sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sobre o §11 de "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", De Walter Benjamin

São Paulo, 13 de junho de 2008.



UNIFESP
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Unidade Curricular: Leitura e interpretação de textos clássicos.
Professora: OLGÁRIA CHAIN FÉRES MATOS





DISSERTAÇÃO SOBRE O TEXTO DE WALTER BENJAMIN:
“A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA”

A PARTIR DE SEU DÉCIMO PRIMEIRO PARÁGRAFO:

“A unicidade da obra de arte é idêntica à sua inserção no contexto da tradição. Sem dúvida, essa tradição é algo de muito vivo, de extraordinariamente variável. Uma antiga estátua de Vênus, por exemplo, estava inscrita numa certa tradição entre os gregos, que faziam dela um objeto de culto, e em outra tradição na Idade Média, quando os doutores da Igreja viam nela um ídolo Malfazejo. O que era comum às duas tradições, contudo, era a unicidade da obra ou, em outras palavras, sua aura.”  ( Walter Benjamin )







INTRODUÇÃO

REFERÊNCIAS A RESPEITO DA AURA EM W. BENJAMIN

ESTUDO SOBRE O PARÁGRAFO

BIBLIOGRAFIA



INTRODUÇÃO SOBRE “A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA”

            
                    O texto expõe as conseqüências que as condições de produção no mundo capitalista trouxeram para a arte, o autor de "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" introduz o assunto evidenciando o seu marxismo que será utilizado como base para defender seu argumento sobre o perigo de destruição da arte depois do seu facilitamento por meio da tecnologia. Mas sem a intenção de discutir somente a política atual, foca-se no estudo das causas do desaparecimento de conceitos como a tradição alimentada pelo valor de culto, pela lembrança eterna, pela criatividade de estilos e pela aura provinda da experiência autêntica e artesanal, não mais trazidos por uma obra de arte reproduzida hoje. E conclui a pesquisa com explicações denotativas quanto à necessidade de mudança na política artística. Ele parte de uma pequena exposição sobre a história da reprodução técnica da obra de arte e o que as mudanças tecnológicas avançadas representam de importância para a decadência da arte enquanto culto espetacular. Cita desde a xilogravura que deu ao desenho uma possibilidade reprodutível, depois a imprensa fazendo o mesmo com a escrita, assim como a litografia aperfeiçoou as ilustrações mas foi rapidamente suprida pela fotografia. E desta última é que Benjamin vai enfatizar como sendo a responsável pelo rompimento do trabalho artesanal do artista. Pois sua dedicação agora é mais voltada ao olhar que fotografa do que às suas mãos que desenham.

                                     “ Como o olho apreende mais depressa do que a mão desenha, o processo de reprodução das imagens experimentou tal aceleração
                             que começou a situar-se no mesmo nível que a palavra oral.” 1

                  Deste avanço na agilidade das imagens, o autor evidencia um dos indícios para uma mudança na nova maneira de perceber a obra. É o que o cinema, principalmente depois de incluir a técnica do som, também repercutirá em tal mudança de maneira incisiva. Mas ainda agora com relação à história da obra de arte, Benjamin alega que era a sua autenticidade, sua unicidade que a eternizava dentro de uma história. As suas propriedades físicas a caracterizavam num determinado registro do tempo. Assim como as circunstâncias do momento em que foi criada a repercutia numa tradição. Com a reprodutibilidade técnica, essa identificação única de uma determinada obra de arte se perde por causa da ausência de um original que constate o seu “aqui e agora”, ou seja, a tradição contida na constituição da obra. Juntamente com o desaparecimento da autenticidade, ele se refere também ao do testemunho histórico:

                                      “Sem dúvida, não só esse testemunho desaparece, mas o que desaparece com ele é a autoridade da coisa, seu peso tradicional.” 2

                       E a mesma autoridade referida será associada com as características da própria aura abalada. A existência não mais única, mas em série, impede a valorização de um patrimônio cultural e liquida a obra de arte ao banalizar de maneira venal a sua reprodução para as massas. Também é incluído a mudança na percepção dessa massa (e não só na percepção do artista como já citado acima) como reflexo dessa transformação histórica inserida na causa deste declínio aurático.
                       Quanto à história do estudo de tais modificações, Benjamin esclarece que não haveria outra época melhor de pesquisá-la se não a qual se encontra, referindo-se ao próprio espaço curto de existência e ao mesmo tempo relata a sua dificuldade de compreensão exatamente por causa da proximidade com o período presente sem o distanciamento necessário para analisá-lo de maneira neutra.

                                       “Por mais penetrantes que fossem, essas conclusões estavam limitadas pelo fato de que esses pesquisadores se contentaram
                                 em descrever as características formais do estilo de percepção característico do Baixo Império.” 3

                        Da comparação entre a indústria artística do Baixo Império Romano da época bárbara e os vienenses contra tais maneiras tradicionais daquele período, Benjamin discorre sobre as suas primeiras intenções de investigar as evoluções perceptivas por menor referências que já tivessem para fazê-lo. Como foi o caso destes últimos citados com relação à tentativa de examinar a ordem da percepção com apenas um exemplo que seria aquela primeira, da arte do Baixo Império. Por isso ele comenta das dificuldades quanto à existência de uma história mais antiga sobre a percepção. Em contraste com os dados que hoje, teríamos até em demasia.






REFERÊNCIAS A RESPEITO DA AURA EM WALTER BENJAMIN

                       Ainda na continuidade do texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, depois de ter nos instruído nas condições dos acontecimentos passados sobre o tema do texto e de nos informar quanto às disposições que o seu tempo atual, bem diferenciado dos anteriores com a fotografia, é que Benjamin começará a discorrer sobre o significado da aura, depois de localizá-la em diversos períodos históricos.
                      Primeiro ele estabelece o deslocamento das necessidades modernas como fator social influente na superação da unicidade da obra pela proximidade da mesma. A partir do capitalismo industrial, das influências econômicas e políticas nas produções cinematográficas, o papel do cinema muitas vezes cumpre satisfações de outros interesses além dos puramente artísticos. A intimidade do receptor com a obra seria muito mais vendível e concebível para tais áreas interessadas como a política e o comércio, por exemplo. Com a aura da obra trazida para uma realidade alcançável e semelhante a quem assiste, tanto o espectador como quem a patrocina levam vantagem. O espectador porque se reconhece por meio da sua realidade retratada pelo filme como possível de diversos desenlaces como o “final feliz”, por exemplo, além do conforto criado nele com a correspondência daquilo que ali se passa e, sobretudo, a conseqüente diversão obtida.
                      Já os setores que incentivam e apóiam a produção, porque conseguem o cliente para mais perto dos seus interesses, sejam políticos ou comerciais, e conduzem suas opiniões e desejos em favorecimento de suas empresas.
                        Dessa intensidade nas semelhanças entre obra e espectador é que a reprodução ganha ecos de amplitude frente à população. O fácil acesso ao que era inacessível e com a fotografia tornou-se possível, fez o significado da aura se voltar para uma correspondência e maior retribuição do olhar, cada vez mais iluminada e sem sombras para que seja cada vez mais inacessível e ao mesmo tempo desejada. A maneira como ela sofre essa mudança no decorrer da história da fotografia é explicada no texto “Pequena história da fotografia”, também de W. Benjamin. Lá ele relata o belo e a aproximação da “bela aparência” exercida pela fotografia no lugar da distancia e da adoração que a pintura trazia:

                                    “Na imagem, a unicidade e a durabilidade se associam tão intimamente como, na reprodução, a transitoriedade e a reprodutibilidade.
                            Retirar o objeto de seu invólucro, destruir sua aura, é a característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar o “semelhante”
                            no mundo é tão aguda que, graças à reprodução, ela consegue captá-lo até no fenômeno único.” 4

                       A quantidade facilita o acesso à obra, ao mesmo tempo em que diminui a sua duração enquanto única. A massificação da quantidade de reprodução da obra se associa diretamente com a sua possibilidade de repetição e, logo, diminui a duração da mesma. Benjamin ressalta o quanto à conseqüência dessa orientação massante entre realidade e obra, praticamente confundíveis, leva-nos a questões além da própria estética abrangindo até uma aproximação entre o inconsciente e o consciente por meio dessa nova maneira de intuir e perceber. Nisso, também podemos citar outro texto sobre a dependência que a aura tem da experiência autêntica, de convivência. O que nos complementa a questão da tradição, onde ele utiliza “O Narrador” como objeto de exemplo para demonstrar como se deu a extinção da experiência, da história e da tradição devido a substituição da crença no contador artesanal pelo acúmulo das reportagens rápidas e sem profundidades.

                                       “A alma, a mão e o olho, interagindo, definem uma prática. Essa prática deixou de nos ser familiar. O papel da mão no trabalho produtivo
                                  tornou-se mais modesto, e o papel que ela ocupava durante a narração está agora vazio.”5

                      Isso também nos fornece uma certa “consciência inconsciente”, através dos choques pelos quais as produções não nos atingem mais devido a sua farta repetição de novidades incapazes de despertar a reflexão ou a experiência. Essa destruição da experiência pelo choque da conscientização por meio das repetições, ou seja, das reproduções e do acúmulo de informação trazida pela indústria cultural, também pode ser encontrada na obra de Társa Palhares onde comenta a respeito da aura em Benjamin quando este estuda as obras de Baudelaire:

                                       “Nenhum vestígio de aura é mais possível nas primeiras fotografias; aura e técnica estão mais do que nunca dissociadas.
                            Também no que diz respeito ao cinema, sua apreciação não permanecerá a mesma. Aqui a recepção tátil do filme não
                            terá mais nenhum valor emancipatório; seu efeito de choque, assim como todo choque, servirá apenas como fermento para o
                            declínio daquela experiência autêntica e não mais para o exercício de uma possível relação harmoniosa entre o homem e a 
                            natureza, como era o caso no ensaio de 1935. Será, enfim, assimilado ao trabalho alienado.” 6




Estudo sobre o parágrafo do texto:

                           “A unicidade da obra de arte é idêntica à sua inserção no contexto da tradição. Sem dúvida, essa tradição é algo de muito vivo, de extraordinariamente variável. Uma antiga estátua de Vênus, por exemplo, estava inscrita numa certa tradição entre os gregos, que faziam dela um objeto de culto, e em outra tradição na Idade Média, quando os doutores da Igreja viam nela um ídolo Malfazejo. O que era comum às duas tradições, contudo, era a unicidade da obra ou, em outras palavras, sua aura.” 7

                        O parágrafo estudado é uma seqüência destes argumentos que fundamentaram a destituição da aura artística até o movimento vigente desta parte do texto. Onde aparece a questão do desaparecimento da tradição como forma de articular ainda mais fatores que influenciam nesta decorrência aurática. Um deles é a unicidade da obra de arte enquanto objeto de tradição comum em diferentes épocas. Seja na sua origem clássica e ritualística em louvor a ela ou na sua recriminação sofrida durante a Idade Média. Mesmo nessas diferentes maneiras de culto, havia o plano de sua existência enquanto única. A sua singularidade no tempo e no espaço é que mistificava quem a contemplava distanciado pelo deslumbramento como efeito de sua particularidade. Estar em contato no momento em que ela acontecia e vivenciá-la trazia um momento de percepção apropriado dessa denominada “aura”. Este contemplativo, por mais variado de acordo com a maneira de cada época, não havia perdido, até então, sua participação no contexto da tradição. Mas conforme a tradição diminui, ela [a aura] também.
                       A partir da explicação deste parágrafo do texto, é preciso que voltemos à leitura desta obra de Benjamin para alguns termos que nele aparecem e, sem uma maior investigação sobre os seus significados, a fluência no entendimento da obra pode não ficar explícita. Os argumentos que o autor desenrola sobre a tradição, termo que achamos importante explorar, por exemplo, será a partir desta falta de originalidade da obra. A aniquilação do tempo nas obras, sem um tempo linear de seu progresso, em si mesma e sem determinações ininterruptas de progresso colocará a tecnologia como símbolo de regressão dentro desta perspectiva artística. Pois ao passo que a tradição pode ser considerada como a cultura em que um povo está inserido, a tecnologia expõe um papel importante nela e também na maneira de moldar nossa memória _ no caso deste desenvolvimento, o filósofo considera a perda da história oficial, o monumento _ como desordenada ou involuntária devido sua lógica temporal ter se perdido com a reprodutibilidade que a tecnologia nos trouxe.
                       Como a aura mantém sentido de acordo com a tradição, então a lógica artística também regressa neste aspecto, de compactuar com tal nova inconsciência sem nos despertar para a distinção entre a realidade e o cinema, por exemplo. Com o surgimento da fotografia, a reprodução artística acelera o processo da obra de arte e passa a cultuar menos o trabalho manual e singular. A substituição do artesanato pelo aperfeiçoamento técnico em maior quantidade e agilidade é um fator relevante na história, na identidade e na duração da obra que uma tradição precisa para existir. Essa mudança é tão intensa que podemos dividi-la como marca de uma nova era, assim como os hieróglifos marcaram o início da história. Porque sua mudança influencia não só na nova maneira de percepção da arte e sua estética, mas na sua representação social e política. O contato em maior quantidade popularizou e facilitou uma proximidade com a obra. A possibilidade de uma igualdade entre espectador e obra traz uma correspondência e identificação com ela que deixa os limites autorais indefinidos.
                       Daí a conseqüência da arte tradicional, nascida dos ritos religiosos e agora terminar engajada no capitalismo e com outros objetivos de reprodução como os políticos ou publicitários, por exemplo. Desde a superação do cinema mudo pela sonoplastia até a implantação das legendas que derrubaram as fronteiras lingüísticas e internacionalizaram seus vínculos industriais para a sua produção. Como decorrência dessa participação do capital, temos o desafio técnico eliminando o desafio artístico. Por isso que Benjamin enfatiza nas diferenças entre o ator de palco e o ator cinematográfico cada vez maiores e contrastantes. Ele comenta o quanto à representação dramática no cinema está mais ligada à resistência como se fosse um esporte do que como artística por causa dos testes repetitivos no bastidor, não é mais o ator que atua, mas sim a imagem, o som e a produção como um todo, que o rodeiam. Assim a praticidade supre o ensaio e a espontaneidade supre a desenvoltura. Agora a surpresa e a inexperiência conquistam mais do que o ensaio e a experiência. O ator está mais próximo da massa e, portanto, mais democrata, como um político. Com isso a popularização da especialização artística se inclina como um exemplo desta democracia. E como o que é divulgado é mais comentado, a massa se torna cada vez mais correspondente desta política.
                     No âmbito do cinema como instrumento político, por exemplo: a obra tenta ao máximo uma aceitação maior da massa por meio de sua proximidade em retratá-la para ser correspondido. E a massa o utiliza como referência para sua representação. Benjamin ilustra a diferença entre esses casos com a analogia entre o cineasta como um cirurgião, que rasga a separação entre o exterior e o interior e atinge as nossas entranhas num contato muito maior. E outra metáfora do pintor como um mágico, que nos deslumbra pelos traços ilusionistas que fazem a surpresa aparecer quanto mais distante se estiver.
                     Esta intervenção cinematográfica fica evidente no texto de Walter Benjamin. O resultado da obra finalizado e aperfeiçoado por um estúdio substituiu o improviso ilusionístico do palco. A praticidade da tecnologia substitui as unidades aristotélicas do drama: tempo, espaço e ação dramática. Pois o tempo pode ser controlado de acordo com o corte das cenas ou com a câmera lenta, o espaço pode se confundir com um close ou ser ampliado, modificado ou mesmo excluído de cenário, a ação não conta mais com uma linha contínua, pois pode ser interrompida ou nem existir ao passo que é substituída pelos “finais felizes” citados no texto, sem modificações ou imprevistos. Agora a câmera participa da ação, diferente do olhar espectador anterior a ela, passivo a contemplação. Mas o tempo das imagens substituiu a “catarse” pela participação do inconsciente distraído. O que não deixou de dar maior passividade à reflexão.
                    A maneira inconseqüente da transformação na percepção em pura distração foi conseqüência de um dadaísmo (Benjamin cita o filme “Tempos Modernos”, de C. Chaplin como exemplo) reproduzido artificial e mecanicamente para as massas e transformado para o cinema com outro objetivo, diferente do inicial do dadaísmo como suscitador de indignação pública, para agora ser confundido com distração fantástica (Benjamin cita a humanização do rato Michey Mouse como exemplo). 
                        A pesquisa feita dessa mudança no aparelho perceptível é crucial para o entendimento de uma nova estética encontrada no cinema e da que ainda se pode construir. Até a arquitetura é posta como objeto desse estudo por ser algo presente em toda a história e que ainda não desapareceu talvez devido a sua utilidade. Pois se trata da presença do tátil agora como referencia da ótica, por causa de seu uso estar relacionado com o hábito e a repetição, os quais não deixam de ser formadores essenciais de nossas percepções se estiverem inter-relacionados como acontece no cinema. O cinema está no foco do autor para demonstrar o quanto a responsabilidade dessas mudanças podem ser percebidas nele por ser o objeto que a reflete. Ele conforta o espectador no ambiente que quiser, aproximando-o do tátil por meio do ótico, mesmo ainda continuando neste último.

                                       “E aqui, onde a coletividade procura a distração, não falta de modo algum a dominante tátil, que rege a reestruturação
                                do sistema perceptivo. É na arquitetura que ela está em seu elemento, de forma mais originária. Mas nada revela mais claramente
                                as violentas tensões do nosso tempo que o fato de que essa dominante tátil prevalece no próprio universo da ótica. É
                                justamente o que acontece no cinema, através do efeito de choque de suas seqüências de imagens. O cinema se revela assim,
                                também desse ponto de vista, o objeto atualmente mais importante daquela ciência da percepção que os gregos chamavam
                                de estética.” 8

                       Com isso, podemos concluir que a proposta de Walter Benjamin neste parágrafo é relatar a dependência direta que a aura possui com a tradição. E conforme a tradição muda ou se perde no meio desta falta do hábito de memorização, o qual também se extingue com os choques que o avanço tecnológico nas obras acumula na consciência e deforma a percepção, criando uma memória involuntária. Mas pela conclusão geral ao longo do texto, verifica-se que esta passagem tem como função somente alertar essa mudança da aura originada pelo rito para uma outra maneira de percepção, outra espécie de culto ainda pouco explorado ou pesquisado. Esta nova possibilidade de percepção foi disposta pelo autor ao utilizar a fotografia e o cinema como objeto de estudo para investigar esta nova era também considerara no âmbito estético.









NOTAS:
1 BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p.167.

2 BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p.168.

3 BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p.169.

4 BENJAMIN, W. “Pequena história da fotografia”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 101.

5 BENJAMIN, W. “O Narrador”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 220.

6 PALHARES, T. “A experiência da cidade e o declínio da aura”. In: Aura. A crise da arte em Walter Benjamin. São Paulo, Barracuda/ Fapesp, 2006, p. 101.

7 BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 171.

8 BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994, p.194.









BIBLIOGRAFIA:


(1) BENJAMIN, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Magia e Técnica, Arte e Política.Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994.

(2) PALHARES, T. “A experiência da cidade e o declínio da aura”. In: Aura. A crise da arte em Walter Benjamin. São Paulo, Barracuda/ Fapesp, 2006. v.01.

(3) BENJAMIN, W. “O Narrador”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Completas, vol. I. São Paulo, Brasiliense, 1994.

(4) BENJAMIN, W. “Pequena história da fotografia”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Brasiliense, 1994. Obras Completas, vol. I.



Elaborado por:

CRISTILENE CARNEIRO DA SILVA

Alunas do 1º termo do curso de Filosofia vespertino da Universidade Federal de São Paulo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sôo do infinito ( ou S∞ do ∞ )

O velho menino novo
traçou retas no destino
avolumou a área

Perpendiculou a vida
no tempo espacial
encontro seu temporal
deitado no espaço

Em tua companhia
és duração e me varia
entre a repetição
e a hora melodia
presente de nota 

teu passado escuro
s∞u, soôu feito futuro
música de mente
iludida pelo toque

a invadir o ambiente
enlaça nós, extremos

juntando as pontas
harmoniza refrãos

dupla na partitura
a compôr beijos cruzados
energia envolta no formato
de infinita canção



O material

Há de haver livros
pra soltar o espaço
preso na garganta
sentado em praças

Se ele se levanta
tem-se um buraco
abismo sem planta
susto sem palhaço

No saber do vácuo
nada se esconde
único horizonte
a conquista do ocupar

Do possuir aos montes
a cheia das marés
dos Belos, das fontes
cachoeira o que quiser

E veleja deitado
estirado nos bancos
preenche os espantos
e assume a ausência

Opositor da idéia
aparece pra poucos
por força da matéria
suborna até os loucos




Inspiração

Piração de si
aqui parada
equiparo a ação
ali, em nada

Ali é nação
tonta de medos
servem segredos
da louca razão

Ração de brinquedo
alimenta torturas
e não engole defeitos
os degusta em loucuras

mas não tem mais jeito
acabou os consertos
sem doenças no peito
doutoramo-nos sem cura
doidos em-si-pirados!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

"A curva" (ao corvo do Alan Poe)


























No rumo reto à lua
da rua que obsceco
num luto de protestos
morta, não observo
surgir na treva, a curva

Volumosa e muito escura
um vulto oculto no-turno
torta, no entanto, enxuta
distraiu minha conduta

Nenhum assunto
tudo e sem barulho
mudos pedregulhos

Tumulto super discreto
só suspirando o concreto:

Sempre Menos

Mas viremos:
ao mundo eu construía
rumores de amor
só por Poe, as Sias

Volto, aos poucos
à Beleza pura:
luta dos loucos
por Poestás

À vante e em segredo
arrumo um negro
que é índio, dred's pretos
pro Poe me pro Poe, mas...

Beijo um corpo
com medo turvo
de mudar o insolúvel:
ressucitar o absurdo
e não Poemais



Brinde

Aprendi a amar o próximo, aprendi
a dedicar-se ao máximo
a treinar feito um trapo
e miar aos farrapos

Ar prendi gostando de música
a teclas as notas: dim din
os toques dos dedos
a triscar meus medos

Arrependi a rotina e pendi
mobilizei conteúdos
aperfeiçoei mundos
alcancei sábios inclusos

Carpem-die muito
analisei minutos
a brincar de viver
hipnotizei o prazer

Ah: e rendi frutos!
agora vamos ter
alunos do futuro
ensinando o sofrer

Pendi e arpei
a globalização não me abraçou
mas a toquei
a caridade oportuna me deixou

Só tocar
mas deveria te furar
arranhar é pouco
e o toque deixa louco

Dia prenha
a parir filho teu
a crise dê lenha
àqueles que a fudeu

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Consolidação



Porque se insiste em pegar nesta mão furiosa e cheia de dedos? A insistência se tensiona e atenta. Não tenta. Mas os dias são. A lousa, cheia de causa e coisa, cousas. Puro papo de prosas. Isso pode ser uma joça, mas é do que se gosta. Gozado, de tu eu faço um mato, teatro. Não eu, mas me ato. Se é com o achar que eu te faço, então agrado o meu tato e te meto em mutretas, assim não me mato! Letras bestas destoam se suam além de soar, mas nessa se entoam, rimam feito testas lambidas das divas. Não, atestado está o divã de lado e com a solidão fica o medo, consolidado. Não lide somente com o só lhe dar...

repppppppprodução positivista

Professor pausa o pensar
porque por ele dispensa
pôs partes no ponto
parou Platão e pronto

Plantão de povos em pauta
plantou pontes no possível
passou do impossível
priorizou nossos predicativos

Pelas palavras, plenas plantas
explodem profecias expulsas
pelo pomar da imperfeição
desesperado expõe a repetição

Apreciação passiva e par              
por punir as penas e planas
aprofundar a política pública
e propôr pular o polar

Pinta de espanto
pois privou o primor
prova surpreendente
supriu a patente pelo amor
presentificou o passado

provocou o poder especial
da essência patrimonial
com seu simples despudor
de exemplificar com respostas
as perguntas de apostas

O cabelo

Ah, crescida em tua cabeça
não adianta me raspar
mesmo que você esqueça
é natural que eu apareça

É careca de saber
tem razões pra me cortar
até cansei de renascer
se jamais vai me aceitar

Só queria me debruçar
nas orelhas um cantinho
penteada em tuas mãos
ser presa do teu carinho

Caminho sempre abro
balanço, abano feito louca
bagunçada, caio em roupa
retirada do peito, desabo

Mas tu não me acolhe
recolhida pelo caos
embaraçada em poeiras
até que sua mente de novo
nova mente me queira


domingo, 22 de novembro de 2009

Fora d'água

Bem-te-vi desesperado
um tornado afoita
depena o transe à fora
vai triturado na moita

Fanático se balança
uma madeira o conforta
acolhedora raiz morta
tende acalmar o fôlego

Sôfrego pássaro preso
tanto pula feito ileso
que o abraço da árvore
só o traz frio e peso

Eis teu segredo
morno ar sufocante
calor que o dá medo
brincantes foguetes

Faíscam ardentes
sobem pelos arbustos
minas de fogo corrido
queimam o tronco opaco

Oco, explodem-lhes cinzas
chuva de brasa amiga
pingos de terra branda
afogam tua sede vândala

Pregados em folhas
deslizam os dois
livres de entraves
fortes como bolhas

àMar-te

Não quero te ter
não quero te mandar
sequer te reprimir
ou te emoldurar

eu vim pra te manter
em nosso modificar
artesãos desse viver
com sabores de envolver

contemplar essa beleza
natureza é o amor
retratá-lo é uma riqueza
que a arte nos mandou

já amo arte
não preciso de vênus
juntos no veneno
só quero fazer parte

de amar-te
dê-se a terra
que amor não é guerra
é um pequeno passe

afinal

Poentetermo               põetemor e pó
               mornonotempo
            

sábado, 7 de novembro de 2009

sui realis






Ontem fiz amor com o mar
areia absorvida, ah mar!
a encharcada te encontra
na onda a adentrar em mim

A mais inteira no mergulho
olha pra cima e blues!
a nuvem tocava barulhos
em forma de sabiá ou urubu?

Nenhum, n' outra era avião
minha parte divina também cética
pra amar assim o marasmo
a deixar o céu com a estética

Então voei e pulo a espuma
da água ao ar
já abracei tuas calúnias
agora volto a res pirar

Teu empurrão de beijo
deixou-me deitar
nos elementos de desejo
n'areia pouso a queimar
a secar castelos de lama

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Autor


Mi(s)tos

Até suas palavras soam
trans piram
meus ouvidos voam
deliram no banhar

Refresco que absorve
pelo olhar a dizer
quanto és límpido
teu esbaldar o meu tímido

E ao íntimo se dissolver
a nadar em meu tímpano
jorrando rios de seu viver
relampejos de ser, Ícaro

Chuva de fogo
explodia os trovões
limpando o lodo
lambuzado de razões

Ávido silêncio eloquente
emanava latente energia
voz dos corpos que expandia
a preencher todo o presente

Tela

Da fumaça barbarulhenta
dos farelos nebulosos
do vento em cada assento
dos impulsos perigosos

Faz no chão um aumento
envolta de cumprimentos
a arrebatar sua coragem
numa margem atrelada

Corrida levanta a imagem
o peso da beleza carregada
flutua como giz no papel
desenho da vida interpretada

No lamber do pincel
é pendurada a sua morte
mas depositada a sorte
nas cores do grito

Apoio ao peito
obrigado a florir
enquanto o pretexto
era na luz sumir

Giz branco espalhado      no infinito
com a extravagância dos conceitos
rabiscados num desvario
até a tela do vazio

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Compra-se

Escrito em 11/2008 para um exercício do centro de dramaturgia contemporânea:


COMPRA-SE




PERSONAGENS:

Criança
Vendedora


(Dentro de uma galeria, um Box define o espaço de uma loja. Um balcão separa e mantém a vendedora ocupada com qualquer coisa lá dentro. O personagem da criança passeia exibidamente pelas vitrines e pára em frente à loja de jóias.)



Criança: _ Vai ser essa daqui! Essa aliança, moça.

(a vendedora continua entretida nas jóias e não o escuta)

Criança: _ E-êi! Tô falando com você, não lava o ouvido, é? Quer fazer o favor de me atender?

Vendedora: _ Ah, não escutei, desculpe, o rapazinho quer alguma ajuda, tá perdido de alguém?

Criança: _ Eu falei que quero a aliança que tá no balcão.

Vendedora: _ Espera um minutinho enquanto eu termino isso? Assim dá tempo da pessoa que veio com você chegar pra verem juntos, mas pode ficar à vontade e qualquer coisa me chame, ok? ( vendedora volta-se pra o que estava fazendo antes)

Criança: _ A pessoa que veio comigo? Quem?

Vendedora: _ Ora, você não veio com a mamãe, o papai, ou alguém mais velho? Então...

Criança: _ Não, você tá vendo alguém mais velho aqui? Não tem ninguém, não. Eu vim só, com as minhas pernas. Ah, e com dois seguranças que ficaram lá fora.

Vendedora: _ Seguranças? Engraçado, você não me é estranho... O que um pequenino faz nesse shopping sozinho? O que quer com essa aliança, é presente?

Criança: _ Credo, como é xereta! O que eu vou fazer com a aliança não te interessa, eu quero levar porque gostei e pronto acabou. Vocês aceitam cartão?

Vendedora: _ Cartão? Sim, mas...

Criança: _ Mas o quê?

Vendedora: _ Não vendemos para pessoas com documentos de terceiros, só pessoalmente...

Criança: _ Como assim? E eu não estou aqui, pessoalmente? Por acaso tenho cara de imbecil ou o quê? Sou de carne e osso, vivinho da silva! Vou comprar sim, não tem terceiros, o cartão é meu!

Vendedora: _ Mas também não aceitamos compras feitas por... menores... sem a autorização de um... titular... no banco, entende, mocinho? Infelizmente ‘não vamos estar podendo fazer’ nada por você...

Criança: _ Ah, você pode não ter o que fazer, mas eu tenho: vou comprar esse anel sim! Com o meu dinheiro, minha conta e todo documento que você precisar, eu tenho tudinho aqui, quer ver? Mas que saco, hein... Eu vou ter que te mostrar quem sou pra me reconhecer?

Vendedora: _ Tudo bem, eu posso até olhar, mas... (pegando os documentos que a criança entrega pra ela) Quantos anos você tem?

Criança: _ Está ai no meu RG, ou você não sabe ler?

Vendedora: _ Nossa! Mas como arranjou toda essa papelada? Você ainda não é independente, precisa de um responsável pra assinar por você!

Criança: _ Eu te dou até meu autógrafo se quiser, não sabe quem eu sou? Idade não é documento, e eles eu já te entreguei. Eu já sou dono do meu nariz, o resto o meu dinheiro paga! Por isso eu vou comprar sim, o comprovante de renda também já tá ai, agora eu quero a aliança!

Vendedora: _ Incrível como tá tudo certinho mesmo, não sei como... Se você cuida disso tudo, quem cuida de você, menino? Isso é muito fora da lei, como você conseguiu tudo isso registrado? Você tem até carteira de trabalho assinada!

Criança: (com ar muito formal) _ Claro, sou apresentador profissional de uma emissora de TV, daquele programa “Brincar de ser fofinho”, agora se lembra de mim? Então... Vai dizer que isso é crime? E você, quem pensa que é pra me fazer tanta pergunta?

Vendedora: _ Nossa, você é igualzinho como aparece na TV: chato mesmo... Digo, pessoalmente é muito mais conservado, quer dizer, mais novo e tão pequeno que...

Criança: _ E olha que não é todo dia que aparece alguém assim como eu por aqui, hein... Como boa vendedora é bom aceitar logo minha compra, e fazer o seu serviço. Se não eu vou ter motivos pra sair da lei de verdade e mandar meus seguranças armados virem fazer você me entregar o anel!

Vendedora: _ Ora, mais essa! Eu não acredito no que estou ouvindo de um pirralho desses! Você tá me ameaçando de assalto e ainda pelos seus próprios seguranças? Cadê a inocência dos seus nove anos de idade, garoto?

Criança: _ Envelheceu, nove anos já é muito, tia! Ninguém mais é inocente...

Vendedora: _ Eu vou chamar a polícia se você continuar insistindo e até me ameaçando desse jeito pra eu te vender o anel!

Criança: _ Pra você ver como são as vendedoras de hoje, né? A gente consumidor é que anda fazendo o papel delas, ter que apelar pra compra, já que elas não vendem...

Vendedora: _ Escuta, eu só não vendo porque você está tomando muito do meu tempo, atrapalhando o meu serviço! Porque você não vai brincar e me deixa trabalhar sossegada? Eu não quero complicação para o meu lado, mas desse jeito vou ser obrigada a tomar outras providências...

Criança: _ Chama a polícia então, você não ia chamar? Mas acho que eles vão ter mais trabalho com vocês da loja do que comigo... Bijuterias com nome de jóias, penas de animais em extinção pra fazer brinco, loja no meio de outras que vendem roupas e cd’s piratas, isso tudo tem alvará?

Vendedora: _ Com quem você aprendeu tudo isso? Além de irritante todo espertinho! Isso não é da sua conta.

Criança: _ Então porque é da sua investigar a minha vida e não deixar eu comprar só por causa da sua curiosidade? Daqui você não vai me tirar nem me atirando pela janela, daqui eu não saio daqui ninguém me tira, só quando conseguir a aliança...

Vendedora: _ Nossa, aí está um bom negócio pra convencer cliente: você não quer trabalhar com a gente não? Eles tão precisando de alguém chato assim, eu sozinha não dou conta do recado...

Criança: _ Não, não, muito obrigado! Deus me livre trabalhar aqui! Cruz-credo... Para o seu governo, já estou muito feliz e satisfeito com o meu trabalho! Engraçado... Agora você é quem quer contratar menores de idade e violar a lei, é? Passa logo o anel se não eu chamo a polícia!

Vendedora: _ Eu não posso arriscar o meu emprego, garoto!

Criança: _ E se você também ganhar alguma coisa com isso? Quanto quer ganhar em troca? Pago até o dobro do preço...

Vendedora: _ Pagar a mais? Eu é que vou pagar caro se te vender! Não compensa... Já ganho muito pouco por mês, mas é melhor do que perder o emprego.

Criança: (conquistadora) _ Olha que a oferta tá boa, você não vai achar isso com outro cliente, é pegar ou largar! Eu quem merecia um desconto de vocês, sabia? Mas tudo bem... (tirando o dinheiro do bolso) Tó, segura pra mim rapidinho?

(a vendedora segura o dinheiro que o menino lhe entrega)

Criança: _ Ah! (cantando) Enganei o bobo na casca do ovo! Você caiu nessa, vai ter que me entregar o anel, agora que já pegou no meu dinheiro eu não aceito devolução!

Vendedora: _ Mas eu não disse que tinha aceitado te vender, você só pediu pra eu segurar ele pra você, seu pilantrinha!

Criança: (começa a chorar) _ Eu vou falar pra todo mundo que você me roubou, vou chamar a minha assessora de imprensa pra te colocar no jornal e depois ir presa! Olha que eu faço um escândalo se...

Vendedora: _ Tá, tá bom... Chega disso, vai! Não precisa mais fazer manha. Mas você vai ficar sem nota fiscal! (pega a aliança para entregar ao menino, mas recua de repente ) Só mais uma condiçãozinha pra te entregar: antes quero saber o que um menino do seu tamanho vai fazer com isso.

Criança: _ Dá a aliança primeiro que depois eu falo.

Vendedora: (entregando o anel na mão da criança que já vai saindo mas é impedido pela vendedora)
_  Pronto, agora já pode responder minha pergunta.

Criança: _ Ah, não vou fazer nada demais, não. Só vou ... Brincar de passa anel! Quer?

(vendedora ri com reprovação e vira as costas pro menino, voltando-se para o serviço que fazia antes dele chegar, o menino dá de ombros e sai correndo.)

sábado, 24 de outubro de 2009

Olhar sobre os personagens

Aos atores de "Notícias da morte de Alberto da Silva", poema dramático de F. Gullar:

Um passeio de impressões minhas para expressar algumas das influências sentidas, resultantes do trabalho ou nem tanto, que exponho e espero que sirva como mais uma das referência que terão para criá-los:


Para o Adir,

Violinho

O atrevir da mente
no coração dos temidos
faz esse metido tímido
intervir nos videntes

Nos vestidos com juízo
pra esconder a morte presente
dão seu sentido como preciso
pra safarem o que mentem

Aos que a solução da morte
é não ter mais salvação
ele reve o soluçar da sorte
e revoluciona a ação

Nem sim nem não
ele viola a linha da memória
violina livremente a história
assume a liberdade do vão

Não é somente vazio
tocante e cortante
o seu contar com ironia
cheio do que é inquietante

E que aparece por cima do falar
além do contar a vida do morto
ou a morte do vivo, descontar
imagens distorce, reflete outro 


                  Ele esconde coisas quanto mais coisas conta. Ele conta a vida do morto descontando a morte dos vivos. Talvez queira pisotear na morte que carregamos, mas em vez disso ele somente sapateia e dança com palavras irônicas e chega mais longe do que se marchasse pra algum lugar. Ele não quer revolucionar, mas sim rever o soluçar. Parado pelos sapatos, ele alcança mais a vida dos outros do que se corresse. Não anda com os pés, mas quem passeia e faz a peça passar pelo tempo é sua fala, seu conto. Vão por essa ironia reclamadora, e o que move suas palavras são esses sapatos urbanos e brilhantes que vestiu e que prendem suas pernas, dali não sai mais, porém solta informações e um mundo de coisas contingentes que faz o espetáculo voar junto com a imaginação dele. A vida do personagem é essa crítica (estudo) que faz sobre o morto, ele é a sua obra, pois só existe graças ao morto. É a vida após a morte. Ele é o sonho do morto, o seu violino, de cordas bem aguçadas. Como música que nos toca, mas não porque conta algo, de fato e com todas as letras, mas sim porque indiretamente nos diz pela melodia irônica, quase um cantar... Seus sapatos e sua ironia correspondem, respectivamente, às suas ações e pensamentos: são as máscaras de brinquedo que ele conduz, tira e põe quando quer, mantendo-os sob controle: às vezes pensamentos e ações contidos, noutras revelados. Ele sabe muito sobre o morto e, mais ainda sobre os vivos.





Para a Sassá,


Pena de vida

Na queda delirante
faço nosso enxoval de flores
pra ainda ser a praticante
do teu véu de sonhos

Fostes minha vida
pois a realizava
murchou-me das dores
fez-me confortada

Quão fortalecida
choro nossa alveza
com tristeza só de ida
no lar ainda há riqueza

Paredes límpidas e puras
sua transparência construiu
você até morto me segura
confiou-me tua vida entregue
guardou-a segura, não possuiu

Agora vivo por tua morte
pelo que não sonhou
choro chuvas a regar
o que não pôdes plantar

Pois tu me desenterrou
eu era terra e você ar
pessimismo mais delírios
satisfaziam meu realizar

Casamento florecido
com a brancura dos desejos
vazios e sem ruídos
que expiraram meu falecido

Deixo-te ir, marido
pois pedes meu viver
a carregar o ocorrido
atiro em sonhos de morrer

E o peso os puxa ao chão
se fincam no assoalho
semeando no cimento
meus olhares de orvalho

A cultivar o matrimônio
e agora colher o antônimo
de ser mulher da morte
além de ter sido na vida

Infinito encontro oposto
sempre implicou um ao outro
eu brotava do teu querer
você apodrecia do meu sofrer

Nunca mais insegura
condenada à raiz da tortura
do amor que não mais se discute
até que a morte de novo nos junte


               Ela acredita na morte. Porque a morte a faz como está agora, compreende a nova situação do marido, mas quer continuar acompanhando-o, não pode fazer outra coisa além disso, continua a viver para isso. Nada a importa mais, a existência dela agora é assegurada pelo que o marido lhe deixou, nem quando morto ele a deixou insegura, ele ainda segura a tua vida com o seguro de vida que lhe deixou, isso a deixa mais perto dele e suficientemente confiante pra deixá-lo ir, e mesmo assim continuar cúmplice dele... Ele não a deixou, e por isso ela pode lhe deixar ir. Ela existe agora pelo pedido deixado por ele em forma de vida... Ele é o único ser mesmo morto, que a faria viver, agora mais vivo do que todos os outros mortos e vivos! Ele sonhava com coisas poucas na vida e agora ela vai realizar muita coisa por ele. Passa a ser não só a mulher da vida dele, como também de sua morte. Até que a morte os una, não os separe.






Para o Bruno,


Vermestre-cuco

Estou aqui, presente
seja morto ou vivo
cutuco qualquer gente
e de Terra não me privo

Porque cavuco o mundo
caminho dentro da matéria
e as amoleço, no fundo
esburaco o vazio da miséria

Esse lugar pobre de tempo
que nunca é
é o chegar ou o que foi
terreno de vento

O lamento pra consolo
vem dado pela gentil morte
e o homem é pedaço do bolo
que aceitamos todo dia, aos lotes

Em potes lacrados
vai-se junto a terra e o ar
forço a vida, preencho o lugar
respira-se morte, estado

Nos terrestres assustados
vou pelas narinas carentes
busco cheiro da vida com dentes
onde adentro mais tragado

Sou bactéria a roer o ar
que vos faz viver
sobre o me matar
sufoca-me respirando prazer

Mas alimento-me de morte
não morro, eis minha sorte
mato vida, a morte, sobre vivo
e pelas duas que me ativo


                 Ele não acredita na morte. Não há como morrer, a vida já está morta. A morte não é somente mais uma parte da vida. A morte já está viva na vida, e a vida, morta. Viva a morte! Morto ou vivo, vivo ou morto, tanto faz. É tudo tão só terra, só matéria e chão que se pode fingir de morto a qualquer momento da vida que ninguém vai notar, a não ser quem ainda acreditar em superstições... A única diferença existente pra diferenciar um morto de um vivo é o cheiro. O resto é indiferença, tudo igual. Ele é a vida durante a morte e por isso se aproxima muito dela. Alimenta-se dela, como as bactérias. Ele é a expressão do tempo presente da morte: quem morre não tem mais tempo, pois o tempo da morte nunca é o hoje, é o chegar ou o que já foi, é um acontecimento que não permanece a não ser através das bactérias que os engolem numa junção de cadáveres ruídos. Agora estão pelos ares e respiramos morte por meio delas no presente. Ele ocupa todo o espaço, como as bactérias no ar e é a imunidade em pessoa: além de morte e vida, por sobreviver das duas, cura vidas e lambe mortes.



Para Tamiris,


Programado

Armários esgotam
sensações dobradas
penduradas em cabides
as gavetas manobram
pra não amarrotar palpites

Opiniões bem passadas
ao vapor do ferro
assim veste seu terno
sai a porta, beija a amada

Vai à chegada
volta ao sair
e não sai do vir
enfim, no nada

‘Vivo, vou
envolto de vultos
não me estou
sumi no tumulto’

Rapitado pelo rápido
só a velhice o seqüestra
o novo é sempre inválido
por um vazio que stressa

Feriado, relaxa o letrado
joga cruzada nas palavras
monta o chinelo enamorado
e demite todas travas

Compra enlatados de amor
pra festejar o cansaço
de tudo entregue à toa
e tabelado em pedaços
depois lacrados de humor

Fim de um dia
e o sonho ainda lá
enquanto sempre dormia
sonhava em acordar
e o transe vago insistia


         

             















           
              
                   Ele vive na morte. Em São Paulo, a cada dia de sua vida, morre. Morre ao dormir, ao acordar, ao ler as notícias violentas, ao trabalhar pra nada, ao cumprimentar o nada. Transita pelo mundo preso pelo nada que guarda em sua bolsa pra não perder, e pede o mesmo nada sempre, e sente falta de nada quando nada tem. Será que ele não quer nada? Vazio pesado que o faz sequer saber que existe outra coisa a não ser o automatismo no sonhar: " bom dia, em que posso ajudar? Pois não, posso ajudar? Posso? Em que? Deixa, por favor", frases de desespero dos sentimentos enjaulados no dia-a-dia que "queima e corrói sua vida, não alcança seus desejos" e não chega nem perto do coração pois há grades e portas de metrô a levar seus sonhos já atrasados para mais um dia de trabalho, e ele só ouve violinos chorando por trás do barulhos dos trilhos. É um violino sem cordas e as pessoas não o ouvem, muito barulho no trânsito e silêncio nas pessoas. Ele pode ler as notícias diárias ou gritar que precisa viajar e namorar que são as mesmas coisas. Coisificaram-no. És um esqueleto banal e duro, com carne mole em volta... Mas deseja a morte das banalidades, violar a linha, violinar, ver lindos das. Está entre a vida e a morte, não porque se acidentou, mas porque é um acidente, coitado: não vive nem morre. Desvive, desmorre, desmorona e desvia o deslize. Ele não existe mais não porque morreu, mas porque viveu a pôr o "des" na frente de tudo, se destruindo. Talvez a morte o faça diferente, o faça mais vivo ou outra coisa que não seja essa vida. Ele a deseja e a repudia. É a morte durante a vida e a vida durante a morte, um fantasma. Mas talves nunca o tenham ouvido e visto, se importado tanto com ele quanto agora, invisível mas citado como só mais um morto no mundo dos mortais desligados.



É nada não

Retrai a atração
Mas não distrai
os sentidos, vão!

E tão idos
ao transe desse ápce,
deduz-se o lance:
o nada

Nada eis o dom!
Da ilusão se faz camarada
para achar o tom
do vão
do nada

Da resistência ao frágil

Dezenada, zerada.
Oxigênio humilha a inspiração
e corro, só corro.

Ora o coração vai primeiro
acelerando as idéias,
ora a direção cerebral
chuta a perna do coração.

Sutil, sutil susto
escondido e íntimo,
que nem o indivíduo vê,
só sente os espasmos internos
mas não descobre porquê.

Cristianismo

Extinguem o tempo
pra criar o esquecimento
talvez pra agradar
o que se pode lembrar

Mas fica a sensação
de haver coisas guardadas
distantes da razão
nem pela mesma recordada

Coisas sem causa
mas que pela ocasião
sentimentos repousam
na memória do coração

O choro

Ao curvar a cabeça de lado
assim tu me olhas
No teu franzir de sombrancelha
É onde eu moro

Faço-te meu telhado
E desaba-me auroras
Flutuo até suas telhas
E de luz, também jorro

Ao fazer-se de morado
Assim tu me mostras
E se não me desaconselhas
És tu, o meu forro

Curvo-te inocentado
E culpe minhas escolhas
Desculpei em tuas orelhas
O teu rosto

Descrição discreta

Des apareço
Des faço -me
nas letras

disfarço-me de tinta

com a intenção

de me desf a  z   e    r


transparecer pela folha


em   b  r  a  n  c  a


pra você escrever

Outro um




             Quando toco o pé no chão e empurro cimentos, chego num lugar chamado "Tudo acaba em pizza", com a intenção medonha de ser inconveniente mesmo, pergunto ao dono se aquilo tudo tinha hora pra acabar.
              _ Sim, uma hora fecha.
              Uma da manhã, achei cedo. Tudo bem que eu não ficaria até esse horário, mas...
              _ Outra hora eu passo _ respondi.
              Uma outra uma. Em outro bar fui parar. Aqui parada, meus pensamentos ainda andam até... Aterrorizaram-se quando a música tocada por três jovens na minha frente me deu nenhum motivo pra lembrar das tantas ouvidas por nós a não ser o de querer ficar com as mesmas na cabeça, a todo tempo. A música anda sobre a minha cabeça à procura da lembrança vivida, assim como eu corro do mundo pra esquecer que está n'algum lugar desse todo como única coisa que nos une.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ex CESSO



ESTADO onde ninguém
                             é 
tanto                   TEMpo
SER

Necessidade acidental

                  Sol nas ruínas de uma obra abandonada pela construtora. O amontoado de pedras ao redor formava uma ciranda estridente de silêncio gritante. Há muito tempo já era domingo, o barro duro mantinha correspondências com o laranja da tarde.
                  Não ventava. Do alto daquele morro, muitos terrenos baldios empoeirados por um mato verde, mas curto, por isso sem vingar e seco. Às vezes me dava a impressão de que se o tocasse com a mão num movimento de esparramá-lo como quem abana um adeus para o chão, ele se espalharia todo, ralo. Não parecia aparado, porque devia haver mais de datas que ninguém sequer escorregava por aquele caminho, nem chuva. Mas o lugar estava firme, mesmo que parado. Aqui se pisa com força pra manter o cuidado de terra enxovalhada. Desbotada, sem minhas botas agora, sinto melhor a temperatura suada da grama. Mesmo que uma parte das costas não perceba sua dureza devido à lordose, deito. Com o corpo esticado e rente ao plano baixo, sente-se menos o peso desse lugar carregado de levezas destoantes. Aprofundo-me natureza adentro.
               O silêncio de imagens intactas e contingentes fecha meus olhos, a ausência de diferença nas vibrações sonoras preenche gritantemente meus ouvidos. O paradoxo do ar enche meus pulmões, confundindo minha respiração na aparência de estar parada ou sendo forçada à vida, e meu tato está enterrado. Nenhum sentido.
                Eis que um tremor vem de cima. Como se uma grande pegada chegasse. Daqui do fundo isto foi causa de um terremoto sobre mim. Novamente a pisada. Pela cordialidade ao encurvar sua força para não rachar a superfície plana, como se me cumprimentasse simpaticamente, nessa formalidade arredondada feito arco, talvez ferradura: um cavalo? Um cavalo me flechou... Digo, me sacudiu, me acordou. Opa, não: balançou. Ou melhor, animou; ressuscitou; tremeu, não sei. Mas é preciso uma definição...
                O barulho parou. Mal percebi a calmaria do estrondo enquanto discutíamos sobre o seu conceito. Ainda ali? Não há como saber, muita terra entre esse cavalo inalcançável e eu. Mal sei quem você é, a sua cor, pêlos, músculos, tórax, dentes perfeitos, olhar de horizonte selvagem e puxados, feito um índio? E se não fores um cavalo? Se me enganaste com este cuidado manso ao chegar assim, gentil e com tamanha elegância no trote? Possivelmente, fora apenas um trote. Não te conheci, não te conhecerei. Aliás, tu já galopaste, pelo jeito... Já saíra campo a fora. Não me notou. Mas o registro aqui, gostaria de segurar tuas patas, por um momento pelo menos, mesmo que isso fosse rastejante. De repente, pode ser que ainda esteja ai, deixa-me sentir o teu coice ou outro sinal de presença? _ o que penetra neste silêncio melancólico entre o fim da pergunta infinita pela falta causal a iniciar uma resposta. O ponto de interrogação tem o formato da ferradura de cavalo, aberta. Várias perguntas seguidas e eu o liberaria do que prende o seu seguir. Tanta realidade nos separa, esse chão entre nós. Você poderia afundar, em vez de caminhar sobre mim. Não há como prová-lo nem conhecê-lo de outra maneira senão esta. Então vá, pode ir, siga teu rumo. Nem que você me tocasse, não tenho mais sentido para tal experiência.
                Ou eu poderia adivinhá-lo como lobo? Sim, um lobo enigmático que vem em busca de comida e depois some, obscuro e secreto, quase um lobisomem. Neste caso, então cultiva-me da terra: semeie, adube com tuas fezes que eu renasço encontrando passagem até ai, para o seu íntimo interior, inclusive, já que me devorarias como fera. Mas lobo não, se fosse já teria cavucado buracos e me descoberto, vasculhado tudo por aqui. Entretanto não fuçaste a presa, no máximo carimbou histórias ao mostrar as digitais com as patas no solo. Somente um contador lendário disfarçado de cavalobo, por isso nem de todo cavalo, nem lobo.
Muito tempo de silêncio empírico, só a mente querendo ultrapassar a matéria para descobrir algo lá em cima. Uma transmissão telepática, um grito metafísico, virtual, nada. Somente a marca pregada na memória e sentida no momento da reviravolta. Nesse lugar velho onde encontro essa luta para poder amá-lo e ser reconhecida por você, descubro o surgimento desse sentido de busca que renova meu ser. Então, reformo o meu corpo: vendi e comprei umas partes, criei ordens para governar melhor as minhas roupas, concertei meus cinco sentidos com ships, minhas células agora têm a potência da nanotecnologia e programei o meu cérebro virtualmente para eu não esquecer de acreditar na missão removedora da terra que nos separa. Nas unhas, pus bombas atômicas, assim provoco efeito reativo para você pelo menos saber que estive aqui por baixo o tempo todo, caso as minhas perturbações emocionais estiverem muito conflitantes e conturbarem demais toda a inquietação sentida desde que seu terror aconteceu.
                Mas cheia de esperar, no desespero, acabo te alcançando pelas unhas minadas. Essas garras desenvolvidas cuidadosamente, agora precisam servir para alguma coisa, já que não mais tenho somente aquela especulação desvairada e pensante para me proteger. Entre essas ruínas ancestrais de metal, surge esse bicho de minha cabeça. Com ganchos cravados a arranhar a terra, cavando pra cima e aterrorizando-me mais. Assim continuo a pensar ainda, mas a diferença é que agora consigo me agarrar nas pedras. Aliás, como inferi ser um bicho do outro lado? Só porque algo pesa sobre mim? Isso não quer dizer que sejam patas, necessariamente. Mas então, o quê? Hein? Talvez... Ou uma força jorrada, sobrenatural. Um homem, com massa relevante pra repercutir na minha posição de inferioridade, tão superior quanto as próprias camadas hierárquicas e geológicas. De repente, uma pedra, um meteorito.
Uma coisa está diagnosticada: minhas idéias se elevaram muito desde que vim para este plano mergulhado, assim como os sentidos se artificializaram. Como se sucedesse a inversão para o oposto, um avesso. Pois sempre inferi que profundezas e abismos fossem o lugar das sensações e renúncias, não da intelecção. A essa altura, o que o alto reserva senão instintos, então?
               Logo, o amor será o próximo sentido que enviarei aos altares, pela explosão apocalíptica atirada de minhas unhas. Pois já supus tanto para resolver essa curiosidade, que até a palavra curiosidade é algo que eu jamais recomendaria pra alguém que não quisesse perder de vista alguma possibilidade. O amor supre e abstrai a curiosidade, por ser constituído de todas as coisas possíveis. Já foram cavalo, lobo, o divino, toda a flora e fauna, ciência e História, mercadorias e até a liberdade solta pelos ares, e nada. Até agora, jogo tudo pro alto a captá-lo enquanto me prendo aqui, mas as palavras no ar pesam e voltam. O corpo está em decomposição, o sono foi demasiado, não há como levantar ou acordar, agora é objeto, desigual ao que não seja o próprio, em si mesmo. Nenhum movimento além da imaginação: sonho e pensamento, represensação. Aqui o amor ainda pode estar leviano, espero. Não possui gravidades. Mas como a esperança rouba muito de sua leveza, vou ficar por aqui, sem esperar que a curiosidade pese mais do que ele.



curadoria

OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA
CURIOSIDADE,
CURE A CURIOSA

CURIOSIDADE,
CURE A CURIOSA
OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA

OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA
CURADORIA

Adrinalina

Drama de meu sumiço
existo com tua essência
mas desapareces se estou
tu não é minha presença

A abstinência se esgotou
mas continuo em tua linha
persigo um desaparecido
no seu rastro de adrenalina

Proteína pra ser querido
quanto mais eu a suspiro
mais tua ausência cresce
e toca o que transpiro

Miro o suor que prevalece
na epiderme ressuscita
encontra a energia perdida
na pista dos seus parasitas

Ditas-me tuas idas
não adianta ires longe
nossas células a tecer
continuam se se esconde

Onde aparecer
pra enfim te infiltrar
alcançar teus rins
e vires me abraçar?

Linear sem fim
sua veia me trançou
acertos traçados
perdida a achá-lo vou

sábado, 10 de outubro de 2009

Um aparte

à parte primeiro
depois arte
inteiro