quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Compra-se

Escrito em 11/2008 para um exercício do centro de dramaturgia contemporânea:


COMPRA-SE




PERSONAGENS:

Criança
Vendedora


(Dentro de uma galeria, um Box define o espaço de uma loja. Um balcão separa e mantém a vendedora ocupada com qualquer coisa lá dentro. O personagem da criança passeia exibidamente pelas vitrines e pára em frente à loja de jóias.)



Criança: _ Vai ser essa daqui! Essa aliança, moça.

(a vendedora continua entretida nas jóias e não o escuta)

Criança: _ E-êi! Tô falando com você, não lava o ouvido, é? Quer fazer o favor de me atender?

Vendedora: _ Ah, não escutei, desculpe, o rapazinho quer alguma ajuda, tá perdido de alguém?

Criança: _ Eu falei que quero a aliança que tá no balcão.

Vendedora: _ Espera um minutinho enquanto eu termino isso? Assim dá tempo da pessoa que veio com você chegar pra verem juntos, mas pode ficar à vontade e qualquer coisa me chame, ok? ( vendedora volta-se pra o que estava fazendo antes)

Criança: _ A pessoa que veio comigo? Quem?

Vendedora: _ Ora, você não veio com a mamãe, o papai, ou alguém mais velho? Então...

Criança: _ Não, você tá vendo alguém mais velho aqui? Não tem ninguém, não. Eu vim só, com as minhas pernas. Ah, e com dois seguranças que ficaram lá fora.

Vendedora: _ Seguranças? Engraçado, você não me é estranho... O que um pequenino faz nesse shopping sozinho? O que quer com essa aliança, é presente?

Criança: _ Credo, como é xereta! O que eu vou fazer com a aliança não te interessa, eu quero levar porque gostei e pronto acabou. Vocês aceitam cartão?

Vendedora: _ Cartão? Sim, mas...

Criança: _ Mas o quê?

Vendedora: _ Não vendemos para pessoas com documentos de terceiros, só pessoalmente...

Criança: _ Como assim? E eu não estou aqui, pessoalmente? Por acaso tenho cara de imbecil ou o quê? Sou de carne e osso, vivinho da silva! Vou comprar sim, não tem terceiros, o cartão é meu!

Vendedora: _ Mas também não aceitamos compras feitas por... menores... sem a autorização de um... titular... no banco, entende, mocinho? Infelizmente ‘não vamos estar podendo fazer’ nada por você...

Criança: _ Ah, você pode não ter o que fazer, mas eu tenho: vou comprar esse anel sim! Com o meu dinheiro, minha conta e todo documento que você precisar, eu tenho tudinho aqui, quer ver? Mas que saco, hein... Eu vou ter que te mostrar quem sou pra me reconhecer?

Vendedora: _ Tudo bem, eu posso até olhar, mas... (pegando os documentos que a criança entrega pra ela) Quantos anos você tem?

Criança: _ Está ai no meu RG, ou você não sabe ler?

Vendedora: _ Nossa! Mas como arranjou toda essa papelada? Você ainda não é independente, precisa de um responsável pra assinar por você!

Criança: _ Eu te dou até meu autógrafo se quiser, não sabe quem eu sou? Idade não é documento, e eles eu já te entreguei. Eu já sou dono do meu nariz, o resto o meu dinheiro paga! Por isso eu vou comprar sim, o comprovante de renda também já tá ai, agora eu quero a aliança!

Vendedora: _ Incrível como tá tudo certinho mesmo, não sei como... Se você cuida disso tudo, quem cuida de você, menino? Isso é muito fora da lei, como você conseguiu tudo isso registrado? Você tem até carteira de trabalho assinada!

Criança: (com ar muito formal) _ Claro, sou apresentador profissional de uma emissora de TV, daquele programa “Brincar de ser fofinho”, agora se lembra de mim? Então... Vai dizer que isso é crime? E você, quem pensa que é pra me fazer tanta pergunta?

Vendedora: _ Nossa, você é igualzinho como aparece na TV: chato mesmo... Digo, pessoalmente é muito mais conservado, quer dizer, mais novo e tão pequeno que...

Criança: _ E olha que não é todo dia que aparece alguém assim como eu por aqui, hein... Como boa vendedora é bom aceitar logo minha compra, e fazer o seu serviço. Se não eu vou ter motivos pra sair da lei de verdade e mandar meus seguranças armados virem fazer você me entregar o anel!

Vendedora: _ Ora, mais essa! Eu não acredito no que estou ouvindo de um pirralho desses! Você tá me ameaçando de assalto e ainda pelos seus próprios seguranças? Cadê a inocência dos seus nove anos de idade, garoto?

Criança: _ Envelheceu, nove anos já é muito, tia! Ninguém mais é inocente...

Vendedora: _ Eu vou chamar a polícia se você continuar insistindo e até me ameaçando desse jeito pra eu te vender o anel!

Criança: _ Pra você ver como são as vendedoras de hoje, né? A gente consumidor é que anda fazendo o papel delas, ter que apelar pra compra, já que elas não vendem...

Vendedora: _ Escuta, eu só não vendo porque você está tomando muito do meu tempo, atrapalhando o meu serviço! Porque você não vai brincar e me deixa trabalhar sossegada? Eu não quero complicação para o meu lado, mas desse jeito vou ser obrigada a tomar outras providências...

Criança: _ Chama a polícia então, você não ia chamar? Mas acho que eles vão ter mais trabalho com vocês da loja do que comigo... Bijuterias com nome de jóias, penas de animais em extinção pra fazer brinco, loja no meio de outras que vendem roupas e cd’s piratas, isso tudo tem alvará?

Vendedora: _ Com quem você aprendeu tudo isso? Além de irritante todo espertinho! Isso não é da sua conta.

Criança: _ Então porque é da sua investigar a minha vida e não deixar eu comprar só por causa da sua curiosidade? Daqui você não vai me tirar nem me atirando pela janela, daqui eu não saio daqui ninguém me tira, só quando conseguir a aliança...

Vendedora: _ Nossa, aí está um bom negócio pra convencer cliente: você não quer trabalhar com a gente não? Eles tão precisando de alguém chato assim, eu sozinha não dou conta do recado...

Criança: _ Não, não, muito obrigado! Deus me livre trabalhar aqui! Cruz-credo... Para o seu governo, já estou muito feliz e satisfeito com o meu trabalho! Engraçado... Agora você é quem quer contratar menores de idade e violar a lei, é? Passa logo o anel se não eu chamo a polícia!

Vendedora: _ Eu não posso arriscar o meu emprego, garoto!

Criança: _ E se você também ganhar alguma coisa com isso? Quanto quer ganhar em troca? Pago até o dobro do preço...

Vendedora: _ Pagar a mais? Eu é que vou pagar caro se te vender! Não compensa... Já ganho muito pouco por mês, mas é melhor do que perder o emprego.

Criança: (conquistadora) _ Olha que a oferta tá boa, você não vai achar isso com outro cliente, é pegar ou largar! Eu quem merecia um desconto de vocês, sabia? Mas tudo bem... (tirando o dinheiro do bolso) Tó, segura pra mim rapidinho?

(a vendedora segura o dinheiro que o menino lhe entrega)

Criança: _ Ah! (cantando) Enganei o bobo na casca do ovo! Você caiu nessa, vai ter que me entregar o anel, agora que já pegou no meu dinheiro eu não aceito devolução!

Vendedora: _ Mas eu não disse que tinha aceitado te vender, você só pediu pra eu segurar ele pra você, seu pilantrinha!

Criança: (começa a chorar) _ Eu vou falar pra todo mundo que você me roubou, vou chamar a minha assessora de imprensa pra te colocar no jornal e depois ir presa! Olha que eu faço um escândalo se...

Vendedora: _ Tá, tá bom... Chega disso, vai! Não precisa mais fazer manha. Mas você vai ficar sem nota fiscal! (pega a aliança para entregar ao menino, mas recua de repente ) Só mais uma condiçãozinha pra te entregar: antes quero saber o que um menino do seu tamanho vai fazer com isso.

Criança: _ Dá a aliança primeiro que depois eu falo.

Vendedora: (entregando o anel na mão da criança que já vai saindo mas é impedido pela vendedora)
_  Pronto, agora já pode responder minha pergunta.

Criança: _ Ah, não vou fazer nada demais, não. Só vou ... Brincar de passa anel! Quer?

(vendedora ri com reprovação e vira as costas pro menino, voltando-se para o serviço que fazia antes dele chegar, o menino dá de ombros e sai correndo.)

sábado, 24 de outubro de 2009

Olhar sobre os personagens

Aos atores de "Notícias da morte de Alberto da Silva", poema dramático de F. Gullar:

Um passeio de impressões minhas para expressar algumas das influências sentidas, resultantes do trabalho ou nem tanto, que exponho e espero que sirva como mais uma das referência que terão para criá-los:


Para o Adir,

Violinho

O atrevir da mente
no coração dos temidos
faz esse metido tímido
intervir nos videntes

Nos vestidos com juízo
pra esconder a morte presente
dão seu sentido como preciso
pra safarem o que mentem

Aos que a solução da morte
é não ter mais salvação
ele reve o soluçar da sorte
e revoluciona a ação

Nem sim nem não
ele viola a linha da memória
violina livremente a história
assume a liberdade do vão

Não é somente vazio
tocante e cortante
o seu contar com ironia
cheio do que é inquietante

E que aparece por cima do falar
além do contar a vida do morto
ou a morte do vivo, descontar
imagens distorce, reflete outro 


                  Ele esconde coisas quanto mais coisas conta. Ele conta a vida do morto descontando a morte dos vivos. Talvez queira pisotear na morte que carregamos, mas em vez disso ele somente sapateia e dança com palavras irônicas e chega mais longe do que se marchasse pra algum lugar. Ele não quer revolucionar, mas sim rever o soluçar. Parado pelos sapatos, ele alcança mais a vida dos outros do que se corresse. Não anda com os pés, mas quem passeia e faz a peça passar pelo tempo é sua fala, seu conto. Vão por essa ironia reclamadora, e o que move suas palavras são esses sapatos urbanos e brilhantes que vestiu e que prendem suas pernas, dali não sai mais, porém solta informações e um mundo de coisas contingentes que faz o espetáculo voar junto com a imaginação dele. A vida do personagem é essa crítica (estudo) que faz sobre o morto, ele é a sua obra, pois só existe graças ao morto. É a vida após a morte. Ele é o sonho do morto, o seu violino, de cordas bem aguçadas. Como música que nos toca, mas não porque conta algo, de fato e com todas as letras, mas sim porque indiretamente nos diz pela melodia irônica, quase um cantar... Seus sapatos e sua ironia correspondem, respectivamente, às suas ações e pensamentos: são as máscaras de brinquedo que ele conduz, tira e põe quando quer, mantendo-os sob controle: às vezes pensamentos e ações contidos, noutras revelados. Ele sabe muito sobre o morto e, mais ainda sobre os vivos.





Para a Sassá,


Pena de vida

Na queda delirante
faço nosso enxoval de flores
pra ainda ser a praticante
do teu véu de sonhos

Fostes minha vida
pois a realizava
murchou-me das dores
fez-me confortada

Quão fortalecida
choro nossa alveza
com tristeza só de ida
no lar ainda há riqueza

Paredes límpidas e puras
sua transparência construiu
você até morto me segura
confiou-me tua vida entregue
guardou-a segura, não possuiu

Agora vivo por tua morte
pelo que não sonhou
choro chuvas a regar
o que não pôdes plantar

Pois tu me desenterrou
eu era terra e você ar
pessimismo mais delírios
satisfaziam meu realizar

Casamento florecido
com a brancura dos desejos
vazios e sem ruídos
que expiraram meu falecido

Deixo-te ir, marido
pois pedes meu viver
a carregar o ocorrido
atiro em sonhos de morrer

E o peso os puxa ao chão
se fincam no assoalho
semeando no cimento
meus olhares de orvalho

A cultivar o matrimônio
e agora colher o antônimo
de ser mulher da morte
além de ter sido na vida

Infinito encontro oposto
sempre implicou um ao outro
eu brotava do teu querer
você apodrecia do meu sofrer

Nunca mais insegura
condenada à raiz da tortura
do amor que não mais se discute
até que a morte de novo nos junte


               Ela acredita na morte. Porque a morte a faz como está agora, compreende a nova situação do marido, mas quer continuar acompanhando-o, não pode fazer outra coisa além disso, continua a viver para isso. Nada a importa mais, a existência dela agora é assegurada pelo que o marido lhe deixou, nem quando morto ele a deixou insegura, ele ainda segura a tua vida com o seguro de vida que lhe deixou, isso a deixa mais perto dele e suficientemente confiante pra deixá-lo ir, e mesmo assim continuar cúmplice dele... Ele não a deixou, e por isso ela pode lhe deixar ir. Ela existe agora pelo pedido deixado por ele em forma de vida... Ele é o único ser mesmo morto, que a faria viver, agora mais vivo do que todos os outros mortos e vivos! Ele sonhava com coisas poucas na vida e agora ela vai realizar muita coisa por ele. Passa a ser não só a mulher da vida dele, como também de sua morte. Até que a morte os una, não os separe.






Para o Bruno,


Vermestre-cuco

Estou aqui, presente
seja morto ou vivo
cutuco qualquer gente
e de Terra não me privo

Porque cavuco o mundo
caminho dentro da matéria
e as amoleço, no fundo
esburaco o vazio da miséria

Esse lugar pobre de tempo
que nunca é
é o chegar ou o que foi
terreno de vento

O lamento pra consolo
vem dado pela gentil morte
e o homem é pedaço do bolo
que aceitamos todo dia, aos lotes

Em potes lacrados
vai-se junto a terra e o ar
forço a vida, preencho o lugar
respira-se morte, estado

Nos terrestres assustados
vou pelas narinas carentes
busco cheiro da vida com dentes
onde adentro mais tragado

Sou bactéria a roer o ar
que vos faz viver
sobre o me matar
sufoca-me respirando prazer

Mas alimento-me de morte
não morro, eis minha sorte
mato vida, a morte, sobre vivo
e pelas duas que me ativo


                 Ele não acredita na morte. Não há como morrer, a vida já está morta. A morte não é somente mais uma parte da vida. A morte já está viva na vida, e a vida, morta. Viva a morte! Morto ou vivo, vivo ou morto, tanto faz. É tudo tão só terra, só matéria e chão que se pode fingir de morto a qualquer momento da vida que ninguém vai notar, a não ser quem ainda acreditar em superstições... A única diferença existente pra diferenciar um morto de um vivo é o cheiro. O resto é indiferença, tudo igual. Ele é a vida durante a morte e por isso se aproxima muito dela. Alimenta-se dela, como as bactérias. Ele é a expressão do tempo presente da morte: quem morre não tem mais tempo, pois o tempo da morte nunca é o hoje, é o chegar ou o que já foi, é um acontecimento que não permanece a não ser através das bactérias que os engolem numa junção de cadáveres ruídos. Agora estão pelos ares e respiramos morte por meio delas no presente. Ele ocupa todo o espaço, como as bactérias no ar e é a imunidade em pessoa: além de morte e vida, por sobreviver das duas, cura vidas e lambe mortes.



Para Tamiris,


Programado

Armários esgotam
sensações dobradas
penduradas em cabides
as gavetas manobram
pra não amarrotar palpites

Opiniões bem passadas
ao vapor do ferro
assim veste seu terno
sai a porta, beija a amada

Vai à chegada
volta ao sair
e não sai do vir
enfim, no nada

‘Vivo, vou
envolto de vultos
não me estou
sumi no tumulto’

Rapitado pelo rápido
só a velhice o seqüestra
o novo é sempre inválido
por um vazio que stressa

Feriado, relaxa o letrado
joga cruzada nas palavras
monta o chinelo enamorado
e demite todas travas

Compra enlatados de amor
pra festejar o cansaço
de tudo entregue à toa
e tabelado em pedaços
depois lacrados de humor

Fim de um dia
e o sonho ainda lá
enquanto sempre dormia
sonhava em acordar
e o transe vago insistia


         

             















           
              
                   Ele vive na morte. Em São Paulo, a cada dia de sua vida, morre. Morre ao dormir, ao acordar, ao ler as notícias violentas, ao trabalhar pra nada, ao cumprimentar o nada. Transita pelo mundo preso pelo nada que guarda em sua bolsa pra não perder, e pede o mesmo nada sempre, e sente falta de nada quando nada tem. Será que ele não quer nada? Vazio pesado que o faz sequer saber que existe outra coisa a não ser o automatismo no sonhar: " bom dia, em que posso ajudar? Pois não, posso ajudar? Posso? Em que? Deixa, por favor", frases de desespero dos sentimentos enjaulados no dia-a-dia que "queima e corrói sua vida, não alcança seus desejos" e não chega nem perto do coração pois há grades e portas de metrô a levar seus sonhos já atrasados para mais um dia de trabalho, e ele só ouve violinos chorando por trás do barulhos dos trilhos. É um violino sem cordas e as pessoas não o ouvem, muito barulho no trânsito e silêncio nas pessoas. Ele pode ler as notícias diárias ou gritar que precisa viajar e namorar que são as mesmas coisas. Coisificaram-no. És um esqueleto banal e duro, com carne mole em volta... Mas deseja a morte das banalidades, violar a linha, violinar, ver lindos das. Está entre a vida e a morte, não porque se acidentou, mas porque é um acidente, coitado: não vive nem morre. Desvive, desmorre, desmorona e desvia o deslize. Ele não existe mais não porque morreu, mas porque viveu a pôr o "des" na frente de tudo, se destruindo. Talvez a morte o faça diferente, o faça mais vivo ou outra coisa que não seja essa vida. Ele a deseja e a repudia. É a morte durante a vida e a vida durante a morte, um fantasma. Mas talves nunca o tenham ouvido e visto, se importado tanto com ele quanto agora, invisível mas citado como só mais um morto no mundo dos mortais desligados.



É nada não

Retrai a atração
Mas não distrai
os sentidos, vão!

E tão idos
ao transe desse ápce,
deduz-se o lance:
o nada

Nada eis o dom!
Da ilusão se faz camarada
para achar o tom
do vão
do nada

Da resistência ao frágil

Dezenada, zerada.
Oxigênio humilha a inspiração
e corro, só corro.

Ora o coração vai primeiro
acelerando as idéias,
ora a direção cerebral
chuta a perna do coração.

Sutil, sutil susto
escondido e íntimo,
que nem o indivíduo vê,
só sente os espasmos internos
mas não descobre porquê.

Cristianismo

Extinguem o tempo
pra criar o esquecimento
talvez pra agradar
o que se pode lembrar

Mas fica a sensação
de haver coisas guardadas
distantes da razão
nem pela mesma recordada

Coisas sem causa
mas que pela ocasião
sentimentos repousam
na memória do coração

O choro

Ao curvar a cabeça de lado
assim tu me olhas
No teu franzir de sombrancelha
É onde eu moro

Faço-te meu telhado
E desaba-me auroras
Flutuo até suas telhas
E de luz, também jorro

Ao fazer-se de morado
Assim tu me mostras
E se não me desaconselhas
És tu, o meu forro

Curvo-te inocentado
E culpe minhas escolhas
Desculpei em tuas orelhas
O teu rosto

Descrição discreta

Des apareço
Des faço -me
nas letras

disfarço-me de tinta

com a intenção

de me desf a  z   e    r


transparecer pela folha


em   b  r  a  n  c  a


pra você escrever

Outro um




             Quando toco o pé no chão e empurro cimentos, chego num lugar chamado "Tudo acaba em pizza", com a intenção medonha de ser inconveniente mesmo, pergunto ao dono se aquilo tudo tinha hora pra acabar.
              _ Sim, uma hora fecha.
              Uma da manhã, achei cedo. Tudo bem que eu não ficaria até esse horário, mas...
              _ Outra hora eu passo _ respondi.
              Uma outra uma. Em outro bar fui parar. Aqui parada, meus pensamentos ainda andam até... Aterrorizaram-se quando a música tocada por três jovens na minha frente me deu nenhum motivo pra lembrar das tantas ouvidas por nós a não ser o de querer ficar com as mesmas na cabeça, a todo tempo. A música anda sobre a minha cabeça à procura da lembrança vivida, assim como eu corro do mundo pra esquecer que está n'algum lugar desse todo como única coisa que nos une.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ex CESSO



ESTADO onde ninguém
                             é 
tanto                   TEMpo
SER

Necessidade acidental

                  Sol nas ruínas de uma obra abandonada pela construtora. O amontoado de pedras ao redor formava uma ciranda estridente de silêncio gritante. Há muito tempo já era domingo, o barro duro mantinha correspondências com o laranja da tarde.
                  Não ventava. Do alto daquele morro, muitos terrenos baldios empoeirados por um mato verde, mas curto, por isso sem vingar e seco. Às vezes me dava a impressão de que se o tocasse com a mão num movimento de esparramá-lo como quem abana um adeus para o chão, ele se espalharia todo, ralo. Não parecia aparado, porque devia haver mais de datas que ninguém sequer escorregava por aquele caminho, nem chuva. Mas o lugar estava firme, mesmo que parado. Aqui se pisa com força pra manter o cuidado de terra enxovalhada. Desbotada, sem minhas botas agora, sinto melhor a temperatura suada da grama. Mesmo que uma parte das costas não perceba sua dureza devido à lordose, deito. Com o corpo esticado e rente ao plano baixo, sente-se menos o peso desse lugar carregado de levezas destoantes. Aprofundo-me natureza adentro.
               O silêncio de imagens intactas e contingentes fecha meus olhos, a ausência de diferença nas vibrações sonoras preenche gritantemente meus ouvidos. O paradoxo do ar enche meus pulmões, confundindo minha respiração na aparência de estar parada ou sendo forçada à vida, e meu tato está enterrado. Nenhum sentido.
                Eis que um tremor vem de cima. Como se uma grande pegada chegasse. Daqui do fundo isto foi causa de um terremoto sobre mim. Novamente a pisada. Pela cordialidade ao encurvar sua força para não rachar a superfície plana, como se me cumprimentasse simpaticamente, nessa formalidade arredondada feito arco, talvez ferradura: um cavalo? Um cavalo me flechou... Digo, me sacudiu, me acordou. Opa, não: balançou. Ou melhor, animou; ressuscitou; tremeu, não sei. Mas é preciso uma definição...
                O barulho parou. Mal percebi a calmaria do estrondo enquanto discutíamos sobre o seu conceito. Ainda ali? Não há como saber, muita terra entre esse cavalo inalcançável e eu. Mal sei quem você é, a sua cor, pêlos, músculos, tórax, dentes perfeitos, olhar de horizonte selvagem e puxados, feito um índio? E se não fores um cavalo? Se me enganaste com este cuidado manso ao chegar assim, gentil e com tamanha elegância no trote? Possivelmente, fora apenas um trote. Não te conheci, não te conhecerei. Aliás, tu já galopaste, pelo jeito... Já saíra campo a fora. Não me notou. Mas o registro aqui, gostaria de segurar tuas patas, por um momento pelo menos, mesmo que isso fosse rastejante. De repente, pode ser que ainda esteja ai, deixa-me sentir o teu coice ou outro sinal de presença? _ o que penetra neste silêncio melancólico entre o fim da pergunta infinita pela falta causal a iniciar uma resposta. O ponto de interrogação tem o formato da ferradura de cavalo, aberta. Várias perguntas seguidas e eu o liberaria do que prende o seu seguir. Tanta realidade nos separa, esse chão entre nós. Você poderia afundar, em vez de caminhar sobre mim. Não há como prová-lo nem conhecê-lo de outra maneira senão esta. Então vá, pode ir, siga teu rumo. Nem que você me tocasse, não tenho mais sentido para tal experiência.
                Ou eu poderia adivinhá-lo como lobo? Sim, um lobo enigmático que vem em busca de comida e depois some, obscuro e secreto, quase um lobisomem. Neste caso, então cultiva-me da terra: semeie, adube com tuas fezes que eu renasço encontrando passagem até ai, para o seu íntimo interior, inclusive, já que me devorarias como fera. Mas lobo não, se fosse já teria cavucado buracos e me descoberto, vasculhado tudo por aqui. Entretanto não fuçaste a presa, no máximo carimbou histórias ao mostrar as digitais com as patas no solo. Somente um contador lendário disfarçado de cavalobo, por isso nem de todo cavalo, nem lobo.
Muito tempo de silêncio empírico, só a mente querendo ultrapassar a matéria para descobrir algo lá em cima. Uma transmissão telepática, um grito metafísico, virtual, nada. Somente a marca pregada na memória e sentida no momento da reviravolta. Nesse lugar velho onde encontro essa luta para poder amá-lo e ser reconhecida por você, descubro o surgimento desse sentido de busca que renova meu ser. Então, reformo o meu corpo: vendi e comprei umas partes, criei ordens para governar melhor as minhas roupas, concertei meus cinco sentidos com ships, minhas células agora têm a potência da nanotecnologia e programei o meu cérebro virtualmente para eu não esquecer de acreditar na missão removedora da terra que nos separa. Nas unhas, pus bombas atômicas, assim provoco efeito reativo para você pelo menos saber que estive aqui por baixo o tempo todo, caso as minhas perturbações emocionais estiverem muito conflitantes e conturbarem demais toda a inquietação sentida desde que seu terror aconteceu.
                Mas cheia de esperar, no desespero, acabo te alcançando pelas unhas minadas. Essas garras desenvolvidas cuidadosamente, agora precisam servir para alguma coisa, já que não mais tenho somente aquela especulação desvairada e pensante para me proteger. Entre essas ruínas ancestrais de metal, surge esse bicho de minha cabeça. Com ganchos cravados a arranhar a terra, cavando pra cima e aterrorizando-me mais. Assim continuo a pensar ainda, mas a diferença é que agora consigo me agarrar nas pedras. Aliás, como inferi ser um bicho do outro lado? Só porque algo pesa sobre mim? Isso não quer dizer que sejam patas, necessariamente. Mas então, o quê? Hein? Talvez... Ou uma força jorrada, sobrenatural. Um homem, com massa relevante pra repercutir na minha posição de inferioridade, tão superior quanto as próprias camadas hierárquicas e geológicas. De repente, uma pedra, um meteorito.
Uma coisa está diagnosticada: minhas idéias se elevaram muito desde que vim para este plano mergulhado, assim como os sentidos se artificializaram. Como se sucedesse a inversão para o oposto, um avesso. Pois sempre inferi que profundezas e abismos fossem o lugar das sensações e renúncias, não da intelecção. A essa altura, o que o alto reserva senão instintos, então?
               Logo, o amor será o próximo sentido que enviarei aos altares, pela explosão apocalíptica atirada de minhas unhas. Pois já supus tanto para resolver essa curiosidade, que até a palavra curiosidade é algo que eu jamais recomendaria pra alguém que não quisesse perder de vista alguma possibilidade. O amor supre e abstrai a curiosidade, por ser constituído de todas as coisas possíveis. Já foram cavalo, lobo, o divino, toda a flora e fauna, ciência e História, mercadorias e até a liberdade solta pelos ares, e nada. Até agora, jogo tudo pro alto a captá-lo enquanto me prendo aqui, mas as palavras no ar pesam e voltam. O corpo está em decomposição, o sono foi demasiado, não há como levantar ou acordar, agora é objeto, desigual ao que não seja o próprio, em si mesmo. Nenhum movimento além da imaginação: sonho e pensamento, represensação. Aqui o amor ainda pode estar leviano, espero. Não possui gravidades. Mas como a esperança rouba muito de sua leveza, vou ficar por aqui, sem esperar que a curiosidade pese mais do que ele.



curadoria

OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA
CURIOSIDADE,
CURE A CURIOSA

CURIOSIDADE,
CURE A CURIOSA
OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA

OCIOSIDADE,
CURE A OCIOSA
CURADORIA

Adrinalina

Drama de meu sumiço
existo com tua essência
mas desapareces se estou
tu não é minha presença

A abstinência se esgotou
mas continuo em tua linha
persigo um desaparecido
no seu rastro de adrenalina

Proteína pra ser querido
quanto mais eu a suspiro
mais tua ausência cresce
e toca o que transpiro

Miro o suor que prevalece
na epiderme ressuscita
encontra a energia perdida
na pista dos seus parasitas

Ditas-me tuas idas
não adianta ires longe
nossas células a tecer
continuam se se esconde

Onde aparecer
pra enfim te infiltrar
alcançar teus rins
e vires me abraçar?

Linear sem fim
sua veia me trançou
acertos traçados
perdida a achá-lo vou

sábado, 10 de outubro de 2009

Um aparte

à parte primeiro
depois arte
inteiro

Leviatã do amor

artista da lua
sejas dócil
não se destrua
amando o próximo

não te roubo
só peço teu uivar
de homem lobo
não me privar

se feito de guerra
já és de alguém
deixe teu lado Terra
ser d'outra também

Leve a Tan Hill
o curto circuito
desse fogo hostil
que criamos juntos

exploda-se os pares
amores pra luta
voem pelos ares
e terás nova gruta

mate enfim a sede
de pescar, cavalo
de meu peixe não te phalo,
colha a luz pela rede

sábado, 19 de setembro de 2009

A-presente-ação

Absurda -----------------------------| Cometa!

Discutível ser humana -------------| Cometo tudo:
mente inquieta e alma aberta ----| arte, amor e Deus
Gororoba in/digesta ---------------| o fim do mundo
de urbana mundana ----------------| corro porque depois, passo
com bahiana leviana ---------------| --------------------------------------------------------------------------------| Depois covarde são irônicos
Mas banhada de mundos -----------| borbulhantes que não amam
Manto de palavras ------------------| nem se matam
congelam meus prantos ------------| Eis-me aqui, Cínico
por camadas
de sol risos

---------------------------- surre a lista -----------------------------

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Posto

Do porquê postar num blog:


Depois de muito pensar e pouco decidir é que resolvi parar e, pôr coisas por aqui, por várias coisas:

_ o tempo que dedicava minhas dúvidas sobre impôr ou não pensamentos a mim e aos outros, já me era bastante razoável para registrá-los, mesmo que não definidamente, como conclui que nunca seria graças à divina inconstância humana!

_ Prontidão, preparação ou fórmula e estilos alcançados e rotuladores passaram a ser meus inimigos e de muitos dos meus colegas escritores. Não há mais referência no universo de linguagem e na vasta rede de possibilidades hoje, agora. Não mais depois, acabamentos...

_ Acabamentos não têm mais cabimento, perdeu o valor no mundo instantâneo, sem finitudes aparentes e com muitas "eternizações" virtuais...

_ Virtude virou virtual, o modelo clássico de clássicos desclassificou-se nessa, não mais somente uma biografia composta de coerências com as obras e características originais! Ah, por favor, ora ora, hoje se joga tudo fora, sim! Vamos embora, só o agora continua sendo hora, não há mais realismos depois desse exagero na percepção do instante, ele nos foi tão exacerbado que o determinismo colocado nas lógicas de escrita evaporou e chora-nos pela sua demora em cair fora... Saiu da linha, como tudo.

_ Pela falta de linearidades, critérios. Pela liberdade que virou nossa verdade, a mais nova sagrada e solicitada, substituída, por vezes, por uma vontade em alcançá-la. Claro que assim como Deus, Ciência, Razão, Crítica, História, Estética e Arte, logo logo também a descartaremos, e novamente nomearemos outra palavra para dar sentido à vida.


_ A falta de porquê e sentido, já é o maior sentido da vida ou, da escrita...


_ A-presento/En-saio, mas tem-to: Posto. Entrem, passem, olhem, abasteçam ou não. Mas não pare, poste! E boa viagem...

"... Escancarado tanto
que não tem mais porquê
engolir idéias ou esconder
qualquer tipo de pranto
a vergonha quer emagrecer... "

Ser ânsia

A segurança do ser
é aquela que segura
a ânsia de seguir

Toda segurança
é cega na ânsia
de ser segura

Limite

Lima o ter
e teima
obedecer
um tema

Mate a meta
molde a morte
tema o medo
de amolecer

Lata e letre
mote o lema
de amortecer
o lote

Desmereça
intimide o letal
milite a tela
lamentável

Inicie, provável
enlouqueça
mate o start
história d’arte

Contradução



A dívida mata a dúvida
contrata-se o contra
em favor da conta

Pagar à la carte
contratar um teto
para se camuflar
nas vias do acerto

Superfície calma
contrastante à tribo
do trato consolidado
consome-se ao trote

À tristeza contida
consumada na clareza
na trivialidade
de uma vida fugida

Curtida até a sobeja
contam-se todos
sobre quaisquer mesa
inumeram-se os lodos

Conte uma história
Cante um número
Coma o dinheiro
Corte o paradeiro

Desencoste as costas
cote a desculpa
que te cota:
desconte

Carme in mira, anda!

Não entre

Entre um e outro não
entretem a nós
alguma ligação

Ação não vem
os nós em vão
nada intervém

Entram nãos
nós sentamos
saem mãos

Não entoado
ei-lo à sós
resignou a nós

Não entre não
ecoa em clássicos
emissores de chão

Em trevas
não entre, não
mesmo enquanto houver
o um entre nós

Infer-homem

Des-cobri-me
quem tenho
ao não ter nimguém
da onde eu venho

Veio o feto
e este encolhido
não aberto
mostrou o gemido

Chora, mas grita
encolhe o peito
e também se agita
mas vive do leito

És fraco ser
quanto mais vive
pra se enrijecer
por qualquer deslize

Ativa uma falta
carente de colo
diz que luz te é alta
pra ter mais consolo

Proustituta

Obrigada
Envolvi-me
por você
com o nada

Ir contra
para ir
a favor
do amor

Obrigada
a não te querer
e não ser paga

por me vender
ao não

Ode de Crecy,
Dê-me a mão
demi-monde
Demi Moore?

Qualquer ocasião
é mais comum:
comunistas em vão
você, só mais um

Mas não, vida
sem pudor ao pudor
e love-me e leve-me
a Proust, amor



Desenho político do amor

Envolta em vozes
volúveis e inviáveis
enfraqueci o vulto
e me enviei a ver

O que era ter a vez
de se envolver
em vias do querer
amar a insensatez

Pra se envolver
captar as voltas
em vez do lugar
é virar as costas

No que vem a estar
e não ver no que dá
escutando o silêncio
controlar o olhar

Envolver é cuidar
olhar para o outro
vizando se cegar
no que venha do bruto

Desenvolver é jogar
ouvir a si mesmo
comprar o brincar
de ser um desejo

Liteleitura

Mãe das letras
pus para assar
o seu leito
cansei de mamar

No seu peito
me amei ler-te
amoletos à lei
de leite, li

ter a dura
dar-lhetrazer
lamber o gorfo
li-te, leitura!

Lícito

Para tu me licitar
é necessário uma
solícita lista e só
e, Cia.

Acompanhada de:
Milícias
Messias
e Malícias

Se tu me lista
És ativo militante
E por me listar
Um militar

Mas só lista e cita
para pelo menos
mais companheiros
me ex-citar?

Suicídio

Dexistência
no entender materno
nega o gênio do últero
e deixa o umbigo aberto

Não a si
murcha a mãe
peito inchado
contra o generado

Famigerada
família da vida
minada de idas
encarceiradas

Desvinculo
além de futuro
matar o passado
e partir do parto

mim.exe


Po favor,
me vê mais
um ceder

Sede de afectos
preciso de você
como espelho
para me espalhar

Na busca de praticar
o verbo eu reconhecido
nessa mímese de sentido
encontro-me em ti

Objeto é o instinto
que não reflete
o amor de si
em nome do parecido

Dissimula o escondido
institui um ego
que vem do espontâneo
objetivo e direto

Ama um eu
que não passa de verbo
manifesto no amor
que da afectividade é o feto

sobre a vida

Sobre a vivência:
acima da vida.
afirmação pelo não:
abaixo à vida!

Sub-vida não,
sobrevivência:
sobressalto de si
para fora de si

Fora de mim
Uma vida que fora
De fora pra dentro
Voltou pra fora

acima do sem saída
deu volta por cima
pela entrada
sobre-saiu-se

amorte

Dois parecidos
falhos filhos
desiludidos
rasgos na folha

Da troca de gritos
contra-vocálicos
ilude a morte ou vida
dita, contraria ditos

Como esta lida
lida com o estado
és lado só de ida
a volta é passado

Presente é forca
sem cedilha
pendura-a na boca
futurando a trilha

persiste
nos desalentos
até agora existe
mas não vive
nem despenca
pendurada no tempo

Amor percorre a morte
assim como a vida
amorte paga a sorte
de reviver a dívida
e sobre-viver em dobro
por não ser nem não
algo que possa ter troco

Proposa em descente

Enquanto papel, papeio
por que pôr querer?
Não quero, faço.
Disponha o ponto

E pronto! Ponto...
Quem não gosta de ser?
Ganhar pontos
ser delineado

Traçado e massageado
ou esgotado
de estar
estar clichelizado

Obras, oras!
Mãos à construção
Viva, sim, a revolução
por que não?

Brinde, prazer!
Estamos a s.ó.s, quer fazer?

Sentido

As letras são bucetas
pretas e apertadas
quanto mais se apreende
mais se enxerga nada

Tudo o que querem
é serem devoradas
por narizes metidos
que as tornam gozadas

Assim o eco vira eureca
dependendo da 'posição'
o prazer é a mesma boneca
que se controla com a mão

Macha-fêmeo (Tetralogia)

I
Boneca de Casa

Ela vai se perder
eles já estão lá do outro lado
o quanto mais afastados de você

Largaram a tua carga de silicone, não agüentaram
e até precioso e ajeitado como era teu nome, foi desmontado
Desmanchou-se o lindo molde maquiado

Ventou no seu ar, toda penteado
voa alienada pelo sopro deles
o chão entrelaça-os, masturbados
por estruparem o espelho, apaixonados

Reservados, por eles és discriminada
Desatada à vida, ex-tragada
Jamais dará novamente a luz
Eterna mãe da má sorte
Iluminada à morte, apagada?

Quem irás te acolher?
Eles já se colhem pelo cu
escancarando o próprio buraco
Tu és a queda, o furo de reportagem
Abismo entre as margens
donde nascem, passam e a pisoteiam
as outras entregas de luz


II
Boneca do Circo

Acordada
De acordo com meu quarto
um circo de sonhos
e sonambulismo

Da menina, macacada
sumindo dentro do macacão
é que será apresentada,
sras. e srs., riam de montão:

Automatismo
Não me estico
A minha cara tem um dom
de palhaça, inteira pintada

E o espetáculo começa
abrem-se as cortinas do quarto
a luz do sol se manifesta
a bela aparece no dito teatro
eis a piada da peça!

Primeiro a peruca lisa
depois ela pinta a testa
pó e batom é o que precisa
pra ficar pronta a Monalisa

Do palco sobe no circo
mostra saber contar os números:
Cara de pau da perna
de salto-alto mortal

Acordada
De acordo com
meu quarto um circo
de sonhos e sonambulismo

Lá continua ela e todos riem
da manga tira um pijama
o truque da mágica a leva pra cama
Assim recomeça, repetidas cortinas:
peças numerosas de testas piadistas

Automatismo
Não me estico
A minha perna tem um dom
De palhaça, inteira pintada


III
Circuito das Bonecas

Não sairão da feira
para animar a festa
para odiar o que resta
para repor a fruteira

Nem plantarão bananeira
e colherão os seus gritos
e anunciarão esse infinito
e da história, pipoqueiras

Não serão só faladeiras
mas escandalizarão o circo
mas assistirão todo o mico
mas aos palhaços, brincadeira


IV
A Renascença sexual

A cabeça dos homens vendida
desvirgina a união que no grito vira uno:
todos únicos desgraçados

Hora de dez aparecerem
com elas mandamentos
fio delicado da vida

cabelos cálice com Ali se
aqui está você
ex-piada prendada
espada você fada

Vara esse condão
fadado o falsto é fauso
o estopim do seu rojão
é inverter o holocausto

Ele pactua o pensar sobre nós
condicionado a um trazeiro
ela já apronta seu travesseiro
dorme, ronca, mas ouve a voz

que o atormenta ao cantar
porque niná-lo tenta
o bicho que é só rebeldia
vem do colo que orienta.

Marcas

Depois de você
consolei-me
com elas

Sai pelo mar
fui pelas sereias
e torno ao cais

Marcas cenas
em mim duráveis
frágeis pólos

entre os dois
o plural no depois
faz-me a você

À mar, perder
errar no registro
mas tu conjugar
imensas vezes

até acertar
repetir no marco
viajar o seu barco
durante meses

Inteiros

Desinteressados
mal há o que dizer
desses inteiros, dados

Mas é só
sem outro quê
quando não há
o que fazer

Perambulam-se, partem
corações de mosaicos
e assim, curtem...

Instintos desvalorizados?
Esses não têm baliza
não são ajeitados
para o que se enraiza

Como se interessar
naquilo que já foi
inteiramente
plenitude nesses dois?

Juntos e instantâneos
longe do cordial
próximos, no sensorial
inquestionados do errôneo

Sem preceitos
o mundo é me aceito
tu não serias o diferencial
também é só mais um primordial

Ninguém

Materializo meu significado
para além do conceito negativo:
minha pessoa não mais terceirizo
e ainda ajudo na auto-insatisfação
de tão à toa usado ganho forma:
da solidão viro autor contratado

Agora negocio com poetas
seus delírios terapêuticos
e até suas curas existenciais
dos editores sou a moeda
dos egoístas o narcótico
transformo amantes em ideais

E a raiva pelo motor, automático?
O joelho não funciona, quebra fácil
O relógio conversa muito rápido
nada me abandona
é tudo paz muda, eterna convivência

Rodeado de solitários
nunca estou isolado
no mundo dos abandonados
mas ninguém me procura
sou sempre conseqüência

Sou a aparência
sou a pessoa em sua ausência
um fato social inerente
a uma sociedade de doentes
carentes de qualquer companhia

Mas acorda, parede!
Não fique triste, vela
O seu olhar não diz, óculos
Será que alguém me vê?
O corpo da montanha é feio
e esse chão tão sem recheio
O sofá está atrás e não corre

Se eu não mais existir
ser destruído do virtual
não ser mais só, como os homens
deixá-los enfim sós, uma concretude
arrancando a desculpa da falta do ter
maquiladora do bem
e como as outras velhas crenças também morrer?
Suicidar-me para os corresponder

Barril de aposentos

Uma casa de níquel
tem as partes externas verdes
e se ninguém a alugar
ela mexerá suas paredes

Não admite abandono
Não quer continuar parada
Arruma-se e vai à balada
Desalmada, mora sem dono

Assusta qualquer um
pela jovem velhice
Sempre abre um vão
às segregas meninices

Laranja: Arranjo de ares ou saúde efêmera

Raio de poeira do sol
faz engolir com frieza
e vomitar em forma de gripe
a seca.

A Terra, com dó,
dá de sua natureza
à dependência da bronquite
a vitamina Certa

E quando a fruta invade o pulmão
voa um leão pela boca
resta deixar o bagaço
ir com o rumo da história


Vida que ficou madura
expõe a ruga áspera e amarga
essa feia esconde fogo e doçura
Redonda, gorda e farta

Urina mas hidrata aquela mão
cúmplice que ainda a choca
Também não sangra nem pasma,
só cora a pele da memória

Gera o paradoxo da cor cética:
coração laranja no espelho
desejando toda mistura estética,
já não amarela nem vermelho



História pra dormir

Chocolate é bom, presente,
porque não entra pra história
o historiador se masturba
e assim não some
a história é de quem recheia
o bombom que come
que consome com som e
continua acordado

Pasta, que tá magro
Pasta, que não dorme
Pasta, que fica guardado

O boi continua a embalar a bosta
Como se não pastasse o basta
posto que vive uma aposta

Leitura Esbaforida

Sob as letras, elas
por cima, a impressão
envolta às janelas
a nebular a dimensão

Embaçada superfície
que diverte
Sedutora meiguice
que se submete

Escrever o sentido
pra provar da imagem
é seduzir o contido
e evaporar as suas margens

A ginga do vento




Lépido ele namora
o mel e seus verdes,
a bruma de uvas
e a borboleta afora

Se desbravar as flores,
voar pra sabores,
enfrentar imensidões
causa-lhe potência,

A degeneração sucede
a convivência do poder
Eloqüência do permitir-se
até um não mais querer

Então queres, quereres
também o não querer
E que cada sedução
desfrute esse prazer

Lança

Falho, maldita vilã
tento te acertar
vontade vã

Um simples assentir
e estarei contigo
sem mais resistir
a esse olhar amigo

Vem que eu te quero
não só por querer,
mas porque espero
a sua vontade fazer

Mas o orgulho bate
de novo na heróica tarde
em que não se avança
porque meu coração não te alcança

Sim logismo

Dinheiro pode tudo
Tudo é dinheiro
Tudo pode ser
Pode então, ser tudo
pra poder dinheiro ter?

Vim do mesmo
Sou o que é você
Você é de dinheiro?

Deus é, amor
É tudo o que existe
Temos tudo
O que existe?

Crê no amor
que dá dinheiro
Rei do poder,
manda no mundo!

Chorus

Os choros escrevem
em vez de
chorar

As escritas choram
em vez de
escrever

Os pais são "a paz do País"!

Pais são platônicos
amam e filosofam
eternos atônitos
daquilo que brotam

Do ser cuidam
dão a sua luz
em público batizam
desfazem todo juz

Padecem na paidéia
de idealizar um futuro
de servir-nos idéias
e nos manter imaturos

Mas somos público
não adianta anunciar
publicar-se único
republicamos, a replicar

Travessia

A quietude entre a noite e o dia
angustia o silêncio tão propenso
a dizer o que outros assuntos calam

Mudo, não mudo
decifrar essa vírgula me abala
entender qual poesia nos intermedia
e quando a tarde se revela

Velemos, pois
o infinito é profundo
e n'algum finito segundo
a arte cruza os dois

No instante tocado
O incidir será o existir
do eclipse esperado