sociedade. Este conceito está de implícito na maneira como Rousseau analisa a religião enquanto meio para relações pessoais e políticas, enquanto conclusão positiva para o direito da humanidade fundamentado numa religião civil. Assim, o filósofo finaliza o livro também com uma prosperidade para um próximo tratado sobre s maiores minuciosidades de tais expectativas colocadas no Contrato Social, adiando na sua conclusão no capítulo IX o desenvolvimento das instituições políticas ainda neste mesmo livro.

BIBLIOGRAFIA:

ROUSSEAU, J.-J. Contrato social. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Coleção "Os Pensadores".

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO– UNIFESP

CURSO DE FILOSOFIA
DISSERTAÇÃO PARA A UNIDADE CURRICULAR
DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA
MINISTRADA PELO PROFESSOR MAURÍCIO MARSOLA

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA
3º TERMO DE FILOSOFIA – VESPERTINO
SÃO PAULO
26/O6/2009


INTRODUÇÃO:


Ascensão da dialética: a alegoria da caverna:

A ascensão da dialética é demonstrada de maneira mais enfática a partir do livro VII de República, o que não quer dizer que ela tenha se ocultado no decorrer dos livros anteriores. Pois é por meio do próprio método dialético de investigar a definição dos conceitos de justiça, cidade, educação, alma, governante, guardião, filósofo entre outros aspectos tratados em torno destes, que Platão chega a uma necessidade máxima de se utilizar uma idéia maior [ou Idea mathema] que permita a “demonstração” desse ideal dialético fundado na Idéia do bem. Ou que, pelo fato de não ser possível a comprovação empírica desta idéia (por ser apenas uma idealização), pelo menos contribua com a sua propedêutica. Em outras palavras, uma idéia ainda não realizada não poderia ser demonstrada cientificamente pela experiência, mas sim pela imaginação ou observação mental da imagem desta própria Idéia. É a metáfora que uma Alegoria da Caverna aplica diretamente à inteligência como próprio exemplo de Paidéia: enquanto um objeto utilizado tanto para alcançar o próprio conhecimento contínuo e ascendente do bem na subida, quanto para regressar ao plano das opiniões e discuti-lo na descida.

A formação do dialético no livro VII:

Assim, o caminho percorrido pelo filósofo é que o eleva até a essência da dialética, e por meio da qual descobre a essência das coisas e a informa. E com este fim, o dialético (aquele que possui maior disposição da alma propícia ao bem) mantém a causa pela qual é o mais adequado a ser o guardião da cidade ideal.

Essa disposição da alma se manifesta nos que têm mais facilidades com as ciências do cálculo [matemática aritmética, hoje álgebra] e com isso, são bem dotados de raciocínio lógico. Esta ciência sobre planos imutáveis que busca a essência das coisas, a realidade verdadeira, a benção do olhar dada pela luz de fora do plano das opiniões e que atinge a alma no momento que ofusca seu cognato, no auge da subida e já distante da caverna. Parte-se para outras [ciências] que atingem o movimento dos sólidos, como a astronomia, por exemplo. Já com a essência das coisas e o bem como causas de sua iluminação, mesmo nunca dissociando-os [a essência e o Bem] também de um fim sempre a ser alcançado, e podendo dialogar de maneira justa e apoiada no bem [ou seja, a prática da ciência dialética] quando retorna à realidade existente, o dialético se dispõe ao plano das opiniões a fim de retornar à caverna e transformar ou formar o olhar dos cidadãos presos no escuro.

ASPECTOS DA DIALÉTICA NA REPÚBLICA DE PLATÃO

“Então, disse eu, só o método dialético, eliminando as hipóteses, caminha por aí, na direção do próprio princípio, a fim de dar firmeza aos resultados e realmente, pouco a pouco, vai arrastando e levando para o alto o olho da alma que está enterrado num pântano bárbaro...”

Na tradução aqui estudada, República apresenta-se de imediato no início de seu primeiro livro com a primeira palavra deste sendo o verbo “descer” conjugado no pretérito perfeito do indicativo, com a primeira pessoa, no singular. Além de se referir a Gláucon, seu irmão, nesta mesma frase. Em nível de signo conforme já o é a Alegoria da Caverna que também nos será discorrida, esta descida de Platão à República pode possuir correspondências relevantes para o que ele teria pensado sobre o papel do filósofo ideal enquanto dotado de dialética e encurvado humildemente sobre a cidade, tendo também ai uma metáfora para o motivo de sua elevação.

Discípulo não somente de Sócrates mas inclusive de Parmênides e fiel a este último em muitos aspectos, Platão se diferencia tanto dos sofistas quanto das imitações artísticas por estarem fora da realidade verdadeira e sim no âmbito do devir [no caso da flexibilidade dos argumentos sofísticos] e da cópia [no caso da imitação artística e não matemática ]. Porém, quando o autor de República distingue aparência da essência e se utiliza do princípio de identificação e ontologia próximos à Alethéia [via verdadeira e não doxal]de Parmênides, mesmo assim não descarta o mundo sensível de todo, usufruindo-se dele para descobrir a ordem lógica implícita na natureza das coisas:

“Libertar-se dos grilhões, disse eu, voltar-se das sombras para as imagens e para a luz, ascender do subterrâneo ao sol e, sendo ainda impossível olhar na direção dos animais, das plantas e da luz do sol, olhar para as imagens divinas na água e para as sombras dos seres, mas não para as sombras das figuras projetadas por essa outra luz que, comparada à do sol, é uma imagem dele. Todo esse empenho com os estudos de que falamos tem a capacidade de elevar a melhor parte da alma até a contemplação do que há de excelente nos seres, do mesmo modo que, naquele momento, elevou o mais preciso órgão do corpo na direção da contemplação do que há de mais luminoso no âmbito corpóreo e visível.”

Portanto a visão voltada para as imagens advindas da luz da qual se refere o filósofo no acesso à dialética, não se confunde com a imagem enquanto referência e objeto da opinião, seja da crença ou da imaginação agrupadas no mundo sensível e expostas pelo símile da linha de percepção no livro VI. Não se confunde devido a tal segregação dos planos [sensível e inteligível] e ao mesmo tempo ser o que os interliga e relaciona, daí a menção dela [a imagem] enquanto objeto também da dialética, porém enquanto “objeto de compreensão e da visão da inteligência” , e agora aproximado da contemplação.

Neste contexto de imagem e contemplação, após o esforço contínuo de discernir a alma e o corpo, o inteligível e o sensível, ou a essência e a aparência na trajetória da República, adentramos na Alegoria da Caverna e a Idéia do Bem é assim contemplada no sentido desse Mito descrito por Platão iluminar a visão para o Bem, já que o mesmo [o Bem] é eternamente um fim e uma meta a qual se pode apontar por exemplos como a Alegoria da Caverna, mas não se definir .

O progresso feito pelo entendimento da complexidade entranhada nessa história é parecido com o que se percorre no caminho do conhecimento das essências: parte-se de um mundo de trevas, onde há opiniões bárbaras sobre a verdadeira essência das coisas exatamente porque não as enxerga como são. E não se utiliza de ciência para alcançá-las por serem prisioneiros do senso comum, não se levanta a cabeça para uma maior investigação das coisas, vai-se pela sombra daquilo que, como pela correnteza de um rio, aparente ser algo, mas que ainda não passa de marionetes.

Mas ainda que haja a grande abertura para a luz do Sol fora da caverna, os prisioneiros não a enxergam por estarem acorrentados e ainda de costas não só para a saída da caverna como também para obstáculos existentes antes do seu topo: um muro, depois um caminho onde passam tais objetos artesanais, pessoas carregando-os e vozes imitando vida nestes bonecos ou conversando e fazendo barulho entre si. Todo este espetáculo é refletido em sombras na parede que os prisioneiros têm acesso, porém sombras também deformadas pelo movimento do fogo que as projeta, portanto não iluminados com a luz natural do Sol, e sim da que é forçada pela mão do homem [o fogo].

Nesta primeira passagem podemos enxergar claramente o mundo sensível das imagens, das imaginações destas, dos objetos reais que propiciam a crença daqueles que o carregam e os produziram etc.

Este âmbito da opinião é interrompido quando Platão dá a hipótese de suposto esclarecimento provindo de alguém que obrigasse e “arrastasse dali à força pela ladeira áspera e abrupta e não o largasse antes de conseguir arrastá-lo [o prisioneiro] para fora e expor à luz do sol” . Esclarecimento tal, que estagnaria a projeção do objeto enquanto considerada como a sua essência, ou mesmo o relativismo proporcional ao conhecimento enquanto um ponto de vista quantitativo e dependente somente do hábito. E sim traria uma ordem, a qual também depende de se habituar com esforço para melhor enxergar [referência à ginástica e ao exército que preparam o guardião], porém um hábito fundado em algo que o levou a fazê-lo, forçou-o a tal preparação por tê-lo libertado da prisão e o feito enxergar o Sol além da caverna. Assim como o Bem que a alma bem disposta carrega já levaria o ser a questionar para distinguir melhor a essência das coisas. O Sol, por não possuir sombras [quem as faz são os objetos no espaço], propicia uma metáfora de ápice do novo conhecimento em contraste ao que se acreditava baseado em trevas.

Os obstáculos da caverna, os bonecos feitos, o fogo criado, as suposições de produtos humanos fundados nas hipóteses em que acreditam, possuem riscos de enganos assim como também as ciências, mesmo a matemática, possuem. Quando não dispostas pela virtude da alma a qual capacita a “visão de conjunto” e habilita o ser para uma dialética com princípio de concórdias e convivência comum a inteligência de todos, e não de discórdias erísticas e injustas por abranger somente opiniões sensíveis a mudanças e não possuírem deduções lógicas e certas, não convindo a todos de uma mesma cidade.

Daí a necessidade do guardião percorrer o caminho das ciências que o Bem lhe mostra . Para que atinja tal preceito dialético em função deste mesmo Bem que o faz livrar-se das crenças e elevar-se até a essência, somente inteligível, das coisas. Assim, o filósofo se atém a esta Idea [do Bem] como a causa que o fez subir a ladeira áspera estudando a matemática, a geometria, a estereometria, a astronomia e a harmonia dos sons para saber discuti-las quando necessário, curvar-se às perguntas e respostas e aceitar mudanças pois é o logos que se leva em conta ao conceber uma hipótese , não mais “o prazer da brincadeira de refutar” para se promover:

“No mundo cognoscível, vem por último a idéia do bem que se deixa ver com dificuldade, mas, se é vista, impõe-se a conclusão de que para todos é a causa de tudo quanto é reto e belo e que, no mundo visível, é ela quem gera a luz e o senhor da luz e, no mundo inteligível, é ela mesma que, como senhora, propicia verdade e inteligência, devendo tê-la diante dos olhos quem quiser agir com sabedoria na vida privada e pública.”

Também na descida, a contemplação das definições dos objetos, ou a teria das formas das essências, é forçada a permanecer presente, enquanto eternamente plausível de discussão de acordo com as opiniões conjuntas que formam as leis de uma cidade. O cidadão que foi solto não estava somente condenado a sumir como também a descer. O reconhecimento de hipóteses inválidas aparece como o ato de concórdia e bondade, refutando uma resposta e buscando outras por meio da eironéia [ironia] a fim de parir outras idéias [maiêutica] também pode se chegar a uma aporia [uma necessidade de maior investigação da definição]. E esses movimentos no diálogo também fazer parte da dialética, portanto constituindo também esta última, o que seria a descida. Em “A religião de Platão”, Victor Goldschmidt apresenta um pensamento parecido a esta referida descida enquanto trajeto da dialética que ao mesmo tempo já a diferencia das outras cinco ciências:

“Ora, se a dialética não se confunde com as outras ciências, é porque estas não consideram senão partes do Ser, e elas são ‘obscuras’, porque, ignorando o Ser, nem mesmo poderão conhecer claramente suas partes. Como elas, a dialética parte, primeiramente, em busca de uma Forma particular, mas ela não pode jamais terminar o estudo desta se não atinge, antes, a Forma do Bem, a fim de compreender como se liga ao Ser universal esta Forma de ser da qual ela empreendeu a definição. Pois tudo procede do Bem, e nada pode ser conhecido, se não for pela dialética que, elevando-se até o ‘princípio de tudo’, depois descendo de novo às Formas particulares, refaz, na ordem do conhecimento, o movimento intemporal da processão.


... A dialética, que é essencialmente diálogo, eleva-se através das Formas até ao Bem, depois, a partir dele, desce novamente.”

Nesta parte do estudo sobre o conhecimento das Formas em Platão, o autor deste comentário citado acima investiga o papel da religião na dialética que a diferencia das outras ciências, enquanto portadora de algo para além do abstrato que Platão qualifica a matemática e seu objeto [a unidade], ou dos sólidos [geometria] e seus movimentos [as outras]. Algo quase espiritual e num âmbito para além das essências (assim como a Idéia do Bem está para além das outras Idéias, a dialética está para além das outras ciências). Mesmo que a essência das outras ciências, principalmente a matemática e a astronomia, jamais se encontrem num âmbito além do da alma e da inteligência. Aliás, por isso é que o filósofo define a unidade enquanto abstrata, pois nenhuma essência pode ser definida fora da alma [em sua parte racional e mansa, própria do filósofo ].

Deste modo, é assim que o dialético possui seu lugar divino dentro da cidade e de si mesmo [na alma], para além das essências das outras ciências, apesar de também ser uma ciência porém a máxima entre elas, assim como a Idéia do Bem. Podemos concluir, logo, que tanto a cidade, como o seu guardião e sua Idéia de Bem são ideais por se encontrarem no logos e não serem realizáveis. Pois ao passo que existissem, tornar-se-iam um devir por adentrar na opinião empírica e extinguiriam o próprio paradigma, retornariam a uma vida nas cavernas.

Referências Bibliográficas:

PLATÃO. República. Trad. Ana Lia A. A. Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

PLATÃO. A República: Livro VII. Comentário: Bernard Piettre. Trad. Elsa Moreira Marcelina. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, p. 22-45, 1985.

LEBRUN, Gerard. Sombra e luz em Platão. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 21-30, 1988.

GOLDSCHMIDT, Victor. O conhecimento das Formas. In: A religião de Platão. São Paulo: Difel, 2ª ed., p. 45-52, 1970.

GOLDSCHMIDT, Victor. _ As etapas do movimento dialético.

_ Nascimento do diálogo. In: Os Diálogos de Platão. Trad. Dion Davi Macedo. Edições Loyola, p. 1- 30, 1984.



notas:

Assim reconhecido por Platão ao colocar a imagem como sendo um objeto da dialética quando este [o autor de República] expõe pela segunda vez o símile da linha de conhecimento. PLATÃO. A República. Livro VII, parte XIII, 534 a.


Platão, República, livro VII parte XIV, 533d.

A respeito da imitação matemática, ela seria uma das duas causas de bem que toda imagem depende e possui segundo o comentário de Victor Goldschmidt: o modelo de imitação ainda possível ao artista, o qual também é uma ciência ainda não obtida a não ser quando descrita em Timeu, e o modo de imitação o qual é exato [quando é matemático] ou reprodutor de beleza [quando artístico e agradável]. GOLDSCHMIDT, Victor. Nascimento do diálogo. In: Os Diálogos de Platão, p.15.

Platão, República, livro VII parte XIII, 532 c.

Assim denomina também Bernard Piettre ao expor o símile da linha desenhado num esquema de analogia para o mundo sensível o qual está para os objetos da opinião [crença e imaginação] assim como o inteligível para os objetos da ciência [objetos da inteligência pensante _ matemáticos e os objetos de compreensão ou da visão da inteligência _ idéias]. PLATÃO. A República: Livro VII. Comentário: Bernard Piettre, p.35.

Mais uma alusão à Parmênides quando este associa o ser e o pensar como unos e idênticos, daí a explicação para a influência de Platão por ele, citada anteriormente. O ser é, independente de suas transformações pois só se pensa aquilo que é. Daí a incapacidade de definição do Bem para Platão, pois ele é por ser pensável e pura e totalmente inteligível, não participando do plano empírico para poder ser apontado, a não ser apontando exemplos nos quais ele estaria inserido.

Platão. República, livro VII, parte II, 516 a.

Ibdem, parte VI, 537 c.

Sobre o Bem como causa do conhecimento e também finalidade. Assim como a sua analogia feita ao Sol enquanto aquilo que traz luz para o homem, diferenciando Platão do humanismo de Descartes onde tal esclarecimento advém da própria distinção e clareza das idéias do homem, não de um Bem que o força a sair da Caverna, ver LEBRUN, Gerard. Sombra e luz em Platão. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar, p.29.

Porém esta discriminação das crenças não contidas na dialética aparece com maior ênfase na República do que em outros diálogos de Platão, assim como Victor Goldschmidt argumenta sobre os primeiros quatro modos de conhecimento descrito em Cartas como associados à opinião: “Interrogar e responder é próprio tanto da erística como da dialética” em seu texto sobre as Etapas do movimento dialético. In: Os Diálogos de Platão. p.6

Platão. República. Livro VII, parte XVII, 539 d.

Platão. República. Livro VII, parte III, 517 c.

Goldschmidt, V. O conhecimento das formas. In: A religião de Platão, p. 46.

Platão. República. Livro IX.

Ciência

a ressaca voltar da viagem e a embriaguez se apaixonar 
pela consciência e viajar até a ressaca voltar da viagem 
e a embriaguez se apaixonar pela consciência e viajar até

Música ambiente

Dê mais mente
ao que sente
Decente

Dê mais sente
ao que mente
Demente

E ao dê, sêmen.

"Potencial"

Mais nada
a perder
a não
ser
vida

Como o link do arquiteto

Wittgenstein comeu minha língua
então dei voz e origem
ao grave sotaque do destino
virtual e ainda menino

Se fosse um virgem
não seria tão clandestino
como a mudez ousada
que mostra seu raciocínio

Como o beijo falado
que cala a palavra
seu amor assim velado
não me arranca nada
só me rasga em poesia

Se nada sente, então escreve
encaixa-me discretamente
no perfil que 'qria'
já que não ama, poesia
pra quem quer que o navegue

Ou me acesse, somente
que eu viro a página
e edito a sua mente
com imagem de lágrima

E o reflexo te dedico
se precisar só mais se amar
só chamar que o identifico
espelho é mais fácil de gostar
viro link e me indico

Abro-me feito janela
mesmo que pra ver outra
até ativo os envios dela
minimizando-me de tonta

Mas me vista e me arquitete
discografe-me
salve-me pelo disquete
mas não me exclua ou delete

Mas construa esse teu engenho
lucre e calcule meu desempenho
que eu expiro sem visitas
desabo e não deixo pistas

Invente a sua maneira
envie-me mande onde quer
sou empecilho, spam, mulher
e me restauram da lixeira

E ainda não se detone
por se contentar nas faladeiras
muito menos se apaixone
depois de tanta babozeira
de crêr em leituras primeiras

Viagem











A turismo em você
vou e exploro teu mundo
em busca do conhecer
trocar diferenças

Não se identificar
ou só um pouco
isso é relacionar
aprender com o outro

Experimentar os instantes
não gostar só de espelhos
pois prazer é bastante
quando viaja sem medos

Este triunfo da defesa
quase esconde na aparência
de cobrir sua fraqueza
atrás de correspondência

domingo, 24 de janeiro de 2010

LINK

O curto circuito
é ciclo curto
acaba se caso
quebre o encontro

E o acaso de outro
encontre o acesso
a qualquer quem
que queira um sexo

Coisa de alguém
clicado em amores
executa conquistas
encomenda calores

Co-inversas quentes
com clima carente
questões sobre coisas
contadas de canto

Cada canto contente
a cura do acalanto
criando os ausentes
educoração de cor
e com ração

Isca a corresponder
caminhos descritos
e descruzados
no encanamento
recém casado

Camuflagem contínua
de comportamentos
condenados ao escanteio
conforme o cabimento

Quantas querelas
cabem nessa coisa
coração eletrônico
cavidade inalcançada

Cores caricatas
cantam dando cordas
à canção calada
do cérebro sem bordas

Capacidade amagônica
que ama a agonia iônica
cancela chops num chip
e não chora seus cliques

Contato é a corrente
quimica presente
só o magnetismo
condutor das caveiras
descasca as carnes
dá cobertura às queixas
aconselha não quereres

Acorde o link pelo toque
acredite em corpos
descuidados no estoque
acompanhe a causa
descordando da conta
computadorizada

E quem criar caso
ou não der cabo
comente aqui
sobre o que se constrói ali

DISSERTAÇÃO SOBRE O RESSENTIMENTO EM F. NIETZSCHE

São Paulo, 02 de junho de 2009
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo
Unidade Curricular: História da Filosofia Contemporânea III
Professor:
Ivo da Silva Júnior
Aluna: Cristilene Carneiro da Silva
3º Termo - Filosofia - UNIFESP


A VONTADE DE NIETZSCHE ou
NIETZSCHE: O ÚLTIMO CULPADO OU RESSENTIDO?

“ A Zaratustra, ainda ingênuo, que apresenta ao povo o mais desprezível dos demagogos, para melhor valorizar o Super-Homem, a multidão responde em coro: ‘Dá-nos o Último Homem, Zaratustra... e guarda para ti o teu Super-Homem’.[1]”

                       Que poder é esse hoje que mistura a vontade de potência criadora com um ressentimento destruidor para falar de revolução, política e oposição por meio de Nietzsche? A manifestação de forças, ou para além da política partidária brinca de culpar e ressentir o filósofo para utilizá-lo como objeto, literalmente, de “estudo” ou de “articulação”? A única coisa que se cria com isso é uma vulgarização cristalizada (para não dizer cristianizada) de uma filosofia que vai contra qualquer valor moral “escravizante” por uma terra já escrava e católica. Amém, a moral criada nesta deu vazão à criação de uma nova filosofia brasileira, pelo menos! – A de um “ideologismo” sobre Nietzsche que não é jamais algo próximo de sua vontade de potência, mas simplesmente uma vontade de assumir o poder às custas do filólogo, às custas dessa Vontade de Nietzsche escandalizada e moldurada para venda em quaisquer editoras, esquinas ou livrarias...
                     Porém, a fim de propagar outra coisa que não somente uma continuidade especulativa em homenagem à mudança na escrita trazida pelo filósofo como foi feito acima, dando ênfase ao seu tom de revolta e, por escrever de maneira menos formal e mais literária supor que tenha compreendido suas críticas, discorro no desenvolvimento dessa dissertação, não uma tentativa de aumentar ainda mais a obra de Nietzsche criando ideologias sobre seus escritos, ou direcionando uma culpa aos que o fazem, muito menos ressentindo isso e criando uma verdade moral aqui. A qual inverta-me em nobre ou senhoril falsificado, não. A função de denúncia já foi muito bem exercida pelo autor comentado, o que proponho é simplesmente mostrar outras interpretações para compor o histórico da história de sua filosofia[2]. Assim como Michel Foucault já argumentou sobre isso em seu texto “Genealogia e Poder”, no qual relata a necessidade de descentralizar um pouco o poder de uma única linha histórica e por meio da regionalização do pensamento mesmo, fazer-se uma maior pesquisa científica na sociologia e antropologia do pensamento[3].
                      Não que este texto possua pretensão de entrar nas exceções ainda existentes sobre a filosofia de Nietzsche. A dificuldade em permanecer na mesma hierarquia proposta pelo filólogo, em neutralizar o julgamento para que se dê uma “moral sã” na crítica contínua sobre a filosofia (seja ela crítica, cética ou dogmática), traz sempre uma suspeita sobre o texto enquanto vingativo e acusador ou revoltado e defensivo demais[4]. Ou se lamenta ou se argumenta para justificar uma culpa. Mas enfim, fica pelo menos claro a respeito dessa tentativa de não fazer um ascetismo para discorrer o assunto. E a motivação em consegui-lo é em agradecimento daqueles comentadores que já fizeram jus a isso, demonstrando-nos tal possibilidade por meio do detalhamento no espaço entre essas oposições e traduzindo-nos o que Nietzsche quis trazer para além do relativismo, da vontade de verdade e das demais finalidades[5].
                        Quando refiro-me à vulgarização (termo que para bem utilizado poderia ser substituído por fetichismo no lugar de seu significado enquanto popularização, pois nada contra a queda da elitização do pensamento, muito pelo contrário), é daqueles títulos os quais mal se preocupam em retratar a história da filosofia, mas simplesmente vender o seu peixe e sua política como muitos. Daí o termo fetiche, já utilizado pelo próprio Nietzsche. Publicações que querem criar um produto Nietzsche para vender e render lucros materiais com isso.
                       Ou também no âmbito político, quando se define uma leitura nietzcheana de acordo com as condições partidárias, e não o contrário: a partir de sua leitura cria-se um movimento. Claro que o autor que defende o mundo enquanto uma contingência de interpretações possibilita toda essa estrutura para variadas articulações. Porém filosofia, ética e política muitas vezes são inseparáveis, mas quando as três são uma conseqüência de um mesmo pensamento, não quando se apropria de uma dessas três para enfatizar, com isso, as outras e vice-versa; criando assim discursos muitas vezes contraditórios entre o pensar e o agir como decorrência da falta de coerência entre a leitura de um pensamento como um todo, por exemplo.
                       Utilizar-se de um novo método de ensino imposto somente para facilitar a maior quantidade de “alfabetizados” e manter índices valorativos com isso, e neste método propagar uma idéia de filósofos que “curam” a sociedade dizendo que isto tem algo a ver com a potência que Nietzsche depositava na fisiologia da saúde para defender uma “filosofia medicinal”, é totalmente discrepante[6]. Assim como aumentar tal incoerência adicionando não só a ética diferente da filosofia, como também da política, ao promover um novo administrador de forma fragilizada e sem quaisquer tipos de eleição ou discussão anterior, como se fosse resolução de todos os problemas que o início de uma universidade possui, por exemplo. Isso é exemplo não só de ressentir e reprimir a vontade de potência de estudantes interessados em melhorar a educação como também de inverter os valores e enfraquecer essa vontade como se ela não fosse “boa”, e sim a vontade imposta do nada, pela simples necessidade de alguém para substituir uma moral governante anterior, mas que corresponderia, para Nietzsche, à mesma coisa: como se fosse Sócrates que corrompia os jovens substituído por Cristo o salvador.
                      Esta oposição contrária encontrada não só nesta falta de lógica entre idéias utilizadas e práticas realizadas pode ser encontrada na descrição de ressentimento para Nietzsche. Quando este a trata como sinônimo de negação das forças manifestadas pela vontade de potência. No Brasil temos inúmeros exemplos que demonstram melhor uma explicação do que seja esse termo para o filósofo. Pois é por meio da crença numa moral serva[7] que ele se dá, e nada mais moralista do que um país católico estudando tanto um anti-cristo, por exemplo.
                      Entre outras maneiras de sobressair-se por meio desta negação, não só no âmbito da própria leitura feita sobre Nietzsche ou da administração de uma instituição educacional como já citamos aqui. Existem outros valores criados por diferentes “rebanhos” os quais incitam este ressentimento estudado[8]. A mania aparentemente eterna de um conformismo maquiado pela culpa que se joga no outro no país, é unânime em muitos aspectos. Digamos que na educação isto se dá ao falarmos “mal” dela, e concluir a questão com uma passividade transcrita por “mas é assim mesmo, fazer o quê?”. Com isso cria-se uma moral perigosa de que nunca se pode fazer nada pelo que negamos, ressente-se o que está ruim porém o máximo desta acusação é nos vitimarmos ao se colocar contrário a vigência reinante e inverter os valores. É ai que mora esta moral opositora e acusadora, de estabilizar a opinião de nunca aceitar algo que venha, seja do governo, da escola, desse outro “rebanho”[9], criando sempre esta extremidade de pólos, e não uma hierarquia. Pode-se expandir com o exemplo ao discorrer também sobre os milhares de artesanatos, músicas e outras artes marginalizadas no Brasil: a idéia elitista de um lado, guardada nos museus de São Paulo, por exemplo enquanto um pólo. E a idéia de que o que se produz enquanto artesanatos regionais, danças típicas, músicas folclóricas ou de contestação como o rap etc., em muitos lugares não se divulga, ou se considera enquanto estética. Porém, muitas vezes como nesta, por se estar muito próximo da questão é quase impossível distinguir qual dos pólos é o do senhor e qual o do escravo, o do dionisíaco com sua vontade de potência e o do socratismo com seu ressentimento moral[10]. A inversão de valores críticos leva a não saber mais quem é a “ave de rapina”, já que ambas partes converteram em público apreciador os que acreditam em suas vertentes.
                      Mas para não exceder na demonstração do funcionamento desse ressentimento, e também não confundi-lo com uma simples reclamação de revolta, é necessário distinguir e evidenciar aqui também a vontade de se transpôr no lugar do outro pelo ódio, numa “vingança imaginária” que o fraco carece. O que não é somente revoltar-se com a injustiça que o outro ou o externo causa pelo fato de ser diferente, mas inclusive por não ser capaz de conquistar algo a altura desse outro que o supra[11], e por isso constrói-se uma moral que disfarce a sua fragilidade em bondade, virtude etc. Quando acontece um jogo de futebol, e no estádio montam-se duas torcidas: o código moral de cada uma é o objetivo do gol, da vitória. Porém nunca é assumidamente reconhecido que um time é melhor do que outro, a não ser pela quantidade de títulos de permiação que eles possuem. Mas a fé que alguns torcedores mantêm por um time os fazem acreditar em possibilidades de corrupção da parte do juiz, em subornos etc. Cria-se uma crença no acompanhamento dos jogos que é levada pela vida toda de uma pessoa, independente se o time possui ou não vitórias, se é forte ou não.
                       Assim como o termo “liberdade de expressão”, fortalecido depois do regime militar, trouxe consigo uma moral inserida na mídia que “democratizou” a palavra porém continua a manipular informações. Agora é a contingência de informações distorcidas ou muito parecidas que impedem as outras. E o ressentido ainda se acha no direito de repetir a mesma coisa sempre, compactuando com a mesma dissonância ao pedir somente a “liberdade” de expressão, e não um melhor estudo e legado sobre ela, o que deu no que a publicidade faz com o indivíduo hoje – o que quiser. Desse mesmo acúmulo e aglutinação, podemos inferir o ressentimento temporal, “não temos tempo na correria do dia-a-dia”, clichês citados que realmente criam dificuldades de reflexão, convivência e nisso sim repressão, assim como o cristianismo, tempo se possui sim, o que possivelmente seja é a falta de organizá-lo. A aceitação de tais rótulos no século XX e XXI já nos traz prejuizos como o de acabar não fazendo nada, já que a “efemeridade” é tão desgastante e, forte…
                      Sejamos efêmeros, então. E que o desespero da falta de saída na contingência caótica cumpre uma possibilidade de loucura inaceitável pela lei, pela justiça etc. A resistência a um anarquismo impõe um desejo de vingança dos que depois de Nietzsche esperam por algo que corresponda às suas medidas horizontalizadas e gradativas, para além da barbárie ou do racionalismo. Porém a ausência dessa possibilidade, o vazio dentro de si, a falta de rumo da filosofia, da arte, da história, da estética, da crítica e dos demais valores só mantêm as diferenças e o relativismo nos valores e nas interpretações extremas e niilistas, não dando vazão à uma moral sã, que realmente salve essa extinção do mundo. Disso se infere a propagação ideológica de Nietzche enquanto culpado por extinguir tudo ou ressentido enquanto pedinte de uma salvação, porém ele nada fez a não ser detectar um suposto fim já presente, não presumindo nada, muito pelo contrário, somente buscando suas procedências. Isso que o mantêm distante do nazismo por qual foi confundido durante muito tempo: o fato dele não possuir nenhuma ideologia[12]. É daí que buscar a origem, por meio de uma causa filosófica em Nietzsche não é coerente com sua própria filosofia que é interpretativa, e não justificativa. Ou seja, serve-se somente de indagações e interpretações que sua vida enquanto pessoa[13], possuidora de vontade de poder, não de uma pretensão de justificar o mundo por meio de tal filosofia como costumam tratá-lo.
                       Considerá-lo extintor da filosofia já é culpá-lo, por exemplo. Há uma maneira de ser lido culturalmente, por meio de suas fases[14], mas ele possui seu pensamento positivista e logo após, crítico, podendo ser levado na totalidade da obra e não na parcialidade de quaisquer de seus momentos. Trasnportando assim, o valor de sua filosofia para uma transfiguração: nem último nem primeiro, nem cristão nem pagão. Há aí um desejo de se ater a uma posição – ou niilista ou positivista – que muitas leituras geralmente não resistem. Assim como considerá-lo propagador da alegria e do Super-Homem traz à tona uma religião de idealismo que se divide em múltiplas auto-ajudas pelas bancas de jornais. A sua hierarquia está em tudo, principalmente na leitura sobre o mesmo. E o maior perigo do ressentimento e da culpa é impô-los ao próprio autor que o detectou, somente comprovando com isso a carência de uma filosofia realmente “medicinal”.
                        Mas reforçando o que já foi exposto: longe de culpar ou ressentir algo, que o reflexo nietzscheano continue a procriar inúmeras manifestações de forças como esta que faço agora e vejamos até onde a fé no filósofo vai chegar Brasil a fora! Quem sabe essas tantas criações de interpretações contando cada vez mais “novidades” em cima dele já não repercutam em filosofias propriamente ditas, pois que da história da filosofia estejam tão distantes...

"Meu sol foi quente sobre mim ao meio-dia:
sede bem-vindos, que chegais,
ó ventos repentinos,
frescos espíritos de após o meio-dia![15]”


BIBLIOGRAFIA:


NIETZSCHE, F. “Para a genealogia da moral”. In: NIETZSCHE, F. Obras incompletas. São Paulo, Abril Cultural.
LEBRUN, Gerard, “Por que ler Nietzsche, hoje?”, in Passeios ao léu. SP: Ed. Brasiliense, 1983.
FOUCAULT, Michel. “Genealogia e poder” In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979.
MARTON, Scarlett. . A morte de Deus e a transvaloração dos valores. Hypnós, São Paulo, v. 5, 1999.
MARTON, Scarlett. . Nietzsche: Uma filosofia a marteladas. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.21
KOFMAN, Sarah. "O/Os 'conceitos' de cultura nas Extemporâneas". In: MARTON, S. (org). Nietzsche hoje? São Paulo: Brasiliense, 1985.


NOTAS:

[1] LEBRUN, Gerard, “Por que ler Nietzsche, hoje?”, p. 32.


[3] FOUCAULT, Michel. “Genealogia e poder” In: Microfísica do Poder.

[4] “ O que os homens mais facilmente esquecem é que, a todo instante, defendem o seu ‘território’ animal. Quer se fale profissional, filosófica, sentimental, cientificamente _ sempre se acredita, em algum momento, fazer referência a normas que valem para todos, a conceitos que têm o mesmo sentido para todos ( e os nossos ideais ‘democráticos’, ‘igualitários’, assim como a nossa civilização burocratizada, levaram esta ilusão grega ao auge). Acredita-se que, na raiz de nosso discurso, existe afinal de contas alguma coisa – ‘razão pura’, ‘sujeito universal’ – que é capaz de penetrar todas as mentiras, de denunciar as ilusões, de proferir a última palavra . Em suma, acredita-se que o homem é um animal capaz de conhecer o Ser, e de dizê-lo em nome de todos. Como se esta palavra ‘Ser’ já não fosse uma noção forjada por uma certa ‘raça’, para a sua segurança e, por conseguinte, um documento etnológico à disposição do bom filólogo. Como se compreender, intelligere fosse ‘algo conciliador, justo, bom, algo essencialmente oposto às pulsões: quando se trata, apenas, de um certo comportamento das pulsões entre si’ (Fr. Wissenschaft, aforismo 333).” (LEBRUN, Gerard, “Por que ler Nietzsche, hoje?”, p. 35)

[5] Alusão em agradecimento aos comentadores utilizados como leitura e citados aqui. Sobre genealogia e procedência à Michel Faulcault., relativismo, a Bento Prado Jr., sobre vontade de verdade Alberto Marcos Onate., sobre necessidade e não finalidade a André Luís Mota Itaparica, sobre hierarquia e não ideologia a Gerard Lebrun, sobre transvaloração e não valoração a Scarlett Marton e finalmente sobre a indicação dessas leituras todas, ao professor deste curso.

[6] Quanto a essa discrepância: “ A educação voltada para a cultura não é a que permite ao indivíduo
aspirar a um posto de funcionário ou a um ganha-pão qualquer, é a que o leva ao desenvolvimento integral e harmonioso de todas as suas capacidades.” (MARTON, Scarlett. . Nietzsche: Uma filosofia a marteladas, p.21)

[7] “Incapaz de admirar o forte, o ressentido imputa-lhe justamente o erro de ser forte. Reúne fatos e testemunhas para montar sua peça de acusação, cujo objetivo último é o de introduzir no âmago do forte o vírus corrosivo da culpa.” ( MARTON, Scarlett. . A morte de Deus e a transvaloração dos valores, p. 55)

[8] Sobre a diferença enquanto o que provoca o ódio e a vingança (palavras-chave para o esclarescimento sobre ressentimento): “É a diferença que causa o ódio, ou melhor, é a recusa da diferença que o engendra” ( MARTON, Scarlett. . A morte de Deus e a transvaloração dos valores, p. 56)

[9] Sobre essa servidão, Scarlett Marton numa passagem descreve como se dá tal moral: “A afirmação da crueldade da existência cedeu lugar ao otimismo do saber, a febre de viver, à serenidade. Opôs-se a vida à idéia – como se a vida devesse ser julgada, justificada e redimida pela idéia. Privilegiou-se o conhecimento em detrimento da arte, e fez-se dele fonte de moralidade. Com o socratismo e, pouco depois, com a civilização romana, o dionisíaco desaparece da cena do mundo por um longo período.” (MARTON, Scarlett. . Nietzsche: Uma filosofia a marteladas , p.18)

[10] Sobre a relação entre o ressentimento enquanto ligado diretamente à destruição em oposição a vontade de potência, ligada à criação: “O levante dos escravos na moral começa quando o ressentimento mesmo se torna criador e pare valores: o ressentimento de seres tais, aos quais está vedada a reação propriamente dita, o ato, e que somente por uma vingança imaginária ficam quites. Enquanto toda moral nobre brota de um triunfante dizer-sim a si próprio, a moral de escravos diz não, logo de início, a um ‘fora’, a um ‘outro’, a um ‘não-mesmo’: e esse ‘não’ é seu ato criador.” (NIETZSCHE, F. “Para a genealogia da moral”, primeira dissertação §10.)

[11] Do ressentimento como única reação do fraco: “É da própria impotência que nasce e se alimenta seu desejo de vingança. É por isso que ressentimento nem mesmo é sinônimo de reação: justamente por ser impotente para reagir, ao fraco só resta ressentir.” (MARTON, Scarlett. . A morte de Deus e a transvaloração dos valores, p. 56)

[12] “Um único exemplo. De alguns anos pra cá, tentou-se alistar Nietzsche no pelotão dos críticos do ‘ideológico’, no sentido marxiano da palavra, e mesmo incluí-lo entre os precursores da psicanálise. Ora, tais aproximações parece-me que só podem dissimular a especificidade de Nietzsche, e edulcorar a sua ‘grande suspeita’.” (LEBRUN, Gerard, “Por que ler Nietzsche, hoje?”, p.39)

[13] De como Nietzsche não se importava com nenhuma continuidade ideológica de sua filosofia, ao qual muitas vezes considerava até pessoal, Lebrun comenta: “Marx gostava de dizer que não era ‘marxista’, mas não detestava que outros o fossem. Nietzsche, ao que parece, não teria gostado que houvesse nietzscheanos: ‘Apliquei o ouvido para escutar um eco, e só recolhi elogios’ (Jenseits, aforismo 99).”

(LEBRUN, Gerard, “Por que ler Nietzsche, hoje?”, p.32)

[14] KOFMAN, Sarah. Nietzsche hoje. p.77-109.

[15] poema de Nietzsche, “Cai o Sol” . In: Obras incompletas.