segunda-feira, 26 de julho de 2010

Kant e sua idéia cosmopolita

São Paulo, 13 de novembro de 2008.
Unidade Curricular – Leitura e interpretação de textos clássicos.
Professor – Ivo da Silva Júnior
Dissertação sobre o livro: Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita,
de Immanuel Kant.
Universidade Federal de Guarulhos
Cristilene Carneiro da Silva (r.a: 50043)
Curso de Filosofia - Vespertino


O cidadão do mundo é aquele cuja vontade é universal

“... assim como as árvores num bosque, procurando roubar umas às outras o ar e o sol, impelem-se a buscá-los acima de si, e desse modo obtêm um crescimento belo e aprumado, as que, ao contrário, isoladas e em liberdade, lançam os galhos a seu bel-prazer, crescem mutiladas, sinuosas e encurvadas. (KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. p. 11 ) ”

“Em geral o particular é muito insignificante em relação ao universal, os indivíduos são sacrificados e abandonados. A idéia paga o tributo da existência e da transitoriedade, não de se mesmo, mas das paixões dos indivíduos” ¹. Hegel neste trecho de seus escritos encontra questões em algumas resoluções Kantianas a respeito do particular como um problema ambíguo ou até contraditório porque o universal se dá por meio do particular mas acaba por extingui-lo. Porém o antagonismo e universalismo em Kant podem ser vistos como lógicas morais, e não como qualquer tipo de problema a ser resolvido. A solução não está em procurar problemas no pensamento Kantiano, mas na maneira de compreendê-lo somente por meio de um ponto de vista particular e julgar a ambigüidade humana como problema, pois a partir daí é que se extingue uma de suas partes (a particular ou a universal) e não quando se coloca ambas como necessárias à sobrevivência da espécie humana como fez Kant.

A impossibilidade de um conhecimento independente dos sentidos humanos, convicto de como a natureza é em si mesma, já particulariza tal conhecimento unicamente para as vistas do homem, não havendo outra possibilidade de vislumbrar um outro conhecimento que não o dele. Por isso não há como não considerar a experiência particular apenas como testemunha da própria razão. Nem a idealização ou o entendimento, nem a experiência fazem, sozinhos, a concordância de um conceito. Logo, a transcendência está exatamente na união entre os dois, ou mais claramente, na ambigüidade. Qualquer visão referente à tal raciocínio que também não se utilize de tal dialética, será uma forma invalida por não abranger uma crítica (conceito do pioneiramente Kantiano) sobre o assunto, mas somente uma metafísica.

Mas a transcendência atua para além dos indivíduos: é o espírito esclarecedor que não julga um só ponto de vista nem uma maioria numa multidão, mas simplesmente coordena por meio de possibilidades uma totalidade máxima de concórdia entre os indivíduos, sociabilizando-os. Onde espírito signifique o que está entre a matéria e a idéia, a força de transporte entre os dois: seja entre um fato e um relato (ou uma história), entre a empiria e o a priori, entre a subjetividade e o esclarecimento ou entre o particular e o universal.

Tal raciocínio atuará universalmente não só no direito, na moral e na política como também e principalmente na maneira de considerar o universal por meio do particular e vice-versa. Usufruindo-se dos dois sem descartar quaisquer possibilidades e por isso reger uma vontade natural e universal quando estabelecido o seu curso regular de acontecimentos. Curso o qual também baseado numa crítica das possibilidades práticas, transcende o indivíduo à civilização e dela ao Estado e por diante, cosmopolitamente. Em outras palavras, quando se achar leis também transcendentes na história humana.

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¹ A respeito dessa crítica feita por Hegel, encontra-se a seguinte citação: “Numa perspectiva fisiológica e pragmática de como o conhecimento humano pode se dar por meio de uma lei, Kant sugere que o homem é um objeto da e na natureza, livre e cidadão do mundo... Na Ciência da Lógica (1812), Hegel destaca as ambigüidades da explicação Kantiana do conceito, mostrando que a sua tentativa de reconciliar lógica e epistemologia é inspirada por uma ontologia, e que sua relação equívoca entre conceito e intuição pode ser analisada em termos das relações entre universalidade, particularidade e individualidade. (Caygill, Haward. Dicionário Kant. Trad. de Álvaro Cabral. p.64 )”

“... através de um progressivo iluminar-se (Aufklãrung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o discernimento moral em princípios práticos determinados e assim finalmente transformar um acordo extorquido patologicamente para uma sociedade em um todo moral.” (KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. p.9)

Desta última afirmação podemos concluir o quanto “O cidadão do mundo é aquele cuja vontade é universal”, e não excluirmos daí a necessidade moral (ou prática) de seguirmos num percurso moldado por determinações que podemos escolher entre traçarmos ou não, porém não por isso abandonarmos tal lei abrangente de todas as possibilidades e, também nisso, universal.

BIBLIOGRAFIA:

_ KANT, I. Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita. Org. Ricardo Terra. Trad. de Rodrigo Naves. São Paulo: Martins fontes, 2004.

A transcendência da Prosa - Sartre

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO– UNIFESP
CURSO DE FILOSOFIA
DISSERTAÇÃO PARA A UNIDADE CURRICULAR
DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA II
MINISTRADA PELO PROFESSOR ALEXANDRE CARRASCO


A TRANSCENDÊNCIA DA PROSA


CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA
3º TERMO DE FILOSOFIA – VESPERTINO

SÃO PAULO
03/O7/2009


“Basta que o ‘Mim’ seja contemporâneo do mundo e que a dualidade sujeito-objeto, que é puramente lógica, desapareça definitivamente das preocupações filosóficas. O mundo não criou o ‘Mim’ e o ‘Mim’ não criou o mundo, eles são dois objetos para a consciência absoluta, impessoal, e é por isso que eles se encontram ligados. Esta consciência absoluta, quando purificada do Eu, nada tem de um sujeito, igualmente não é uma coleção de representações: ela é simplesmente uma condição primeira é uma fonte absoluta de existência.”

A formação desta unidade absolutamente transcendente e por isso também engajada, pode se estender para além da composição desse universal e do particular e entranhar as fronteiras da própria obra do filósofo a ser dissertado. Jean Paul Sartre trata do ego e da literatura enquanto duas fontes transcendentes, as quais possuem uma interdependência com o mundo onde a correspondência de liberdades é materializada seja pela linguagem, seja pela consciência. Tal proximidade nas possibilidades inseridas tanto na Transcendência do Ego enquanto reflexiva, filosófica e particularmente sobre o ser quanto em O que é literatura? enquanto espontânea, política e universalizando uma historia já não seria, ela mesma, a prática da transcendência existente na moral da filosofia sartreana?

Com uma devota oposição à crítica literária da época e também com relações estreitas à filosofia crítica, Sartre depositou um estudo detalhado sobre os dois assuntos: o realismo na escrita e a representação na fenomenologia. Não somente com a pretensão de trazer a arte da escrita para mais próximo da vida dos homens, como também de desfazer possíveis enganos por eles sofridos quando submetidos ao determinismo alçado no realismo e muitas vezes influenciável na filosofia, por exemplo. O cientificismo de descrições muito precisamente detalhadas na prosa quanto a formação coerente seja dos personagens ou dos cenários etc., dispunha uma linha moral para a maneira de se fazer romances onde a liberdade aparecia somente como maquiagem conseqüente do trajeto das ações já entrelaçadas. Assim como a autonomia do autor quem assinava tais descrições com um caráter quase totalitário e indiferente a interação com o leitor, por meio da demonstração de uma experiência quase que dedutível de tão verdadeira sobre a realidade do autor enquanto relatador e único objeto da obra num tom até confessor e comandante da situação . Sartre não acredita na crítica enquanto ditadora dos recursos e sentidos a serem utilizados, pois vê a estética como uma crença vazia. “É próprio da consciência estética ser crença por engajamento, por juramento, crença contínua pela fidelidade a si mesmo e ao autor, opção de acreditar, perpetuamente renovada.” O intuito de ultrapassar esses modelos de escrita abrangia também o de criar uma interdependência entre a obra e a realidade no sentido de não mais haver somente uma única direção na informação: a obra não mais surgiria somente da autonomia do autor a influenciar a realidade como também o leitor e as suas experiências na vida também a descreveriam, numa relação de correspondência. É onde também que se encaixa a filosofia enquanto um pensamento objetivo ou de consciências comuns, não mais subjetivos e egocêntricos. Uma filosofia que é transcendente pela existência de consciências objetivas em comunhão, não mais pela verdade essencial do sujeito.

Em A transcendência do ego, o autor investiga a impessoalidade de uma das partes da consciência a fim de relacioná-la com algo exterior ao sujeito enquanto pregado no suposto “Eu”. Ele inicia isso questionando sobre a representação sintética kantiana, onde afirma haver uma subjetividade em sua transcendência, devido ao fato de ser a intuição quem realiza a síntese, mas formalmente e apriori sem maiores descrições de como isso se dá de fato, mas somente de direito, para ser fiel ao termo utilizado pelo filósofo e não utilizar o termo “moral” para dar foco à explicação de diferenciação entre a transcendência formal e subjetiva, não detalhada na maneira de ascender o fenômeno em kant distinta da maneira a qual quer objetivar a transcendência da consciência definida por meio de sua relação com os objetos e com o ego transcendente.

Portanto a transcendência para Sartre não parte do eu como em Descartes ou mesmo nesta crítica feita a kant, por exemplo. A independência e auto-suficiência da consciência irrefletida enquanto sendo o primeiro grau de consciência, objetiviza a relação tanto com o eu quanto com os objetos, daí a transcendência dela enquanto engajada no mundo. “Pela intencionalidade ela se transcende, ela se unifica à medida que escapa de si própria.” Sartre diz que tanto Kant, quanto Descartes ou alguns psicólogos e filósofos do amor de si, pularam esta etapa objetiva da transcendência e logo a associaram a uma subjetividade. Não que ela seja completamente desvinculada às outras consciências, a de segundo grau por exemplo, pois é ela [a irrefletida ou de 1º grau] quem aciona o eu na reflexiva e nisso se dá a atividade da consciência “mas ela é pura e simplesmente consciência de ser consciência deste objeto, esta é a lei de sua existência” , essa passagem da consciência que reflexionou sua atividade [o eu posto após a consciência primeira] à refletida [ou a de segundo grau] é a própria transcendência da consciência do objeto no mundo para o objeto em si, quase que indissolúveis . Portanto o “Eu” não está interiorizado antes desta consciência se dar, ele está fora do ser, por isso ele é transcendente. Mas ele é somente um objeto transcendente da consciência transcendental. Por isso que pode estar em comunhão com outros objetos. “O objeto é transcendente em relação às consciências que o apreende, e é nele, no objeto, que se encontra a unidade das consciências.” Ele [o Eu] propicia a atividade da consciência, mas ela [a consciência] enquanto passiva [ou “não posicional”] não necessita dele, pelo contrário, é o “Eu” quem necessita dela para ser construído pela mesma. Por isso ele não participa do primeiro grau de consciência, pois a consciência irrefletida não é ativa, mas são os objetos do mundo que ela “põe e apreende” ao mesmo tempo quem ocasiona a reflexão [da reflexiva] e não necessariamente o “Ego”, podendo este último, por ventura, participar das inter relações dos estados, das qualidades e das ações quando constitui a parte objetiva e espontânea “Mim” do ego, mas não a abstrata e dissimulada do “Eu”. Este último seria a unidade, representativa das consciências:

“O resultado não é duvidoso: enquanto eu lia, havia consciência do livro, do herói do romance, mas o Eu não habitava esta consciência, ela era apenas consciência não posicional dela mesma.”

Disso podemos concluir juntamente com o pensamento de Sartre na obra, que no primeiro grau da consciência não há um Eu, logo não é o Eu quem pensa ou percebe algo, mas sim a consciência que apreende e põe algo ao mesmo tempo por que “toda consciência é consciência de algo”. Seguramente ele se manifesta como a fonte da consciência, mas isto nos deveria levar a refletir: com efeito, ele aparece velado, mal distinto por meio da consciência, como uma pedra no fundo d’água, _ deste fato segue-se que ele é enganador, pois nós sabemos que nada, exceto a consciência, pode ser a fonte da consciência. Logo, o eu não estaria no mesmo plano de nenhuma das consciências, apesar de ser objeto delas, e também por isso, objeto de reflexão transcendente delas. E mesmo que ele apareça na consciência de primeiro grau, seria enquanto objeto, uma consciência da consciência do eu, por exemplo. Mesmo assim, ele ainda seria apenas a parte “Mim” do ego transcendente .

Ou seja, ela [a consciência, em específico a de primeiro grau] percebe e é algo ao mesmo tempo, daí que “ser e parecer não são senão um” , daí também a sua totalidade de pureza ou transcendência neste primeiro passo de compreensão ou, até, significação_ para formar este elo com o termo utilizado em “O que é literatura”, a significação na prosa também é um objeto por se mostrar direto à consciência irrefletida sem necessidade da ultrapassagem que a reflexão imediata faria sobre os signos, por exemplo. Sem maiores espontaneidades da primeira consciência, e sim reflexões mediadas pelo signo a fim de desvendar seja uma poesia, um quadro etc. Diferentemente na literatura que Sartre descreve, não há eu onde ocorre a leitura prosaica, há consciências, eis o engajamento da prosa no sujeito, eis sua transcendência. Pode-se investigar com maiores cuidados a relação que se dá entre como a prosa está para a consciência assim como o historicismo está para o Eu. Há passagens nos dois textos que nos auxiliam a ter tal impressão, principalmente por ambos serem de um mesmo autor, logo, fazerem parte de uma mesma filosofia:

“Quanto às significações, às verdades eternas, elas afirmam sua transcendência pelo fato que elas se dão desde que são independentes do tempo, enquanto a consciência que as apreende é, ao contrário, rigorosamente individualizada na duração.”

Dentro destas condições onde somos nós, seres humanos conscientes, quem “temporalizamos” ou permitimos a existência dos objetos por meio do tempo (e do espaço), onde se encontra o plano da reflexão, da individualidade após detectar a consciência já existente nas coisas, mas também enquanto nossa. Neste caso, a significação nesta passagem citada acima extraída de A Transcendência do Ego também é investigada em Que é a literatura? onde é aproximada à percepção, dá-se à linguagem um sentido sensível, inclusive muito parecido também com o fisiológico dado à consciência, no âmbito de serem os dois materializados: “Assim a linguagem: ela é nossa carapaça e nossas antenas, protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles, é um prolongamento dos nossos sentidos. Estamos na linguagem como em nosso corpo: nós a sentimos espontaneamente ultrapassando-a em direção a outros fins, tal como sentimos as nossas mãos e os nossos pés; percebemos a linguagem quando é o outro que a emprega, assim como percebemos os membros alheios.” Ou seja, a consciência reflexiva faz uma leitura de um objeto transcendental já existente: a consciência de algo. A correspondência que se dá no primeiro grau de consciência quando este apreende um objeto externo que não mais ele próprio, não mais a consciência de si, e reflexiona um segundo patamar refletido, pode ser equivalente à correspondência da prosa, escrita por alguém (externo), quando lida num encontro comum das letras escritas e da espontaneidade da leitura, encontro o qual é a própria prosa, e alcança a reflexão do leitor. Assim como a refletida age na irrefletida e também o objeto externo é apreendido por esta, o leitor age na prosa e também o autor é apreendido por ela.

“Quando dois homens, segundo esta concepção, falam de uma mesma cadeira, falam de uma mesma coisa, esta cadeira que se torna e levanta é a mesma que o outro vê, não há simples correspondência de imagens, há um único objeto.”

A prosa assim se dá como sendo um encontro e uma consumação materializada das reflexões. Consumação de uma consciência absoluta por meio da interação humana enquanto criadora de objetos, atos etc., num panorama aumentado e estendido projetor sobre o que se deu no indivíduo, ou no Ego. “Meu Eu, com efeito, não é mais certo para a consciência que o Eu de outros homens.” Mas no âmbito materializado dessa universalidade, por meio da linguagem enquanto código para a interação dessas consciências. O engajamento está também nisso: não somente na transcendência do eu nas coisas (em A Transcendência do Ego) ou no historicismo do leitor na obra (em O que é literatura?), mas inclusive na relação cingida pelas duas obras. Mesmo que as duas abranjam tanto o universal quanto o particular a fim de engajá-los, o sujeito e o objeto, elas não deixam de conter uma propriedade da existência (do ser) e da história (da temporalidade da escrita), respectivamente. Analogia que, atrevidamente, ainda se faz também ao paralelo de egoísmo e altruísmo como atuantes na consciência descrito por Sartre:

“É pois, contrariamente ao que se sustentou, sobre este plano que se coloca a vida egoísta e sobre o plano irrefletido que se coloca a vida impessoal (o que não quer naturalmente dizer que toda vida reflexiva é necessariamente egoísta nem toda vida irrefletida necessariamente altruísta).”

E conforme utilizado de todo o trecho para a citação, também se faz do relativismo exposto pelo filósofo, também o daqui citado. E é da liberdade de trânsito do ego pela consciência por meio da sua reflexão ou atividade, que se dá também essa relatividade, pois o Eu não necessariamente é somente um espelho do que se encontra fora da consciência como também pode ser posto nos objetos de acordo com a representação que possuir sobre a consciência , pode-se suprir a espontaneidade do primeiro grau de consciência de acordo com a liberdade destinada ao ideal de tal Ego, e é essa possibilidade que não faz do ser somente um objeto da consciência ou o contrário, a consciência um objeto do ser. Daí o seu universalizmo na liberdade. É desta briga, intitulada “angústia” por Sartre, que o filósofo condena o homem à liberdade, ou à possibilidade de mudanças, ou ainda, para além do que permanece como essência quando não por escolha, à existência. “A consciência assusta-se com sua própria espontaneidade porque ela a sente para além da liberdade.”

A liberdade é esta apropriação e também o estado próprio do homem. Ela se satisfaz da própria consciência espontânea ou mesmo se desfaz nela. E “quanto mais experimentamos a nossa liberdade, mais reconhecemos a do outro; quanto mais ele exige de nós, mais exigimos dele. ” Tal espontaneidade também é concretizada pela leitura de um livro, enquanto uma ultrapassagem da escolha individual para o engajamento com o mundo:

“O livro não serve à minha liberdade: ele a requisita. Com egfeito, não seria possível dirigir-se a uma liberdade enquanto tal pela coerção, pela fascinação ou pelas súplicas. Para atingi-la, há apenas um método: primeiro reconhecê-la, depois confiar nela; por fim, exigir dela um ato, em nome dela própria, isto é, em nome dessa confiança que depositamos nela. Assim, o livro não é, como a ferramenta, um meio que vise a algum fim: ele se propõe como fim para a liberdade do leitor.”

Como se percebe, o universalismo da liberdade no âmbito da literatura não deixa de ser um tanto quanto ideal, pois os valores, sejam psicológicos, históricos ou políticos, nem sempre permanecem ou seeternizam. Assim essa eternidade pode permanecer abstrata e acabar sem direção a quaisquer fim, a nada, daí o livro ser somente um meio. O argumento contra tal eternidade tradicionalizante nas obras é o fato de nunca haver como dizer tudo, mas somente como identificar-se com algo. Por meio de “palavras-chaves” na linguagem da prosa é que se dá a comunicação entre as duas consciências nela inserida, delas [palavras-chaves] o autor ativa a sabedoria reflexiva do leitor, mas a partir e por “meio” do que este último já posssui. “O meio é uma vis a tergo; o público, ao contrário, é uma expectativa , um vazio a preencher, uma aspiração, no sentido figurado e no próprio. Numa palavra, é o outro.” Porém não mais do autor enquanto sujeito e leitor, objeto. A transcendência realizada na prosa está exatamente onde ela propicia o encontro de consciências engajadas, para além de submissões ou superações, é a identidade, inclusive de liberdades. E é por este “meio” que revelam uma historicidade. Mas diferente do “eternismo” feito pela clássica tradição de “classificar”, ela é o presente da temporalidade, está “em situação”, assim como o primeiro grau de consciência:

“Escritura e leitura são as duas faces de um mesmo fato histórico, e a liberdade à qual o escritor nos incita não é uma pura consciência abstrata de ser livre. A liberdade não é, propriamente falando; ela se conquista numa situação histórica; cada livro propõe uma libertação concreta a partir de uma alienação particular.”

Sartre ainda argumenta mais sobre a liberdade do ser também enquanto causa, as coisas se dão devido a ela, e não o contrário, a natureza enquanto nos propiciando a liberdade. E esta mantém um diálogo direto com a realidade dos romances portadores de finalidades. É por meio da dialética entre autor e leitor formando um “pacto de generosidade” que tais confianças mútuas de liberdades se realizam . Para além da condição humana, o engajamento nem sempre se dá somente pela sua intenção de instituí-lo, literalmente, para o plano da reflexão do outro ou somente dissimular uma representação historicista. Sartre explica como se dá epistemologicamente o fato, na consciência irrefletida do outro: “Eu diria que um escritor é engajado quando trata de tomar a mais lúcida e integral consciência de ter embarcado, isto é, quando faz o engajamento passar, para si e para os outros, da espontaneidade imediata ao plano refletido.”

Portanto, mesmo com o intuito de universalização, o escrito sempre está encarcerado a sua história, e a sua própria presença quando lida já é a historicidade. Pois ao escrever para o público, ele parte de uma representação particular que possui sobre este ou sobre si, logo tal objetividade não se realiza abstratamente mas pela comunhão de unidades particulares. A prosa é condenada a esta comunhão que consome as liberdades, seja na repulsa ou na admiração que se tem do autor, de acordo com a utilidade dele perante o público, utilidade que abrange também a necessidade de mudanças na representação social criada não somente pelo autor como também pela sociedade. Pois tal comunhão é a reação, a mudança, benéfica ou não, que a literatura incontestavelmente provoca, pelo fato de ser um objeto transcendente, não há como assumir essa relação de forças a qual é nomeada como negatividade, no sentido de pôr-se frente a uma realidade, seja contrariamente seja “gratuitamente”, a escrita sempre propicia movimento de mudanças. “Pois a passagem ao mediato, que só pode ocorrer pela negação do imediato, é uma revolução permanente.”

O existencialismo implícito nesta afirmação de exigência inerente ao sentido literário de presente modificação, traz uma explicação para a representação do escritor também enquanto existencialista. “Nomear é mostrar e mostrar é mudar.” Pois este [o escritor] encontra-se num patamar de oposição mesmo quando não contraria a sociedade, agindo como próprio espelho dela e permitindo que a mesma encare-se de frente, Sartre argumenta que tal representação de si, no caso da sociedade, já a tomaria enquanto uma dissimulação, assim como quando o Ego age sobre a consciência. E esta representação, boa ou ruim no ponto de vista do leitor, quando “em situação”, presentemente registrada, eis o historicismo. Aí está mais uma semelhança entre as filosofias nos dois textos. E o historicismo, assim como o ego, não se apóia nesta representação do senso comum tradicional e eternizado do ser, ou da sociedade, respectivamente. Ambos possuem uma universalidade (do ser ou do social) que não é sinônimo nem da História (enquanto registro crítico etc.), nem do sujeito (enquanto autônomo e somente subjetivo). Mas são, ambos, tanto o ser quanto a sociedade, constituídos de identidades objetivas com o mundo real.

“ Assim, a história se faz explicativa: busca produzir, a partir de um exemplo, uma lei psicológica. Uma lei, ou como diz Hegel, a imagem calma da mudança. E a própria mudança, isto é, o aspecto individual do caso, não é também uma aparência? Na medida em que se explica, o efeito inteiro fica reduzido à causa inteira, o inopinado ao esperado e o novo ao antigo. O narrador realiza sobre o fato humano aquele trabalho que, segundo Meyerson, o pesquisador do século XIX realizou sobre o fato científico: reduz a diversidade à identidade.”

Ao instituir tais finalidades à estética, a fim de lhe atribuir um valor transcendente naturalmente exigido por essa associação da liberdade do autor com a do leitor, o filósofo se insere no patamar universal de sua prática proposta, para não dizer método ou moral. Mas não enquanto algo alienado de compromissos, muito pelo contrário, o autor chega em tais conclusões depois de sua pesquisa sobre a intencionalidade na obra, e não partindo de alguma tese a qual queira somente comprová-la. Esse comprometimento moral o qual exerce já o é, inclusive, próprio das intenções as quais desvenda sobre a escrita. Não seria coerente permanecer imparcial frente a determinado assunto tão estreitamente distanciado de sua pessoa enquanto filósofo. Pois “escrever é uma certa maneira de desejar a liberdade; tendo começado, de bom grado ou à força você estará engajado.” Sartre afirma a impossibilidade de se manter neutro num romance, ou não apelar a uma escolha para o leitor, não haveria como não possuir uma intenção em tal escolha de utilizar-se do efeito das letras enquanto objeto transcendente para alcançar a liberdade do outro. Independente de como tais efeitos sobre este pedido de votação ou confiança se manifeste, seja por repulsa ou por correspondência: “… o amor generoso é promessa de manter, e a indignação generosa é promessa de mudar, e a indignação é promessa de imitar; é certo que a literatura é uma coisa e a moral é outra bem diferente, mas no fundo do imperativo estético discernimos o imperativo moral. Pois como também aquele que escreve reconhece, pelo próprio fato de se dar ao trabalho de escrever, a liberdade de seus leitores, e como aquele que lê, pelo simples fato de abrir o livro, reconhece a liberdade do escritor, a obra de arte, vista de qualquer ângulo, é um ato de confiança na liberdade dos homens.” Com essa demonstração de proposta para a efetivação das relações entre a liberdade dos seres por meio da linguagem, pode se constatar a sua intenção política de aplicar a sua filosofia nesta obra, de solidarizar harmonicamente a dialética entre as consciências, propagando a transcendência do ego para além do indivíduo, a uma organização social.

“Se nos lembrarmos de que a festa, como bem mostrou Caillois, é um desses momentos negativos em que a coletividade consome os bens que acumulou, viola as leis da sua moral, gasta pelo prazer de gastar, destrói pelo prazer de destruir, veremos que a literatura do séuclo XIX foi, à margem de uma sociedade laboriosa que tinha a mística da poupança, uma grande festa suntuosa e fúnebre, um convite à arder numa imoralidade esplêndida, no fogo das paixões, até a morte.”


Bibliografia:

SARTRE, J. Paul. A Transcendência do Ego. Trad. do Prof. Alexandre Carrasco.

SARTRE, J. Paul. Que é literatura? São Paulo: Ática, 1989.

Fantasiados de Brasil

Fantasiados de Brasil

Nesse miscigenado conjunto de diversidades oferecidas pela amplitude de nossa cultura, surge a forte estampa pintada de “Imagem e semelhança” que a publicidade colore reluzente nos olhos do utópico perfil brasileiro.

A cada clichê comprado, como “A primeira impressão é a que fica”; “Os feios que me perdoem, mas beleza é fundamental”; “Modelo Gisele Büchen” etc., o valor essencial dos conteúdos fica cada vez mais barato e vendido ao estereótipo do ser quantitativo apenas.

Porém não seria a falta de qualidade em tais tendências, mas o excessivo oferecimento e propagação destas. Isto abrange não só o consumo como também a mídia, que gradativamente ofuscam o supérfluo enquanto deixam as informações de importância no escanteio. Achamos exemplos disto em qualquer reflexo de minorias informadas comparada à maiorias disfarçadas em aparência. O que acontece na maioria dos programas públicos de televisão, computador, revistas etc. Dificilmente uma clínica para anoréxicos é tão anunciada quanto um “SPA”.

O vício em adotar tantas idealizações de beleza e de atualidades, corresponder à cada moda vestuária, à cada carro em lançamento, pode não ser tão generoso e inofensivo quanto parece e gerar muita carência do que não se é, de fato. O interlúdio entre a roupa e a saúde, pois o que cabe naquela é o formato do corpo. Despreocupa-se com a saúde, com a essência do ser. Por ser bem menor e, mais justa, aproveita-se mais da roupa do que da vida.

Adequamo-nos ao mostrado, continuamos correspondentes à generosidade brasileira, desde o seu nascimento. Talvez este seja mesmo o essencial do Brasil, vender-se por muito barato, ser praticamente prostituído e não tirar a cor de suas fantasias carnavalescas para jamais prestar atenção no seu próprio avesso.

Narrativa sobre Yerma, de Garcia Lorca

Primeiro, é preciso contar das montanhas e dos gados rodeando aquele campo de homens que cuidavam da colheita nas terras. Alimentados de tudo o que traziam suas mulheres: comida e alegria. Elas deviam sustentá-los, incansavelmente. E a casada Yerma também, não cansava.

Yerma fazia de tudo para satisfazer seu marido, Juan. Procurava consumar o seu casamento o mais integralmente possível, conforme aprendeu na sua educação com seus pais. Queria passar esse exemplo também para seus filhos...

Mas Juan não respondia dessa forma. Ele esperava o fruto da terra. Ela, esperava o fruto do casamento. Yerma precisava de um filho, era a meta de sua felicidade. E até enxergava tudo contra si mesma, pressupondo sua falta. Enquanto via a maioria das mulheres tendo seus bebês, ela dedicava o resto de tempo que tinha, também para aguardar o seu.

Começava a pulsar nela um certo apavoramento, mesmo silencioso, ao sentir a força da vida que Vitor, o pastor amigo da família, tanto possuía em relação àquela morbidez de seu marido. Afobada, sai atrás de alguém mais velho que a fizesse entender esses motivos, dos quais ela mesma se indignava. Mas as mulheres mais velhas não davam-lhe respostas, davam ainda mais perguntas, mais perturbações. E essas inquietações continuaram refletindo sua casa e seu marido.

Seu comportamento passou a transparecer tanto a ponto das pessoas perceberem, principalmente aquelas que faziam questão de perceber, e que faziam questão de observar, e que faziam questão de reparar ao máximo possível da vida dos outros para noticiar ao máximo possível de pessoas nas ocasiões não tão máximas propícias assim, à tais comentários... Um lugar como a beira do rio, por exemplo! Onde os cochichos dessas lavadeiras se confundem com a água escorrendo. Aproveitavam-se disso para jogarem suas palavras ao barulho.

Mas nem todas que freqüentam esse riacho gostam muito de falar sobre a casada. Há quem goste de cuidar da vida de Yerma de uma outra maneira, quem pareça até ter certa surdez diante todo aquele barulho, especificamente as duas cunhadas. Preocupam-se em cumprir suas próprias leis de castidade pecando ainda mais. Degustam a própria honra e devoram seus gritos abafados por dentro onde apenas seus corpos os ouvem e as bocas, emudecem. São o melhor exemplo do que seria uma plena mulher, para Juan.

E a não chegada do filho se habita no ser de Yerma. Quanto mais ela convive com a alegria dos filhos de amigas tão próximo à ela, mais distancia-se dessa alegria. Quanto mais ela quer, menos tem o que fazer, como própria desgraça. Seu filho vai crescendo no coração, e não no útero.

Ela tem alucinações pelo filho por meio da luz que vê em Vitor. Mas Juan a escurece por tratá-la como uma lua em ação: distante, em vigia e minguando sempre após crescer, condenada pelo passar de seu próprio tempo. Aumenta e diminui-se enquanto bomba aquela explosão jamais sucedida. Asssim como uma bomba, de contagem infinitamente ‘progressiva’.

Então, desteme sua desgraça. Instala-se como sendo a sua própria desgraça. Por querer apenas, e mais nada. Vai em busca de sua cura. A Romaria, lugar onde reza e faz-se de tudo para ter filhos, será seu antídoto e sua última fé. Deposita-se nas rezas de Dolores, a milagreira. E no meio desse lugar, onde o prazer não é dor, nem a orgia, difamação, o importante é acreditar na vinda do filho; seja pelo sexo, seja pelas orações. Mas Yerma recusa envolver-se com outrem além de Juan. Mesmo ele sendo muitas vezes duvidoso da sua honestidade. Jamais trairia seu ofício de mulher: casada e, mãe...

E nessa perseguição doentia por cada passo de sua mulher, escondido por trás da Romaria, Juan é convencido pela fidelidade de Yerma ao ouvir seu repudio a outro homem, filho que a velha Pagã lhe oferece. Ele então descobre-se, desvendando suas vontades e desejos enrustidos à ela. A ponto de deixar revelada a sua esterilidade e, com efeito, ela certifica-se de tal fato e rejeita Juan. Engole o sabor seco. Mas acaba por vomitar esse veneno. E isto sai de dentro dela em forma de ódio refletido no impacto de suas mãos avançadas bruscamente ao pescoço do marido, sufocando-o violentamente.

Conta outra

CONTA OUTRA


Prólogo

Onde o que parece não é,
onde leiloam-se máquinas de exibições à mídia.
Onde a amizade tem preço porque é barata de mais.
Onde ninguém conta o que é, mas o que precisa ser.
Onde fala-se muito e esconde-se muito.
Porque o falado não é o fato. Não é o vivido.
É simplesmente o mostrado. O querido.
O bem acabado. O distinto. Ilustre ilustrado...
Aparências: o pousado. Que aterrissou em nós.
O (somente) falado. O exterminador de atitudes. Hipnotizador das reações.
O telefone?: caro, pq o amigo custa dinheiro.
O ônibus?: cronometrado, pq a pessoa custa o tempo da integração.
O pc?: contaminado, e gripe é que nunca foi doença!
As oportunidades são de todas as pessoas
mas são virtualmente ilusórias.
Presenteamos o futuro com os nossos ganhos.
Mas os presentes não existem ou jamais o receberemos.


Notas:

Mas, de algum jeito conta... (a peça será escrita com letra de carta, de preferência expostas nas cenas.)



Conta:

Sobre as relações humanas e as circunstâncias em mantê-las:
1º: o $ como influencia da distância. Logo, influencia da proximidade do amor.
2º: Sobre a revolução virtual: a falta de atitude, alta dependência tecnológica.

O universo de ligação entre esses escritos terá de ser no âmbito capitalista. Mostrar a maneira como nos está entranhado hoje. Escrever de forma experimental e/ou absurda.



CONTA OUTRA

1º Ato:

Desta peça pode-se fazer tanto na íntegra e na presente ordem de cenas, com as rubricas também como parte da fala do texto, ou fragmentado pelas cenas em outra ordem, sem o uso das rubricas ditas em cena.

Todos os atores têm função de narradores, exceto a árvore. É recomendado um grande número de atores-narradores, com a idéia de não haver repetição destes.

Uma cena: (A cortina abre e a primeira cena é muda e parada. Composta apenas pela árvore vestida no centro do palco.)

Outra cena: (nesta cena, o primeiro narrador é uma gravação, ele não aparece em cena.)

Voz em off _ Eis uma árvore, com seu tronco num glamouroso formato. Está cheia de luzes sobre ela e bem no centro das atenções. É uma iluminação que a define bem por deixá-la com esta cor toda artificial. Ela usa colares e pulseiras da última moda em seus galhos. Bem vestida de brincos enormes pendurados nas suas folhas e uma roupa que lhe caia bem, um vestido, por exemplo. Ah!E, se precisar, sapatos (altos, é claro...). E mesmo prestes a acabar tal cena, ela continua fazendo sua pose ali, toda paralisada como uma boneca, sem dizer nada. O foco da cena é apenas dela. Ela gosta muito de aparecer.

Outra cena: (aparece um ator, que ri ao ver a árvore)

Ator_ (caçoando) Ei, já é Natal? (sai da cena)

Outra cena: (voz ainda em off)

Narrador_ Na próxima cena, a árvore inocentemente me pergunta se já é Natal. Por causa daquele Papai Noel que lhe fez tal pergunta. Eu respondo-lhe: “_ Senhorita, mas eu não posso saber quando é e nem quando será o Natal, me desculpe...(e como quem a ouvisse) _Ah, festa?Não, não é necessário o Natal pra haver festas, senhorita!A senhorita deseja uma festa?Então eu toco uma música, e pronto! A senhorita faz a sua festa...(narrador põe marchinha de carnaval pra tocar) Agora já tem-se o seu Natal.”

(Continuam em cena a árvore e a música.)

Outra cena: (Minutos depois entra uma atriz sambando disparada.)

(O narrador agora entra aparecendo no palco)

Narrador (à árvore)_ É melhor a senhorita árvore parar de dançar ou se cansará muito, e até pode cair seus cabelos e ficar careca!

Atriz_ Eu concordo!Você quer aparecer demais dançando assim, desse jeito rebolado... Sai do meio, por favor?(a atriz empurra a árvore até o canto do palco)E pare de me empurrar!Olha que eu chamo a polícia... (a atriz pega a bolsa que está pendurada na árvore e sofre um susto como se tivesse sendo roubada)Mas o que é isso?Devolve agora a minha bolsa, agora!( a atriz tira um celular da bolsa q está em sua mão)Meu celular!Ela pegou o meu celular!Quer fazer o favor de dar o meu celular?(a própria atriz é quem repõe o celular na bolsa e devolve-a pra árvore, de quem a atriz mesma havia pego) Hum, bom mesmo...

Narrador_ Mas a atriz não chama a polícia...

Atriz_ Pronto, já chamei a polícia pra vim aqui te prender, sua espertinha!(mas ela realmente não chama)

Narrador_ E assim, a polícia não chega...

Atriz_ Ah!Mas que eficiência, a polícia já chegou, estão vendo!(narrando) E assim a polícia leva a árvore embora... (mas é a atriz quem sai, enquanto fala esta última frase)

Outra cena: (Entra um ator trajado especialmente de padre, ou de outro caráter religioso)

Ator trajado_ (para o narrador) O senhor ouviu as suas preces!Ouvimos o seu clamor pela polícia e trouxemos a sua salvação!Viemos buscar-te... Rumo aos céus!Rumo à polícia!Rumo aos céus’s centers !

Outro narrador ou rubrica_ (Mas quem o padre leva p/ fora de cena é o narrador e a árvore permanece.)

Narrador ou rubrica: (Esta última rubrica já está sendo narrada, em off, por outro narrador.)

Outra cena:

Narrador: A árvore está sozinha.

(Entra mais um ator/atriz)

Ator/atriz_ (entra rápido e pára a mão na árvore dirigindo-se também à ela) _ Calma, calma!P/ que a pressa?Não precisa chegar, vc já abandonou muita gente com toda essa rapidez. Aposto que no próximo lugar irá, não haverá velhos amigos...Possivelmente, esta pobre criatura não tenha amigos, por não ligar p/ eles, não é?

(pega o celular da bolsa da árvore e dá p/ própria árvore)Toma, pode ligar do meu. (como se ouvisse uma resposta) Não eu sei, eu sei... Mas mesmo assim, nem a conta do telefone de paga o preço dos velhos e bons amigos! Pra eles sim, volte o mais rápido possível! Antes mesmo de acabar as duas horas toleráveis para a integração gratuita nos transportes coletivos... Economize o seu...tempo!( ator/atriz vai saindo e falando) Pode ir, eu ficarei por aqui mesmo abandonado/a, mas sem problemas, não se preocupe!Eu não tenho pressa, sou um vírus, parasita, dependente de um corpo celular pra se desenvolver! (sai e volta) Mesmo assim, espera vai... Não me leve para junto de seus tranqueiros, a contaminação virumana é tão mais perigosa quanto um computador ordenado como nós, não leve isso adiante, (contraditório à fala, vai saindo do palco) fiquemos por aqui...

(ator/atriz sai. Somente árvore em cena)

Narrador_ Senhorita, o Natal!Venha comigo, vamos buscá-lo!

Pano

Até que a morte nos separe

exercício de dramaturgia proposto:

prot: Mulher que trai o marido pega em flagra com outro, cujo é o caso do marido, tenta explicar e fazer as pazes c/ o marido.
escudeiro: Marido q a segue, não a perdoa não pelo fato d o ter traído, mas sim por ter tido um caso c/ o seu amante!
Antagonista: É o amante que logo quando vê o marido dela, corre p/ os braços dele ao invés de amparar a mulher.
Cena:

(O marido vai até o motel e dá de cara com a esposa e seu amante.)

Amante: Você? Mas, o que faz aqui?

Marido: Eu quem devia estar fazendo esta pergunta! Não é possível ver isso, não tenho mais nada pra fazer aqui, já vi o que queria ver. Eu não consigo mais olhar para a cara de nenhum de vocês dois.

Esposa: Calma! Espera, você precisa me ouvir, eu...

Marido: Não, não é você quem me deve satisfações.

Esposa: Claro que sou eu, sempre tentei te dizer o quanto eu não gostava dessa história de casal, foi uma falha minha ter me casado com você só porque eu te amava, e não porque eu seria fiel a você, mas você nunca me deixava falar, nem sequer agora que viu com seus próprios olhos, mesmo assim não quer me ouvir.

Amante: Você nunca me contou que era casado!

Marido: Então estamos empatados, você também não me disse que saía com outra.

Esposa: Vocês se conhecem?

Amante: Pergunte ao seu marido. Ele precisa te dizer algo, não eu.

Marido: Estou sem palavras agora, vamos pra casa, e lá, sozinhos, conversamos. Não tenho mais o que fazer aqui.

Amante: Não?

Esposa: Não vou a lugar algum sem antes saber o que está acontecendo aqui. Agora quem quer explicações sou eu.

Marido: Não quero te contar na frente dele.

Amante: Pra ela você até pode continuar a se esconder por trás dessa novelinha barata. Mas eu já cansei de ser enganado por seus capítulos. Qual é o próximo?Além de casado, você tem filhos também?

Esposa: (ao marido) Mas como assim? Eu não posso compreender isso, querido. (ao amante) Do que você sabe, e por que nem me disse?

Amante: Porque se eu soubesse quem era o seu marido, eu não teria tido um caso com ele!

Marido: Então você me traiu duas vezes, por traí-la também.

Amante: Você também foi desonesto. Aqui, ninguém sabia de nada. Mas a sua mulher pode explicar melhor pra você o que ela e eu tivemos juntos.

Esposa: Explicar?Como assim, eu explicar?Explicar, só se for pelo dinheiro que eu colocava na cueca desse rapaz, que por sinal nem era meu, era o seu, pra poder explicar qual era a desse garotinho de programa enquanto estava comigo! Eu não sei mais o que pensar de vocês dois... Muito menos de mim, pois já poderia ter te traído há muito tempo, ou melhor, nem era pra eu ter me casado com você! Bem que eu desconfiava dessa tal honestidade... Mas não vou vitimar a minha própria ignorância, com hipocrisia, como você fez comigo. Você traiu a si mesmo. Não vou julgá-los, não tenho mais o que fazer aqui.

Marido: Mas eu ainda quero ficar do seu lado. E isso é verdade!

Amante: Verdade pra quem? Só pra ela, ou serve pra mim também?

Esposa: Pra mim não serve mais. Nenhum dos dois. E se precisar continuar mantendo a farsa de ser casado comigo, tudo bem. Assim, ninguém precisa ficar sabendo quem traiu quem. Mas fique claro que pra mim já acabou, vocês podem servirem de si mesmos à vontade, desde que assumam a conta do motel.

O PRESENTE PARA A CRIANÇA

A idealização de um mundo melhor tão almejado pelos adultos que depositam suas próprias cobranças não realizadas no futuro das crianças, compromete-as de algo que não lhes é de direito ou tão pouco de dever. Suas infâncias expiram neste compromisso imposto cada vez mais precocemente conforme o evoluir das gerações.

Avanços no desenvolvimento de aspectos variados deturpa cada vez mais a ingenuidade de meninos cujos pensamentos realmente acabam sendo obrigados a amadurecer mais depressa. O acesso ao mundo virtual trouxe a "internet" como um exemplo da liberdade imposta a um jovem com qualquer idade poder assumi-la nos dias de hoje. Assim como a relação vivenciada dentro de um lar também pode influenciar suas responsabilidades, como a de decidir entre o pai ou a mãe quando se separam, como frequentemente acontece.

Não só estes fatos mas outros ainda mais graves como a agressão feita por um aluno a uma professora, cuja intenção desta última seria dar o respectivo "mundo melhor". O caso deve ter chocado inúmeras famílias e escolas, inclusive aquelas que pouco se preocupam com a melhoria da educação, do carinho e dos direitos que uma criança deve ter.

Não cabem às crianças serem o nosso futuro e sim a nós, adultos e que já possuímos responsabilidades e atitudes consideráveis para modificar uma situação, sermos o presente delas. Para que assumamos uma posição presente, de propiciar educação, conforto e estabilidade que merecem. Elas não necessariamente precisam participar de tamanhas decisões para que suas brincadeiras de roda não se percam no meio do caos que as deixamos depararem quando chegam ao mundo.

Contadores do tempo

Num dia imparcial aos outros, continuávamos os três no meu aconchego: o amigo de infância Breno, o tédio e eu parados por ali mesmo até a tal síndrome fenecer. Uma hora depois de jogados muitos passa-tempo desses como filmes, jogos-da-velha e pontinhos alinhados, aquelas linhas de caderno talvez embaralharam meu fiel amigo que reagia e me informava ou formava a respectiva história, na qual relatada por aqui, não deixará de ser uma história falsa ou não, mas que foi testemunhada pelos meus ouvidos.

_ Monotonia percebida por mim apenas hoje_ dizia ele_ tal que me fez lembrar de um grande sono sentido por mim há anos quando fui visitar um parente meu, um velho desalinhado e doente, já falecido. Sono sim, pois o velho Abelardo havia desembestado a palavrear regras mais velhas que a própria regra. Todo poderoso parece que tinha feitiço nos olhos e braços na boca. Porque me contou a sua grande história de vida em dez intermináveis minutos dos quais, entretanto, jamais poderei esquecer. Contava sobre ele mesmo: o velho do jogo se projetou em tudo o que já se viu e se falou.

Bonito era o jeito que Breno, o da infância, contava-me. Diante dos ditos únicos dez minutos presenciados por ele, eu ainda teria mais ou menos uma tarde inteira pela frente pra distrair a agitação e me encostar naquela mesma história. O desafio indagado a ele e a mim mesmo foi se eu também teria a mesma recordação e ainda por cima a crueldade de contá-la a alguém. Pois aqui também estou a me sentir no modo bonito, e vou conforme o meu amigo, referir ao defunto:

_ Mas minha cara _ já começo narrando a primeira interrupção feita pelo meu amigo _ só entenderás porque o homem me foi tão apaixonado nas palavras nostalgicamente narradas, depois de também contá-las à alguém.

“Porque a visão obtida numa maquete chegou a ser minúscula quando comparada com a panorâmica do local onde ocorreu a história escolhida. Largo era o olhar porque a cidade era pequena. Entre duas cidades, quase inseparáveis de tão justas, conseguíamos distinguir apenas porque Gruta era menos povoada que Santos Dummont. Mas ainda existia a imperceptível divisa pertencente a um grupo máximo de nove casas, de tamanho no mesmo padrão, onde apenas uma se destacava neste aspecto por ser bem maior do que as outras e abandonada. Nela nos escondemos durante todo tempo que brincamos por aquelas redondezas. Redondezas se reduz ao único meado de espaço duma estrada de terra onde podíamos correr à vontade e depois entrar na casa vazia. Ou até ao andarmos sozinhos a mirabolar contos de desafios heróicos inventados para incrementar o nosso temor por um súbito matagal ainda não explorado que ficava entre a estrada, na transição das cidades.

Tínhamos uma média de sete a nove anos, sendo três os mais jovens: a pequenina grudada no seu irmão Ivodênis, e mais dois espoletas também irmãos. Havia o primogênito destes últimos, já com oito anos, não tomava conta deles. Então era Corina, de seis anos, quem mais os distraía e os protegia dos maiores, e claro, aproveitava-se para ganhar força com tal desculpa de zeladora para também se defender, principalmente de mim, o mais levado de todos. Pudera, pois eu era o único que tinha dez anos na turma, e isto mais do que bastava para ter o direito de cobrar respeito, adulação e até explorar dos meninos.

As crianças respeitavam, acreditavam nos números da idade por não terem muitos. E no começo, cada ano era tão diferente e descobridor que estar mais avançado neles era, de fato, uma vantagem. Mas eu os enxergava mais como objeto de conseguir cada vez mais benefícios por cima da idade. Passei a usar tanto este argumento que meus olhos realmente envelheciam mais rápido, avancei na frente dos meus dez anos a ganhá-los a fora de quem também já os tinha. Assim crescia, colhia mais depressa, crescia quando repetia isso para meus amigos e quando o poder de minha precocidade aumentava. Conseguia ter até vinte anos dentro dos meus próprios dez e isso já bastava para me resultarem como se fossem contados como trinta. Não corria mais junto com os colegas. Só queria me enfurnar naquela velha casa da rua e meditar sobre as próximas aventuras. Pois tinha de continuar sendo bem ouvido pelos garotos. Mas Corina se fazia de ouvinte para não ser amolada tanto pelos repetidos convencimentos, quanto pelos elogios de colegas feitos a mim. Ela sabia que como conseqüência de sua possível repugnância, viria contrariedades a ela, causaria assim tumulto pra si mesma. Então ouvia.”

_ Mas imagino, Breno _ agora foi a vez da minha interrupção _ que Corina não o desdizia não por ser covarde, mas sim incapaz de o fazer seja por amor à ele, ou por outro sentimento de compaixão. Culpa, não medo.

Mas Breno não deu importância ao meu comentário e continuou a narrar a história do sujeito:

_ Ele podia dizer e desdizer as coisas, era o líder nas brincadeiras e ninguém ria se por ventura tombasse aqui ou acolá. Praticamente uma miniatura de Sócrates, dava as regras de todo o comportamento, briga ou malícia em jogos de esperteza. Uma vez foi apelidado por ela que, no fundo até admirava o poder de persuasão dele, de ‘garoto nota dez’. E, sem perceber o cinismo contido naquele apelido, foi o que ele adotou para as próximas linhas de sua vida.

Passado alguns anos, continuava com a auto-estima miraculosa e intacta. Não deteriorava sua impecável determinação nem nas horas de difíceis adaptações, como quando tinha de ir à Gruta e conversar com pessoas desconhecidas, desconhecidas de sua fama radiante e ter de lhe dar com elas de acordo como elas reagiam, e não como ele queria que reagissem. Mas isto até o inspirava ao modo de agir nas provas escolares de Santos Dummont, onde nunca teve dificuldades. Assim como nas atitudes diante dos pais, das festinhas quando para agradar garotas, Abelardo conseguia lhe dar com qualquer tipo de situação. Fazia o possível para isso, dobrava-se em dois ou em dez.

Gostava disso, sentia-se menos entediado com tamanha reversão de identidades. Num lugar pacato como aquele, com a mesma cara, fazer-se de diversos, filho obediente, de garanhão ou de estudioso, já era uma diversão. Cada vez mais mutável e mais diversificável ele a desenvolvia. Tanto que passou a se interessar por mágica, provavelmente por ter esse leque de cartas escondido na manga. Mudou até o próprio jeito de enfatizar a sua pessoa, antes atraída pelas qualidades, agora pelo talento de mágico e seus shows surpreendentes pela vizinhança.

Logo sua fama espalhou nas cidades vizinhas e se dopava com aquilo, a cura, para o seu próprio espanto, como um remédio para o tédio popular. Conduzido pelas facetas de onde adorava se enganar, ele mesmo foi tomando consciência do quão era vazio continuar no disfarce de sua própria vida. Pois percebido isso, era não mais esconder-se de si. Chegado ao ponto onde o efeito não o adulava mais, conseguiu ainda partir para mais uma saída pra nova rotina: a crise.

Logo, não deixava que a continuidade das coisas o pegasse de jeito inusitado a atolar-se em vãos de enjôos. Fez-se até de melancolias e plumas existenciais para sua própria felicidade. A paranóica vontade em se metamorfosear o levou a um desejo mágico de imortalidade o qual estudava minuciosamente sobre, caso que também o levou a ser um intelectual sobre medicina e biologia. Livros diversos levavam o eterno jovem a falar cada vez mais sobre a vida.

Acontecido o já esperado, quando já cansara do tema onde extremava-se tanto na teoria quanto na prática do viver, esgotou-se dos conhecimentos. Não se apegava a nenhum vício que o levasse a uma estabilidade. Encheu-se de querer conhecer todas as coisas, o ser e até a morte que já questionara dentro das suas medicinais palestras sempre na tentativa de diversificar. Procurou por vícios concretos para que houvesse algo mais em que pudesse se apoiar. Comprovou a existência deles, mesmo assim nenhuma das químicas consumidas tinha o mesmo efeito de dependência progressiva para ele, talvez porque desde o começo também já as levava mais como um fator provisoriamente distrativo.

Estava tão bem de vida financeiramente que aceitou facilmente a solidão natural de seu interesse por nada e pôde construir uma jornada tão satisfatória e feliz a ponto de novamente não ter mais como escapar da fantasia que aquilo tudo lhe parecia. Tanto ceticismo o levou até a querer amar, uma forma de anulação. Como nem os bichos da casa não o cobriam mais como antes, trocou de empregada. Pois com um tempo, a anterior tornara-se bonita demais e ele não via mais ousadia naquela beleza imposta pelos dias contínuos a vendo.

A nova não era feia, mas ele teimava consigo mesmo o contrário para que conseguisse se desculpar por detrás do diferencial que vira naquele rosto tão comum, vazio e mesmo. Deu-se um grande amor entre eles. Até porque nem sempre era grande, às vezes sutilezas de amigos, brigas fraternas ou intesidades carnais variavam nas trocas dos respectivos substantivos e adjetivos formando uma grande atmosfera do amor dos dois. Algo que não era amor o havia fisgado. Várias vezes repetia essa frase pra si mesmo e perdurara o relacionamento com tal esperança de mais novas descobertas.

Anos mais tarde os dois aposentaram num lugar mais deserto, mais reservado e sem novidades. Ele não era mais jovem. Desconfio que esta fora a única mudança que de fato teve durante a estória. Não queria mais caçar surpresas e experimentar gostos. Parou de parar com as coisas, como numa suspensão. Estavam no meio do mato agora e ainda se desejavam. Mas por uma conseqüência do amor vivido, ele teve de trair a mulher numa determinada ocasião onde a traição lhe fora necessário para a preservação do seu casamento.

Daí reconheceu a magia da plena vivacidade do rejuvenescimento. Inspirou-lhe a lembrança de suas vontades originais e tornou-se definidamente triste por isso. Ainda era escravo de tudo aquilo que perseguira a sua vida inteira. Quis se matar, para romper tal barreira, mas concluiu que isso também seria uma forma de vontade e transformação, e, por isso, da ininterrupta covardia em não exterminar sua falha trágica, e apenas adiantá-la. Não queria satisfazer seu conformismo para que não tornasse a acabá-lo novamente. Sabia que podia aceitar a situação e continuar daquele jeito raso, nem bom nem ruim.

Na cama por muitos dias, quieto, a mulher compreensivamente cuidava dele. A falta de doença ou dores o consumia tanto a ponto de cansá-lo por isso. Somente a presença dela conseguia remediar por lembrar o marido culpado, a traição o acalmava um pouco. Mas de qualquer jeito ele havia de adoecer: ou de remorso, ou de fartura. Não demorou muito pra o dia acontecer.

Foi ali mesmo na cama onde me contou toda essa labuta a qual eu mal dava ouvidos, que me peguei como se tivesse interagindo com uma tábua. Nem terminado tal impressão, Abelardo continuava a atropelar meus pensamentos sem ouvir minhas expressões:

_ “E foi quando enfim meu corpo desejou primeiro do que os meus olhos. Tive de estar aqui parado durante meses a avaliar o novo estado. Aqui cerrei o movimento das flechas lançadas pelos olhos delimitados a não ultrapassar as paredes e a mobília do quarto. Aqui consigo mover para o mesmo lugar e passar por mesmos acontecimentos sem problema algum. Condicionado à cama, ela tornou minha aba e não reclamo. Provoco-me em cima da cama, sem poder levantar, é o desejado justamente por nunca ter conseguido querer isto.”

Diante das palavras prosseguidas por Breno, eu me correspondia não com a história, mas pelo mesmo estado descrito por ele quando ouvinte do velho, o de aturar toda a chatice de uma simples e vã experiência contada. Mesmo quando me desinteressei e quis parar de ouvi-lo, Breno não atendia meu clamor:

_ Como esse intervalo sedento já te envelhece, Breno!

Pareciam passadas infinitas horas de besteiras camufladas em besteiras e aquele moço de frente com o meu sono tornara-se um velho tal qual o da sua história, parado. Mais lento que o relógio contado agora com tão notável rapidez. Depois de não depender mais do esperado preenchimento para aquele vazio espaçoso de antes a ponto de eu nem reconhecer mais o meu próprio quarto. Explicava isso por estar além do que os segundos pudessem fazer naqueles instantes destinados ao patamar de onde meu amigo encontrava se estendendo na longa história. Diria que propositalmente, para despertar qualquer vestígio de uma suposta curiosidade ainda almejada por ele na ânsia de condicioná-la à minha irritação. Então continuava:

_ O doente então não abusava mais dos olhos, via só o que queria, repunha o olhar por palavras inexistentes ou ouvia mais do que sons concretos. Quanto a imaginação, agora também a traduzia ao próprio ouvido e passou, inclusive, a ouvir e falar com mais clareza, pois falava o que quisesse e ouvia quando quisesse.

Gostou de estar louco para os outros, parentes, esposa e amigos, como eu, que o visitavam. O mais falado por ele era o matagal inexplorável reconhecido na infância, mas já não dizia sobre suas heróicas aventuras vividas inventavelmente ali dentro, falava apenas sobre a sua distância, e delirava no prazer que há anos não sentia. O prazer de contemplar o próprio prazer e não mais ser dependente dele. Agora estava, mais velho, especificamente mais velho, agora estava brincando de contemplar e tudo o entusiasmava. Não tinha mais dez anos e qualquer coisa era única e última. Continuava a ter mais nada a não ser anos de idade.

Depois de terminada a história, ainda jogamos mais algumas fora e, findado o das conversas, continuamos ali a memorar um próximo jogo possível para passar o tempo.

ANÁLISE ESTÉTICA DO ESPETÁCULO: “ QUARTO 77 ”

ANÁLISE ESTÉTICA DO ESPETÁCULO: “ QUARTO 77 ”, de Leonardo Alkmim

Para não construir um receio de não acertar o entendimento da proposta do espetáculo, coloquei minha intuição como objetivo da análise. Onde até poderei desencontrar as minhas percepções das intenções esteticamente criadas por eles. Mas darei importância em defender a maneira como a peça foi absorvida pelas minhas sensações.

Isto vai ficar mais claro durante o desenvolvimento quando eu explicar com mais detalhes as partes que me chamaram mais atenção. O meu foco foi maior sobre o texto, por exemplo. Suas metáforas abriram janelas para um mundo atraente e pouco observado; as reações, dependências e contrastes de algumas partes do nosso interior trabalhadas pelo nosso equilíbrio entre a mente e o coração. Conseqüentemente aparecem dificuldades no controle entre a razão e a emoção.

Os valores do espetáculo são além do que enxergamos concretamente, estão escancarados em qualquer parte do espetáculo: desde a enérgica interpretação dos atores, o despido texto e a atmosfera cúmplice de nosso interior, até a grande sacada do comportamento do público ao se acostumarem em desleixar a reflexão do que vêem e cederem à monstruosidade do sono.

Mesmo com este tema super abstrato, a encenação não trai a nossa realidade. A intimidade entre as cenas e o público nos provoca. Efeitos exagerados e surpreendentes vistos com freqüência em muitos espetáculos como recurso de garantir um impacto no espectador, tornam-se, para “Quarto 77”, apenas enfeites desnecessários frente ao conteúdo carregado pela apresentação.

A direção do espetáculo lembrou de tudo. Caprichou mais nos movimentos dos atores e na marcação do que na própria interpretação destes. Houve harmonia e comunhão entre todos os elementos (cenário, luz, som, figurino etc). Com influências brechtnianas e alguns símbolos, originou uma encenação prática e bem composta.

O figurino e a maquiagem não “pesam” muito, ao meu ver, na hora de avaliar a encenação. Por ter um cenário muito apto, facilita a relatividade com que poderia se trabalhar o figurino: desde pijamas até roupas formais (e eles desfrutam da oportunidade: principalmente ela, conforme a apropriação da vestimenta na personagem, utilizou várias ocasiões distintas).

Pela minha visão, os personagens seriam uma grande metáfora (com menor importância nos nomes e /ou nas gêneses) representando a razão (ela) e a emoção (ele). Encontram-se presos num mesmo corpo (mesmo quarto), um precisa fatalmente do outro. Ela joga o tempo todo com ele. E ele, por sua vez, não consegue mandá-la embora. Ela persuade, engana e confunde-o. Quando ele tenta eliminá-la, atacando-a com violência, torna-se um monstro. Existe um desejo e uma atração de complemento insolúvel entre os dois. Ela precisa dominá-lo, entendê-lo. Ele, satisfazer-se. O texto dá mais abertura nesta intenção quando evidencia as frases: “É não falando que a mulher magoa” (ou seja, ao ser calculista e não mostrar seus sentimentos) e “O sono da razão gera monstros” (este com maior foco, sem a mulher, o coração se perde).

O aparecimento da mesma mulher com 7 personalidades variadas, ilustra quantas interpretações distintas pode-se obter deste texto. São inúmeras as revelações que vão mostrar para cada indivíduo. E contemporaniza tão bem com a nossa pluralidade de pensamentos, esta árvore emancipada criada por cada costume individual/ social.

A minha interpretação neste ato, é por ela ter sempre a mesma intenção, (seja ela a mesma mulher, ou não) a de dominá-lo, de persuasão para ganhar um lugar no quarto e provar (pela exatidão da matemática do 7, por uma existência real de uma gravata ou mesmo pela coincidência de uma música) o acontecimento; que a razão existe e não é imaginação dele. Existe e persiste. O costume é deixá-la existir. Tanto que a penúltima parte onde ela aparece, o quarto torna-se silencioso, sem atritos pela aceitação da razão por ele... É como se o coração dormisse. Finalmente, na última cena, é a razão que prevalece e toma o lugar dos instintos. Ela é acostumada a falar, porém não precisa mais dizer, só demonstra que a voz é dela, ao se maquiar com um chamativo batom vermelho.

Ele: A cara barbada, suja e suada de um animal porco, irracional, natural pelos instintos. O branco de seu figurino mostra a ingenuidade pura das emoções e das intuições. A face transformada gradativamente em monstro. O gesto de agressão aos cabelos, quer agredir sua própria mente, não gosta de entender. Descabela-se. A forma física inadequada lembra despreocupação, apego aos prazeres e vícios dos sentidos.

Ela: perfeição + habilidade + clareza + exatidão + lógica = razão.

Possui corpo e formas padronizados.

Diferentes maneiras da 1ª) Roupa de folgada, de brusca.

mulher aparecer sempre 2ª) Jaqueta jeans e tênis de imposição.

com a intenção e o mesmo 3ª) :

destino em comuns: o de 4ª) :

provar sua existência de 5ª) :

uma forma ou de outra 6ª) Formalidade ( passiva quando ele a aceita ) e o batom

(ou de 7...) vermelho para enfatizar que a última palavra é a sua.

7ª) Novamente uma roupa imperativa.

Os recursos cênicos não foram redundantes com os seus signos. E quando apareciam mais de uma vez, era para relatar de mais perto, confirmações no seu significado. Como quando a mulher envolve o rapaz com uma gravata, por exemplo. Não pelo enforcamento em si, mas ao querer insistir em comprovar sua permanente ocorrência no quarto. Sempre dá um jeito para ele perceber a presença dela no seu quarto, e o jeito mais convincente que acha é a gravata que ela mesma o presenteou, dando “a corda” para ele se enforcar.

Os números 7, talvez também podem ser símbolos para lembrar o azar da emoção, a mentira ou a matemática. Lembra provas e logo, existência/ raciocínio. São dois os números 7: “equilíbrio” de azares/mentiras entre a mente e o coração. Há um momento em que o homem da peça começa a vomitar contas sem lógicas. Tenta em sete mulheres a expulsão de um quarto onde é fracassado e azarado também 7 vezes...

A mala trouxe-me tanto os sentimentos carregados por ele, quanto o passado cogitado sempre por ela.

A garrafa de bebida embriaga-os equilibrando o controle na gangorra. Pois ficam mais sensíveis a quaisquer reações; ou se explodem, ou se esquecem.

O lençol escondia o corpo dela e mostrava a cara dele. O branco no pano apagava os pensamentos que ele não queria ouvir.

A cenografia

Sabe-se que os objetos são para a peça, sem nenhum enfeite, e com total utilidade. Não precisaram se preocupar em deixar exposto (como na peça “Arena conta Danton”, por exemplo) a cara do cenário para distinguir a encenação. Apenas se apoiaram nos elementos da proposta de Brecht, como uma base para ajudar no espetáculo e não como efeito para demonstração explicativa. Não foi necessário nenhum recurso mais evocativo para sustentá-lo como realista. Já o é por si só, ao estarem ali, mostrando o seu significado natural do cenário.

O quarto pode ser uma prisão (dos instintos com o pensamento), um corpo, ou até mesmo uma mente! Dentro dos parâmetros da imaginação que o texto permite.

Poderia ser apenas uma cama, ao invés de duas: para evidenciar a concorrência entre os dois (um dormiria no chão, por exemplo, havendo espaço só para um lugar...).

A janela (e o seu truque de “porta-trecos”) precisava aparecer na cena, propositalmente. Estético: mostra a vontade / ou não, de estar no quarto / na parte de fora. Intenção de prisão. Porem, às vezes não me passava a imagem de uma janela, e sim, de um baú onde você joga coisas fora, sabendo que permanecerão ali.

Uma cadeira super comum, o que aproximou a real intimidade com a platéia.

A luz do quarto: uma lâmpada e o cuidado que os atores tinham ao acender e apagá-la sem balançar o fio representante da função.

A mudança do lugar da cama: na 2ª vez que aparece a atriz, ficou em aberto porque motivo a cama muda. Seria para esclarecer a mudança de ocasião, simular uma nova e / ou diferente cena?

A porta: tão cobiçada pelos dois. Quem é o dono da chave? Certos momentos, os personagens mantinham grande distância dela, em outros afrontavam-na querendo abrir caminho e ainda outro, impedir a passagem. Às vezes amavam aquele quarto, outras o repudiavam.

Na iluminação, o que mais me apavorou foi a luz da janela. Uma angústia de saber em qual mundo eles estavam, de onde vinham. O colorido deixou muitas hipóteses sem respostas. Até mesmo para atrair esta dúvida a quem assiste.

Há um momento de uma enorme sombra da mulher sobre o homem. Como se ela fosse o monstro da cabeça dele. Enuncia também assombração.

Quando uma abstração aparece logo sobre o sono da razão dele, é o primeiro contato revelador de monstruosidade que o público enxerga, e muito claro e funcional.

Somente os black outs em algumas mudanças de cena, que não me satisfizeram. Por que não assumir a exposição da troca de cenário, já que não temos a quarta parede e já foi mostrado que fazem teatro?

Pensei num bom argumento para isso, o fato de ter a luz permanente no número da porta (77). E para destacarem bem, produziram a escuridão no restante do palco...Pensei também na luz do quarto estar apagada. Contentei-me com as duas respostas.

Os focos de luz jogados no rosto dele a cada repetição da frase dita por ele: “o sono da razão gera monstros” são diferenciados. Ora de cima para baixo, criando sombra no nariz e pescoço e clareando a testa, ora de baixo para cima, quando assusta mesmo pelo queixo e olhos iluminados de fogo e o resto escuros, ora também mais avermelhados na luz do que antes. Sua monstruosidade é crescente.

Gostei da mínima luminosidade do quarto, na hora em que mostram a sombra de alguém entrando, mesmo no escuro, enxerga-se perfeitamente a sombra de um camareiro, talvez.

As cores sempre alaranjadas, amarelas e vermelhas me passaram muita tragédia. Adorei a combinação com a morbidez do marrom no cenário. O que fez lembrar cores da suspensão do juízo.

A sonoplastia aperfeiçoou o que já parecia perfeito. Ela não encobriu nenhuma falha ou vazio do espetáculo, pelo contrário: o preencheu muito com o seu silencio muito estético. E quando soava, era extremamente harmônica com a atmosfera; desde o som daquela água escorrendo, como se fosse uma urina, um mictório ou uma torneira aberta, até as barulhentas sirenes como um socorro dos batimentos cardíacos e não da chegada militar.

As batidas fortes na porta quando um dos dois personagens ganha a discussão, como se quisesse invadir todo o quarto. O silencio, novamente, era uma canção de ninar, que só intimidava e angustiava as mentes confundidas. Os passos fora do quarto parecia ser um deles querendo fugir, ou entrar de vez.

O canto da atriz fecha com chave de ouro. Sua aparição nas horas mais exatas que o autor gloriosamente marca com muita vitória no resultado. Traz consigo a provocação fatal e emocionante do espetáculo. Se não fosse o incidente de rouquidão na voz da atriz quando assisti que a prejudicou, sairia ainda melhor.

Tive que concordar com a mecânica automática de alguns momentos na interpretação dos atores. Mas foi super imperceptível junto a tantas circunstâncias boas. E também ruins: o pequeno público na lotação do espetáculo, implicou certamente numa comunhão maior entre a energia de veracidade deles. Mesmo assim, a capacidade natural dos atores supriu o mantra. Decepcionei-me ao ver a quantidade de pessoas assistindo uma peça merecedora de divulgação de sua ótima mensagem.

“Tanta intimidade, intimida”...

A nossa reação é intimidada. E eles praticam esta frase integralmente. Tudo se funde tão fluente num texto poético e filosófico, que nos intimamos a nos acostumar em não ver certas razões para enxergar o nosso próprio interior, e muitas vezes preferimos dormir...

Mas será que a razão precisa mesmo morar no quarto sozinha, como acostumou o quarto 77 em seu fim e em nossa vida? E se nossos instintos forem o melhor caminho para atingir a natureza dos pensamentos?

Uma coisa, a experiência já mostra: a razão pode dar tudo para a vida, mas quem sustenta a vida, é o coração...

RELATÓRIO DA PEÇA - MADAME

Cristilene Carneiro /Elaine Santos / Thais Mendes/ Valéria Trevizan

RELATÓRIO DA PEÇA - MADAME
Grupo: 3 Escarlate - texto: Manuela Dias - direção: Luciana Borghi - Elenco: Suzana Pires, Luciana Borghi e Carla Ribas

Um passeio pelos pontos mais marcantes do livro O segundo sexo de Simone Beauvoir. As protagonistas tentam esclarecer o que é, de fato, ser uma mulher

SÃO PAULO - AGOSTO/ 2005

Sumário

Introdução­...........................................................................................................
1 Análise dos tópicos............................................................................................
a) Dramaturgia........................................................................................................
b) Gênero................................................................................................................
c) Direção de atores................................................................................................
d) Encenação/ Censo estético................................................................................
e) Unidade e integração grupal...............................................................................
f) Atores X Personagens.........................................................................................
g) Figurino...............................................................................................................
h) Iluminação...........................................................................................................
i) Cenário ou cenografia..........................................................................................
j) Trilha sonora........................................................................................................
k) Operação de luz.................................................................................................
l) Maquiagem..........................................................................................................
m) O teatro- “clima estabelecido”............................................................................
n) Material gráfico e divulgação..............................................................................
o) opinião individual sobre o espetáculo.................................................................
p) Ficha técnica com participantes do projeto.........................................................

2. Entrevista............................................................................................................

LISTA DE ANEXOS

ANEXO A – Fotos do espetáculo..........................................................................
ANEXO B – Filipeta de divulgação.........................................................................


INTRODUÇÃO

Para escolher essa peça, o grupo pensou em um nome o qual despertasse curiosidade. Por nosso grupo ser composto apenas de mulheres, o nome “Madame”, despertou interesse. Então juntamos esta oportunidade com as nossas necessidades feminina e artística para relatar sobre “Madame” e centrar neste tema que até hoje continua ascendente e nunca pára de provocar dúvidas em relação ao comportamento das mulheres.

A peça aborda os questionamentos humanos, portanto ambos os sexos se identificam com as situações, entretanto é colocada em evidência a complexidade do lado feminino. Tema que coincidentemente, destacaremos neste semestre, com a montagem do nosso grupo, “Yerma”. Desta forma, entraremos bastante em contato com o comportamento feminino e decidimos nos voltar para este lado no espetáculo “Madame”.

“Ela enxerga o passado ou o futuro, nunca o presente...”

(trecho de Madame)

Uma mulher em dúvida. Inquieta. Em ebulição. Desejando ardentemente descobrir o que quer. Uma busca de si mesma. Uma viagem pelo imaginário feminino. Universal. A emoção de se descobrir viva, presente. Atuante.

1. Análise dos tópicos:

a) Dramaturgia

O texto de MANUELA DIAS foi inspirado no livro O SEGUNDO SEXO DE SIMONE DE BEAUVOIR e adicionado a sua visão, a autora o tornou ainda mais rico. Seu compreendimento é de coerente clareza na sua maioria, mas em algumas partes ele também parece obscuro e reflexivo. Pelo modo de encená-lo, deu-nos a impressão da preocupação em dividir sua própria personalidade do caráter do livro.

Um de seus principais temas, foi a valorização do feminino. Mostrar a inquietação da mulher atual, sem conceituá-la ou defini-la, ela apenas levanta dúvidas e medos que as mulheres desse século possuem. Os efeitos da nova “liberdade” conquistada lhes causam: necessidade de mudar, mesmo em meio às suas inseguranças sociais; mostra a mulher como sinônimo de elevação e superioridade, a “madame” de hoje.

Nessa história, ela quebra esse medo construído pelas condições culturais. O tempo todo, a noiva é indecisa, dependente e presa aos seus costumes. Mas enquanto se prepara para este casamento, enxerga em seu espelho o tempo de sua própria vida, onde se auto-analisa, olhando para deferentes fases que vivenciou e imaginando seu futuro. Seu desejo é de conquistar espaço, seu caminho. Entretanto, para isso ela precisa consertar e satisfazer o seu ego, sua vaidade, auto-estima e auto-confiança. Algumas personagens a intervém para que isso aconteça: A mãe que a sufoca com tantos enfeites, elogios irônicos e exagerados e tanto compromisso em casá-la; Uma “Santa” que pode ser fruto de seu próprio desespero por salvar-se, encontra em suas ilusões a Santa Virgem!, esta a conduz a um caminho salvador, mas sem prazeres. Uma mulher elegante e misteriosa, a qual surge dos desejos de se superar, da busca inesgotável de satisfazer-se, ela mostra um possível caminho tentador, sexual. O auge da feminilidade: abandonar o noivo e perder-se consigo mesma, entender que existe só um sexo entre o sexo.

Com outros personagens que serão relatados mais a diante, a noiva consegue se comunicar com o seu tempo. Representados em cima de um tapete vermelho, símbolo do casamento, onde a cada passo é relatado uma angústia ou desejo seja das suas lembranças ou das suas esperanças.

Durante toda investigação da noiva, existe um olhar extremamente discreto acompanhando todos os seus passos e seus pensamentos, o da escritora. Esta fica o tempo todo em cena dentro de um mundo fechado com cortinas claras e transparentes. Seu papel é observar e algumas vezes mostrar que ao longo do tempo se adquire uma maturidade com tudo que já vivenciou. Mas no final da peça quando a noiva opta por não casar e “ser feliz para sempre”, a escritora entra em cena para aconselhá-la. A noiva ouve, porém não segue exatamente, pois precisa continuar seu próprio caminho.

O término da peça acontece quando a noiva caminha em seu tapete vermelho, com esperanças no horizonte, no que está por vir.

b) Gênero

Comédia dramática. A história é repleta de conflitos e brigas com finais trágicos, porém o humor está nos momentos onde a platéia se identifica com as situações passadas pela protagonista. Muitas piadas irônicas e inteligentes são propostas pelo texto a fim de suavizar algum momento de muita tensão.

c) Direção de atores

A diretora e atriz Luciana Borghi, diante de vários temas a abordar sobre a mulher e sobre sua posição nos dias de hoje conseguiu integrar e formar uma única unidade que pudesse nos mostrar o quanto à mulher é alvo de tantas situações e o que essas situações podem provocar na nossa vida. E o que podemos perceber é que o trabalho foi focado muito nas atrizes, primeiramente o ator e depois o que o compõem, não que o restante não fizesse parte do espetáculo, mas a interpretação forte, com peso em suas falas, nos gestos, diferentes níveis de clima, drama, comédia, ilusão trouxe para o restante uma vida que fez com que a peça se desenrolasse de uma forma continua.

d) Senso estético/ encenação

Em sua maior parte era realista, entretanto teve momentos surreais na ilusão da protagonista, a noiva. O palco foi preenchido por poucos elementos do cenário e diferentes tipos de iluminação. Os símbolos também estavam presentes: tapetes vermelhos, espelho em formato do corpo feminino e de ampulheta como um túnel do tempo, luzes fortes quando ocorriam as ilusões.

O espetáculo foi mais expressivo do que plástico, atingindo o intuito da peça, por abordar mais a atitude da mulher do que a importância com sua beleza.

e) Unidade e integração grupal

Os hormônios femininos dominam as 3 atrizes em cena. O tema da peça exige do elenco essa erupção de energia feminina, que transborda e também facilita a atmosfera alcançada.

f) Atores X Personagens

Cada personagem parece muito prazeroso para as atrizes, pois estavam vestindo-se de suas próprias essências naturais: o lado feminino. Elas se revezam com diversas personagens. Todas distintas e bem definidas, por mais coisas em comum que tivessem entre elas, a noiva, escritora, mãe, Santa Virgem, boneca, velha, menina e mulher misteriosa. A postura mudava a voz também. Percebe-se a total entrega para a personagem.

g) figurino

O detalhe de cada personagem era impecável, pois tinham tempo suficiente para se trocarem e até se maquiaram durante as cenas.

O discreto escritório da escritora foi muito utilizado para estas trocas. Dali surgiu: a velha como suas rugas feitas rapidamente, seu,sobretudo de tons marrom acinzentado e um chapéu; a boneca, que a atriz colocou uma peruca castanha com lacinhos rosas, um vestido de rendas com laços, rodado e curto, short curto por baixo branco e pintada como uma boneca com a boca bem pequena para ficar igual a boneca de pano utilizada no cenário; a mulher misteriosa, com vestido longo preto com decote em V, uma estola de pelo de animal com mesclado de marrom, colar de pérolas, óculos escuros, sapato de salto preto e bico fino ; a Virgem Nossa Senhora, que vestia um blazer vinho e com uma capa verde-limão sobre ele, supondo assas, Saia longa de pano pesado e preto, seu cabelo coberto por um lenço vinho e apitos em seu pescoço.

A mãe, outra personagem, estava com um vestido de festa tomara que caia grafite e um laço preto no meio da cintura, o comprimento da saia era nos joelhos e tinha um casaquinho curto, de rendas preto e prateado, que cobria os ombros.

A noiva era assim caracterizada por seu vestido apertado (essa característica é muito mencionada na peça), tomara que caia, com 3 saias evasê brancas e corpete bordado com cristais de cor prata... não muito bonito. Um pequeno véu com flores cobria-lhe a cabeça e um buquê de rosas cor champanhe, as mesmas do véu. Seu traje também tem uma sandália branca com brilhos, porém na maior parte da peça, a noiva fica descalça.

A escritora vestia um vestido marrom de lã e uma faixa larga, preta na linha da cintura. Um lenço amarrado em torno da cabeça e um coque, sapatos de salto marrons.

O figurino destacava cada personagem e sua personalidade. Portanto, o intuito do figurino não era apenas distinguir cada personagem, mas também demonstrar que a mistura entre atitudes e opiniões determinam como as pessoas se vestem.

h) Iluminação

É trabalhada em cima de focos, diferenciando cada momento do espetáculo, momentos esses que aparecem de maneira mais suave, outros mais fortes e essas sensações são trazidas também através da iluminação que compõem todo o contexto de todas as cenas. A importância da luz é ligar as cenas e assim formar a história, uma unidade.

No quarto – a noiva – uma forte luz branca, traz a impressão do momento real de sua vida, um tempo que mostra através de uma mulher sua verdadeira frustração diante de si mesma e diante de tudo que a rodeia.

Um escritório – a escritora – uma luz amarela fraca, um lugar que necessita de reflexão, este é o lugar de onde surgiram todas essas indagações sobre a vida dessa mulher – MADAME .

Um tapete – transição – a noiva como uma velha, uma luz âmbar segue por um enorme tapete vermelho e as duas se encontram, o presente e o futuro, considerando que a realidade necessita de saber como será o seu futuro. É muito interessante como nesses momentos a luz transforma o tapete como se fosse O TEMPO, o tempo que volta, o tempo que se apressa, mas que continua ali no sonho , na realidade é um tempo que se limita , que fica ali parado entre a luz e o tapete .

O quarto – a noiva- a solidão, neste exato momento não temos uma luz aberta, apenas um foco muito pequeno ao fundo, momento que ela fica só.

O espetáculo apresenta poucas cores em sua iluminação, as cores utilizadas são usadas nos momentos de ficção, esses que mostra a alusão da mulher diante de sua vida. A luz, juntamente com o cenário se torna o fio condutor de todo espetáculo. Apenas na última cena é que aparece uma luz vermelha que ilumina o caminho da noiva em seu tapete vermelho, essa é a iluminação mais forte e colorida da peça, um símbolo muito marcante... é a decisão.

i) Cenário ou cenografia

Existem três espaços muito bem definidos:

O quarto - apresenta um espelho em forma de mulher, com pontas arredondadas, ou poderia também ser uma ampulheta e remeter o público ao significado de túnel do tempo; um baú (utilizado como uma banco pelas personagens); livros, espalhados pelo suposto quarto da noiva; uma cortina sobre os livros, determinando uma parede e simbolizando um véu; almofadas, caixa de jóias, foto . Tudo muito simples, mas com uma riqueza de detalhes e delicadeza em sua formação, a maneira como tudo foi colocado.

Um tapete enorme vermelho que se encontra no centro do palco, este tapete começa no palco e segue por sobre a parede inferior, a que fica atrás da cena, simbolizando um caminho eterno, nele se passa os momentos de transição de imaginação na noiva.

O escritório – parede formada por cortinas, funciona como uma redoma, onde fica a escritora, facilita também a movimentação das personagens, no seu interior apresenta duas cadeiras, uma mesa, muitos livros, cinzeiro e cigarros, bebidas, papéis e canetas, muitos papéis amassados e um cabideiro, que é usado pelas atrizes para fazer as trocas de personagens.

O mais interessante nestes três espaços é identificar a divisão de territórios, que foi umas das coisas que a direção nos explicou (ler a entrevista), o mais importante foi essa divisão e que a partir daí se desenvolveu o espetáculo.

j) trilha sonora

Fazem parte da trilhas, vários trechos de músicas diferentes.

Alguns trechos são cantados pelas personagens, como uma música francesa contada pela mãe da noiva e a Marcha Nupcial, cantada pela noiva e pela boneca.

Existia também uma música tocada por violinos, a qual mudava o foco para a escritora e outra no momento em que a mulher misteriosa apareceu e “desnorteou” a noiva.

Outras melodias eram colocadas em momentos de ilusões como a do encontro com a noiva atual e ela mais velha, toda vez que a velha passava pelo tapete vermelho a música aumentava o volume, como se aumentasse a tensão.

Muitos espaços sem som exigiram do talento das atrizes para encantar o público, e elas conseguiram.

k) Operação de luz e som

O operador de luz era o mesmo do som, porém esses profissionais foram várias vezes trocados, mas não mudou em nada, tudo foi muito bem marcado e assistimos a peça várias vezes e não notamos diferença entre os operadores. Todas estavam semelhantes.

Esses profissionais souberam e atuaram muito bem, tornando o espetáculo ainda mais estético. A junção da luz com o som trouxeram de uma maneira muito clara a ligação de uma cena para a outra .

l) Maquiagem

Uma maquiagem muito simples, de muito poucos elementos. Não vemos nas personagens uma maquiagem muito marcada ou talvez estilizada, tudo é muito sutil, principalmente nas personagens mais realista que é a mãe, a noiva e a escritora, e mesmo nas personagens de ficção (que representa a imaginação), temos uma personagem que é a boneca que apresenta uma boca de boneca e que ainda assim é muito delicado quase que imperceptível.

m) o teatro- “clima” estabelecido

Antes que o espetáculo se inicia é colocada uma música para o espectador se ambientalizar ao ler o folder da peça e já ali naquele momento começar a usar a sua tão criativa imaginação.

Vários climas são estabelecidos: Entre as personagens-Drama, felicidade momentânea, guerra, desespero, êxtase; Entre o público e o palco: Identificação, melancolia, espanto.

n) Material gráfico e divulgação

Foram utilizados: assessoria de imprensa, a qual conseguiu que as atrizes participassem do Programa de Tv Charme de Adriane Galisteu, no

SBT; 3 anúncios escritos na Revista Divirta-se do Jornal Estado de São Paulo e no Jornal Folha de São Paulo; Filipeta e Buner com a fotos das 3 atrizes, cor branco e preto, um pouco desfocada e apagada para remeter um sonho, e o nome da peça em destaque. E divulgação boca-a-boca.

o) Opinião individual sobre o espetáculo

Cristilene Carneiro:

Enquanto assistia, pareceu-me que todo o espetáculo estendia as mãos para quem estivesse interessado em caminhar naquele tapete vermelho. Junto com elas. Aprender um novo trajeto. Elas foram acolhedoras e gentis, como mães. Ao mesmo tempo onde nos mostraram com cumplicidade que a mulher era uma criança... A qual foi educada e obedecia as ordens de costume. Depois começou a andar sozinha. Deu um berro e aprendeu a falar. Há pouco tempo atrás estava naquela fase em que não parava de falar e de querer chamar a atenção. Hoje, passou da sua fase de moça delicada, já foi rebelde solteirona, mas precisa uma identidade enfim... Será que precisa mesmo?Pois prestes a se casar e assumir a felicidade eterna, está agora assustada diante do espelho por que berra...

Madames, agradeço pelo grito!

Elaine Santos :

Antes mesmo que tivesse oportunidade de estar tão próxima das atrizes Suzana Pires, Carla Ribas e Luciana Borghi, o espetáculo se apresentava na minha ótica como algo que proporciona a reflexão sobre a nossa vida, a mulher e suas atitudes em relação a sociedade. Confesso que esses itens se tornaram muito mais significantes depois que ouvi as atrizes pessoalmente é como se tivesse lido um livro e depois pudesse estar com esse autor frente a frente e o que torna isso mais fascinante é que a importância da mulher não fica apenas ali no palco, no texto , no cenário, no figurino, iluminação enfim essa importância está também no camarim, na coxia, na chegada das atrizes no teatro e como elas mesmo lida com essa esta questão, da mulher e o que a está em sua volta.

Um espetáculo sem muitos recursos, mas com o que há de mais completo e fundamental para a arte do teatro e o que vemos é a importância que é dada para as atrizes, para o trabalho delas dentro de todo esse contexto. Assim como a Luciana Borghi nos disse que o mais difícil é você conseguir do nada fazer algo, mais esse caminho se torna mais valioso e completo quando se acredita. Faço das suas palavras as minhas, pois do que adianta o espetáculo com vários recursos sendo que a essência de tudo isso tem que estar no ator e se isso não acontece não há espetáculo.

A principio quando não sabíamos qual espetáculo iríamos trabalhar, mas já sabíamos que era necessário uma escolha rápida, então fomos e assistir MADAME, a primeira impressão e umas das primeiras frases que saiu do nosso diálogo, foi que tínhamos escolhido a peça certa, que neste momento não poderia ter sido outra, por falar da mulher e por nos colocar diante de fatos e questões que atualmente anda tão distante de nossas realidades. A valorização da figura feminina, que não está apenas na conquista de status, mas sim no seu comportamento diante dessa conquista, que a mulher acaba abrindo mão do ser mulher para alcançar um determinado objetivo quer seja profissional, pessoal e até familiar.

Existe uma coisa que eu particularmente gosto de tirar de todo espetáculo que assisto que são aqueles momentos marcantes, frases que não apresenta tão claramente, mas que nos coloca diante de uma reflexão, ou até nos dá um tremendo tapa na cara . O espetáculo MADAME, neste aspecto me fez me encontrar no sentido de saber no papel de uma mulher qual o meu dever, de saber quais são realmente as minhas vontades e de acreditar ainda mais no teatro, digo isto porque senti uma sensação tão gostosa ao estar com essas pessoas que nos trouxeram nas suas respostas sem temor algum a realidade do teatro, mas ao mesmo o quanto o teatro é muito mais verdadeiro e como CARLA RIBAS disse ele nos torna uma pessoa melhor. Talvez não seja POR ACASO QUE TENHAMOS ASSISTIDO Ao ESPETÁCULO QUATRO VEZES.

“... A vida não é tão simples assim...”.

È não tão simples mesmo, e quando estamos diante deste fato, a frustração passa a ser o alvo de nossas metas. Nem tudo é como a gente quer. Quando criança imaginava que o meu futuro fosse completamente diferente do que é hoje e hoje imagino o meu futuro... Como será? Não sei, talvez seja melhor viver o que se passa agora o futuro é o segundo após o agora e ele é construído diante de nossas vontades e necessidade.

“... Deixa de ser criança...”

Deixar de ser criança. Quando e por quê? Quando descobrirmos que podemos tomar nossas próprias decisões e porque nem sempre o mundo é feito de fantasias, a criança sempre vai existir, mas um dia vai chegar ao estágio que deverá saber para onde terá que seguir.

“... Eu sei o que eu quero . Quero ser uma mulher que eu admire, incrível. Quero ser simplesmente uma mulher ... “ / “ ... Uma mulher nunca é simples ...”

Saber o que queremos, esse é um dos fatores que realmente é muito complexo. O momento exato que estamos frente a frente às dúvidas, incertezas, conquistas, decisões. A simplicidade não é tão simples assim. Através dela estamos de encontro com a nossa essência de ser humano. E o que fazer? Sim ou não?

“ Ouve a voz dos outros com os ouvidos e a da gente com a garganta ”

Thais Mendes:

O começo, jogo de luzes, hora destacando a noiva indecisa, hora destacando a escritora me fez lembrar um álbum de fotografias.

No decorrer da peça, as 3 atrizes levam o espetáculo e um pouco mais de 1 hora em um piscar de olhos. O prazer em pisar no palco, de fazer essa peça, é grande e chega ao público.

No entanto, o sotaque carioca é estranho no começo, mas aos poucos vai tendo menos importância.

Não é uma montagem com apelos e efeitos visuais, e é essa simplicidade rica em detalhes, que faz cada elemento da peça ter sua importância e completar os outros. Ocorre uma sinergia entre iluminação, cenário, sonoplastia, atuação, maquiagem, direção, tudo precisava estar ali.

Só posso aplaudir essa peça, a qual me identifiquei muito.

Harmoniosa! Era o que Madame gostaria de ser e que a peça Madame foi!

Valéria Trevizan

Falarei do processo de trabalho todo, acrescentou muito, de inicio pensei que não gostaria muito do espetáculo, mas fui me envolvendo aos poucos, achei o elenco muito bom, muito preparado, e isso já conta grandes pontos para que eu goste.

O tema do espetáculo é discutido há décadas e cada vez mais existe descobertas mágicas girando em torno desse assunto.

Gostei da proposta de encenação, se apegando aos pequenos detalhes, como a bonequinha de pano, os livros, as flores...

Não tinha nada exagerado, alguns momentos cômicos, mas que cabiam na história.

O encontro com o passado, ter uma chance de mudar tudo, acho que todas as mulheres gostariam de poder ter isso. Talvez nem seria para mudar somente para rever, refletir.

Chegou a parte das entrevistas, marcamos com apenas uma, mas acabamos conseguindo falar um pouco com cada, elas me mostraram um outro lado da peça, ao assistir novamente, depois da entrevista... eu me sentia mais mulher, eu queria estar ali com elas, foi uma coisa meio louca. Elas conseguiam passar o prazer de estar no palco, de ser do teatro, lindas!

Todas as mulheres têm o direito de desfilar por aquele tapete vermelho.

“Uma mulher nunca é simples”

p) Ficha Técnica das participantes

ELENCO:

Suzana Pires: idealizadora, realizadora e atriz do projeto. 28 anos, é atriz e produtora cultural, graduada em Filosofia pela PUC-RJ e, atualmente cursa a pós-graduação em Arte e Filosofia na PUC-rio. Na TV atuou nos seriados Sítio do Pica-Pau Amarelo, Confissões de Adolescente e Mulher e nas novelas Agora é que são Elas e Tocaia Grande, No teatro fez Um Ensaio Aberto, Bodas de Sangue, Bailei na Curva, A Lira dos Vinte Anos, Do Outro Lado da Tarde e A Beira do Mar Aberto. Dirigiu o espetáculo "Assim Falou Zaratustra - prólogo", de F. Nietzsche e a Oficina Teatro e Filosofia que integrava a programação do II Colóquio Internacional de Filosofia: "O Trágico e seus Rastros", oferecido pela Universidade Estadual de Londrina. Ministrou o curso O Artista Empreendedor na Universidade Estácio de Sá. Neste momento prepara o livro "O Artista Empreendedor".

É atriz há 13 anos e produtora há 11 anos.



Luciana Borghi: diretora Idealizadora e coordenadora do projeto Nova Dramaturgia Brasileira. Produtora e curadora de inúmeras mostras nacionais e internacionais de Dramaturgia Contemporânea, como a Mostra Brasil-Europa com participação de 8 países europeus e a vinda do ROYAL COURT ao Rio de Janeiro. Coordenou e Dirigiu durante 4 anos o núcleo de Teatro Psiquiátrico do IPUB onde realizou várias montagens, tendo estudos e publicações acerca de seu trabalho terapêutico em instituições públicas de Saúde Mental. Como atriz: "Ovo Frito" de Fernando Bonassi, "PELECARNESANGUEOSSOS" de Roberto Alvim, "Qualquer Espécie de Salvação" de Roberto Alvim, "Vagina Dentata" Texto e Direção:Roberto Alvim "Cacilda" de José Celso Martinez Corrêa "Mundo Pânico" texto e Direção:Roberto Alvim "Sinfonia" texto e direção:Roberto Alvim "Multiplicando Electra" de LucianaBorghi "TURANDOT" Direção:Amir Haddad "Sertão" com o Centro de D. e Contrução do Espetáculo de Aderbal Freire Filho "Marinheiro" com o Teatro do Pequeno Gesto "Brasil de Lá pra Cá" . Como diretora: "Nostradamus" de Doc Comparato no Centro Cultral do Banco do Brasil.Com:Laura Cardoso, Tonico Pereira e Cecil Thiré.(co-direção de Renato Borghi) "Todas as Paisagens Possíveis" de Roberto Alvim "Valsa nO 6" com o Teatro do Pequeno Gesto "Acerto de Contas" , "Escorial" de Michel de Ghelderode "O Lavrador de Palavras" de Mano Melo "O Candidato" de Alcione Aráujo .

Carla Ribas: Designer, Carla largou tudo aos 35 anos para encarar o teatro. Tem entre as credenciais uma indicação para o Mambembe por A ver estrelas, de João Falcão. Principais trabalhos no teatro: Mundo Pânico, Sinfonia Metástase, Cenas de Uma Execução, Navalha na Carne, O Banquete, e A Ver Estrelas.

Na televisão: Estrela Guia, Mulheres Apaixonadas, Brava Gente. Trabalha também como Coach- prepara atores. 47 anos, é atriz há 12 anos.

TEXTO

Manuela Dias - dramaturgia Graduada em jornalismo pela Universidade Estadual da Bahia e em Cinema pela Universidade Estácio de Sá. Co-escreveu, ao lado de Perry Salles, a peça Glauber, e a peça Soul-4. Como roteirista da rede Globo, escreveu o seriado Mulher, o especial Mama África, o programa Sandy & Junior, e a novela infantil Bambuluá. Assinou a redação final do programa Fama e atualmente roteiriza o programa Mundo da Imaginação. No cinema, foi analista de roteiro do filme Tainá, Uma Aventura na Amazônia, com direção de Tânia Lamarca. Assinou o roteiro dos longas Tudo Isso Para Ficarmos Juntos,de Ciro Duarte e Deserto Feliz, de Paulo Caldas.



DIREÇÃO GERAL: Luciana Borghi. NOME DO GRUPO: 3 Escarlate

CO – DIREÇÃO : Carlos Renato

CENÁRIO: André Sanches.

FIGURINO: Gisele Batalha.

ILUMINAÇÃO: Wagner Pinto.

PROJETO GRÁFICO : Marcos Leme

TRILHA SONORA: Ricardo Cutz.

FOTOGRAFIA: Andréa Rocha

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Bebê Baumgarten – BD COMUNICAÇÃO

Antoune Nakke – PARCERIA 6 COMUNICAÇÃO

PRODUÇÃO EXECUTIVA SP: Juliana Garavatti

ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO: Tatiana Simplício

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Ângela Frota

REALIZAÇÃO: Suzana Pires e Ângela Frota (Produtoras Associadas )

ESTRÉIA: 4/08 - quinta-feira PERÍODO: quarta a sábado, às 21h ; domingo, às 20h - até 28/08 DURAÇÃO: 60 IDADE: A partir de 14 anos

PREÇO: R$8,00 SALA JARDEL FILHO: 324 lugares PREÇO POPULAR (R$1,50): 11/08 (qui.) BILHETERIA (HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO): 1 hora antes.



2. ENTREVISTA

A entrevista foi realizada com as três integrantes do elenco, pois cada uma possui maior propriedade em responder determinadas perguntas.

Carla Ribas: Atriz há 12 anos, prestou Pré Dacau , porém foi convidada a trabalhar antes mesmo de fazer o curso, não possui DRT, mas fez duas oficinas de teatro e tem muita experiência no meio. Além de atriz, trabalha como Coach - prepara atores. Tem 47 anos.

Suzana Pires: É atriz há 13 anos, formou-se no Tablado, possui DRT, fez graduação de Filosofia e faz Pós - graduação nesta área. É produziu o espetáculo e é produtora há 11 anos.

Luciana Borghi : Diretora e atriz

1– Como foi o processo de criação do espetáculo?(Cenografia / figurino / Iluminação / Maquiagem / Sonoplastia)

Luciana Borghi : Bom, em relação à concepção do cenário, é muito importante porque ela fez coisas que não tinha na dramaturgia, por exemplo, aquela divisão dos territórios pelo tapete, o tapete como fio condutor, definindo as zonas dramáticas foi essencial. Então eu acho que o cenário neste espetáculo, em alguns espetáculos o cenário às vezes ambienta, neste ele conversa. Ele é mais que observação, ele é personagem que está na dramaturgia. Foi desta idéia, que muitas coisas do cenário surgiram.

Figurino:

Luciana: O figurino se passa em três instâncias, assim como as fases do texto; A mãe e a noiva na realidade, temos a Simone Beauvoir, escritora que também é uma realidade, mas em outro tempo, que é o figurino da madame, e você tem os personagens fictícios que são as personificações do livro, cada um é um aspecto do livro: a infância, a velhice, a sexualidade e a parte do sagrado, que é a Virgem Maria, não só do sagrado mas dos compromissos, da moral, dos valores vigentes de uma época dos aspectos femininos, enfim... Então você vai achar três partes do figurino também, que agente identifica porque na parte de ficção, percebe-se a diferença dos figurinos que trazem uma estilização. Assim como a madame, tem sua coroa, o casaco pra ter mais significado.

Luz:

Luciana: Como o texto já é bem fragmentado, por estas estações que falamos. A luz tenta dar uma continuidade como emenda; uma luz que emenda uma cena em outra. Uma atmosfera nunca morre antes da outra já começar a ser desenhada. Então, se você perceber, foco em um lado, mas onde sempre tinha coisa do outro, e sempre tinha essa transição como se fosse um barco mesmo conduzindo a história. Então a luz entrou com o papel de fio condutor. Não é só foco ou atmosfera, mas é fio, junto com o cenário, mas se comunica de outro jeito. A luz é a mágica, e o cenário o concreto. Usamos poucas cores também por causa dos figurinos das personagens.

Grupo: Por isso que as poucas cores passavam impressões de serem bem fortes em alguns momentos?

Luciana: Sim, o iluminador propôs e eu concordei com ele de trabalhar com pouca cor e pouco efeito também. São climas, e não efeitos de luz. Tem muita diferença um efeito luz e uma atmosfera cena. Tem uma coisa que eu busquei, é até um conselho do grande homem de teatro, Aderbal Freire Filho, que é apostar numa cena e no ator. Quanto mais truques você inventa, quanto mais excessos de marcações você põe, mais você está encolhendo o ator. É melhor enxugar. O truque não resolve excessos de movimentações de luz, de elementos no cenário, de adereços, grandes idéias plásticas sem saber o que e como dizer claramente o que você quer.

Maquiagem:

Luciana: A maquiagem ela é muito simples. Só nos voltamos pro feminino no processo de maquiagem, uma boca da madame, da boneca. Ela é mais uma maquiagem de mulher, útil pra todas, entende?Que serve mais pra todos os papéis da mulher do que uma maquiagem marcada pra cada uma. A única coisa mais estilizada é a boquinha da boneca, talvez. E mesmo por que a Carla quis muito usar aquilo.

Sonoplastia:

Luciana: A gente pensou em mudar este universo também, a madame aparece com uma música dos anos 50, uns violinistas também. As músicas também ajudam a determinar os espaços. E uma música muito importante na peça, seria o silêncio da cena da mãe com a noiva. Nunca tem música neste aposento, porque a mãe já tem uma música dela própria que é a dimensão dela mesma...

2- Como está sendo fazer esta personagem? O que ela te traz?

Suzana- Incrível, trás a possibilidade avaliar os meus passos, minhas próprias escolhas, me dá mais responsabilidade às minhas decisões e de estar viva.

3 – Ao ler o texto qual foi sua primeira impressão? Teve algo que chamou mais sua atenção?

Suzana – Não tive o texto em mãos, tivemos a experiência de fazer tudo, para o trabalho evoluir. Trabalhamos com vários elementos.

4 – Por que Madame ?

Suzana-Escolhemos montar um texto que surgiu do livro – O Segundo sexo de Simone de Beauvoir, que não é um texto de teatro, mas que possuísse uma simbologia e assim pudéssemos transformá-lo em dramaturgia, escolhemos Madame.

5 – Qual a intenção do projeto?

Suzana – A intenção é falar da mulher em todos sentidos, falar da Simone, mostrar esse universo que se perdeu. Mas descobrimos que acabamos por falar não só da mulher, mas também do ser humano. Tanto que teve homens que saiam do teatro chorando.

6- Essa realização do espetáculo correspondeu com a sua expectativa?

Suzana-Sim, em São Paulo ultrapassou a expectativa.

7 – Tiveram alguma dificuldade para conseguir patrocinadores / apoiadores?

Suzana- Sim , sabemos que isto vai sempre existir o importante é nunca desistir. A busca de patrocinadores e apoiadores foi de acordo com a nossa peça.

8- Como você vê hoje o papel da mulher na sociedade?

Carla- Depois dessa luta de Simone de Beauvoir, perdemos o feminino e estamos pior que o modelo masculino. Ser mulher é buscar a sensibilidade do que é ser feminino para abrir portas e romper o padrão. O padrão atual está ruim, mas não podemos voltar ao padrão antigo, precisamos fazer um novo padrão de ser mulher. Buscar a importância de se questionar, de pensar. Vejo que estamos começando a entender o que é ser mulher. Precisamos resgatar a sensibilidade, magia. É momento de rever.

Luciana: Acho que ela precisa voltar a usar os elementos principais da natureza feminina.

9- Vocês já trabalharam juntas em outro espetáculo?

Suzana- Nós já nos conhecíamos. A Carla e Luciana já trabalharam juntas 2 vezes, no Rio de Janeiro, mas as 3 juntas é a primeira vez.

10- Quanto foi investido no espetáculo?

Suzana- Não tenho precisão de quanto foi investido, mas o maior gasto foi com cenário e figurino e o resto foi apoio, tivemos muito apoio.

11- Qual lei de incentivo que foi utilizada? Dificuldade?

Suzana- Lei Ruanet E ICMS do Rio de Janeiro, mas é muita burocracia para conseguir marcar hora na empresa e depois conseguir o patrocínio. Muitas empresas fecha com você e chega na hora e fala que não vai mais ajudar.

12- Há quanto tempo estão em cartaz e projetos futuros?

Suzana- Foram 20 apresentações em São Paulo- 1 mês e ficamos anteriormente no Rio de Janeiro durante 2 meses, é uma peça para durar bastante, mas agora iremos descansar um pouco e colocar em prática outros projetos individuais.

13- Já trabalharam em TV? Gostaram da experiência?

Carla: Eu já fiz duas participações em duas novelas; “Estrela Guia” e “Mulheres apaixonadas”, e no “Brava Gente”. Mas não gosto de fazer televisão. A televisão só traz duas coisas: fama e dinheiro. O teatro traz...(Risos). O teatro me torna uma pessoa melhor. Então eu não abro mão disso por causa de fama e dinheiro! Enfim, a respeito de criação do ator, você não tem tantas condições de fazer um trabalho tão bom quanto você tem no teatro. Você tem que ser quase um “altista”, né! Pra se desligar do que ta acontecendo, pra mim é mais difícil e menos prazeroso Tv. Eu adoro ouvir o terceiro sinal! Depois do terceiro sinal, ninguém vai me interromper, sabe?Nada vai me distrair... E tudo que me distrai é a favor. Minha praia é essa.

Suzana: Eu fiz, “Tocaia Grande” na Manchete, por teste. Gostei de fazer TV.Até depois fui fazer o seriado “Mulher” e “Confissões de adolescente”. As novelas “Agora é que são elas” e “Da cor do pecado” . Aí no passado eu fiz o sítio do pica-pau amarelo, e até que eu era uma personagem bem legal. Mas pra TV assim...Eu nunca tive problema. Um que eu fiz e aplaudo foi o “sítio do pica-pau amarelo”, lá eu ficaria até morrer! Tem um clima...É mais cinema, porque você tem mais tempo pra preparar as cenas, o cenário é todo de grutas e fantasias...Pra criança, né?Eu amei.

14- E cinema?

Carla: Eu vou ficar em São Paulo até dezembro pra ser protagonista de um longa-metragem do Chico Teixeira chamado “A casa de Alice”. Vou fazer a Alice com a preparação da Fátima Toledo. Então estou num misto de muito feliz e apavorada ao mesmo tempo. Alice é uma manicure que pega metrô etc.). Eu fiz também uma participação muito pequena em “O outro lado da Rua”, e um filme que ainda não estreou “No meio da rua”.



Diante desse misto de grandes atrizes e de pessoas que sabe que o teatro é uma infinidade de prazer , nos encontramos de fato com excelentes profissionais tanto no nível artístico quanto no nível de ser humano . E saber que existe ainda pessoas que acreditam no teatro, que sofrem , que leva este trabalho com uma imensa seriedade e humildade e fazem de tudo para proporcionar a várias outras pessoas uma satisfação de assistir um espetáculo compostos de personagens que muitas vezes fala de suas próprias vidas , mas de uma maneira mais enlouquecida , chegando a tal ponto de despertar interesse a um reflexão sobre a vida .

Foi o que sentimos quando começamos a fazer este trabalho, principalmente quando assistimos ao espetáculo pela primeira vez, nos identificamos com as questões colocadas, as dúvidas, as inquietações. E o que realmente queremos para nossas vidas? Pergunta que não quer calar.

Nós agora seguimos para o passo seguinte...

“ E UM DIA VAMOS SER ADMIRÁVEIS, INCRÍVEIS MADAMES.”